Notas iniciais
Tema quatro: a primeira vez que nos beijamos

A Festa das Estações foi uma das melhores coisas que eu já participei em toda a minha vida. Não porque fosse a primeira em que eu participava, já que esse evento anual ocorria há muito mais tempo, mas sim porque eu estava com Felícia, Amélia e Elphaba.

A decoração estava linda, segundo a descrição de Amélia e segundo as memórias que eu tinha das primeiras festas, de antes de perder a visão. Cantamos e dançamos as canções tradicionais da Festa e comemos os aperitivos feitos por nós. As tortas estavam deliciosas, no fim das contas. Depois, nos reunimos em volta de uma fogueira e contamos e ouvimos histórias de todas as ilhas sensíveis que eram conhecidas. A de Ihé e Uwa era a minha favorita.

A noite já estava bem avançada quando eu e Amélia nos despedimos dos outros. Elphaba andava ao meu lado, o focinho em minha mão, e carregava uma Felícia adormecida em suas costas, já que nem eu nem Ames tivemos coragem de acordá-la. Nós andamos até um dos penhascos, onde montamos no dragão branco e voamos para minha casa.

— Você não quer que eu vá com você? — Perguntei pela primeira vez, percebendo que Amélia iria sozinha para Cire. Ela desmontou de Elphaba e pegou Felícia no colo para leva-la para dentro da minha casa.

— Eu... meio que preciso fazer isso sozinha, sabe? — Ela me respondeu com outra pergunta, enquanto subíamos a escada de madeira até os quartos. — Onde ela vai ficar? — Perguntou. Eu apontei para meu quarto e nós entramos nele.

— Tem certeza disso? Eu posso ir com você se quiser...

— Rania, eu preciso. De verdade... — ela se abaixou e beijou a bochecha de Felícia. Nós duas então descemos para a varanda e eu segurei suas mãos nas minhas.

— Tenho algo pra você, então. — Sorri e peguei da minha bolsa um pergaminho amarelado. — Quero que leia apenas quando estiver viajando. E me responda quando voltar.

— Obrigada — Ela sorriu e colocou um cacho do meu cabelo para trás da minha orelha e nós duas sorrimos ao mesmo tempo. — Por tudo.

— Não me agradeça. Eu que deveria agradecer, Meli. Por tudo. — Eu beijei sua bochecha e depois me abaixei para sussurrar no ouvido de Elphaba. — Cuide dela, menina. — Ela ronronou e lambeu meu rosto como um cachorro faria. Eu ri e lhe fiz mais um carinho.

— Tome conta de minha irmã, por favor. — Amélia pediu ao me abraçar. Eu revirei os olhos.

— Claro. — Retribui o abraço. — Não esqueça de ler minha carta. E faça uma boa viagem... e... não se preocupe se o que encontrar lá te machucar. Eu e Felícia estaremos aqui assim que você voltar, e vamos te curar.

— Eu sei. — Ela beijou minha testa e montou em Elphaba. — Nos vemos em alguns dias.

— Estarei aguardando ansiosa. — Fui sincera. Amélia se despediu mais uma vez e, com um impulso, cavaleira e dragão foram atrás de descobrir o que acontecera com sua família.

*

Minha querida Amélia.

Espero que esteja fazendo um voo tranquilo e sem se encontrar com algum Exilado ou Exterminador pelo caminho...

Eu sei que você está assustada e ansiosa com o fato de ir descobrir o que aconteceu com seus pais e com todos os outros da sua ilha, mas quero que saiba que esses foram os melhores dias da minha vida. Participar com você da preparação da Festa das Estações foi algo que eu nunca poderia pagar para ter, e você proporcionou isso. Você me proporciona felicidade só de estar ao meu lado.

Ontem, quando Alen nos interrompeu, eu jurava que ia explodir de raiva. Porque, por um momento, eu imaginei que nós iriamos nos beijar. Mas acho que foi minha imaginação. Quero dizer... você provavelmente apenas ia me abraçar ou algo assim.

Não sabe o quanto estou assustada por abrir meu coração tanto assim, mas aqui vai: eu estou perdidamente apaixonada por você, e eu realmente queria que ontem você tivesse me beijado. Eu sonhei com isso várias noites.

Talvez você esteja me odiando agora por isso. Talvez eu tenha estragado nossa amizade apenas por expor meus sentimentos, mas eu precisava fazer isso antes que me arrependesse.

Espero que não esteja cogitando voltar para cá para me responder. Primeiro, vá até Cire. Ajude seu povo e reencontre sua família. Depois, quando estiver pronta para voltar, eu estarei aqui te esperando.

Você foi minha escolha perfeita, Ames

Espero que encontre o que procura ai.

