Sensations
30 Paellicio.
Notas iniciais
Pra hoje, sem sugestões de músicas. Pois é.
O que me resta é desejá-los boa diversão.
;)
P.S.: Nem tudo é o que parece.
“Quando tudo lhe parece certo ou bom, significa que não está o bastante. A vida sempre lhe oferecerá mais perigos e derrotas.
Finalmente, será a hora de testar a sua bravura e nível de experiência.”
–Nossa! Sua barriga já está enorme! – Alguém exclamou.
A gestação de Mia se encontrava praticamente no fim. A pausa que a Banda havia dado para se dedicar a vida pessoal também. As propostas de uma volta oficial se mostravam cada vez mais tentadoras. A partir daquele momento, soube que nosso caminho entrava em outro rumo.
–Jared, me ajude com as coisas do chá de bebê.
O celular tocou.
–Um segundo. –Me distanciei. –Sim, prossiga.
(Mia’s Pov)
O olhei distante. O muro que construíra entre nós se iniciava, mas não tardaria em ser concluído.
–Quer ajuda? – Shannon se aproximou.
–Por favor. –Dei-lhe uns pratos.
–Ainda acho que deveria contratar uma empregada.
–Não.
–Tudo bem. Quando irá nascer? –Fez menção com a cabeça para o meu ventre.
–Quando quiser.
–Existe uma coisa chamada cesariana.
–E outra chamada Parto Normal. Nascerá quando for a hora.
–Só espero que esteja próxima de um hospital ou de mim.
Ri.
–Tentarei me precaver para isso.
–Mia, há tempos que quero te perguntar.
–Fale.
–Esse filho é meu?
Pausei a lhe encarar.
–... Não.
–Como pode ter tanta certeza?
–Não é, Shannon.
–Mia. –Me segurou.
–Temos um show para fazer. –Jared entrou.
(Jared’s Pov)
–Está acontecendo alguma coisa aqui? –Me aproximei.
–O Shannon só estava me ajudando, mas talvez possa lhe substituir agora, não?
–Vou telefonar para o Tomo. Talvez queira falar sobre esse show com ele presente. –Ele disse.
–Faça isso.
Shannon nos deixou a sós.
–E então... Um novo show?
–Por quê segurava seu braço?
–Quis me ajudar, eu não deixei.
–Nunca foi muito boa com mentiras.
Sorriu sem força.
–Me ajude com essas coisas. Vou pegar o Miguel.
Tomei seu braço quando esteve por passar por mim.
–Não minta jamais.
–Não se preocupe. –Beijou-me o rosto depois de uma pausa e seguiu.
(Mia’s POV)
Jared se manteve distante dias a finco. Pouco o via, quando o via. Não poderia culpá-lo. Era o seu trabalho. Por causa da gravidez se tornava impossível acompanhar sua rotina.
Desejei sorte em oração ao se apresentar ao Vivo para uma TV local.
Fora tudo um sucesso como imaginara.
Levantei com dificuldade para apanhar um copo d’água. Ao passar pelo escritório recém-inaugurado, a porta entreaberta me chamou. O laptop estava em stand-by.
–Se preocupa tanto com o meio ambiente, mas é incapaz de desligar um laptop da bateria.
Eu poderia ter ignorado aquele instrumento que me mostrava verdade e dor, mas seria impossível.
Era real.
(Jared’s POV)
–Jared, Jared! –Um homem tocou meu ombro no pós-show. –Esteve ótimo na apresentação de hoje. Poxa, nem me apresentei! Sou o dono da emissora.
–Prazer.
–Não sabe a quantidade de ligações que recebemos para trazê-los essa noite.
–Imagino. O Echelon chega aonde quer, quando quer.
–Echelon?
–Nossa sociedade secreta.
Riu.
–Vejo que é muito espirituoso. Venha, tenho de apresentar algumas pessoas a você, mas antes... –Parou um garçom. –Tome um drink. Estão divinos! –Ofereceu-me.
