Sempre ao seu Lado
57 𝟎𝟓 𝐝𝐞 𝐃𝐞𝐳𝐞𝐦𝐛𝐫𝐨 ➹

Sempre ao Seu Lado
Capítulo 53
Acordei com o som da chuva, ou pelo menos, o que eu pensei ser chuva.
O som era mais suave, menos ritmado. Antes mesmo de abrir os olhos, senti que a atmosfera havia mudado durante a madrugada. O frio parecia mais denso, pesado; virei o rosto no travesseiro e, por um breve instante, deixei-me saborear o conforto do edredom que ainda conservava o calor da noite. Mas algo em mim pedia para ver.
Abri os olhos lentamente e percebi o quarto banhado por uma luz branca e difusa, que passava através da cortina translúcida. Não era a claridade comum das manhãs chuvosas de Forks. Era um brilho novo, refletia diferente. Me sentei, envolvendo os ombros com a manta, e caminhei até a janela. Assim que toquei a cortina, meu coração se acelerou. O vidro estava embaçado pelo contraste da temperatura, aproximei-me da janela e encostei a mão no vidro. Estava gelado, mas suportável e quando desenhei um pequeno círculo com a ponta do dedo, a visão me arrancou um suspiro.
O cinza habitual do céu parecia ter se transformado em algo mais leve… quase branco. Por um instante, achei que era apenas neblina. Mas então vi pequenos flocos descendo devagar, como se o ar tivesse decidido descansar em forma de algodão.
Era a primeira neve do ano.
As árvores do bosque que rodeia a casa estavam cobertas por uma película pálida, fina, quase transparente, galhos das árvores pareciam rendas, delicadamente bordadas de branco e o chão começava a ganhar manchas brancas que se misturavam à grama húmida, até a entrada de cascalho tinham sido tocados pelo mesmo manto silencioso. A primeira neve havia chegado a Forks. O mundo parecia outro agora. Até o som da floresta, sempre tão presente, se calara. O frio de Forks sempre teve algo de... familiar. Ele me lembrava de que eu ainda estava aqui. Ainda viva. Cole me disse, dias atrás, que talvez nevasse cedo este ano. Sorri sem querer ao lembrar do modo como ele falou, como se a neve fosse uma velha amiga que estava prestes a voltar. E talvez fosse mesmo.
Lá fora, os flocos continuavam a cair, lentos e serenos, até se dissolverem na terra encharcada. Tudo parecia suspenso entre o céu e o chão. Entre o antes e o depois.
Me peguei pensando que também ficava constantemente assim; suspensa, entre o que fui e o que ainda estou aprendendo a ser. Por um momento, senti algo como nostalgia e surpresa misturadas fazia tanto tempo desde Casper, desde os invernos na infância, em que eu esperava a primeira nevasca para tentar pegar os flocos com a língua, rindo com as mãos frias. Essa lembrança veio leve, mas cheia de saudade.
Encostei a testa no vidro gelado e deixei o ar escapar entre os lábios, formando um sopro que se condensou à frente. “Bem-vindo, inverno”, murmurei para mim mesma.
O frio me acompanhou até o banheiro, como se tivesse se agarrado à pele. Acendi a luz e me encarei no espelho iluminado por alguns segundos antes de me aproximar. A mulher refletida ali não era a mesma que havia deixado Casper, nem a que acordou de um coma meses atrás. Notei o contorno da cintura, o desenho dos ombros, a nova firmeza do abdômen. Antes, meu corpo carregava o cansaço e o peso de duas gestações anteriores, a barriguinha que restou após o nascimento da Hilary, o inchaço que o tempo e o estresse não perdoavam. Mas agora, era diferente. Jasper havia insistido que o movimento ajudaria na reconstrução não só física, mas emocional. E ele estava certo. Os treinos com e sem ele, equilibrados, pacientes, às vezes até engraçados haviam restaurado não só a forma, mas a sensação de domínio sobre mim mesma.
Passei os dedos pelo abdômen e senti a pele firme sob a ponta deles. “Você está voltando, até melhor”, pensei, quase em voz alta. A cada semana, as caminhadas pela floresta quando alguém queria conversar a sós comigo sem tantos ouvidos ao redor, as sessões leves de meditação e o fortalecimento guiado por Jasper haviam devolvido um tipo de confiança que eu achava perdida.
Inclinei o rosto, observando também as olheiras quase apagadas, os lábios ainda marcados pelo frio da noite. Havia algo novo no meu olhar a cada manhã rompida, uma lucidez serena, talvez. Abri o chuveiro e esperei a água ganhar temperatura. O vapor começou a se espalhar, desenhando arabescos no espelho e trazendo aquele perfume metálico e limpo que antecede o banho.
Tirei o pijama devagar, deixando o ar frio envolver meu corpo nu por alguns segundos, aquele choque sutil que fazia a pele arrepiar e os sentidos despertarem. Entrei sob o jato quente, e a primeira onda de calor me fez fechar os olhos. A sensação era quase hipnótica, a água escorrendo pelos ombros, descendo pela coluna, misturando-se com a respiração que se tornava mais profunda. Peguei o shampoo, o de sempre, Aveda Rosemary Mint, com aquele aroma herbáceo e fresco que lembrava clareiras úmidas de floresta. Massageei o couro cabeludo e senti a espuma leve se espalhar, trazendo uma sensação de limpeza que parecia atravessar também os pensamentos. Em seguida, usei o body wash da Bath & Body Works, o Eucalyptus & Spearmint Stress Relief. O aroma invadiu o box como um abraço morno, mentolado, doce, reconfortante. A espuma escorregava pela pele, e eu a acompanhava com as mãos, como se quisesse lembrar a mim mesma que ainda estava inteira. Por fim, deixei a água correr por mais um instante, como se lavasse os resquícios das noites passadas, das dúvidas, das lembranças que às vezes ainda vinham à tona. Quando fechei o chuveiro, o som cessou de repente, o mesmo silêncio branco da manhã de neve me cercou de novo. Enrolei-me na toalha felpuda e respirei fundo, sentindo o perfume suave do sabonete e o frio que tentava entrar pelas frestas da janela. Era o início do inverno, e eu me sentia viva, um bom novo dia para viver.
O vapor ainda dançava no ar quando caminhei até a porta que ligava o banheiro ao closet e a empurrei, ouvindo o clique leve da dobradiça. Uma nuvem quente escapou para dentro do cômodo, desfazendo-se no frio que esperava do lado de fora. O ar da manhã era cortante; senti-o deslizar pelos tornozelos enquanto prendia a ponta da toalha no corpo. O chão de madeira, ligeiramente gelado, rangeu sob meus pés. A luz branca que vinha da janela ainda tingia tudo com aquele brilho de neve recém-caída. Era uma claridade diferente, suave e ao mesmo opaca. Fui recebida com o cheiro amadeirado dos cabides e o perfume adocicado do amaciante das roupas. As prateleiras estavam bem-organizadas, Esme havia me ajudado a manter tudo por cores e tecidos logo no início da semana, um gesto simples que deixava o espaço quase acolhedor. Aproximei-me do espelho de corpo inteiro. O vapor do banho ainda fazia minha pele brilhar sob a luz difusa. As gotas que escorriam pelo pescoço e pelas clavículas deixavam um rastro frio à medida que se encontravam com o ar gélido. Passei a toalha sobre os cabelos, e o aroma do shampoo, aquele toque de alecrim e hortelã, ainda pairava, misturado à fragrância da loção que eu costumava usar, Vanilla Bean Noel.
Por um momento, fiquei ali parada, apenas observando.
O reflexo mostrava uma mulher diferente daquela que costumava vestir o uniforme do turno da manhã e sair às pressas para o trabalho sabendo que seria desprezada por Quirá. Havia algo novo na minha postura, uma calma, um brilho que eu ainda estava aprendendo a reconhecer.
Estendi a mão até o cabide e toquei um dos suéteres novos, de lã bege, macio ao toque. Escolhi também uma calça jeans escura e um par de meias térmicas. Enquanto me vestia, olhei para a janela que se abria sobre o canto do closet. A neve continuava a cair, lenta e constante, cobrindo o quintal.
Saí do closet já vestida, com o suéter aquecendo o tronco e as meias grossas abafando o toque frio do piso. O quarto me recebeu com aquele mesmo clarão pálido, filtrado pela cortina. Ainda pairava no ar o aroma úmido do vapor que escapara do banheiro, misturado ao perfume discreto de lavanda que Esme deixava pelo ar; às vezes eu ficava em dúvida se o pequeno difusor no canto da mesinha de cabeceira fosse o único responsável pela fragrância da casa inteira.
