Sempre ao seu Lado
44 𝟏𝟎 𝐝𝐞 𝐎𝐮𝐭𝐮𝐛𝐫𝐨 ➶


Sempre ao Seu Lado
Capítulo 40
Eu continuava na maca dentro do escritório, conectada a vários aparelhos que monitoravam minha pressão arterial, frequência cardíaca e respiração. Mesmo que meus músculos queimassem e protestassem de cansaço, eu continuava firme segurando Helena nos braços, e ainda sentia a mistura de emoções: alegria, amor e um pouco de tristeza e frustração. Ao meu lado, minha amada Hilary, falava comigo, contava da sua maneira limitada, uma história de ninar sobre gatinhos com novelos de lã, em alguns momentos ela olhava Helena com curiosidade e um pouco de confusão; mas não deixava de falar e falar.
Eu não podia acreditar que finalmente estava segurando uma nova filha nos braços. Ela não parece tão pequena quanto deveria pelos seus dias de vida, e ainda assim me parecia tão frágil, com seus cabelos escuros de fios cacheados e olhos claríssimos que me olhavam com uma expressão indecifrável. É tão quieta e observadora, que cada vez que eu contemplava sua quietude, torcia para que continuasse assim. Hilary, por sua vez, estava fascinada com a bebê. Tinha momentos que ela olhava para Helena com uma expressão de admiração e curiosidade, como se estivesse tentando entender quem era essa nova pessoa que havia entrado em sua vida, já que ela estava tendo o privilégio de poder ficar no meu colo enquanto ela permanecia boazinha sentada ao meu lado.
Mas, apesar de tudo que eu sentia, eu sabia que não podia ficar com elas aqui por muito tempo. Fazia algum tempo que eu tinha acordado de um coma de dias extensos, ainda me aguardavam para realizar exames. Eu olhei para as meninas e senti um aperto no coração. Eu não queria deixá-las, mas eu sabia que era necessário. Eu chamei por Isabella em gestos e palavras mudas, pedi que ela chamasse alguém para levar as minhas filhas para fora dali. Ao contrário do que pensei, ela apenas assentiu e não saiu do escritório. Poucos minutos depois, Rose entrou, seguida por Esme.
— Oi, Amberli, — Rose disse, se aproximando da maca — Como você está se sentindo?
Olhei para minhas filhas, e ergui meu olhar para Rosalie e Esme novamente, sorri com os lábios fechados, de maneira que as bochechas pudessem apertar o canto dos meus olhos. Eu estava bem agora, muito bem. Ergui meus ombros para que a atenção fosse para Helena, e gesticulei meu queixo na direção de Hilary, num pedido, “Vocês podem levar as meninas?”. Esme assentiu e se aproximou de Hilary.
— Vamos, Hilary. Venha comigo para o jardim. — a convidou.
Hilary olhou para mim e depois para Esme. Ela pareceu hesitar por um momento, mas então se levantou e estendeu os bracinhos para que ela pudesse pegá-la. Senti meu coração doer pela facilidade em que Hilary cedeu ao convite dela, mas não havia muito o que eu pudesse fazer, além de agradecê-las por tudo o que têm feito por mim. Esme deu espaço para que Rosalie pudesse se aproximar da maca e com jeitinho ela pegou Helena dos meus braços. Inconscientemente eu lamentei pela falta de calor que senti com sua ausência, tudo ao meu redor tem me parecido muito frio.
— Eu vou cuidar dela, — ela disse, sorrindo — você descanse, Amberli. Você precisa se recuperar.
Eu assenti, sentindo um alívio, elas se despediram brevemente e caminharam para fora do escritório. Não lamentei quando a porta foi fechada, eu sabia que minhas filhas estavam em boas mãos.
➶
Carlisle, Isabella e Edward vinham regularmente para verificar os números estatísticos das máquinas e garantir que eu estava estável. Edward tornou-se meu fisioterapeuta, me pedia para fazer alguns movimentos para avaliar a minha função motora, como levantar os braços e mexer os dedos com mais destreza. Eu tentei, mas meus músculos estavam fracos e eu não conseguia controlá-los muito bem, o que incluía a incapacidade de eu conseguir escovar os meus dentes, sozinha, ou até mesmo de juntar meus cabelos num laço.
Bella ficou responsável por coletar meu sangue a cada período de dias para fazer alguns exames, hoje ela já havia coletado para avaliar a função dos meus rins e fígado, as amostras são necessárias para analisar a creatinina e a ureia, que são substâncias que os rins removem do sangue. Níveis elevados dessas substâncias podem indicar problemas renais, o que eu quero evitar por muitos anos. Ela também trocou a bolsa de cateter urinário por outra estéril, para que a próxima coleta fosse a mais recente possível para os novos exames onde iria analisar a presença de proteínas, sangue ou outros sinais de problemas que torcíamos para não aparecer.
Enquanto Bella ia para um canto mais distante atrás de mim, Carlisle tomou a frente, para fazer uma avaliação mais detalhada. Ele começou a recapitular meu histórico médico e me por à par dos sintomas que eu havia apresentado antes de entrar em coma. Ele também fez anotações da avaliação física deixados por Edward, verificando meus reflexos, minha força muscular e minha coordenação. Em seguida, ele pediu que eu respondesse alguns testes para avaliar minha função cerebral. Ele me pediu para que eu contasse de trás para frente, que fizesse alguns cálculos matemáticos simples e que eu lembrasse de alguns eventos recentes. Eu tentei fazer o melhor que eu podia, mas senti que minha mente ainda estava um pouco lenta.
