Sentado na Calçada
1 Único
Notas iniciais
Eduardo, naquele dia, sentou-se na calçada por horas a fio, a mente girando em volta da possibilidade enquanto as pessoas passavam sem muitos olhares para o seu lado. Eduardo, naquele dia, saltou em frente de uma van em alta velocidade e tirou a própria vida.
O sangue no asfalto e o terror nos olhos dos pedestres que presenciaram a cena marcou aquele dia na história da pequena cidade, onde os suicídios eram praticamente escassos e as mortes violentas sempre foram encobertas.
Eduardo tinha dezessete anos e uma família pra quem voltar ao final do dia, quando o expediente acabasse. Mas Eduardo já não tinha mais vida nem vontade de viver a muito tempo, e os olhos mortos que por todos passavam despercebidos, deixavam claro que Eduardo não sentia mais qualquer vontade, qualquer prazer.
Eduardo sentou na calçada por horas a fio, ninguém reparou, ninguém reclamou, ninguém ajudou. Eduardo nunca foi impedido, nem de se matar e nem de cair nesse vórtex de tristeza e melancolia. Ninguém enxergava nada, e ele já estava por demais cansado de viver. Se é que aquilo era viver.
A decisão não foi fácil pra Eduardo. Mas no final, ele sempre soube que essa era a única decisão que lhe cabia, a única opção que ainda tinha.
O engraçado é que dizem que tudo que você já viveu passa diante de seus olhos na hora da morte, porém, quando Eduardo se atirou na frente daquela van de transporte que por acaso era controlada por um conhecido da família, tudo que seus olhos enxergaram foi o futuro que ele poderia ter se não tivesse tomado aquela decisão. Se alguém tivesse, pelo menos uma vez, se importado de verdade.
Mesmo assim não se arrependeu; estava farto de apanhar da vida.
Aqui jaz Eduardo, filho e amigo amado, diz até hoje a inscrição em sua lápide, e a foto do garoto sorridente que a acompanha não representa em nada os últimos dias, ou anos, que teve em sua vida.
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