Parei diante da cama, lençóis brancos, o edredom levemente amassado, o travesseiro ainda com a marca da minha cabeça. Estiquei o tecido com as mãos, alisando as dobras e ajeitando o canto das almofadas até que tudo voltasse ao lugar. Era um gesto corriqueiro, quase automático, mas que me dava uma sensação estranha de paz… como se ao colocar as coisas em ordem ao redor, eu também estivesse colocando algo dentro de mim no eixo. Peguei o copo d’água ainda meio cheio abandonado sobre a cômoda e o levei até o banheiro para descartar a água, depois voltei recolhendo o casaco que havia deixado jogado na poltrona na noite anterior. Dobrei-o com cuidado, o tecido frio e macio entre os dedos. No aparador, reposicionei um porta-retrato, a fotografia que Esme revelara por gentileza, com Helena ainda recém-nascida, envolta em um cobertor branco cor-de-marfim, bem amparada nos braços delicados de Hilary, que vestia uma coroa na cabeça.
Observei aquela imagem por alguns segundos. A expressão da Helena… era calma, mas havia uma intensidade nos olhos que sempre me deixava sem palavras. Azul cristalino, quase impossível de sustentar por muito tempo. E, ao mesmo tempo, doce. Foi impossível não comparar com Hilary.
Suspirei, deixando o corpo sentar-se lentamente na beira da cama. O frio da manhã parecia ter se dissolvido em outro tipo de calafrio, o de lembranças que vinham sem aviso. Pensei em como Hilary estava quando eu a deixei, nas feições ainda infantis, na risada que vinha fácil. E agora, quando a comparava a Helena, mesmo sendo uma híbrida, mesmo crescendo mais rápido que o normal, era difícil não vê-las se encontrando num mesmo ponto. Helena já começava a emparelhar com Hilary… a altura, o contorno do rosto, até o modo de olhar o mundo. Era como ver o tempo se misturando entre as duas.
Passei os dedos pelos cabelos ainda húmidos, tentando domar o arrepio que subiu pela nuca.
— Minhas meninas… — murmurei baixinho, como se o quarto pudesse ouvir.
Havia algo de bonito e dolorido naquela constatação: as duas crescendo, cada uma em sua realidade, mas ambas ligadas a mim por um mesmo fio invisível, o amor que resistia, mesmo quando o tempo, a distância e o sobrenatural tentavam separá-lo. Levantei-me devagar e fui até a janela. Afastei as cortinas com delicadeza. O mundo lá fora estava quase imóvel, coberto de branco. A neve continuava caindo em flocos pequenos, lentos, que pareciam dançar antes de tocar o chão.
Encostei a testa no vidro frio e respirei fundo. O vapor da respiração desenhou um círculo tênue sobre o vidro, dentro dele, o reflexo de uma mulher cansada e, ao mesmo tempo, em reconstrução.
Sorri.
Saí do quarto e o corredor me recebeu com o mesmo ar aromatizado e leve cheiro de madeira encerada. A mansão inteira parecia adormecida, envolta pelo som distante da neve caindo lá fora. A luz do amanhecer filtrava-se pelas janelas altas, tingindo o chão com reflexos azulados.
Caminhei até a porta ao lado, o quarto onde dorme a Hilary. Girei a maçaneta devagar, e o rangido baixo foi o único ruído antes de o coração me amolecer diante da cena.
Ela dormia atravessada no berço, coberta por um edredom com desenhos de ursos e flocos de neve. Um pezinho despontava para fora, e os cabelos castanhos estavam espalhados no travesseiro, cheirando a leite. Aproximei-me devagar, ajoelhando ao lado da cama. A respiração dela era compassada, quente, e um sorrisinho se formava no canto da boca, devia estar tendo um sonho bom.
Toquei de leve a pontinha do nariz dela, e os olhos se abriram, sonolentos.
— Mamãe... — murmurou, a voz arrastada.
— Bom dia, meu amor. — sussurrei, ajeitando a franja dela para o lado — Está nevando lá fora. Quer ver?
Hilary piscou algumas vezes, como se o cérebro ainda estivesse alcançando o que eu dizia. Depois, um brilho curioso apareceu nos olhos dela.
— Ne... ne... neve? — repetiu, tropeçando na palavra, e sorriu — É fria?
— É fria, sim. — respondi, rindo baixo — Mas é bem bonita. Vem, eu te mostro.
Ela se sentou, ainda desajeitada e estendeu os bracinhos para que eu pudesse tirá-la de dentro do berço. Quando a ajudei a pôr os pezinhos no chão o equilíbrio veio fácil, ela já andava com firmeza há alguns meses, o sempre bem confiante. E eu acompanhava em silêncio a cada dia, sua voz saía mais nítida, as palavrinhas saindo cada vez mais completas e certas, o corpo mais coordenado.
Enquanto a segurava pela mão, senti aquele aperto doce no peito: em poucas semanas, minha menina faria dois anos. Dois anos de vida, dois anos de nova alegria na minha vida.
Hilary deu alguns passos até a janela, puxando a cortina com esforço.
— Brrrrr... — ela murmurou, fazendo careta — Tá bran...co!
— Branco de neve. — expliquei, sorrindo — O inverno chegou.
Ela encostou o rostinho no vidro gelado e deixou escapar um “uau!” baixinho tão fofo, ela estava maravilhada. O reflexo dela no vidro, tão pequena diante daquele mundo coberto de branco, fez meu coração se aquietar de um jeito que só a maternidade consegue. Me agachei e abracei-a por trás, apoiando o queixo em seu ombro, e ficamos ali por alguns segundos, vendo o quintal transformado. Quando ela se distraiu tentando soprar o vidro para desenhar, murmurei:
— Você está crescendo tão depressa, meu amor...
— Igual Nena, mamãe? — ela virou o rostinho, ainda sorrindo.
— Igual à sua irmã. — respondi, com um nózinho na garganta — Mas cada uma de um jeitinho só de vocês.
Beijei a bochecha quente dela e a peguei no colo, o corpinho morno se encaixando no meu com facilidade. Acariciei os cabelos, inspirando o cheiro doce que parecia sempre grudar em mim, e saímos do quarto em direção ao de Helena.
O corredor continuava quieto, apenas o som suave da neve batendo na janela. Empurrei a porta seguinte, e o quarto de Helena se revelou na penumbra, cortinas entreabertas, o berço perto da janela, a mobília clara contrastando com a luz azulada que vinha de fora. Ela dormia, imóvel, como uma pequena escultura envolta pelo cobertor de tricô creme. Havia uma serenidade quase sobrenatural naquele sono; nem o som do vento parecia alcançá-la. Aproximei-me, ainda com Hilary no colo.
— Shhh... — sussurrei, roçando o dedo na bochecha quente de Helena. Ela não se mexeu. Apenas um suspiro leve escapou, e os cílios longos tremeram, sem abrir os olhos.
Hilary encostou o queixo no meu ombro, observando em silêncio.
— A Nena tá... mi-mindo? — perguntou baixinho.
— Está, sim. — respondi, num tom que mal formava minha voz — Sonhando, talvez.
Ficamos ali as três, envoltas pelo som distante da neve, pelas respirações tranquilas e pela luz que desenhava reflexos prateados sobre o berço. Era um instante confortável, que acolhia tudo o que eu tinha. O inverno podia chegar com todo o frio do mundo; dentro daquele quarto, me parecia que havia calor o bastante para me manter viva.
Quando saí do quarto de Helena, a casa ainda parecia envolta por aquele silêncio sereno que os Cullen sabiam manter. Um silêncio que não era de ausência, mas de domínio absoluto sobre o espaço, como se cada respiração humana ali fosse uma pequena centelha de vida contrastando com o ar suspenso dos vampiros.
Desci as escadas com Hilary encaixada no meu colo, a cabeça dela repousando no meu ombro, ainda com sono. O silêncio era quebrado apenas pelo estalar suave dos meus passos e pelo murmúrio distante de uma chaleira no fogão. O ar carregava aquele cheiro inconfundível de café fresco, forte, terroso, e um fundo doce de canela. A cada degrau, o calor aumentava. Vinha da cozinha, onde luzes amareladas dançavam sobre o mármore. Assim que cruzei o arco do corredor, vi Esme de costas, usando um avental florido sobre o vestido cinza-claro. Rosalie estava ao lado dela, mexendo algo dentro de uma tigela de vidro.
— Bom dia, Amberli. — disse Esme, virando-se com um sorriso que sempre me desarmava — Dormiram bem?
— Dormimos. — respondi, ajeitando Hilary nos braços — Ou melhor... algumas mais do que outras. — ressaltei a ausência de Helena.
Rosalie soltou uma risadinha contida, aquela que só aparecia quando ela estava de bom humor.
— E parece que alguém acordou cedo pra ver a neve. — comentou, olhando para Hilary.
