Notas iniciais
Oi oi
É uma oneshot curtíssima, eu arrisco a chamar de "explosão". Sabe quando você simplesmente precisa fazer alguma coisa? Pois bem. Eu precisava escrever e quando consegui, me deparei com essa obra.
Espero que apreciem, que tenha para vocês leitores, tanta intensidade quanto teve para essa escritora.
Boa leitura, meus preciosos.

Ela, senhora do meu senhor.

Mulher de beleza peculiar, lábios carnudos, olhos claros e a jovialidade interrompida pelas imposições matrimoniais. Era a segunda esposa, nada mais lhe cabia além da criação dos meninos do marido e quem sabe, com alguma sorte, convencê-lo a lhe dar um filho próprio, para que na velhice não dependesse unicamente da boa vontade dos enteados.

Meu senhor, um homem velho, viúvo já há algum tempo, buscou com olhos de águia pela vila, até encontrar Madalena.

A proposta foi prontamente aceita pelos pais dela. O sonho de qualquer homem nesse maldito lugar era ver a filha desposar um viúvo rico, que não exigia dotes ou pagamentos. E menos de dez dias depois, Madalena chegou na casa, com a mala sob o braço esquerdo, os olhos assustados e a certeza de que sua felicidade fora cortada ainda pela raiz.

Eu.... Eu nada.

Eu, escrava do meu senhor.

Trazida e levada conforme sua boa – má – vontade.

Me criei em sua casa, filha de minha mãe, escrava do meu senhor. Cresci convivendo com os pedidos dela, para que cobrisse bem meu corpo e enrolasse os seios com uma faixa, para que não chamasse a atenção, para que me mantivesse nas sombras. Mas aos quinze, as sombras já não chegavam até mim, fui tomada.

Poucos dias depois, fui enviada para morar com a mãe de meu senhor – graças a minha própria mãe, que custou a convencê-lo de que eu era a melhor escrava para cuidar da velha – e lá fiquei, usando minhas roupas pobres e minha imaginação, para entre uma ordem e outra, fingir que eu era como Madalena.

Os anos custaram a passar, rodopiando infinitamente pelas bordas do abismo que é a vida. A velha me tratava bem, me tratava como gente. Eu a cuidava, aprendi a gostar do sorriso esnobe e das aulas de português e fala que tinha com ela.

A vida parecia ir bem, até que numa noite de lua cheia, os sete pios da coruja alardearam a morte dela. E lá estava eu, com a trouxa de roupas entre os dedos, na carroça onde era levado o caixão, indo de novo para a casa do meu senhor, apenas para descobrir que minha mãe já não existia. Os sete pios da coruja tinham levado ela também, mas já fazia tempo, pelo que me disseram.

Os senhores ficaram na sala, ladeando o caixão e comentando os feitos da velha, como se nesse tempo em que estive lá, algum deles a tivesse visitado. Eu quis gritar, quis pegar a faca de temperos e cravar na garganta do meu senhor. Ele que nem mesmo enviara um mensageiro, para informar a morte de minha mãe.

Mas eu apenas chorei. Me sentei ao lado do fogão – onde as panelas ferviam a comida para o velório – e chorei todas as lágrimas que havia mantido dentro de mim por tantos anos.

Percebi uma presença na cozinha, senti pelo perfume que não era outra escrava, mas não ouvi gritos ou ordens e continuei chorando. Até sentir uma mão acariciando meus cabelos, promessas sussurradas de que a dor ia passar, que amanhã era outro dia. E mesmo no mar de tristeza que eu me afogava, senti uma pontinha de alegria, quando ergui os olhos e a vi.

Era Madalena.

Já estava mulher feita, como eu. Os traços agora maduros indicavam além da idade, uma tristeza profunda.

Não sei quanto tempo ficamos ali, só nós duas. Eu parando de chorar e ela acarinhando meus cabelos.

Quando meu senhor entrou na cozinha, Madalena disfarçou, não queria que eu fosse castigada. Disse que me explicava sobre como gostavam da comida, que eu, mesmo cansada da viagem, queria aprender logo e ele ficou contente, resmungando sobre seus escravos inúteis, dizendo que seria bom ter alguém disposto ali, pelo menos uma vez.

Ele era muito velho agora, já não me olhava como olhou quando eu tinha quinze.

Naquela noite, quando os senhores saíram para beber, me banhei e para finalizar minhas obrigações, troquei as velas que clareavam a entrada, a fim de iluminar o caminho deles, para quando voltassem.

Eu ouvi um choro baixo. Certamente, se já não fosse madrugada, os barulhos diurnos não me teriam deixado escutar, mas estava lá. Silenciosa como toda boa escrava, segui o som e me apertou o coração perceber que vinha do quarto de Madalena.

Cresci ouvindo ordens, sabia que os senhores da casa não deviam ser espionados ou interrompidos e ainda assim, empurrei a porta do quarto dela e entrei, deixando escapar um som ou outro, certa de que minha presença devia ser percebia – e foi.

Madalena me olhou. O azul da íris clara era ainda mais brilhante e havia naquele brilho uma permissão que eu acatei.

Passei a mão em seus cabelos, na mesma carícia suave que recebera dela mais cedo e quando achei que se acalmava, passou os braços ao redor da minha cintura e afundou o rosto em meu ventre, chorando com soluços tão altos, que tive medo que alguém fosse aparecer. Mas não apareceu ninguém.