Depois disso, Carlisle disse que eu precisava fazer uma tomografia computadorizada para avaliar a extensão dos danos cerebrais. Ele explicou que seria uma forma de obter imagens detalhadas do meu cérebro e verificar se havia alguma lesão ou dano, me pediu desculpas por não ter tido meios de conseguir transferir a máquina para dentro de sua casa logo quando cheguei aqui. Isso me deixou um pouco confusa, mas quando os aparelhos foram desconectados do meu corpo e algumas funções interrompidas, a maca foi destravada e movida para o fundo do cômodo, onde, não sei quando, foi posicionado uma caixa de tomografia móvel, já ligada, apenas me esperando. Eles conectaram a máquina na maca, sem que eu precisasse deitar em outra, e explicou que eu precisava ficar imóvel durante o exame e que eu não deveria respirar fundo. E acrescentou que eu poderia ouvir um barulho alto durante o exame, mas que era normal nas máquinas menores.
O exame foi rápido e indolor.
Eu estava ansiosa para saber os resultados da tomografia computadorizada e dei um jeito de perguntar à Isabella quanto tempo demoraria para os resultados saírem. Ela me disse que normalmente os resultados são disponibilizados dentro de trinta minutos à uma hora após o exame. No entanto, como eu sou uma paciente crítica e Carlisle precisava avaliar os resultados urgentemente, os resultados seriam disponibilizados mais rapidamente, provavelmente dentro de quinze à trinta minutos.
Esperamos pelo resultado, e cerca de vinte minutos depois, Carlisle retornou ao escritório com a expressão séria, ele me disse que os resultados mostravam que eu havia sofrido uma lesão cerebral grave, Isabella juntou-se a ele para analisar os exames, ficaram alguns minutos discutindo entre eles, e quando eu emiti um barulho com a garganta, ela abriu a possibilidade de a lesão ter sido causada pelo agressor, já que minhas memórias daquele fatídico dia simplesmente continuam inexistentes. Isso me gerou um desconforto, um ódio reprimido gigantesco, porém ela não deixou que eu me abatesse com o laudo, pois eu estava respondendo bem ao tratamento e em breve eu estaria totalmente recuperada para seguir minha vida. Me acalentei em suas palavras, pois no fundo eu não desejava ter que viver com aquelas lembranças me aterrorizando.
Eles continuaram a me informar sobre os resultados e senti um alívio enquanto continuava a ouvir as demais notícias, sei que ainda tenho um longo caminho a percorrer para me recuperar completamente. Puxei a barra do lençol, ajustando-o ao meu redor enquanto observo-os escrever algumas anotações em meu prontuário e agora aguardo ansiosamente para saber quando poderei receber visitas.
— Dr. Carlisle? — chamo suavemente, mas minha voz era fraca e rouca devido ao tubo que havia sido inserido em minha garganta. Ainda assim, a tentativa de chamar sua atenção sem parecer muito ansiosa e com receio dele me repreender por usar a voz dera certo. Ele ergueu seus olhos dourados para mim, o canto dos lábios subindo num sorriso gentil.
— Sim, Amberli? O que você̂ precisa?
Hesito por um momento, sentindo o coração bater um pouco mais rápido. Não consigo parar de pensar em Cole desde que eu o vi partir do meu campo de visão. Eu ainda conseguia sentir o calor de seus lábios tocando minha pele e desejava ardentemente poder tê-lo perto de mim novamente.
— Quando..., quando posso receber mais visitas? — pergunto, tentando manter a voz calma, e ainda assim, tossi, as poucas palavras foram suficientes para fazer minha garganta se irritar.
— Bem, Amberli... — Carlisle franze a testa, pensando por um momento — Você̂ está se recuperando bem, mas ainda precisamos tomar alguns cuidados. Vou permitir que você̂ tenha visitas, mas apenas por curtos períodos de tempo, e você precisa garantir que não se esforçará demais. — é o que me responde, Isabella parece concordar com ele.
— Amberli, você está se recuperando bem e apesar de ainda precisar preservar sua garganta e cordas vocais, — Isabella deu sua opinião também — acho que podemos permitir visitas em breve. — ponderou olhando para Carlisle, que sorri consentindo com ela e meu coração dispara de excitação.
"Mesmo? Quem... quem pode me visitar?" Me inquietei na cama, contorcendo-me de vontade de falar. Carlisle ri.
— Apenas uma palavra. — ele concedeu.
— Quem? — mais que depressa o som chiou pelos meus lábios. Ele e Isabella se entreolham e é ela quem me responde:
— Bem, acho que podemos começar com alguém especial. Quem você̂ gostaria de ver primeiro? — me deu a possibilidade da escolha.
Sinto um sorriso alargar meus lábios e uma alegria se espalha por meu rosto em forma de agradecimento. Senti meu coração bater forte e rápido, como se quisesse escapar do peito. Meus pensamentos se embaralham, e a mente se enche de imagens e lembranças daquela pessoa.
— Cole. — sem hesitar respondo, minha voz quase um sussurro. Eu havia estado pensando nele desde que saiu do escritório, e eu estava ansiosa para vê-lo novamente.
— Eu vou verificar se ele está por perto. Se estiver, eu vou mandá-lo entrar. — Isabella falou já se preparando para sair.
