Sensação de acolhimento
1 único
Choque elétrico depois do banho em dias frios. Pinça arrancando pelo da sobrancelha. Adrenalina ao receber as notas do semestre.
Folha de papel cortando a pele. Coceira na sola do pé. Dor de barriga sem um banheiro por perto.
Qual seria a sensação de ser acolhido?
— Zoro, acorda!
Um rapaz narigudo balançava o ombro de Zoro, um aluno debruçado na sua carteira da escola. Era comum cair no sono, principalmente em dias de chuvas.
Usopp notou os olhos do amigo se abrindo. — Até que enfim acordou! Demorou mais que as outras vezes!
“É o frio.” — O que quis responder, mas estava tão cansado que resolveu só dizer no pensamento.
— Eu tenho que te dizer que hoje ficarei mais tarde na escola, sabe? Ei! Você tá me ouvindo? — Novamente balançava o ombro de Zoro que voltou a cochilar. — Presta atenção Zoro, porque você terá que ir embora sozinho. Consegue?
O sinal tocou, alunos saíam das suas salas e se dirigiam para o térreo, onde trocavam de sapatos e buscavam seus guarda-chuvas. Zoro descia as escadas cambaleando por ainda sentir sono, não via a hora de chegar em casa e dormir sem alguma interrupção.
Trocou os sapatos, mas estava sem guarda-chuva, esperava que Usopp trouxesse um e dividisse com ele. Parou os passos no hall da escola, mirando os olhos para cima; a chuva não o intimidava, ele ergueu um braço para levar uma mão por baixo dela, a sensação era gostosa. Úmida como sua solidão.
O som granulado das gostas batendo contra a superfície era sua melodia favorita. Zoro resolveu seguir na chuva antes que dormisse em pé.
Sentia frio, enquanto protegia sua pasta sob o terno da escola. A sensação de desconforto era grande, mas não maior que a sua de querer saber amar alguém. Mirou mais uma vez os olhos para cima, riu por ser mais forte que a chuva e o céu cinza do fim da tarde.
— O que tá olhando parado aí?
Uma voz desconhecida perguntou, Zoro deslizou os olhos para baixo e se encontrou com um rapaz loiro e de sobrancelhas engraçadas. Ele também estava ensopado por não usar um guarda-chuva.
— Não é da sua conta. — Respondeu enquanto retomava o caminho.
O rapaz que mirava seus olhos para cima a fim de saber o que tinha de engraçado ali, voltou a se aproximar quando viu que o esverdeado recomeçara a andar. — Ei, espere!!
Zoro parou os passos mais uma vez, sentindo o idiota tocar em seu ombro logo a seguir.
— Não estava caçoando de você, marimo!! — Disse dando a língua, depois passou a correr até o portão. Zoro ficou se perguntando se ouvira mesmo “marimo”.
— “Marimo”? — Repetiu. — Tudo bem, sobrancelha enrolada, eu não estou irritado com você!
Devolveu com um apelido tão ofensivo quanto marimo e o idiota, que já estava ao lado do carrinho do pipoqueiro, deu o dedo do meio e desapareceu do campo de visão de Zoro por chegar numa parte do muro que não havia mais a grade e sim o cimento.
Dor na garganta. Tosse. Olhos ardendo. Pele quente.
Estava na enfermaria, como pegara chuva no outro dia, Zoro teve um desmaio e Usopp precisou levá-lo até lá. O amigo narigudo se lamentava por tê-lo deixado a mercê na chuva e ainda se lembrou que o esverdeado costumava se perder, deve ter levado um tempo pra achar o caminho de sua casa.
Deitado numa das camas, Zoro arfava o ar e sentia frio. A médica havia saído para encher sua garrafa e ele não escutou os passos que adentraram no local.
Ele abriu seus olhos castanhos e levou alguns segundos pra focar a imagem de uma silhueta na beira da cama.
— Marimo?
Nem precisava ouvir sua voz e muito menos o apelido que ganhara do idiota, porque já conseguia ver de quem se tratava: o garoto das sobrancelhas engraçadas.
— Sobrancelhas? — Ajeitou-se nos travesseiros. — O que faz aqui?
O idiota se sentou na cama ao lado. — Tô matando aula na enfermaria.
Zoro revirou os olhos e sentiu falta de algo. — Cadê a médica?
— Saiu.
Bufou por ficar a sós com o engraçadinho.
— Você me parece horrível...
— Claro, diferente de você, eu realmente estou passando mal!!
O idiota piscou os olhos e levou a mão até a boca, mas se lembrou que não estava fumando. — Você se irrita facilmente, sabia?
Zoro deu um grunhido que fez o outro gargalhar.
— Até que você fica fofinho assim. — Disse ainda gargalhando, enquanto o rosto de Zoro ganhava um novo rubor que não era da febre.
— O que disse? — Perguntou, mas o idiota não repetiu.
— Acho que vou matar aula no terraço, até mais marimo!
— Ei, espera!
O idiota mais uma vez desapareceu no seu campo de visão. Repousou a cabeça nos travesseiros e depois soltou um suspiro profundo. Aquela foi a sensação mais perto que já chegara...
Vontade de cair no buraco. Frio na barriga. Vergonha de si mesmo.
Usopp mais uma vez disse a Zoro que teria que ficar na escola e deixou seu guarda-chuva com ele, embora não estivesse chovendo. Zoro andava no pátio e olhava em volta a procura do idiota das sobrancelhas engraçadas.
Passavam poucos alunos e até mesmo achou um loirinho com um corte parecido, mas não era ele. Resolveu olhar pra cima e encarou mais uma vez o céu nublado, seus olhos estavam absortos e cinzas. Será que aquele idiota era invenção da sua cabeça? O céu parecia ser mais forte do que si dessa vez.
Insegurança. Coração batendo. Decepção.
No entanto, teve a impressão de ter visto algo — ou melhor, alguém — no parapeito do terraço. Zoro se lembrou que o idiota havia dito que mataria aula ali e resolveu ver se o sobrancelhas continuava lá.
Ainda estava febril, mas seu corpo atlético facilitou a subida nas escadas. Quando chegou até a porta do terraço, percebeu que o trinco estava destrancado ao girar a maçaneta.
Adrenalina. Adrenalina. Correr pra longe.
Não entendia por quê, mas estava nervoso. Respirou fundo e abriu a porta finalmente, se encontrou com um rapaz loiro escorado no parapeito. Era o idiota que não sabia nem mesmo o nome.
Seus cabelos desgrenhados por conta do vento, uma fumaça e um cheiro de cigarro espalhados no ambiente. Uma imagem que guardaria no peito por ter se tornado real o seu desejo.
Amor.
A sensação nunca esteve tão perto como agora.
O idiota sentiu uma presença e olhou pra trás. — Marimo?
Zoro se aproximou, encostando a barriga no parapeito. As pontas do seu cabelo espetado e a blusa do uniforme escolar balançavam com o vento.
— Você costuma vir pra cá? — Perguntou o sobrancelhas.
— Não.
— Então, o que faz aqui?
— Queria te ver.
O idiota piscou os olhos, mas começou a rir. Zoro ao seu lado, também.
— Me chamo Sanji.
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