Minha filha ergueu a cabeça, ainda meio sonolenta, e piscou devagar.
— Nenéve. — murmurou, confundindo as sílabas — Tá bran...co lá fora.
— Está mesmo. — respondeu Esme, encantada — É a primeira do ano.
Rosalie se aproximou e estendeu os braços.
— Posso?
Hilary, ainda de cara envergonhada, se esticou para ela. Rosalie a pegou com um cuidado surpreendentemente maternal e a acomodou em seu colo, levando-a até o balcão.
— Acho que tenho algo que ela vai gostar. — disse, virando-se para o fogão. Abriu uma panelinha e mexeu o conteúdo com uma colher de pau. O aroma gostoso se misturou entre os outros — Chocolate quente, versão mini.
Hilary arregalou os olhos, e o sorriso se abriu inteiro.
— Cho-cóiate! — gritou, batendo as mãozinhas.
— Ela está crescendo tão rápido, Amberli. — Esme riu, aproximando-se de mim.
Assenti, sentindo o peito apertar de um jeito doce.
— Eu sei. Cada dia parece mais... breve.
Rosalie colocou uma pequena caneca diante de Hilary, metade cheia, a espuma de leite formando um coração no topo. Encostei-me no balcão e deixei o corpo relaxar, observando aquele instante. Aquele lar, que um dia me pareceu tão distante, agora começava a se moldar ao redor de mim de forma natural.
Esme colocou uma xícara de café ao meu lado e me olhou com ternura.
— O primeiro inverno em Forks a gente nunca esquece... — disse, com a voz serena.
Levei a xícara aos lábios e senti o calor se espalhar pela garganta, o amargor do café equilibrado pela pitada de canela que Esme colocou. O sabor me fez fechar os olhos por um segundo. Lá fora, a neve seguia caindo. Rosalie e Hilary riam de algo no balcão; Esme cantarolava baixinho. E eu apenas fiquei ali, respirando, ouvindo, existindo.
O cheiro do café ainda pairava no ar quando um som leve, quase imperceptível, veio do andar de cima, passos rápidos, graciosos, inconfundíveis. Antes mesmo que eu erguesse os olhos, uma voz aguda, cristalina como o tilintar de sinos e alegre ecoou pela escada:
— Aaiii!! Já está nevando e eu me distraí demais, nem vi a primeira queda!
Alice surgiu no topo dos degraus como um feixe de luz, o cabelo preto num corte incomum que lhe caía perfeitamente, os olhos dourados como um raio sobre o mármore, faiscando de empolgação, e o sorriso que sempre parecia pronto para uma surpresa. Ela desceu flutuando, literalmente, cada passo era tão preciso e rápido que, se eu piscasse, teria perdido metade do movimento.
— Amberli! — exclamou, parando bem à minha frente, com as mãos juntas sob o queixo, como se tentasse conter uma explosão de ideias — Eu estava esperando por esse dia desde outubro!
— O dia da neve? — perguntei, tentando acompanhar o ritmo dela, já suspeitando da empolgação cintilante em seus olhos dourados.
Alice inclinou levemente a cabeça, o cabelo curto e perfeitamente arrumado se movendo como se tivesse sido coreografado.
— O dia da decoração! — corrigiu, com um brilho quase infantil no olhar, com aquele sorriso que parecia conter um plano inteiro por trás dos lábios — É o primeiro Natal das meninas aqui, e isso significa que vamos fazer tudo direitinho!
— Lá vem ela com as listas, os diagramas e os cronogramas. — Esme riu baixo, como quem já esperava por aquilo.
— Exato! — Alice respondeu, sem um pingo de vergonha, já girando sobre si mesma — Eu passei a madrugada imaginando e montando o layout perfeito da sala principal. Luzes brancas quentes, guirlandas de abeto verdadeiro, velas de baunilha, laços dourados e… — ela parou, erguendo um dedo — duas pequenas ajudantes de Natal!
— Eu! Eu! — Hilary deu um gritinho, batendo palmas.
Alice se inclinou até ficar na altura dela, os olhos faiscando.
— E você vai escolher os primeiros enfeites da árvore, mocinha!
Hilary riu alto, encantada. Olhei para Esme e Rosalie, que trocavam um olhar cúmplice, sorrindo.
— Eu posso ajudar também. — comentei, ainda meio tomada pela energia dela.
— Claro que pode! — Alice me agarrou pelas mãos como se tivesse esperado exatamente por isso — Eu quero que você e as meninas participem de tudo! Porque o toque final… o toque delicado… precisa vir das suas meninas! Vai ser o Natal mais bonito que essa casa já teve! Eu não vejo a hora de me superar!
Enquanto ela falava, já andava em círculos, descrevendo com as mãos cada detalhe imaginado:
— Vamos começar hoje à tarde com as luzes no jardim e as coroas das janelas. Depois, amanhã, montamos a árvore principal na sala grande, uma Douglas fir de pelo menos três metros, cortada fresquinha de uma fazenda em Port Angeles. Carlisle já concordou!
— Claro que concordou. Você provavelmente o convenceu antes mesmo que ele tivesse saído de casa. — Rosalie arqueou uma sobrancelha.
Alice riu, sem negar.
— E no próximo sábado, fazemos os biscoitos! — soltou um gritinho animado.
Hilary arregalou os olhos, a boquinha se abrindo num pequeno O.
— Bicoito?!
— Isso mesmo! — respondeu Alice, animada — Vamos assar biscoitos de gengibre, de canela e de chocolate, cobertos com glacê colorido. Você e a sua mamãe vão fazer os formatos com cortadores de estrelinhas, renas... só para enfeitar, claro, mas o cheiro vai ficar incrível! E também, chocolate quente para a Hilary, com marshmallows em formato de floco de neve! E muitos doces! Eu já vi algumas receitas perfeitas na internet, e Esme está animadíssima para fazer um pão de canela. E vamos ouvir música natalina o dia todo: Frank Sinatra, Bing Crosby, Michael Bublé… e talvez um pouquinho dos clássicos de Mariah Carey, se o Edward não estiver por perto.
Todos riram. Até Rosalie esboçou um riso sincero. Eu me peguei rindo também, contagiada pela energia dela. Alice então se virou para mim, segurando meus braços com delicadeza, o olhar brilhante e sincero.
— Vocês levam isso a sério, hein? — observei.
— É Natal! — respondeu Alice, girando o corpo com graça — E, por mais que nós não comamos nem durmamos, ainda acreditamos em momentos felizes. Isso é o que importa, não?
— É sim. — assenti.
— Amberli, eu quero que as meninas sintam que essa casa é delas também. O Natal é para isso, para lembrar o que passou e celebrar o que ainda está florescendo. — o brilho em seus olhos se suavizou.
As palavras dela me tocaram de um jeito inesperado. Aquele “delas” vinha de um lugar sincero. E, por um instante, senti algo aquecer dentro do peito, uma mistura de gratidão e pertencimento. Eu não precisei pensar muito antes de assentir.
— Eu adoraria, Alice. De verdade. — respondi, sorrindo de volta — Elas vão adorar isso, Alice.
Ela sorriu ainda mais, como se eu tivesse acabado de lhe dar o presente perfeito.
— Então está decidido! Hoje à tarde, decoração nível Cullen!
Hilary começou a pular no colo de Rosalie, batendo palmas, enfatizando a onda de alegria entusiasmante que Alice tinha de contagiar.
— A Nena tamém?
— Claro que sim! — respondeu Alice, girando outra vez — A Helena vai ter o primeiro Natal dela cheio de luzes e flocos de neve.
— Faz tempo que não temos crianças participando disso. Vai ser especial. — Esme me olhou com ternura.
— Está decidido! — repeti, sorrindo — Vamos fazer desse Natal o mais bonito de todos!
Alice soltou um gritinho animado e me puxou para um abraço rápido, leve, perfumado, quase elétrico. Sorri de leve, tomada por aquele entusiasmo contagiante. Era curioso, nenhum deles precisava de Natal, de luzes piscando ou cheiros de canela, mas eles faziam questão de viver esses momentos conosco. Para que nós, humanas, sentíssemos o calor que eles não precisavam, mas sabiam reproduzir tão bem. E enquanto ela já saía apressada, falando sobre luzes de LED e fitas de cetim, percebi que o frio lá fora parecia menor.
Talvez fosse o café.
Ou talvez fosse a forma como essa casa, que um dia me pareceu grande demais, fria demais e silenciosa demais, começava a se encher cada dia mais de sons, de cor e de propósito. Olhei pela janela da cozinha, vi os flocos de neve começando a cair com mais constância, suaves, redemoinhando sobre o jardim coberto de branco. Por um segundo, imaginei as meninas correndo ali fora, rindo, com cachecóis e luvas que Alice certamente já havia separado.