Carlisle se dispôs a avisar-me quando Cole estivesse na porta, e não demoramos muito para recebê-lo. Carlisle abriu a porta, permitindo sua passagem e quando Cole entrou, eu senti um arrepio percorrer o meu corpo. Ele parecia diferente, mais intenso, mais emocionado. Seu olhar se fixou em mim, e eu senti como se ele estivesse me devorando com aqueles olhos claros.
Meu coração batia forte no peito, e eu podia sentir a emoção que ele transmitia. Eu não sabia por que, mas eu me sentia atraída por ele de uma maneira que eu não entendia; ele era tão forte e seguro, tão calmo e gentil. E quando ele olhou para mim, eu senti como se ele pudesse ver direto no meu coração.
Eu tentei chamá-lo, convidar para que não se detivesse ali, então fiz um gesto com a mão, pedindo para que Cole se aproximasse mais.
Ele se aproximou da cama, seu passo lento e cuidadoso, como se não quisesse assustar-me. Eu o observei, meu olhar fixo nele, enquanto ele se sentava ao lado da cama com seu olhar fixo nos meus olhos, e eu pude ver a emoção em seu rosto, a saudade, a alegria e o alívio que ele sentia em me ver acordada e viva.
Ele pegou minha mão com carinho, envolvendo na sua. Eu senti um calor percorrer meu corpo, e minha emoção começou a transbordar. Abaixei o rosto para que ele não visse, sentindo o desejo intenso de dizer algo, mas minha voz não sai.
— Amberli... — ele sussurrou, sua voz trêmula de emoção de uma maneira que jamais imaginei ouvir — Eu estive tão assustado, sem direção. Eu pensei que eu havia perdido você.
Eu olhei para ele, senti um nó na garganta ao ouvir suas palavras, meus olhos cheios de lágrimas, e tentei falar novamente, mas minha voz não saiu. Em vez disso, apenas olhava para ele, meus olhos buscando os seus e vi lágrimas brilhando na borda de seus olhos, deixando a cor verde ainda mais predominante e intensa. Fiz um gesto com a mão, como se estivesse pedindo para que Cole me abraçasse. Ele não hesitou. Ele me abraçou forte, e eu me aninhei em seu peito, minhas lágrimas escorrendo pelo rosto dele.
Nós ficamos assim por um tempo, abraçados e chorando juntos. Eu podia sentir a emoção de Cole, a alegria e o alívio de me ter de volta. E eu sentia a mesma coisa. Eu estou viva, minhas filhas estão bem, eu estou com ele, e eu me sinto completa.
Cole me segura mais forte, e sinto seu calor febril se espalhando por meu corpo. Começo a me sentir mais viva, mais consciente. Abro os olhos, e o vejo olhando para mim com um olhar cheio de amor e preocupação.
— Amberli? — ele sussurra, sua voz trêmula de emoção — Você está aqui? Você está comigo?
— Eu estou aqui. — me esforço para responder, minha voz fraca, rouca, mas cheia de emoção — Eu estou aqui, Cole.
Ele sorriu, suspirou deixando-me perceber um alívio profundo. Ele se inclinou para frente, beijando minha mão, e eu senti um calor no peito. Sinto um choro subindo pela minha garganta mais uma vez, e Cole me abraça mais forte. Eu choro, soluçando, enquanto ele me segura, me confortando.
— Eu estou aqui para você. — ele disse acariciando meus cabelos — Eu sempre estarei aqui para você.
— Obrigada por vir. — eu disse, minha voz fraca, mas sincera. Afastei-me um pouco para poder ver seu rosto.
Ele sorriu, seu olhar fixo nos meus olhos.
— Eu não poderia deixar de vir. — ele disse, sua voz baixa — Como você está se sentindo?
Eu hesitei por um momento, antes de responder.
— Estou... melhor. — eu disse, minha voz ainda fraca — Não posso falar muito, mas a dor está diminuindo, e eu estou começando a me sentir mais... normal.
Ele assentiu, seu olhar fixo nos meus.
— Isso é ótimo. — ele disse — Eu estou feliz em saber que você está se sentindo melhor.
Dei um sorriso para ele, meus olhos brilhando com uma mistura de emoções. Eu senti um arrepio percorrer o meu corpo ao ouvir suas palavras. Eu sabia que ele estava falando sério, que ele estava comprometido em me proteger, cuidar. E eu senti um sentimento de segurança, de confiança, que eu nunca havia sentido antes.
— Eu estou feliz em ver você. — eu disse, minha voz ainda fraca, mas sincera.
Ele sorriu, e então, ele pegou a minha mão, sua mão grande e quente envolvendo a minha.
— E eu estou feliz em estar aqui com você. — ele disse — E estou aqui para ajudá-la, para apoiá-la, para estar ao seu lado.
Eu senti algo bom percorrer o meu corpo ao sentir o seu toque. Eu não sabia por que, mas eu me sentia cada segundo mais segura com ele, como se ele pudesse proteger-me de qualquer coisa. E eu sabia que eu sentia algo por ele, algo que eu não entendia, mas que eu não podia negar.
➶
O barulho da água era apaziguante, deixava minha mente leve como uma pluma e dava-me vontade de fechar os olhos constantemente. Vê-la caindo tranquila de dentro da torneira, escorrendo fina e transformando-se em uma junto de toda água quente para dentro da banheira, era o que me distraía com frequência e dava-me a impressão de parecer fora do ar, para quem pudesse olhar. Os únicos que tinham livre acesso à verdade dentro de mim, eram Edward e Jasper, deles eu jamais poderia fingir.