Senti meu braço direito pesado como um chumbo. Tentei que respondesse ao meu comando, mas fora em vão. Entendi como fadiga. A idade me chegava definitivamente. Peguei o copo com a outra mão.
–Vamos.
A noite terminou tarde. O apartamento estava escuro, exceto pela sala que se tingia em sombras de chamas. Corri até o lugar aceso, encontrando Mia ao pé da lareira.
–Chegou tarde. A festa foi boa?
–Tratava de negócios.
–Hum.
Houve silêncio entre a pausa. Adentrei-me mais.
–Está com frio?
–Talvez.
–Posso ligar o aquecedor.
–Não precisa. O fogo me acolhe mais. –Me encarou. –Senti sua falta.
–... Eu também.
Sorriu melancólica.
–Antes não demorava a responder com reciprocidade.
–Eu senti, Mia.
Se afastou da luz.
–Acredito em você, Jared.
Ficou em minha frente.
–Acredito.
Andou para o meu lado sob o meu olhar. Manteve-se um período e depois beijou minha testa.
–Boa noite. –Deixou-me.
Andei até onde se achava quando cheguei. Suspirei alto. Notei o contorno de um pequeno caderno sendo tomado pelas chamas. Uma folha se desprendia e nela pude ler escrito o meu nome. De uma forma instintiva o tirei de lá. A maior parte do estrago havia sido feita, mas a outra... Poderia ser recuperada.
(Mia’s POV)
Andando pela cidade uma loja me impressionou. Existia diversos animais e companheiros para uma esposa sozinha.
–Procura algo em especial? –O vendedor apareceu por detrás de mim.
–Ah, não. Apenas olhando.
–Se precisar de ajuda.
–Eu o chamo. –Sorri.
Tendo novamente paz para apreciar o lugar, admirei minha nova e futura companheira.
–Está a venda? –Apontei.
–... Sim.
–Vou levar.
(Jared’s POV)
–Cheguei. –Fechei a porta do apartamento.
Sem resposta.
Procurei por Mia em poucos cômodos até ser surpreendido pela mesma a me olhar.
–Estou aqui.
–O que faz com uma cobra enrolada nos braços?!
–Sou uma pessoa solitária agora, Jared. Desempenhará seu papel de companheira.
–Enlouqueceu?! Temos uma criança e logo teremos outra!
–Vão se acostumar.
–Não aceito isso dentro da minha própria casa. Onde arranjou esse bicho?
–Numa loja de animais.
–Vou devolvê-la. –Me aproximei.
–Não chegue perto. –Olhou-me com ódio. –Verme.
–O que está acontecendo, Mia? Por quê está me tratando assim?
–Eu que deveria estar a fazer as malditas perguntas. Não me venha fazer essa cara de vítima. Sabe muito bem da sua culpa.
–Do que está falando?
–Medíocre. –Guardou a cobra em uma caixa de vidro situada na sala.
A puxei com violência.
–O que está acontecendo de novo? Por quê tudo isso?
–Deveria estar longe de mim e continuar junto das suas pequenas festas com seus amigos, Jared. –Se soltou.
Lhe trouxe aos meus domínios sem demora.
–Por quê não conseguimos ter uma vida de paz? –Aproximei meu rosto. –Sempre arranja um novo pretexto pra me machucar.
–Escolheu essa vida.
–Não me arrependo nenhum instante. Só me preocupo por que mesmo me machucando, o faz mais a si mesma. E não poderei suportar.
–Largue-me.
–Não. Não. –A beijei com urgência.
Sempre a cama fora o nosso lugar de pazes. Sendo um sexo agressivo ou o mais suave deles, nos aliviava a tensão e nos unia sempre mais.
–Jared, pare.
–Não.
–Por favor, pare.
A beijei para lhe calar. Senti sua lágrimas escorrerem.
–Minha bolsa rompeu.
Corremos para o hospital. Uma fraqueza surgiu novamente e dessa vez imobilizando todo o meu lado direito.
–Merda!