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A sala principal estava tomada por caixas empilhadas, fitas douradas e galhos de pinheiro que perfumavam o ar. A grande janela deixava entrar uma luz pálida, fria, que fazia a neve recém-caída brilhar como poeira de vidro. Alice estava no centro de tudo, como uma maestrina diante de uma orquestra de guirlandas e laços.
— Então, o que você acha, Amberli? — perguntou, virando-se para mim com aquele sorriso cintilante — As luzes brancas combinam mais com o estilo da casa, mas as coloridas são mais alegres para as meninas…
— Hm… — olhei para os dois rolos de luz que ela segurava, os fios passando pelos dedos como se fossem correntes de brilho — Acho que as brancas ficariam lindas no hall principal, perto da escada. E talvez as coloridas na sala de estar, perto da árvore. Hilary vai adorar as piscantes.
— Eu sabia que você ia dizer isso. — disse Alice, animada — Eu sabia! — e riu, o som leve e musical ecoando — Esme, você ouviu?
Esme apareceu do outro lado, com um olhar afetuoso e sereno.
— Eu ouvi, sim, querida. — respondeu, ajeitando uma pequena coroa de pinho que carregava — Concordo plenamente. O hall pode ficar mais elegante, e a sala mais lúdica para as meninas.
Alice abriu os braços como se já visse o resultado pronto.
— Perfeito! Vamos colocar a árvore grande no centro da sala de estar, perto da janela. Assim, quando a neve cair à noite, as luzes vão refletir lá fora… vai parecer um sonho!
— E no hall, será uma árvore de quantos metros mesmo? — perguntei, rindo.
Alice piscou um olho, orgulhosa:
— Três.
— Três metros? — ergui as sobrancelhas — Alice, as meninas vão precisar de uma escada para nos ajudar a decorar. Nós vamos precisar.
— Eu já pensei nisso! — ela respondeu prontamente, apontando para o canto — Esme separou uma escada pequena, segura, e eu encontrei mini enfeites para que elas possam pendurar os próprios. A Hilary pode colocar os flocos de cristal e a Helena os anjos, a Nessie vai nos ajudar a encaixar os mais altos também.
O nome de Renesmee fez meu sorriso crescer, havia algo tão acolhedor em vê-la participar, tão madura e delicada com as crianças.
— Eu posso preparar chocolate quente para quando terminarmos. — ofereci — E talvez uns biscoitos simples, para deixar o cheiro de canela pela casa.
Alice se virou, fingindo um olhar ofendido.
— Simples? Nada disso! Nós vamos fazer biscoitos em formato de estrela, floco de neve, sinos e até mesmo homem-biscoito! Eu já comprei infinidades de moldes! — e sem esperar, abriu uma das caixas, exibindo formas metálicas em todos os tamanhos e formas — Além disso, Esme vai preparar um pão de canela.
Esme sorriu, confirmando.
— Eu quero que as meninas sintam o Natal. Mesmo que ele não seja… exatamente para nós.
E outra leva de palavras me tocaram. Havia uma ternura silenciosa no modo como ela dizia isso, como se os Cullen quisessem provar que, mesmo sem coração pulsante, sabiam amar com mais calor do que muita gente viva.
— Eu acho que vocês estão tornando tudo isso mais especial do que qualquer Natal que eu já tive. — murmurei.
Alice se aproximou, o olhar suave, mas firme.
— E é só o começo. Quero que você e as meninas escolham também o tema da mesa. Pensei em algo com prata e azul, por causa dos olhos da Helena... ou talvez vermelho e creme, como os vestidos que encomendei para vocês.
— Você encomendou vestidos? — perguntei, rindo.
— Claro! — respondeu ela, como se fosse óbvio — Natal sem coordenação estética não é Natal, Amberli.
Ri alto, balançando a cabeça.
— Eu não sei como você consegue pensar em tudo.
Alice deu de ombros, satisfeita.
— É um talento natural.
Esme interveio, com o tom doce que equilibrava o entusiasmo da filha.
— E você, querida, só precisa se preocupar em aproveitar.
Fiquei em silêncio por um instante, olhando para aquele cenário, as luzes ainda dentro das caixas, as fitas sobre o tapete, a neve brilhando do lado de fora. Essa casa, lar de seres frios e imortais, me oferece, de algum modo, o calor humano que eu havia esquecido como era sentir.
— Então vamos começar! — disse por fim, pegando uma fita vermelha — Antes que a Alice mude de ideia sobre a posição da árvore mais uma vez.
— Ei! — ela protestou, rindo — Eu só mudo se tiver uma visão melhor!
— É o que me preocupa! — retruquei, divertida.
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Alice estava de joelhos no tapete, separando enfeites por cor e tamanho, como se fosse uma cirurgiã diante de instrumentos delicados. Esme ajeitava uma guirlanda na moldura da lareira, enquanto eu tentava ajudar a desenrolar um emaranhado de pisca-pisca que parecia ter vontade própria.
— Isso é um teste de paciência, Alice. — comentei, rindo, quando mais um fio se enrolou na minha mão.
— Ah, não, não, não! — ela veio rapidamente, pegando as luzes com precisão sobrenatural e, em segundos, tudo estava perfeitamente alinhado — Assim. Fácil.
— Claro, fácil pra quem tem reflexos sobre-humanos... — murmurei, mas sorri.
Antes que Alice respondesse, uma voz profunda e animada ecoou da escada:
— Reflexos sobre-humanos?! Isso é comigo!
Emmett apareceu, descendo os últimos degraus com aquele sorriso largo com covinhas que parecia aquecer o ambiente inteiro. Vestia uma camisa de flanela escura aberta sobre uma camiseta preta.
— E eu achando que tinha perdido a melhor parte da manhã. — disse ele, olhando para as caixas de decoração — É Natal antes do Natal por aqui?
— É planejamento estratégico, Emmett. — respondeu Alice, com um ar sério que durou meio segundo antes de ela rir — E você chegou bem a tempo. Vai montar a base da árvore.
Ele ergueu as sobrancelhas, fingindo ofensa.
— A parte pesada, claro. Sempre sobra pra mim.
— Porque você gosta. — retrucou Rosalie, que apareceu logo atrás dele, elegante como sempre. Equilibrava minhas meninas em seus braços com total equilíbrios e leveza. O cabelo dourado caía sobre os ombros com perfeição, e o olhar dela, ainda que altivo, tinha um brilho divertido — E porque você insiste em dizer que nenhum humano é páreo para sua força.
Emmett deu um meio sorriso para ela.
— E não é mentira.
Rosalie balançou a cabeça, rindo com o canto dos lábios, e veio até mim deixando Hilary livre no chão. O som suave dos seus passinhos miúdos foi se aproximando, aquele arrastar de meia contra o piso polido, acompanhado de uma risadinha abafada, os cabelos castanhos ainda meio bagunçados e o pijama estampado com pequenos ursos. Ela veio correndo, tropeçando um pouco, mas logo se recompôs e me abraçou com força.
— Alice te arrastou pra missão de Natal, pelo visto. — disse num tom suave, sincero de familiaridade.
— Fui rendida antes mesmo do café da manhã. — respondi, divertida.
— Ótimo. — ela disse — Assim você aprende que resistir à Alice é inútil.
Alice lançou um olhar fingidamente ofendido.
— Ei, eu sou eficiente, não ditadora!
— Mamãe… qué isso? — perguntou, os olhinhos castanhos arregalados para o monte de caixas, as luzes e o enorme pinheiro que Emmett segurava como se fosse um simples galho.
— É o Natal chegando, minha alegria. — respondi, abrindo os braços.
Emmett se abaixou ao lado das caixas, levantando a base metálica da árvore com facilidade.
— Certo, onde é que esse pinheiro gigante vai ficar?
— Ali. — Alice apontou com precisão cirúrgica para o canto entre o piano e a janela — Quero que fique centralizado com o reflexo da neve, pra quando as luzes piscarem…
— …ficar “mágico”. — completou Emmett, zombando, enquanto ajustava a base — Você já usou essa palavra umas dez vezes.
— E todas elas foram merecidas. — Alice cruzou os braços, impassível.
Rosalie soltou um pequeno suspiro, mas havia ternura no gesto. Ela se abaixou, pegou uma das caixas menores e retirou um enfeite em formato de estrela prateada. Os dedos dela tocaram o objeto com uma delicadeza que me surpreendeu.
— Esta vai no topo? — perguntei, observando.
— Sempre. — respondeu ela, com um meio sorriso — É tradição.
— E ninguém toca na estrela antes que as meninas coloquem o primeiro enfeite. — disse Alice, com firmeza — Nada de apressar o encanto.
Emmett olhou para mim, rindo:
— Traduzindo: ninguém faz nada sem a aprovação da general Alice.