— Você gosta do barulho da água, não é? — Rosalie comentou. Não respondi de imediato, deixei que o som da sua voz fosse absorvida pelas paredes por um momento. Eu não precisava erguer meu olhar para o seu rosto maravilhoso para saber que ela me olhava de baixo à cima, observando-me cuidadosamente, disposta a me envolver em mais uma conversa, da qual eu não garantiria dar-lhe a atenção que gostaria. Respirei fundo quando elevei meu olhar para ela... Eu ainda não me acostumei com a suprema beleza celeste que ela possui.
— É satisfatório... — foi a única coisa que elaborei para dizer. Apreciei minha voz ecoar pelo azulejo do banheiro, é bom ouvir minha voz voltando ao seu tom saudável.
Fiquei tantos dias incapaz e sem voz, frágil de tantas formas inimagináveis e terríveis, que tudo era novo de novo e não tenho ousadia para querer ir além. Estava respeitando todos os meus limites, pois a qualquer momento eu temo pelo pior, mesmo que eu não saiba o que possa ser, ou quando pode acontecer.
Esse era é meu terceiro banho neste dia. Eu havia cochilado após o almoço, porém um pesadelo do qual eu não me lembro, me fez acordar trêmula e suando frio e não havia ninguém da família naquele horário que pudesse saber com o que eu havia sonhado.
Minhas pálpebras moveram-se letargicamente quando percebi que precisava piscá-las, passeei meus olhos para o ambiente ao meu redor, e encontrei o olhar dourado de Rosalie novamente, a maneira como seus olhos se franziam no canto externo dava-lhe um olhar cheio de preocupação. Eu sei o quanto ela se sente responsável por mim. Às vezes isso me perturba, causando-me um desespero aflito.
Talvez eu esteja um pouco paranoica, minha mente continha um sussurro invasivo que parecia influenciar negativamente minha maneira de absorver as situações silenciosas ao meu redor...
— Você pode me deixar sozinha por alguns minutos, Rose? — desviei meu olhar, fixando minha visão no fio de água quente que continuava a escorrer para fora da torneira. Estendi minha mão para desligar o registro de vez, encerrando o som tranquilo, permitindo que o silêncio predominasse.
— Você... — ela suspirou e cruzou os braços, recusando meu pedido — Por que está fazendo isso com você mesma?
— Eu só quero alguns minutos sozinha. — insisti, voltando meus olhos para a água.
— E eu sei, — consentiu — para chorar. — pontuou com exatidão. Ela tinha razão e não estava disposta a mascarar.
— Sim, e sei que pode me ouvir mesmo que esteja no jardim dos fundos. — olhei-a aborrecida por debaixo dos cílios — E mesmo que eu saiba que possam me ouvir, eu só quero fazer isso sem que eu possa te ver nesse momento. Sozinha mesmo, por quinze minutos. É pedir muito?
— Tudo bem. — cedeu resignada, suas mãos batendo em suas coxas — Mas se Jasper chegar antes disso, nenhuma palavra sua vai me impedir de te tirar daí. — sentenciou caminhando para fora do banheiro, deixando-me sozinha.
Fiquei imóvel dentro da banheira, esperando os segundos necessários que levariam para ela sair do quarto também. Engoli em seco, sentindo a primeira lágrima transbordar para fora do limite da minha pálpebra.
Estou tão perdida e confusa. O que deveria ser um momento de alegria e felicidade se tornou uma fonte de dor e angústia, não é como eu sempre idealizei que fosse acontecer. Havia algo insistente sempre martelando na minha mente que meu bebê é fruto de um ato violento, de um estupro que me deixou marcada para sempre.
Eu comecei a sentir tanta raiva e frustração. Não consigo aceitar que isso tenha acontecido comigo. E agora, tenho que lidar com as consequências. Meu bebê é inocente, mas eu não consigo separar a realidade da minha situação. Eu me sinto dividida entre o amor que sinto por ela e a raiva e o ódio que sinto pelo que aconteceu, pelo o que me fez vir até Forks. E não sei como lidar com esses sentimentos. Eu me sinto como se estivesse sendo puxada em duas direções opostas. Uma parte de mim quer abraçar Helena e amá-la incondicionalmente, enquanto outra parte de mim quer rejeitá-la, como se ele fosse uma lembrança constante do que aconteceu.
Isso fez eu me sentir tão isolada e sozinha. Eu não soube como compartilhar meus sentimentos com alguém. Tive medo de ser julgada, de ser vista como uma péssima mãe. Eu tenho medo de que eles pensem que eu sou fraca, que eu não sou capaz de lidar com a situação, exatamente como minha ex-sogra acusava quando Angie foi internada para nunca mais voltar. Eu não queria ser acusada daquela maneira outra vez, e meus pensamentos já estavam acusatórios o suficiente para me ver à beira de declínios.
Cole tem tentado me visitar, mas teve poucas vezes que eu quis vê-lo desde então. Eu não permitia que ninguém da família Cullen o permitisse subir, nem mesmo Nessie. Meu coração se rasgava ao meio cada vez que eu lhes dizia “Não quero ver ninguém!”. Eu sei que Cole quer ajudar, mas eu não sei se estou pronta para realmente aceitar sua ajuda, e ao mesmo tempo, eu sinto uma dor profunda por estar me afastando dele, só que Eu não quero que ele me veja assim, não quero que ele saiba como eu estou me sentindo. Eu tenho medo de que ele me julgue, de que ele pense que eu sou fraca.
