Notas iniciais
Tema quinto: A primeira vez que dissemos eu te amo.

Quase três meses depois de Amélia voltar de Cire, nós duas ainda estávamos envergonhadas o suficiente com nosso relacionamento para falarmos as três palavrinhas mágicas. Não que eu não quisesse, mas acho que estávamos esperando o momento especial chegar. E ele chegou. Demorou, mas chegou.

Faltavam dois meses para o fim do ano e nós duas estávamos novamente na Ilha Primavera, que virara nosso cantinho especial. Acho que todo casal tem um, certo? A Ilha possivelmente era uma das mais quentes do arquipélago mágico, e eu e Ames gostávamos muito de ficar ali. Estávamos sentadas no chão, e Amélia periodicamente lançava uma bola grande de couro para Elphaba buscar, como os humanos fazem com seus cachorros lá na Terra. Ás vezes, Elphaba buscava a bola e a deixava perto de mim, querendo me incluir na brincadeira; mas, para ser sincera, eu não estava muito afim de encostar em baba de dragão.

— Lia, eu preciso te contar algo... — Eu decidi começar a conversa assim que Elphaba se afastou de nós atrás da bola. — Quando você estava em Cire, eu aproveitei para conversar com o senhor Shywater, sabe? Avô da Ashley e dono dos estábulos Pax? Eu queria voltar a frequentar o local como aluna e ele me levou para minha antiga professora. Ela ficou muito feliz de me ver e, naqueles dias que você levou Felícia para reencontrar seus pais, ou sempre que você está em Patrulha e em Missão, eu vou até os estábulos e, pouco a pouco, eu estou perdendo o medo.

— Espera... você voltou... — Amélia parou de falar e ficou em silêncio por alguns instantes enquanto recebia a bola da boca de Elphaba. Quando a dona não a arremessou de novo, o dragão rosnou baixinho em protesto. Amélia riu, sem medo do rosnado ameaçador. — Agora não, Elphí. — Reclamou, e eu sabia que estava girando a mão de um lado ao outro para que o dragão não a pegasse. — Deita um pouco, garota. — Ela pediu, e senti imediatamente a cabeça do dragão em meu colo. Era quase que uma mania de Elphaba ao se deitar colocar a cabeça ou a cauda no colo de uma de nós duas. Ames suspirou. — Você voltou a montar? E por que não me contou antes?

— Eu estava esperando fazer algum progresso... — Respondi, acariciando o focinho de Elphaba distraidamente. — Passei algumas semanas apenas reaprendendo a cuidar dos cavalos, escová-los, reconhece-los e selá-los. Acho que foi a parte mais difícil. Apenas duas semanas atrás eu montei novamente em um cavalo e consegui andar, e você estava em Argon, então não consegui te contar antes.

— Isso é simplesmente incrível, Rania... eu nem acredito. Por Draim, você voltou a montar! — Amélia estava animada e me abraçou de lado, quase gritando de empolgação. — Me diga que tem mais alguma novidade... ás vezes eu sinto que te entedio com minhas histórias de patrulha.

— Você nunca me entedia. Eu amo as histórias da sua patrulha porque foi assim que nos conhecemos, Ames. E sim, eu tenho mais uma novidade... vou participar de uma competição de saltos interna em seis semanas! — Eu quase gritei de empolgação também; não só voltara a montar em cavalos mais de onze anos depois da queda que me deixara traumatizada, como também estava prestes a participar de uma competição de saltos.

— Meu Uwa, Rania! — Amélia riu e me sacudiu de leve, mais animada que nunca. — Seis semanas? Acha que conseguimos treinar até lá?

— Tenho certeza. Eu e Nevasca temos uma ligação tão forte quanto você e Elphaba. Mas vou precisar da sua ajuda para montar uma pista de obstáculos no quintal da minha casa.

— No quintal da sua casa? Mas, e a pista do estábulo? — Ela perguntou. Elphaba se levantou e lambeu minha mão até que eu pegasse a bola de couro e arremessasse para ela buscar. Ela nunca conseguia passar muito tempo parada se eu e Amélia estivéssemos muito animadas.