— Coronel Alice. — corrigiu Rosalie, provocando a irmã.
— Eu ouvi isso! — Alice respondeu, rindo também — Mas sim, vocês estão certos. Quero que as meninas coloquem o primeiro enfeite.
— E qual vai ser? — perguntei.
Alice fez uma pausa dramática, o olhar faiscando.
— Um pequeno anjinho dourado. — disse, abrindo uma caixa com cuidado. Dentro, havia uma figura minúscula, com asas delicadas e um brilho suave — Esme escolheu.
— Para simbolizar novos começos. — completou Esme, vindo até nós, o olhar caloroso.
Fiquei em silêncio por um instante, sentindo o peso bonito daquela frase. Emmett, talvez percebendo a atmosfera se suavizar, quebrou o clima com uma piscadela:
— Então, enquanto as meninas decoram, posso cuidar da iluminação externa. Jacob sempre dizia que eu tinha talento pra isso.
— Ele dizia isso para te afastar da cozinha, Emmett. — Rosalie riu, cruzando os braços, e virou-se para as escadas, desaparecendo pelos degraus acima.
— E com razão. — Alice gargalhou.
O riso coletivo se espalhou pela sala, leve, sincero. Aquele era o tipo de momento que parecia impossível para uma família de vampiros e, no entanto, ali estavam todos, brincando, discutindo sobre guirlandas e cores, como qualquer família comum faria.
Alice se aproximou com aquele sorriso cintilante.
— Oi, pequena Hilary! — agachou-se à altura dela — Quer ajudar a decorar a árvore comigo?
Hilary olhou para mim, depois para Alice, e abriu um sorriso tímido que revelava os dentinhos, e embolou suas palavras de tal modo que Alice ergueu os olhos na minha direção, pedindo por tradução.
— Ela perguntou se pode colocar os piscas-piscas também.
— Pode sim. — respondeu Alice, já entregando a ela um fio curto e seguro, próprio para o alcance das crianças — Mas primeiro, temos que esperar sua irmãzinha acordar.
— Já tô acordada. — veio uma vozinha suave.
Helena descia os degraus da escada, amparada pela mão de Rosalie, que a conduzia com o mesmo cuidado que alguém teria com uma joia preciosa. Os olhos azuis claros de Helena brilhavam à luz da janela, refletindo o branco da neve como se guardassem o inverno dentro deles. Helena soltou a mão de Rosalie no último degrau e correu até mim, aninhando-se nas minhas pernas. Murmurei um “bom dia” para ela que, sorrindo, correspondeu.
— Mamãe, você percebeu que está cheirando doce aqui?
Esme sorriu do outro lado da sala, arrumando pequenos ramos sobre a lareira.
— É o aroma dos pinheiros e da canela, querida. Alice trouxe para deixar a casa mais alegre.
Helena fungou o ar, encantada.
— Eu gosto desse cheiro.
Hilary segurou a mão dela, animada.
— Vem, Nena! A tia Lice, as luzinhas!
Alice soltou uma risada cristalina.
— Tia Alice! — repetiu, visivelmente encantada com o título — Acho que não vou me cansar de ser chamada assim.
Emmett, que observava a cena de longe com a base da árvore pronta, cruzou os braços.
— Aposto que vão disputar quem coloca o primeiro enfeite.
— Não vai ter disputa. — disse Esme, com firmeza serena — Elas vão colocar juntas.
— Boa ideia. — comentei, olhando para minhas meninas — Assim nenhuma das duas perde a magia do momento.
Alice trouxe a pequena caixa e a abriu com o cuidado. Lá dentro, o anjinho dourado parecia brilhar por conta própria. Ela o entregou para Helena, que o segurou com as duas mãos, e Hilary apoiou os dedinhos ao lado.
— Prontas? — perguntei.
As duas assentiram.
Emmett segurou a base da árvore firme, Rosalie e Esme se posicionaram ao redor, e Alice acompanhava cada movimento com o olhar atento. Eu levantei as meninas no colo, uma em cada braço, e juntas, com o cuidado de quem ergue um sonho, elas penduraram o primeiro enfeite.
Por um instante, tudo ficou em silêncio. Só o leve tilintar do anjinho se moveu no ar.
— Perfeito. — sussurrou Alice, emocionada.
— Agora sim! — disse Esme, sorrindo — O Natal começou.
Hilary bateu palminhas, rindo. Helena, encostando o rostinho no meu ombro, completou baixinho:
— Mamãe, o anjinho é bonito... aquece por dentro! Ele brilha igual o céu de neve!
Essas palavras me atravessaram com uma ternura inesperada. Eu sabia que ela não falava da temperatura, Helena sentia as coisas de um jeito diferente. Talvez ela estivesse descrevendo o sentimento daquele instante, o calor invisível que preenchia o ar entre todos nós.
Emmett pigarreou de leve, sorrindo.
— Então, Alice, posso colocar o resto dos piscas-piscas agora? Ou vai ter mais “protocolo de magia”?
— Só depois que eu revisar o alinhamento dos fios — respondeu ela, fingindo seriedade.
— Você é impossível. — Rosalie riu, balançando a cabeça.
— Sou perfeccionista. — corrigiu Alice — E alguém precisa ser.
Eu ri junto com eles, abraçando minhas filhas com mais força. O som de passos firmes e ritmados trouxe outro tipo de energia para a sala. Jacob apareceu na entrada, com Renesmee a seu lado. A neve ainda se depositava sobre o capuz de seu casaco, e o brilho dos olhos castanhos de Jacob contrastava com o tom prateado da neve que caía lá fora.
— Olá, pessoal! — disse Jacob, tentando soar casual, mas o sorriso entregava sua animação — Trouxemos umas ideias da reserva pra deixar a decoração mais interessante.
Renesmee, se aproximando graciosa, sorriu, inclinando-se levemente.
— Pensei em algumas luzinhas artesanais e uns enfeites que as crianças podem mexer sem quebrar nada. Acho que a Hilary e a Helena vão adorar.
Hilary bateu palmas de imediato:
— Brincar, brincar! Nena! Nena, brincar!
Helena, mais reservada, ficou um pouco atrás, mas os olhos azuis claros seguiam cada movimento de Jacob e Renesmee com atenção quase hipnotizada.
— Isso mesmo, Nena. — incentivei — Você vai adorar.
Alice, que estava segurando a lista de enfeites, girou em direção a eles, radiante:
— Ótimo! Quanto mais ajudantes, melhor! Eu já estava preocupada que a decoração fosse muito demorada sem a participação de todos.
Jacob riu, aproximando-se da árvore em processo de montagem, e depositou algumas pequenas figuras de madeira extraordinariamente bem-feitas: raposas, ursos, sinos e pinheirinhos.
— É para elas poderem alcançar. Nada de perigoso, só diversão.
— Perfeito! — disse Esme, sorrindo — Assim a Hilary e a Helena vão sentir que a árvore realmente é delas.
Renesmee começou a organizar algumas luzes de LED flexíveis, distribuindo entre os galhos médios e altos ainda desconectados, com cuidado de não prender nada em excesso. Hilary deu um pequeno gritinho de empolgação e tentou tocar a luzinha mais próxima, enquanto Helena a segurava de leve.
— Mamãe, brilha! — exclamou Hilary.
— Sim, meu amorzinho. — respondi, emocionada — É mágico, não é?
Nesse instante, a porta da frente se abriu, e Bella e Edward apareceram, como se a elegância imortal se tivesse materializado em meio à cena. Edward estava impecável, cabelo imperfeitamente penteado, e o olhar intenso contrastava com a doçura do sorriso de Bella, que segurava um pequeno pacote com biscoitos caseiros, com certeza foram preparados especialmente para as meninas.
— Boa manhã de dezembro! — felicitou Bella, caminhando até nós — Esperamos não ter chegado no meio de tudo.
— Nada disso! — Alice respondeu, girando animada — Estamos apenas começando a magia.
Edward inclinou-se para Renesmee, que entregava a ele um enfeite delicado, que eu tenho certeza de que é de cristal.
— Com todas essas ideias, dificilmente não acabará ficando lindo... — disse ele, com aquela voz calma, que sempre parecia envolver tudo em segurança.
— Mas ainda precisa de uns ajustes aqui. — respondeu Alice, apontando para uma fileira de luzes torta — Mas nada que a força combinada da família não resolva!
Hilary correu até Bella estendendo os bracinhos. Com apenas um olhar trocado entre mim e Isabella, o primeiro biscoito foi oferecido à minha filha, que aceitou toda contente.
— Mamãe, vê! — disse, correndo até eu, entregando o biscoito, ainda com a ponta de açúcar no nariz.
Bella sorriu, pegando outro biscoito e oferecendo a Helena também.