Eu me lembro de como Cole sempre me olhava com carinho e admiração. Ele sempre me fazia sentir como se eu fosse a única pessoa no mundo. Mas agora, eu me sinto como se estivesse perdendo essa conexão com ele. Eu me sinto como se estivesse me afastando dele, e isso dói.
Eu me sinto como se estivesse em um labirinto, sem saída, havia momentos em que eu só quero ficar sozinha com Hilary e tentar processar tudo isso, mesmo que eu não saiba como encontrar o caminho para sair dessa situação por conta própria.
Chorei todas as lágrimas que aqueles minutos sozinha me permitisse, Jasper ainda não estava ali para que eu me sentisse um pouco melhor, então de uma maneira contraditória eu estava acupando meu tempo e espaço para tentar entender o que está acontecendo comigo. E, talvez, um dia eu possa aprender a amar minha filha sem assimilá-la à tanta dor e raiva.
Rosalie cumpriu suas palavras, deixou-me chorar até Jasper chegar, doze minutos após sua saída. Não resisti ao seu toque gelado de me tirar dentro da banheira, vestir-me da maneira mais facilitada o possível na minha condição de paciente e deixar-me acomodada sobre a maca com o rosto vermelho e inchado enquanto havia alguns litros de água para repor em meu corpo. Manter-me hidratada era um dever diário.
Aos poucos meu humor foi relativamente se animando. E percebi que meu olhar estava mais alegre e tranquilo, sem aquela descarga de sensações ruins me rondando, o que me fez relaxar e curtir a vista do tempo tranquilo que a floresta lá fora estava.
À medida que o tempo ia passando, eu comecei sim a ter uma sensação de conquista e progresso físico. Estava respirando melhor e minha garganta está se sentindo mais confortável. Sinto-me mais independente e mais confiante em minha capacidade de respirar sem a ajuda do pequeno tubo, e a comer e falar com a ajuda das infinitas fisioterapias dadas por Edward.
Isabella e Carlisle cumpriam sua promessa, estavam ao meu lado, me encorajavam a realizar os exercícios respiratórios para fortalecer os pulmões e melhorar a oxigenação que Edward deixava como um dever de casa. Confesso que sinto que cada respiração longa e profunda era um pequeno triunfo. Com o passar das noites e dias, comecei a sentir mais energia e vontade de me mover, isso os animaram e me pediam para caminhar um pouco, mas eu estava muito instável e em cada caminhada tinha que me apoiar neles. A sensação de recuperação foi se intensificando, e eu comecei a redescobrir pequenas coisas do dia a dia que antes eram normais, mas que agora pareciam altamente valiosas.
Em contrapartida, para esmorecer meu coração e me fazer desacreditar da esperança, cada vez que eu precisava encarar Helena, vinha uma mistura de sentimentos: culpa, raiva, ódio, amor. Sinto como se estivesse olhando para um lembrete constante daquela noite terrível, eu posso não me lembrar do que aconteceu, mas ela é uma parte dele, uma parte daquela coisa que me fez tanto mal. Jasper era uma companhia essencial nesses momentos, principalmente quando sinto-me como se estivesse afundando em um oceano de lágrimas, presa em um pesadelo do qual não posso acordar.
Não foi apenas por um dia que estive assim, e às vezes me acontecia mais do que eu gostaria em apenas um dia. Era inevitável e sorrateiro; um olhar, um pensamento obscuro e um amargor cobria a minha mente e vinham as lágrimas...
A primeira vez que isso me aconteceu eu estava sentada na maca, olhando para a porta tendo uma descarga de medo e ansiedade. Sabia que logo Isabella iria trazer Helena, para a visita diária e pela primeira vez eu me senti incapaz de fazer isso. Não tinha certezas de que conseguiria olhar para ela, pois estava me sentindo presa em uma situação que não escolhi, que foi imposta por alguém que me violentou. Eu não me lembro da noite do estupro, mas sei que carrego a dor, a humilhação. E agora, aqui estava eu, com uma criança que é resultado daquela violência, me sentindo como se estivesse carregando o peso daquela experiência traumática todos os dias.
O som da porta permitindo a entrada de alguém me faz pular sobre o colchão da maca, e senti meu corpo gelar quando vejo Bella entrar no local com Helena nos braços. Sinto um nó na garganta e meu corpo rende-se aos tremores que antecedem a uma crise de choro.
Minha reação parece estranha aos olhos de Isabella, pois ela não hesitou de avançar seus passos para perto, e eu me vi sem escolhas, tive que virar meu rosto na direção oposta para que meus olhos não pudessem fraquejar.
— Não consigo... — solucei ante o choro. Minhas pálpebras se apertavam com força — Não consigo fazer isso.
— Amberli, — Isabella chamou suavemente — é importante que você passe tempo com Helena. Sua filha precisa de você. — justificou — Veja como ela está quietinha, esperando por você. — suas palavras fizeram com que meu choro ficasse mais alto e havia uma dor que rasgava meu peito. Eu estava com muito medo.
— Não posso... não posso olhar para ela, Bella. — chorei — Ela é... ela é uma lembrança do que aconteceu. — contei-lhe minha ferida. O som baixo que escapou de seus lábios por debaixo do meu choro me soou compreensivo.
— Eu sei que isso é difícil para você, Amberli. — suspirou — Mas Helena não é responsável pelo que aconteceu. Ela é uma criança inocente que precisa da sua atenção e cuidado.