Rania

*

Amélia levou duas semanas para voltar, o que me deu tempo suficiente de colocar meus pensamentos e sentimentos em ordem. Enquanto ela não voltava, eu me convenci mais ainda de que tinha feito a coisa certa. Confessar aquilo que eu disse na carta, ainda que fosse apenas por meras palavras escritas na caligrafia da minha mãe, era como se tivesse tirado um peso de cima de mim. Eu havia falado a verdade e aquilo era o que importava.

Durante as duas semanas que Ames ficou longe, eu tentei fazer outra coisa que me distraísse de imaginar se ela estaria bem ou com quem ela estaria. Então eu voltei a frequentar os estábulos que não frequentava desde minha queda; fui recebida lá com muita alegria pela minha antiga professora de hipismo e prometi que, assim que estivesse pronta, voltaria a montar e talvez até entrasse nas competições de salto ou corrida.

— Amélia voltou! — Eu ouvi Ivan gritar acima do barulho do bater de asas de seu dragão. Era noite e eu estava sentada no quintal da minha casa. Ivan me prometera que viria me buscar assim que ela voltasse, e cumprira sua palavra. — Sobe aqui. — Ele me estendeu a mão. Eu a peguei e ele me içou para cima das costas de Onyx.

Nós subimos para os céus e eu não consegui impedir um grito de alegria de escapar da minha garganta. Voltar a voar, a sentir a liberdade passando por mim não tinha preço.

Quando pousamos, eu escutei a voz de Amélia rindo e conversando com as gêmeas; seu riso era tão feliz que eu não precisava nem perguntar. Seus pais estavam vivos e bem. Eu podia sentir.

— Amy! — Eu gritei, desmontando de Onyx e correndo na direção da sua voz; me joguei em seus braços sem medo de cair. Ela nunca me deixaria cair. — Você voltou.

— Eu disse que ia voltar, não disse? — Ela riu e me rodou no ar. Meu coração parecia prestes a explodir de felicidade. — Eu senti tantas saudades suas, bebê. — Ela comentou, me abraçando forte. Ri com o uso do apelido que eu costumava usar para chamá-la.

— Senti saudades também, bebê. — Eu respondi. Quando senti os pés novamente no chão, Elphaba correu ao meu encontro e começou a me lamber, me fazendo rir e dar atenção para ela em forma de carinho. — Senti sua falta também, Elphí. Você tomou conta dela, né? Claro que tomou. — Eu falei, fazendo voz de bebê. Era o que chamávamos de efeito Elphaba.

— Vem voar comigo? — Amélia estendeu a mão e pegou a minha. Eu sorri.

— Para onde?

— Para onde o vento nos levar. — Ela responde. Elphaba pulou animada ao nosso lado e depois se abaixou para que nós a montássemos.

— Sua irmã já sabe que você voltou? — Perguntei, quando já planávamos perto do Mar. Seu eu me abaixasse, conseguiria tocar na água sem muito esforço. Amélia riu e se virou para ficar de frente para mim.

— Ela foi a primeira. Eu precisava contar para ela que nossos pais estão vivos e que eles estão cuidando de nosso povo como sempre fizeram.

— Isso é muito bom, Amy. — Eu segurei suas mãos, mas ela se desvencilhou. — O que foi? — Perguntei, estranhando sua atitude.

— Aquilo que você disse na carta... era verdade? Você queria que eu te beijasse? — Ela perguntou. Eu engoli em seco.

— Eu... é claro que queria. Eu não menti em nada naquela carta... se Alen não tivesse nos interrompido, eu teria te beijado com certeza.

— Bom... Alen não está aqui agora. — Ela falou o óbvio e depois, com um risinho, colou seus lábios nos meus.

Eu acho que entrei em combustão naquele momento, tamanho calor estava sentindo. Eu coloquei minhas mãos em seu pescoço e ela segurou meu rosto com carinho para que ficássemos o mais perto possível. Quando nos soltamos, eu ri.

— Uau. Eu teria te escrito aquela carta antes se soubesse que você reagiria assim.

Ela riu também e me puxo para mais perto de si.

— Eu estava com medo de você não sentir o mesmo que eu. Quando li sua carta, quis voltar na mesma hora, mas Elphaba não me obedeceu. Ela escutou a parte em que você disse que eu deveria ir primeiro até Cire.

Eu ri e acariciei o pescoço de Elphaba com carinho.

— Boa menina.

— Não a mime. Ela é um dragão defensor.

— Cala a boca, Meli. — Eu ordenei.

Nós duas rimos e voltamos a nos beijar sob a luz do luar.

Notas finais
Ihé e Uwa são duas entidades do meu mundo, a Filha da Luz e o Filho da Terra, respectivamente. Segundo a lenda, foi o amor deles que criou a ilha onde essa história se passa, e é por isso que Rania ama tanto essa história Espero que tenham gostado. Eu quase morri de amores por esse capítulo.