— Obrigada, pequenas ajudantes. — disse, com uma ternura visível.
Enquanto todos se movimentavam ao redor da árvore, ajustando fios de luz, posicionando enfeites, e distribuindo pequenos doces e biscoitos, percebi algo profundo: cada gesto, cada riso, cada olhar carregava calor. Mesmo que eles não precisassem comer, dormir ou sentir o frio como nós, estavam presentes de um jeito que ia além da presença física, dedicados a nos fazer sentir humanas, completas, em casa. E ali, naquele momento, cercada por vampiros, híbrida, humano e minhas duas filhas, a neve lá fora era apenas o pano de fundo. Vi quando Hilary agarrou com cuidado o fio do pisca-pisca que Alice entregara, enquanto Helena observava cada movimento, os olhinhos azuis cristalinos fixos nos pequenos enfeites brilhantes.
— Olha, Nena! — exclamou Hilary, tentando encaixar uma estrela prata pequena no galho mais baixo — Vê? Brilha!
Helena estendeu a mãozinha com precisão, tocando o enfeite com delicadeza, e um pequeno tilintar ecoou. Ela pareceu surpresa e encantada, quase fascinada pelo som que o metal fazia.
— Isso! — incentivei, me abaixando para segurá-la de leve, ajudando a equilibrar o enfeite frágil — Viu só, querida? Vocês duas fizeram juntas!
Alice circulava a árvore, apontando instruções rápidas e precisas:
— Helena, segura firme o fio, mas não puxa! Hilary, só coloque a mãozinha aqui, devagar… A sua mamãe vai ajudar... Isso! Perfeito!
Emmett, que se inclinava sobre a montagem de um galho maior, comentou brincando:
— Acho que já temos dois prodígios da decoração. Isso vai acabar com o meu reinado.
Rosalie observava, séria e elegante, mas um sorriso suave escapava de seus lábios.
— Elas não vão te derrotar em nada, Emm. — disse, colocando um enfeite prateado bem no centro da árvore — Mas a paciência delas vai superar a sua, com certeza.
Renesmee inclinou-se sobre Hilary, guiando seus dedinhos nos enfeites menores.
— Muito bem, Florzinha. Isso mesmo. Lenta… devagar… Agora segura firme.
Hilary suspirou baixinho, como se estivesse absorvendo a complexidade da ação, e então soltou uma risadinha quando o enfeite finalmente se firmou no galho.
— Eu consegui! Eba! — exclamou, batendo palminhas, e o som ecoou pela sala polida.
— Viu só, mamãe? — disse Helena, orgulhosa — A Hili conseguiu!
— Maravilhoso! O primeiro enfeite oficial das meninas! Esse é histórico, gente! — Alice aplaudiu, girando sobre si mesma.
A sala logo se encheu de mais aromas doces: biscoitos recém-assados, canela e pinho. Esme trazia pequenas travessas de guloseimas para as meninas, enquanto Bella e Edward observavam, com sorrisos suaves. Edward segurava uma luzinha para Hilary testar, enquanto Bella ajudava Helena a equilibrar-se no pequeno banquinho que Alice providenciara.
— Cuidado com o anjinho! — exclamou Alice, ainda mais empolgada — Ele é o símbolo do Natal!
— Eu posso segurar! — disse Helena, esticando o braço, e com cuidado colocou o anjinho dourado num galho intermediário, guiada por minha mão.
— Muito bem, minha estrelinha. — incentivei, sentindo o coração aquecer.
Hilary sorriu, como se entendesse que aquele pequeno gesto também era dela, mesmo sem tocar diretamente o anjo. Vi Emmett se inclinar para Jacob, comentando com humor:
— Aposto que em quinze minutos vamos ter mais piscas-piscas pelo chão do que na árvore.
— Exatamente. Mas isso é o espírito de Natal. — respondeu Jacob, sorrindo, enquanto ajudava Renesmee a ajustar um fio que se enrolara — Confusão, risadas e todo mundo participando.
Rosalie se aproximou de mim, o toque gelado de suas mãos me deixou atentar ao seu sussurrar:
— Elas parecem tão felizes… Não é incrível, Amberli?
— É mais do que isso. — respondi, segurando Helena e observando Hilary — É mágico.
— Ah! — Alice girou de repente, como se tivesse acabado de lembrar de algo — Precisamos das meias de Natal na lareira! E balinhas de gengibre no prato! Eu já tenho tudo planejado no meu caderno e vocês vão me ajudar a escolher os melhores lugares!
— Já estou vendo algumas certas pessoas correndo pra pegar a primeira bala — disse Rosalie, rindo.
— E a Hilary tentando alcançar as luzinhas sem deixar cair nada... — completei, sorrindo com carinho.
Enquanto todos se movimentavam ao redor da árvore que era montada por etapas, pendurando enfeites, ajustando luzes, provando biscoitos e trocando instruções rápidas, percebi que cada gesto, cada sorriso, cada pequeno tropeço infantil, era tecido com cuidado por aqueles seres imortais, que não precisavam do Natal, mas o faziam existir para nós. Esse seria um Natal que eu, Hilary e Helena jamais esqueceríamos.
Hilary, agarrou outra decoração nas mãozinhas e decidiu que queria colocar um enfeite mais alto do que sua própria altura permitia.
— Mamãe! Eu consigo! ...Sozinha! Olha, mamãe! — gritou, empolgada, subindo no banquinho que Alice providenciara.
Interceptei seus movimentos, segurando-a pela cinturinha.
— Tudo bem, mas não precisa se esticar demais.
Mas Hilary tinha pressa, a empolgação borbulhando. Antes que eu pudesse intervir, para o meu desespero o enfeite escapou de suas mãos.
— Eu peguei! — disse Helena, orgulhosa, segurando o floco com os dedinhos.
Seus olhos claros se ergueram para mim com aquele olhar inocente que sempre derretia meu coração. Gesticulei um “Obrigada” com lábios para ela. Eu nem sabia qual seria minha reação se um enfeite tão bem trabalhado como esses, caísse e se espatifasse no chão.
— Hilary, minha pequena, a árvore fica melhor quando você não precisa lutar com ela. — Rosalie se manifestou.
— A Bebê só qué ajudar. — disse Hilary, olhando para mim com determinação.
— E está ajudando. — respondi, acariciando seu cabelo — Só precisamos ser um pouco mais cuidadosas.
Renesmee segurou Helena nos braços, ambas mostrando para Hilary como encaixar o próximo enfeite:
— Viu só? Você só precisa colocar assim, devagar… Isso mesmo.
Hilary riu, encantada, quando o novo floco ofertado finalmente ficou pendurado no lugar certo.
— Isso! — disse Alice, batendo palmas — Ótimo trabalho, meninas! Agora sim essa árvore começou a ganhar vida.
Esme trouxe uma travessa com biscoitos quentinhos, e Hilary correu para pegar um, esquecendo momentaneamente o enfeite que quase derrubara. Helena também provou um pequeno biscoito, franzindo o nariz com o sabor forte da canela, mas logo abriu um sorriso satisfeito.
— Gostei! — exclamou Helena, apontando para o biscoito.
— Viu, mamãe? — disse Hilary, mostrando o enfeite pendurado — A Bebê da mamãe conseguiu!
— E é exatamente assim que o Natal deve ser! — Alice disse, a empolgação vibrando em cada gesto — Confusão, risadas, cuidado e amor!
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Os minutos de montagem corria, as meninas já estavam mais eficientes em suas colaborações infantis entre os adultos. Hilary se esticava no banquinho, concentrada em encaixar o enfeite mais alto da árvore, quando Helena, fascinada pelo movimento da irmã e querendo ajudá-la, estendeu a mãozinha para ajudar.
— Aqui, Hili! — exclamou Helena.
Ela estendeu a mãozinha, delicada e pequena, seus dedos tocaram o fio de luz com mais força do que qualquer humana da idade dela teria, a força era desproporcional ao corpo frágil.
Hilary, perdeu o equilíbrio.
O apoio do banquinho pendeu e ela caiu de lado sobre o tapete, soltando um pequeno grito. Meu coração quase parou. Um grito instintivo escapou da minha garganta, e corri até Hilary, segurando-a rapidamente, sentindo seu corpinho pequeno tremer por um instante, a respiração rápida, o susto puro estampado em seus olhinhos castanhos.
— Está tudo bem meu amor! — exclamei, quase em choque. Minha mão estava trêmula quando acariciei o cabelo dela, tentando transmitir calma mesmo com a adrenalina ainda correndo.