— Eu sei... eu sei que isso é verdade. — a dor passava por cima de mim. Eu bem sei o quanto somos inocentes — Mas não consigo... Agora que ela está aqui comigo... Eu não sei como ser mãe dessa criança... dessa criança que... que... Não consigo superar isso. — sinto-me completamente desamparada — Não consigo mais lidar com isso. Não consigo mais ser forte.
— Você é forte Amberli, o que te custaria tentar? — Isabella insistiu — Já fez isso antes, lembra-se? Não permita que sua fraqueza te desprenda da fortaleza que têm sido para sua filha. Ela te esperou por tantos dias... — deu uma pausa — Posso pô-la em seus braços?
Não consegui recusar, movi meus braços para que ela encaixasse Helena ali. Arquejei quando senti seu calor e peso, meus olhos se encharcaram por debaixo das pálpebras fechadas e meu tórax tremeu ante o choro.
— Vamos, abra seus olhos. — ela me incentivou — Permita-se...
Cedi ao seu pedido, minha respiração acelerada mostrava o quanto eu temia, e receosa eu virei meu rosto pra olhar para a criança, entre um soluço choroso e outro eu engoli seco, sentindo a mistura de emoções: dor, culpa, raiva e, por fim, um pouco de amor. Eu nunca deixei de nutrir amor por esse serzinho dorminhoco. Meus olhos foram rudemente minuciosos em estudar o rostinho dela, procurando por algum traço mínimo sequer que me faça lembrar-me de eu mesma. Mas não há nada. A menina tem os olhos azuis mais claros que eu já vi na vida, cabelos escuros e uma pele de tom muito mais claro que o meu. Ela não se parece comigo, nem com Hilary.
Algo doeu dentro de mim com aquela acusação silenciosa, e uma vertente de mim parecia sussurrar minhas temerosas convicções de que não havia nada que a faça ser minha.
As lágrimas escaparam de meus olhos e desciam pelo meu rosto. Uma gota pingou do alto da minha bochecha caindo sobre o queixinho de Helena. Ela, por sua vez, vidrou seus olhos claríssimos nos meus e me fez contemplar o seu rostinho por completo, os lábios gordinhos comportava uma boca cheia de dentinhos. Sua feição pura e amorosa estremeceu muito dentro de mim.
— Eu sinto muito, Helena. — chorei sobre seu rosto — Eu sinto muito por não estar sendo a mãe que você merece... — olho para a Helena, e sinto-me culpada por acreditar não conseguir amá-la como deveria.
O peso esmagador de sentir como se estivesse falhando como mãe, como se não estivesse preparada para cuidar daquela criança era devastadora. Meu choro ante a dor foi tão alto e descontrolado que Bella não teve opção a não ser tomar Helena para si mais uma vez. Foi bondoso da sua parte mantê-la próxima de mim, mesmo quando eu ocupei minhas mãos para cobrir meu rosto enquanto eu chorava copiosamente. Naquele momento eu me senti tão confusa, tão perdida, e tão sozinha. Eu não soube como lidar com esses sentimentos, como superar a dor e a raiva, e me senti desmoronar quando Helena se agitou nos braços de Isabella começando a chorar também, como se sentisse a minha dor e a angústia que me acometia. Me senti ainda mais culpada e tendo compaixão, estendi meus braços para ela, abraçando-a com força, sentindo-me completamente perdida.
Foi então que ouviu um toque na porta. Isabella permitiu a entrada, eu pude ver que era Jasper, que havia sido uma rocha para mim, durante os momentos difíceis. Ele se aproximou, sentou-se ao meu lado na maca e envolveu-me com suas palavras.
— Amberli, você não está sozinha. Você tem muitas pessoas que se importam com você. — afirmava ele, sua voz cheia de compaixão — Vamos, preciso que veja, Amberli — pediu por atenção — sua filha não é uma lembrança do que aconteceu. Ela é uma nova vida, um novo começo. E você é uma mãe incrível, capaz de dar amor e cuidado a ela, mesmo em meio à dor.
Naquele momento, me senti como se estivesse em um ciclo vicioso de dor e culpa, vulnerável sem saber como escapar por todos aqueles dias. Mas, ao mesmo tempo, com as palavras de Jasper, senti um peso sair dos meus ombros, vindo com a determinação de encontrar uma maneira de superar isso, de ser uma boa mãe para a criança, apesar de tudo. A Helena não era uma culpa, mas uma bênção.
Eu soube que ainda tinha um longo caminho a percorrer, mas com a ajuda de Jasper, eu senti que podia começar a aceitar a pequena, e a me encontrar novamente.
E com a ajuda dele, nos últimos dias comecei a tentar ver a situação de uma forma diferente. Isso não foi capaz de impedir meu subconsciente, já que a cena tem se repetido por quase todos os dias comigo chorando cada vez que Helena é trazida para a visita. É extremamente cansativo, doloroso e sinto uma onda de tristeza e confusão constante. Não saber quem é o progenitor de Helena, não saber o motivo dela ter sido fecundada. Tudo o que tem nublado meus pensamentos e amarga minhas convicções é que Helena é uma lembrança constante do que aconteceu comigo e a responsabilidade de cuidar de uma criança fruto dessa violência podre de natureza macabra era quase insuportável. Sinto-me presa em um ciclo de raiva, culpa e tristeza, sem saber como escapar. O choro é um escape da realidade, uma maneira de lidar com as emoções que perturbam a minha mente e eu não consigo controlar. Mas, aos poucos, com a ajuda constante e intensa de Jasper, minha mente começou a se dar conta de que Helena não é a causa do meu sofrimento, e que ela precisa encontrar uma maneira de superar esse lapso, para me conectar com minha filha. Não tem sido fácil, mas cada etapa me trás para mais perto da minha antiga rotina e isso me enche de esperanças.