Ela se agarrava no banco do carro com dor. Aproveitei-me do meu outro lado e liguei para Shannon.
–Preciso da sua ajuda.
Ele chegou em poucos minutos. Trouxe Mia para perto de meu corpo e a acalmei. A dormência começava a passar.
Na sala de parto, me apresentei bem. Meu irmão trouxe a câmera para registrar o momento. Um tempo se passou quando meu braço perdeu as forças.
–Algo errado, Jared? –Um dos médicos perguntou.
–Só fraqueza. Vem acontecendo constantemente.
–Não quer sair um pouco?
–Não. Está tudo bem.
–Tem certeza?
–Sim.
Nina veio ao mundo forte e sádia. Era pequenina e linda. Tinha os olhos da mãe. Beijei Mia um pouco antes de tomar a medicação que lhe faria adormecer.
–Eu te amo. –Disse.
Dormiu sem tempo para responder.
–Jared. –O médico me chamou. –Posso falar com você?
–Algum problema com minha filha ou com Mia?
–Não. Estão bem. Me acompanhe até minha sala, por favor.
Ao sentar em seu consultório.
–Desculpe-me, mas fiquei preocupado com sua reação mais cedo. Disse que sente fraquezas.
–Sim, principalmente no lado direito. Todos os membros ficam muito pesados e não consigo movê-los.
–Há quanto tempo sente isso?
–Há umas duas semanas.
–Compreendo.
–Por quê?
–Gostaria de lhe passar alguns exames. Tudo bem?
–Mas qual a razão?
–Tenho alguma desconfiança do que poderia ser sobre seus sintomas. Espero estar errado, mas... Não trabalho com esse departamento médico. O mandarei para um colega. Só gostaria de saber se aceita.
–Não vejo problemas.
–É bom estar certo que não.
–Se o deixa com a mente mais tranquila...
–Obrigado.
Inúmeros exames me deixavam tonto e desnorteado. Feito todos os procedimentos, dirigi-me ao outro médico que tinha sido encaminhado.
–Comunicarei quando tiver os resultados. –Falou.
–Deve demorar?
–Não. Dois dias no máximo.
–Doutor, qual seria a desconfiança? Algo grave?
–Não podemos falar nada agora, Jared. Ainda é cedo. Espere e fique tranquilo.
–Certo. Obrigado.
Voltei-me a Shannon que me esperava impaciente.
–O que aconteceu? Estava preocupado.
–Me pediram para fazer alguns exames.
–Por quê?
–Venho sentindo umas fraquezas, às vezes meu lado direito não me responde. Não consigo me mover.
–E não me disse. Jared, você é foda.
–Não é nada, ok? É só a idade.
–E acha que um médico te chamou para fazer uns exames por que ele acha legal e divertido ver um monte de radiografias. Se o fez, é claro que desconfia de algo muito mais sério.
–Não é nada, Shannon. Já disse.
–Mais que cabeça dura!
–Nenhuma palavra sobre isso com a Mia.
A noite, enquanto Mia dormia no quarto hospitalar, a frase que Shannon me disse retornava a minha mente me atormentando.
“Se o fez, é claro que desconfia de algo muito mais sério.”
Não poderia ser. Os sintomas poderiam ser mais fortes, não é nada grave.
Fechei os olhos para esquecer, mas nada conseguia me convencer.
Logo, levamos minha esposa e Nina para casa. A pequena era carente demais e chorava quando tentávamos colocá-la sozinha no berço.
Miguel aparentava seus primeiros sinais de ciúme. E o que restava era tê-lo conosco.
Os resultados chegaram. Pouco entendi sobre os laudos. Procurei o mesmo médico e pedi que me explicasse.
–Vamos à minha sala.
–Não tenho tempo. A minha esposa não sabe que me encontro aqui, por favor, me fale o que significa tudo.
Tirou seus óculos e coçou sua cabeça.