Alice estava ao meu lado em um instante, os olhos atentos e brilhando de preocupação misturada com curiosidade. Mas eu senti que só eu podia oferecer à Hilary o conforto que ela precisava naquele instante, minha mão firme em seu ombro, meu corpo próximo para protegê-la. Eu sentia cada pequeno peso do corpo da minha filha, cada movimento instintivo tentando protegê-la. Hilary choramingava, mas logo percebeu que não se machucara, olhou para mim com os olhinhos marejados, ainda surpresa, mas disse com força:
— Eu… dói não, mamãe… — ainda com os olhinhos arregalados.
Suspirei, um alívio misturado com aquela pontada de medo que toda mãe sente quando percebe quão imprevisíveis são os filhos. Meu olhar se voltou para Helena, que recuava, confusa, os olhos azuis cristalinos arregalados, fixos na irmã. Ela inclinou a cabeça, como se não entendesse completamente por que Hilary havia caído. Os olhos dela eram intensos quando se voltaram aos meus, e parecia que cada fibra do seu corpo absorvia cada reação minha.
— Ei, foi sem querer. — disse Emmett, ajoelhando-se para tranquilizá-la com um sorriso largo — Você só precisa aprender a controlar sua força, minha pequena força da natureza.
— Nena… — comecei, tentando encontrar palavras que transmitissem ao mesmo tempo cuidado e compreensão — Foi sem querer, não é?
Eu a abracei de leve, sentindo a força desproporcional que ela tinha mesmo com o corpinho delicado, e ainda assim abraçando-a com cuidado. A sensação era estranha, quase mágica, mas também fazia meu peito se encher de um amor silencioso e profundo.
— Está tudo bem, pequena, a mamãe está aqui. Não aconteceu nada de grave.
Renesmee veio imediatamente e pegou Helena nos braços, guiando sua atenção para Hilary, eu continuei próxima, observando cada detalhe: o pequeno corpo dela se contorcendo levemente, o olhar cheio de curiosidade e preocupação, os dedinhos que tentavam tocar Hilary de forma protetora e, ao mesmo tempo, incontrolável. Mas foi minha presença, minha voz, que realmente fez as duas se acalmarem. Hilary se inclinou para abraçar a irmã, ainda um pouco assustada, mas querendo consolar a irmã e eu observei, sentindo meu coração apertar de ternura. Aquele momento, que poderia ter sido apenas um acidente, se transformou em aprendizado, cuidado e vínculo. Eu queria transmitir tudo isso em silêncio para Helena: “Eu te amo, mas precisamos ter cuidado”.
— Tá bom, Nena… é cuidado, carinho... carinho, tá?
— Viu, querida? — Renesmee deu espaço para Hilary — Você não queria machucar sua irmã. Só precisamos ser um pouco mais cuidadosas.
Helena sorriu, soltando uma risadinha tímida, ainda segurando um pequeno enfeite com força, como se estivesse pedindo desculpas sem palavras. Alice, tentando recuperar o clima animado, bateu palmas e disse:
— Muito bem! Pequenos acidentes acontecem, mas não desanimem! — e eu não pude deixar de sorrir com a frase, sentindo a leveza voltar ao ambiente — Isso mesmo! — disse Alice, recuperando a empolgação — Uma pequena lição de controle de força, e continuamos!
Esme aproximou-se com mais uma travessa com biscoitos quentinhos para cada uma, e o aroma de canela e açúcar preencheu o ar, acalmando qualquer tensão restante. Eu segurei Helena nos braços por mais alguns segundos, sentindo a adrenalina diminuindo, respirando fundo e absorvendo cada detalhe: o cheiro doce da canela no ar, o toque suave de seus cabelos, o calor do corpo pequeno contra o meu. Senti-me simultaneamente exausta e completamente ativa, aquela atenção, aquela responsabilidade, aquele amor concentrado, era como se tudo dentro de mim tivesse se expandido, preenchendo cada canto do meu ser. E percebi algo intenso: ser mãe, naquele instante, era isso. Era estar presente em cada detalhe, sentir cada impacto, cada pequeno susto, e transformar tudo em cuidado, amor e segurança.
— Vamos continuar. — disse eu — Mas agora com mais cuidado, combinado? — apertei a mãozinha de Hilary e guiei Helena de volta para o pequeno desafio da árvore — Agora, juntas, mas devagar.
— Com cuidado! — repetiram as duas, cada uma da sua maneira, mas ainda assim, uníssonas, prontas para voltar à decoração, desta vez mais conscientes e encantadas com a magia do momento.
— Isso! — Alice girou, batendo palmas — Esse é o espírito! Pequenos acidentes fazem parte da diversão. Agora, mãos à obra!
Respirei fundo e me afastei apenas o suficiente para colocar Hilary de volta em pé, ajustando o banquinho sob seus pés. Helena permanecia olhando curiosa para tudo, como se estivesse absorvendo cada gesto, cada instrução.
As meninas assentiram, de volta ao entusiasmo, e eu percebi como aquela era a dança delicada de ser mãe: estar sempre alerta, proteger, ensinar, e ao mesmo tempo se encantar com cada gesto espontâneo, cada riso, cada tropeço transformado em aprendizado. E, por mais que a manhã estivesse cheia de luzes, risadas e aromas natalinos, naquele momento meu mundo inteiro se resumia àquelas duas pequenas, a minha atenção absoluta voltada para elas, absorvendo cada detalhe, cada reação, cada emoção. Helena deu uma risadinha tímida, Hilary sorriu para mim, e eu percebi que, apesar do incidente, aquelas duas pequenas estavam crescendo juntas, aprendendo e me enchendo de orgulho. A neve podia continuar caindo lá fora; dentro de mim, cada batida do coração estava completamente preenchida por elas.
— Agora, com cuidado, minhas meninas. — disse, segurando firmemente as mãos de Hilary enquanto eu a guiava. — Devagar, passo a passo. Vamos colocar os enfeites juntas, sem pressa.
Hilary assentiu, o olhar determinado, e Helena estendeu a mãozinha para tocar o próximo enfeite, desta vez com consciência. Eu observei cada movimento, antecipando qualquer desequilíbrio, mas também permitindo que ambas experimentassem a sensação de participar ativamente.
— Hilary, você segura firme aqui, e Helena, só toque levemente! Ótimo, muito bem! — Alice rodopiava de entusiasmo, distribuindo instruções e pequenos enfeites.
Emmett, ao lado, segurava alguns galhos maiores para que a árvore ficasse estável, e Rosalie ajustava a posição dos enfeites mais pesados, enquanto Esme trazia travessas de biscoitos para manter as meninas animadas. Eu me abaixei para Helena, apoiando suas costas enquanto ela colocava o pequeno floco de cristal num galho baixo. Senti o toque dela, a força contida no movimento leve e me encantei com a concentração no rostinho azulado pelos reflexos da luz.
— Isso mesmo, meu amorzinho. — incentivei, com voz suave — Devagar… perfeita!
Hilary, segurando um anjinho dourado, olhou para mim com orgulho.
— Ó mamãe, tô colocaino aqui! — disse, com a empolgação brilhando nos olhos.
Fui até ela, segurei suas mãos junto com as minhas, guiando o movimento. A sensação de controlar suavemente o gesto dela, de sentir cada dedinho envolvido no cuidado da decoração, me preenchia de um calor profundo e invisível. Era como se meu corpo inteiro tivesse se tornado extensão de amor e atenção.
— Muito bem, meninas! — disse Alice, batendo palmas — Estamos progredindo! Vocês duas são incríveis!
Renesmee segurou Helena novamente, mostrando como segurar a próxima luzinha de forma delicada, e eu fiquei ao lado de Hilary, ajudando-a a subir no banquinho para alcançar o galho médio. Cada movimento era lento, medido, mas a sensação de conquista era visível em cada sorriso, cada risadinha. Aos poucos, a árvore começou a ganhar forma: luzes distribuídas com precisão, enfeites pendurados em harmonia e o cheiro doce de biscoitos quentes e pinho preenchendo o ar. Eu observava cada detalhe, absorvendo a magia do momento através das minhas filhas, a sensação concreta de que estávamos construindo algo juntos, um Natal, uma memória, um verdadeiro lar.
— Está ficando linda. — murmurei para mim mesma, segurando o braço de Hilary enquanto ela colocava cuidadosamente o último enfeite que eu indicara.
Helena soltou uma risadinha e apontou para o topo da árvore, os olhos azuis claros cristalinos brilhando.
— Mamãe, eu que coloquei o último!
Sorri, sentindo novamente aquele calor invadir meu peito. Era tão simples e, ao mesmo tempo, tão profundo: eu estava ali, com minhas duas pequenas, cuidando, guiando, amando, e compartilhando a alegria com seres imortais que, de alguma forma, faziam tudo parecer ainda mais humano.
— Agora só falta o toque final! — Alice disse, apontando para o topo da árvore, onde o anjinho dourado seria colocado, mostrando que tínhamos chegado ao ponto quase final — E aí, Amberli, você ajuda a coroar essa obra-prima com as meninas?