— Amberli, o que está acontecendo? — perguntou ele, notando minha expressão e o que eu sentia. Ele passou a acompanhar todas as visitas que envolvia eu e Helena juntas.
— Eu não sei, Jasper. — balancei a cabeça — Eu apenas me sinto... perdida. Eu não me lembro de... de como ela foi concebida... — minha voz tremia sempre que eu insistia nesse assunto.
— Amberli, vou dizer mais uma vez para você. Você não precisa se lembrar. — foi direto — O que importa é que você está aqui agora, e que você tem uma filha linda que precisa do seu amor e cuidado.
Elevei meus olhos para olhá-lo, as insistentes lágrimas logo surgiam para embaçar minha visão e me deixar ainda mais vulnerável.
— Mas por que eu não me lembro? Por que meu cérebro não me deixa lembrar? — eu não entendia completamente os motivos disso revirar minha cabeça, e era inevitável deixar de falar. Ouvi Jasper suspirar.
—Às vezes, nosso cérebro faz coisas para nos proteger..., e você sabe que isso pode ter acontecido por outros meios. — deixou vago a possibilidade da hipótese de Bella — É melhor para você não se lembrar do que aconteceu. O importante é que você está segura agora, e que você tem uma chance de criar uma vida feliz para si e para sua filha.
Desci meu olhar para a Helena, que dormia em meu colo. Senti uma onda de gratidão aflorar por Jasper, que estava ali para ajudar-me a superar meus sentimentos de medo, culpa e confusão. Com a ajuda dele, consigo a ver a situação de uma forma diferente, a encontrar forças para seguir em frente e a construir um futuro melhor para mim e para minhas filhas.
— Amberli, vamos retomar alguns tópicos conversados nas visitas anteriores. Você pode começar a se ajudar a aceitar a criança, fazendo pequenas coisas. — deu continuidade à sessão — Você pode começar a se conectar com ela, a se sentir mãe dela. Você pode começar a ver a beleza nela, a ver a vida que ela traz para você.
Ergui meu olhar para ele, e então para a Helena. Ficamos algum tempo em silêncio enquanto suas palavras eram absorvidas para dentro de mim. Senti um pequeno sorriso se formar em seu rosto.
— Sim. — digo, a voz suave — Eu posso fazer isso. Eu posso começar a me conectar mais com ela, mesmo que não seja parecida comigo, e que não tenha sido minha escolha. — Jasper assente, satisfeito.
— Eu estou aqui para você, Amberli. E para a Helena também. Nós vamos fazer isso juntos. — cada vez que Jasper me dá essa afirmação, sinto um peso sair de meus ombros — A aparência física não é o que importa. O que importa é o amor e o cuidado que você pode dar à Helena. Você pode ser uma mãe incrível para ela, independentemente de como ela se parece. — eu olho para Helena novamente — Você não precisa escolher ser mãe de Helena. Você já é mãe dela. E você pode ser uma mãe incrível para ela, não se importe como ela foi concebida.
— Como posso aprender a amá-la? Como posso aprender a aceitá-la como minha filha? — sussurrava para mim mesma cavando fundo em minhas convicções, procurando as respostas — Eu estou com medo. — falei para Jasper, era uma verdade — Eu tenho medo de amá-la... — confessei olhando-a e vejo algo que me faz parar. Vejo a inocência, a pureza, a vulnerabilidade, como se mais uma vez eu a visse pela primeira vez. Sob uma nova perspectiva, vejo uma bebê que não tem culpa alguma pelo que nos aconteceu.
— Amberli, o amor não é algo que você precisa aprender. — diz ele chamando minha atenção — O amor é algo que você já tem dentro de si. Você apenas precisa permitir que ele saia. Aceite amá-la. — eu olho para ela, sentindo-me um pouco mais esperançosa.
"Talvez", penso, eu possa começar a aceitá-la se eu parar de ver ela como uma personificação do estupro. Talvez eu possa começar a amá-la se eu começar a ver ela como uma criança, como a minha filha, que precisa do meu amor e do meu cuidado.
Algo assombroso quis soprar que “Parece uma tarefa impossível”, mas talvez seja o primeiro passo. Talvez eu possa começar a aceitá-la se eu começar a ver ela como uma parte de mim, como uma parte da minha história, trazendo à memória que ela nunca deixou de ser o pequeno serzinho dorminhoco que estava protegido debaixo da minha pele esticada cheia de hematomas. Talvez eu possa começar a amá-la se eu começar a ver ela como uma oportunidade para curar, para sanar as feridas do passado. Toquei seu rostinho delicado, sereno e adormecido com carinho.
— Deseja compartilhar algo? — Jasper se inclinou curioso com meu silêncio. E não era pra menos, parecia que eu estava hipnotizada, encarando Helena em seu sono tranquilo, totalmente confortável em meus braços. Meu coração doeu em perceber que mesmo em minhas crises, Helena nunca se afastou de mim, e pela primeira vez eu sinto um arrepio de amor e gratidão por ela. Balancei a cabeça num sim.
— Eu vou tentar! — segredei erguendo meu olhar para os seus — Vou tentar amá-la, aceitá-la, e cuidar dela. Vou tentar ser a mãe que ela merece, mesmo que isso signifique enfrentar meus próprios medos e crises.