–Como imaginei, Jared. Você tem ELA — Esclerose Lateral Amiotrófica. É uma doença neurodegenerativa, progressiva e fatal. Começa por manter seus músculos “dormentes” temporariamente e depois eles vão parando de funcionar. Após os músculos, a doença passa para os órgãos até por último chegar ao sistema respiratório.
Controlando-me com o choque, minha voz saiu sem força.
–Porém acredito que haja algum tipo de cura.
Ele manteve seu silêncio.
–... Não tem... Cura?
–Não... Mas se você começar um tratamento agora, pode retardá-la.
Meus olhos já não conseguiam mais olhar o homem a minha frente.
–Eu preciso ir.
–Jared.
–Desculpe. –Saí.
Uma chuva torrencial invadiu as ruas. Corri o mais rápido que pude para qualquer lugar. Tentando arranjar uma fuga. Minha perna direita começava novamente a tentar me deixar na mão, mas me recusei. Não sei ao certo quanto tempo estive correndo. Só parei quando me forçou a fraquejar e cair numa poça d’água.
Horas, muitas horas.
A casa outra vez escura completou meu senso de horror.
Eu iria morrer... Eu iria...
Deixá-la.
Se eu pudesse abraçá-la e fazer amor com ela... Só mais uma vez.
Só mais uma vez.
–Mia. –Chamei com a voz embargada.
Não obtive resposta.
–Mia! –Gritei chorando.
Me arrastei pelos cômodos. Encontrei um bilhete dela:
Deixei as crianças com Shannon. Saí para as compras.
Mia.
Teria me dado por satisfeito, se não visse a porta do quarto aberta. Não era costume estar assim.
Talvez estivesse esquecido.
Talvez.
–MIA!
Estava estendida sobre o chão com os olhos abertos.
–Mia, meu amor! –Senti seu corpo gelado. Vi dois furos em sua garganta e sangue espalhado pelo chão. Tirei seu pulso. –Morta. NÃO! NÃO PODE ESTAR MORTA! MIA, MEU AMOR! POR FAVOR, FALE COMIGO! –A sacudi. -Por favor!
Berrei inúmeras vezes seu nome.
O telefone tocou e rezei para que fosse Shannon. O atendi.
–Shannon, venha pra cá. Preciso da sua ajuda. –Pausei. –Não, não traga as crianças! RÁPIDO!
Quando chegou, Shannon me tirou de perto do corpo. Com resistência mantive-me lá.
–Jared, não há mais o que fazer! Precisamos sair. Logo os responsáveis estarão chegando para removê-la.
–Não vão! Ela vai voltar!
–Ela não vai, irmão. –Depois de anos, as primeiras lágrimas de Shannon. –Ela não vai.
Caí de joelhos.
–Não vou conseguir sobreviver sem ela, Shannon. Eu a amo demais.
–Jared.
–Eu preciso dela, preciso dela aqui! –Soquei a parede.
–Você precisa ser forte. Tem filhos agora! Precisam de você!
Como eu, caiu e socou o chão.
–Seja forte. Resista a dor. Ela não quer que desista.
A equipe responsável pela retirada do corpo chegou. Não suportei quando a vi sendo removida.
–MIA! Meu amor!
Shannon me segurou.
–Por favor, meu irmão. –Me abraçou. –Não torne tudo tão difícil.
–Traga-a de volta. Traga-a. –Fechei os punhos em sua jaqueta.
Mia...
Mia...
Mia.
“Nunca quis ir assim, mas chegou a hora de me despedir. Sei de todo o sofrimento que causei e de como vai passar a medida do tempo. Mas agora, meu amor, não abandone os nossos. Escolha por eles. É o único que pode defendê-los. É o que eu faria, se tivesse na situação oposta.
Não siga o meu caminho. Espere pelo destino decidir e quando acontecer...
Venha ao meu encontro.”
Notas finais
Não esqueçam de comentar e recomendar a fic, ainda mais que está no final. ;)
E não esqueçam também da campanha Mars In Brazil. Para informações, visite o site: www.marsinbrazil.weebly.com
Vejo-os domingo que vem. o
Beijoletos ;D
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