Quando ela realmente se acalmou, me agradeceu baixinho e deixou que eu ajeitasse as cobertas sobre sua pele arrepiada.

Naquela noite eu não dormi, fiquei pensando em Madalena.

Meu senhor continuava um homem rude, gritando ordens não só para os escravos, como também para a esposa. Os filhos, assim como ele, andavam pela casa mostrando sua masculinidade em berros e brigas sem necessidade, cujos machucados ficavam sempre sob meus cuidados.

Eu não saia ilesa. As vezes passava no meio de uma briga e uma bofetada era minha, assim como eram minhas as mãos que tocavam meu corpo enquanto eu dava jeito nos ferimentos dos meninos homens. Mas eu já não precisava fingir que era como Madalena, porque podia olhar para ela e esquecer do inferno que era estar naquela casa.

Nossos dias eram doloridos, ela era senhora do meu senhor e me dava ordens – calmamente e sempre acrescentadas de um ‘por favor’ sussurrado – e eu obedecia, sorrindo em resposta. Mas nossas noites eram nossas, Madalena sempre chorava e eu sempre estava lá, acarinhando seus cabelos até que pegasse no sono.

Eu embalava a dor dela com cuidado, cuidava como se fosse minha – e era, de certa forma – apenas para ver seu semblante tranquilo enquanto dormia, pelo menos até que meu senhor chegasse e eu me esgueirasse para meu próprio quarto.

Madalena ficava cada vez mais bela. Ela gostava de cozinhar e quando o fazia, eu sentava perto do fogão e a olhava, guardando em minha memória cada movimento, embrulhando em seda cada vez que seus dedos devolviam uma mecha do cabelo de volta para o lugar.

Eu amava a senhora do meu senhor.

Quando estive com a velha, durante todos aqueles anos, conheci uma outra escrava, com quem aprendi que os toques podiam ser prazerosos. Em segredo, todas as vezes que tocava nela, pensava em tocar Madalena.

A rotina se instalava, meu senhor bebendo, os filhos dele brigando e Madalena cada vez mais perto. A vida era quase boa outra vez, ficava fácil enfrentar o dia, por saber que a noite eu poderia vê-la dormir.

Senti em meu peito uma flor desabrochar, quando recebemos a notícia de que meu senhor iria viajar. Eu quis gritar, quis comemorar, mas apenas organizei cada uma das malas que partiriam, certa de que poderia guardar minha alegria para mais tarde.

Ao anoitecer, eu apaguei todas as velas, sabendo que o filho mais novo – que ele havia deixado para cuidar da casa – não voltaria da taverna antes que os raios do sol pudessem iluminar seu caminho. E então, por puro costume, subi para o quarto da senhora de meu senhor, pensando que como sempre, a encontraria encolhida em meio aos lençóis.

Mas ela sorria.

Assim como eu, estava leve, sabendo que o dono de seu suplício estava longe dali, longe de nós.

Quando fechei a porta, sorrindo por vê-la daquele jeito, Madalena jogou seus braços ao meu redor e me abraçou, como se eu, uma escrava, fosse a responsável por tamanha alegria.

Me afastei, recebendo dela um olhar confuso – magoado até – por não entender minha distância assim tão súbita. Mas eu não pretendia ir embora, pelo contrário, pretendia me aproximar ainda mais e nem sequer precisei.

No instante seguinte, os lábios de Madalena estavam tão próximos dos meus, que não hesitei em toma-los.

Macios como nenhum outro, eles se apertaram contra os meus. Havia naqueles toques uma certa urgência e logo nossas pernas bambeavam, buscando pelo quarto um caminho sem obstáculos até os lençóis.

Ela, senhora do meu senhor, foi minha naquela noite.

Seus gemidos foram meus, seus lábios, sua pele, a carne rija entre suas pernas.

Madalena era fogo, queimava por entre meus dedos, queimava em meu corpo e sobretudo, queimava em meu coração. Era mulher, assim como eu e sofria, assim como eu.

Com ela, aprendi as boas maneiras, ganhei roupas, calçados e meu sorriso voltou a brilhar. Eu já não era mais uma escrava qualquer, era sua dama de companhia e nas madrugadas, quando nenhum senhor estava olhando, ela era minha outra vez.

Quando meu senhor deixou de existir – alguns anos mais tarde – Madalena foi exilada daquela casa. Ganhou dos filhos do marido uma quantia razoável em dinheiro e o direito de sair pela porta, calada. Mas ela se voltou contra as ordens, com o pedido de que me deixassem acompanha-la.

Madalena voltou por mim e eu a segui.

Ela, que já fora um dia senhora do meu senhor, era agora senhora de si mesma.

Usamos o dinheiro para comprar um pequeno comércio e montamos ali, uma mercearia, onde servíamos pratos no almoço. Não era muito, mas podíamos sobreviver com tranquilidade.

Nossos dias eram nossos, Madalena já não chorava e seus olhos claros continham uma alegria que eu jamais veria, se tivéssemos continuado naquela casa. Nossas noites também eram nossas e aos poucos, eu aprendi que havia um prazer que ia muito além daquele proporcionado pelos toques. O do amor.

Ela, senhora de si mesma.

Eu.... Senhora de minha senhora.

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