— Ashley vai treinar lá.

— O que faz sentido, já que o senhor Shywater é avô dela. — Amélia concordou. — Você se incomodou com isso?

Eu ri quando escutei Elphaba voltando e largando a bolinha no colo de Ames.

— Na verdade, não. Nem tem sentido me incomodar com isso, Amy. Mas vou precisar de uma pista.

— E a sua mãe? Não vai se incomodar se a gente colocar obstáculos no seu quintal? — Ela perguntou. Revirei os olhos.

— Ela está tão feliz que eu voltei a montar que não vai nem ligar se eu entrar com minha égua dentro de casa.

Nós duas rimos.

*

E, como nossa última competidora dessa manhã de Sol aqui em Wistorf, anunciamos Rania Trainor. Não se deixem enganar pelos olhos totalmente brancos, senhoras e senhoras: Rania tem tanta chance de vencer essa competição quanto as outras garotas que já passaram por aqui. Ela monta um quarto de milha de pelagem branca e...

Enquanto o narrador me anunciava, senti a mão de Amélia envolver a minha e me puxar com delicadeza para baixo. Nossos lábios se colaram em um beijo calmo e depois ela arrumou meu capacete e meus pés no estribo. Em seguida, suas mãos puxaram com firmeza meu colete para baixo, a fim de desamassá-lo. Eu ri e agarrei suas mãos nas minhas, prendendo-as junto das rédeas de Nevasca.

— Você está mais nervosa que eu, Lia. Eu que deveria estar assim.

— Que bom que eu sou a ansiosa da relação, então. — Ela comentou, me fazendo corar à menção de nosso relacionamento. Ela respirou fundo. — Vá com tudo, bebê. E lembre-se: o importante não é vencer.

— Eu sei. — Eu ri e acenei confiante com a cabeça. — Mas você tem que lembrar também que eu tive a melhor treinadora de todas. — Eu me inclinei para lhe dar um último beijo antes de entrar.

Vamos receber Rania Trainor e sua égua quarto de milha Nevasca com uma salva de palmas.

Enquanto a ovação começava, eu indiquei com um estalar de língua que minha égua deveria começar a andar. Demos uma volta na pista em um trote calmo e depois paramos na linha de partida. Havia uma sinalização sonora para quando eu deveria começar e outra para quando eu me aproximasse dos saltos, e tudo deveria ser adaptado para que eu pudesse competir junto das outras garotas.

Eu estava pronta para tudo assim que o primeiro sinal soou.

*

Eu segurava as rédeas de Nevasca entre minhas mãos, torcendo-as de nervosismo enquanto esperava o resultado final. Já tinha plena consciência que eu não ganharia, porque havia cometido algumas penalidades nos saltos mais difíceis e isso me custara alguns preciosos segundos, mas continuava esperançosa.

Em sexto lugar, Rania Trainor e Nevasca! Nossa garotinha voltou com tudo! — Era o senhor Shywater que anunciava os vencedores, e eu sinceramente não esperava o sexto lugar, de dez competidoras. Ao meu lado, Amélia gritou tão alto quanto eu ou minha mãe e Elphaba bateu a cauda no chão de modo animado.

— Vai lá! — Amélia ordenou, me empurrando, mas aquela vitória não era só minha. Era nossa; então peguei sua mão e a puxei comigo para dentro da arena onde as ganhadoras ficaram.

Rindo, eu, Amélia, Nevasca e Elphaba paramos ao lado das outras competidoras; muitas pessoas já conheciam minha namorada e saudaram-na com entusiasmo e carinho. Eu senti uma medalha sendo passada por minha cabeça e pairando em meu pescoço ao mesmo tempo que o senhor Shywater anunciava que Ashley e seu cavalo Tornado eram os ganhadores daquela manhã. Eu e Amélia gritamos para parabeniza-la, já que Ash era uma de minhas amigas mais antigas. Me virei e joguei os braços em volta do pescoço de Ames para beijá-la novamente.

— Obrigada.