— Isso é animador, Amberli. Estou aqui para te ajudar, o que mais se esforçará para tentar? — me instigou a planejar.
— Vou começar a criar memórias felizes com ela. — havia verdade em cada palavra — Vou começar a criar um vínculo forte e saudável com ela. Vou mostrar a ela que o amor e o cuidado podem ser reais, mesmo em meio à dor e à tristeza, pois eu vivi isso.
Parece que estou começando a encontrar um propósito, um sentido para a minha vida como mãe de uma híbrida.
— Vou aprender a lidar com as minhas emoções, a gerenciar o estresse e a encontrar maneiras saudáveis de lidar com a dor. Você irá me ajudar?
— Sempre que você precisar. — Jasper garantiu.
Assenti, confiando em sua palavra. Estou começando a sentir uma sensação de esperança se renovando; de que posso superar isso, de que posso ser uma boa mãe para a minha filha mais nova. Estou começando a aceitar que a vida desse lado do país não é fácil, mas que posso encontrar maneiras de torná-la mais fácil, mais feliz.
— Jasper, eu vou amá-la! — afirmo com convicção e emoção — Vou amá-la com todo o meu coração, com toda a minha alma. Vou mostrar a ela que o amor é real, que o amor é possível em todas as formas que eu puder demonstrar.
— Eu sei que vai, eu vou te ajudar. Você nunca a deixou de amar.
➶
Em uma das noites passadas, ainda quando não conseguia respirar tão bem quanto agora, eu pedi para voltar ao meu quarto, porém com a maneira conturbada emocionalmente de maneira intensa e persistente me afetou profundamente, o melhor seria continuar num lugar onde seria mais fácil de me monitorar. Mas agora, talvez a mudança de ambiente pudesse melhorar meus ânimos e expectativas, e tornei a pedir mais uma vez e cá estou eu, sentada confortavelmente sobre a cama de casal do quarto que eu costumava dormir com Hilary.
Apesar de seu berço não estar mais por aqui, assim como a presença dela durante as minhas noites de sono, a família mantinha o ambiente confortável e tranquilo, onde posso relaxar. Olhei para o relógio na mesa de cabeceira, estava se aproximando a hora de eu coletar meu leite, então já era melhor eu começar os estímulos.
Estiquei-me para pegar o coletor, começo a desabotoar as primeiras casas de botões da peça de linho que estou vestindo, coloco uma mão sobre meu seio esquerdo e, com a outra, faço uma leve pressão para estimular a saída do leite, não era de imediato, mas eu fazia a manobra calmamente todos os dias. A sensação é sempre um pouco incomum, mas logo me acostumo. Com o tempo aprendi a reconhecer meu corpo e encontrar a melhor técnica para mim; a conexão emocional também é forte nesses momentos; ao iniciar a retirada do leite, sinto que estou fazendo algo especial para a bebê, garantindo que tenha a nutrição que precisa, mesmo que não estejamos juntas. Às vezes sinto um leve formigamento, como se meu corpo estivesse respondendo ao ato de amamentar, e o leite começa a fluir, com paciência e estímulo vejo que de gota a gota, a demanda aumenta, é gratificante ver como ele se acumula rápido no recipiente.
Eu ainda não entendo completamente o que aconteceu com meu corpo durante e após a gravidez da Helena. Mas o que eu sei é Carlisle e os outros se aprofundaram em estudos para terem a conclusão inicial de que meu corpo parece ter desenvolvido uma adaptação especial para produzir um leite que seja compatível com as necessidades nutricionais da minha filha.
Carlisle acha que isso tem algo a ver com a presença do embrião vampiro-humano dentro de mim, que cresceu saudável e não absorvendo toda minha força vital. Meu corpo parece ter respondido de uma maneira que nem eu, e nem ele poderia ter imaginado, com minha saúde preservada, meu corpo foi produzindo hormônios e nutrientes necessários para a sobrevivência da Helena por indução da placenta e Carlisle apontou o fato de que há a grande possibilidade do bebê híbrido só aceitar o leite da mãe biológica, pois é gerado através do próprio sangue dela; Isabella acrescentou também que na maioria das vezes, a mãe sempre acaba falecendo até mesmo antes do nascimento do bebê híbrido, por isso eles não bebem leite de outras fontes ou mulheres, o sangue presente no leite maternal de outra mulher não é compatível com o que o recém-nascido híbrido está acostumado desde que esteve dentro da mãe, mesmo que ela, no caso, eu, tenha ingerido sangue pertencente a outro humano. E detalhou a lembrança de que o primeiro movimento instintivo da Nessie foi tentar amamentar.
Mas o que é ainda mais estranho para mim, é ver a preferência de Helena pelo sangue também. Eu não permiti receber explicações que fariam minha mente se emaranhar em delírios, o que me fez não entender nada claramente além do necessário, mas eu acho que isso tem forte influência do instinto vampírico que ela herdou de sua outra..., parte.
Respirei fundo, suspirando; eu estou ainda tentando entender tudo isso, é um desafio para mim. Mas da minha parte, o que eu sei é que farei tudo o que for necessário para garantir a saúde e bem estar da Helena, mesmo que isso signifique continuar lidando com coisas que eu não entendo completamente.
Mirei meus olhos para a próxima gota de leite que saía tranquila pelo bico do meu peito, e não resisti de suspirar mais uma vez. Eu viveria por muitos anos sem entender muitas coisas daqui pra frente.
Fale com o autor