— Não me agradeça, Rania. — Ela pareceu notar algo e suspirou. — Eu preciso ir; sua mãe está vindo e eu tenho que substituir Loretta. Vamos passear de noite assim que eu voltar. — Ela prometeu, e eu sabia que precisava correr para assumir a patrulha por mais algumas horas até o Sol se pôr. Nem deveria estar ali, e não estaria se uma das gêmeas não tivesse assumido a posição de minha namorada durante aquela manhã.

— Tudo bem. Nós vamos voar? — Perguntei, ansiosa. Amélia, porém, tinha outros planos.

— Pensei em darmos um passeio nós quatro. O que acha?

Eu sabia que “nós quatro” significava que passearíamos com nossas respectivas montarias. Amélia raramente sugeria um passeio como esse, e devo dizer que aquilo me deixou mais ansiosa ainda.

— Mal posso esperar. Você passa em casa?

— Assim que sair da patrulha. — Ela montou em Elphaba e me deu um beijo na testa. Aqueles pequenos momentos de carinho me davam cada vez mais a certeza dos meus sentimentos por aquela garota. Não querendo ficar apenas nisso, segurei seu rosto e beijei seus lábios com o máximo de amor que eu conseguia reunir. — Uau...

— Nos vemos de noite.

— Mal posso esperar. — Ela repetiu minha frase e saiu voando ao mesmo momento que minha mãe jogou os braços em volta de mim e me abraçou.

*

Amélia podia amar patrulhar a ilha onde morávamos e garantir que todos estariam bem e seguros, mas ficava muito cansada após voar a tarde inteira; ela tentava esconder, teimosa como si só, mas eu conseguia ouvir o cansaço em sua voz.

Havíamos passeado por algum tempo nas trilhas das montanhas Uwa, Elphaba voando baixo para acompanhar Nevasca. Por fim, sentamos perto de um riacho e Amélia deitou a cabeça em meu ombro, suspirando.

— Você devia ter ido direto pra casa e me mandado um corvo falando que estava cansada... — Eu bronqueei, passando o braço por sua cintura.

— Eu queria passar mais um tempo com você. Parece que nem todo o tempo do mundo que passamos juntas é suficiente...

— Eu sei. — Concordei, entendendo perfeitamente o sentimento. — Desde o dia que nos conhecemos eu sinto necessidade de passar o máximo de tempo possível com você.

Nós nos beijamos e ela deitou-se na grama úmida de orvalho, o cotovelo apoiado no chão e a cabeça deitada na mão, uma olhando para a outra. Eu sorri.

— Sabe... eu estava esperando o momento perfeito e passei dias pensando nas palavras perfeitas para dizer isso, mas nada que eu penso soa como sendo suficiente... não encontro nunca as palavras certas... então eu só quero que você saiba que eu amo muito você, como nunca amei alguém na vida. — Eu abri meu coração, sendo sincera. Passara meses imaginando a situação e as palavras, mas não conseguia pensar em nada mais sincero do que aquilo.

— Eu confesso que também estava esperando o momento perfeito, mas qualquer momento é perfeito ao seu lado, Rania Trainor. E, caso você ainda tenha alguma dúvida: eu também te amo como nunca amei alguém.

Não percebi que estava chorando até que ela secou minhas lágrimas com a ponta dos dedos. Nós duas rimos na noite e nos beijamos de novo.

Houve dois momentos marcantes em minha vida que eu me lembro com clareza até hoje: o dia em que eu perdi completamente minha visão e o dia que conheci Amélia.

Eu tinha seis anos quando o primeiro aconteceu; onze anos depois, minha vida mudou completamente. Não posso dizer que conhecia a felicidade antes de Amélia. Eu não voava antes de Amélia, eu não me sentia livre antes de conhece-la. Porque, afinal, é isso que o amor faz conosco.

Notas finais
Sim, eu passei da data final por mais de uma semana, mas fazer o quê, né? Espero que gostem tanto quanto eu gostei de escrever esse capítulo. Como sempre faço, quero agradecer a esse casalzão da pouha que me contou sua história e pela qual eu me apaixonei perdidamente. Rania e Amélia são um dos meus casais favoritas dentro do meu universo e poder contar um pouquinho do que elas viveram juntas é gratificante.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!