Foi Alice mesmo quem me ajudou a segurar Hilary e Helena nos braços, sentindo cada peso e cada movimento, e sorri com a sensação completa de pertencimento.
— Vamos fazer juntas. — respondi, firme, tranquila, emocionada — É o nosso primeiro Natal juntas, meninas. E vai ser perfeito. — respirei fundo, sentindo o coração acelerar de expectativa.
O topo da árvore ainda estava vazio, e ali estava o momento que Alice tanto esperava: guiar minhas pequenas até a coroação da nossa obra de Natal da sala de estar.
— Agora, meu amores, — disse, com voz suave, pedindo por suas atenções — vamos colocar o anjinho no galho debaixo do topo. Devagar, juntas.
Helena segurava o pequeno anjinho dourado dado por Alice com cuidado, e Hilary estendia a mãozinha, fascinada pelo brilho que refletia a luz dos piscas-piscas recém-organizados. Eu acompanhei cada gesto, cada movimento, sentindo os corações acelerados das minhas pequenas, misturados com o meu próprio. Alice e Rosalie ampararam meu corpo quando eu precisei me equilibrar sobre o banquinho, para permitir que tanto eu, quanto minhas filhas pudessem alcançar o topo.
— Com cuidado… — murmurei, sentindo a respiração de Hilary tocar meu pescoço — Isso… nesse aí mesmo. Quase lá…
Quando finalmente encaixamos o anjinho maior no galho superior, um leve tilintar ecoou, seguido por um silêncio mágico. As mulheres me ajudaram a voltar para o chão de madeira, e eu me afastei com as meninas ainda equilibradas nos meus braços, os olhos brilhando em triunfo. Hilary bateu palminhas, e Helena soltou uma risadinha contagiante, apontando para o topo da árvore.
— Conseguimos! — exclamou Helena, e eu senti meu coração se encher de orgulho e ternura ao ver o sorriso dela.
— Hiwawy tamém! — disse Hilary, apontando para o anjinho, como se reivindicasse seu pequeno triunfo.
— Perfeito! — Alice bateu palminhas — Essa árvore está completa, e as pequenas tiveram participação integral! Esse é o verdadeiro espírito do Natal! Mal posso esperar para montarmos a nossa árvore de três metros! E a estrela na manhã de Natal! — rodopiou em torno de nós, radiante.
Eu respirei fundo, absorvendo cada detalhe: o brilho das luzes refletido nos olhos das minhas filhas, o cheiro doce de pinho e biscoitos quentes misturado com a leve canela no ar, a textura macia do tapete sob meus pés, e o calor reconfortante que emanava de cada pessoa presente na sala.
— Muito bem, meninas! — disse, descendo uma de cada vez, deixando meus braços livres. Me agachei segurando-as num abraço, cada uma envolta por um braço — Vocês fizeram isso juntas. Cada enfeite, cada cuidado… uma fofurice, foi perfeito. Mamãe está muito orgulhosa de vocês duas!
Rosalie nos ofereceu mais dos biscoitos quentinhos, e Esme preparou chocolate quente com espuma no topo. Hilary correu para pegar mais biscoito, mergulhando o dedo na canela polvilhada, enquanto Helena, ainda aninhada nos meu braço, observava curiosa a irmã mordiscando com cuidado o primeiro pedaço. Nos sentei sobre o tapete, sentindo o calor do chocolate e o aroma dos biscoitos misturarem-se com a sensação de pertencimento e amor. A cada mordidinha, cada risadinha, cada gesto das minhas filhas estava se impregnando na minha memória.
— Gosto disso, mamãe! — disse Hilary, com a boca cheia de biscoito, olhando para Helena — Nena, Hiwawy, mamãe, juntas!
Eu sorri, sentindo os olhos marejarem, e abracei ambas com cuidado, sentindo cada movimento e calor de seus corpos.
— Sim, minhas lindas… vocês fizeram juntas com a mamãe. E foi perfeito.
Enquanto observava Helena apontando para o anjinho, Hilary experimentando outra guloseima, e os Cullen circulando à nossa volta com pequenos ajustes e sorrisos, percebi algo profundo: aquele momento era muito mais do que uma árvore, pisca-pisca ou enfeites. Era uma comemoração da vida, do amor, da família, e eu estava no centro de tudo, não apenas como mãe, mas como testemunha silenciosa e inteira de cada emoção, cada detalhe, cada riso. Fechei os olhos por um instante, respirando fundo, absorvendo cada som, cada cheiro, cada toque.
— Que momento... — sussurrei, quase para mim mesma — que momento perfeito.
E ali, sentada entre minhas duas pequenas, com chocolate quente, biscoitos, risadas, diante da árvore iluminada e o brilho suave dos piscas-piscas refletindo nos olhos delas, com a neve cobrindo o mundo lá fora e o coração pulsando em sintonia com minhas pequenas, eu tenho certeza de que este Natal, o primeiro delas, o primeiro meu em Forks, jamais será esquecido; não pelas decorações, guloseimas ou presentes, mas por tudo o que estávamos vivendo juntas, em família, imortais e humanas ao mesmo tempo.
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Depois que todas correram para a cozinha para distribuir mais biscoitos e chocolate quente para as meninas, eu fiquei por um momento parada diante da árvore, respirando devagar. A sala estava cheia de risos distantes, mas ali, ao redor da árvore iluminada, havia um silêncio suave só meu, como se o tempo tivesse desacelerado. O aroma doce do pinho misturado à canela ainda flutuava no ar, e eu fechei os olhos por um momentinho, sentindo cada detalhe: o calor do chão sob meus pés, a textura macia do tapete que ainda tinha pequenas marcas dos passos das meninas, o brilho das luzinhas refletindo nas minhas mãos. Cada reflexo parecia pulsar com uma vida própria, e eu me vi sorrindo involuntariamente. Meus pensamentos imediatamente foram para elas. Hilary, tão esperta e determinada, já aprendendo a expressar sua personalidade única; Helena, pequena e frágil, mas com uma força surpreendente, uma híbrida em pleno esplendor, cheia de curiosidade e energia. Vi em meus olhos o reflexo do que já percebera nas últimas semanas: Helena e Hilary, apesar da diferença de idade, pareavam fisicamente, Hilary começava a ganhar estatura, enquanto Helena crescia rápido, cada gesto mais firme, cada movimento mais consciente e avançado. Logo, ambas estariam correndo, aprendendo juntas, rindo juntas… e eu sentiria o peso delicioso de acompanhá-las passo a passo.
Inclinei-me levemente, apoiando as mãos na borda do sofá, e suspirei profundamente. O coração ainda batia rápido, resultado do susto mais cedo com o pequeno incidente entre as meninas, mas agora cada batida parecia mais intensa de emoção do que de preocupação. Eu estava viva, inteiramente viva, cercada de amor e calor humano.
Lá fora, a neve caía silenciosa sobre a mansão, cobrindo o jardim, o caminho, os pinheiros altos, e refletindo a luz da manhã cinzenta. Eu me aproximei da janela, sentindo o frio do vidro sob os dedos, e por um instante imaginei minhas filhas correndo lá fora, a primeira experiência delas com a neve, rindo e deslizando sobre a camada branca e macia. Um calor de proteção e ternura me invadiu, e sorri sozinha.
— Vocês vão crescer tão rápido… — murmurei, com a voz quase engasgada de emoção — E eu quero estar aqui para cada passo, cada riso, cada conquista.
A árvore diante de mim parecia pulsar com a mesma vida que minhas filhas, cada luzinha uma memória, cada enfeite um instante de alegria, carinho e cuidado. E eu me senti parte de algo maior: uma família que não precisava de tempo para existir, mas que existia ali, inteira, viva, e que me ensinava, a cada gesto, que a felicidade estava nos pequenos momentos. Respirei fundo novamente, absorvendo a cena: os brilhos, os cheiros, os sons distantes das meninas, o silêncio suave da neve lá fora, e percebi que, finalmente, em Forks, eu estava em casa, e minhas filhas também. Era um instante que eu queria guardar para sempre, a sensação completa de pertencimento, amor, segurança e magia. Dezembro chegara bem.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Depois de terminar de absorver aquele instante de magia, percebi que era hora de preparar as meninas para a próxima aventura: o encontro com a neve que caía lá fora, eu não as deixaria de perder esse instante por nada! Alcancei o lance de escada e me pus a subir até chegar na cozinha.
— Vamos, minhas meninas! — disse, pegando Hilary pela mão e carregando Helena nos braços — Hora de colocar roupas quentinhas para enfrentar a primeira neve de Forks!
Eu sabia que meus olhos brilhavam. Esse era um momento que eu havia idealizado anos antes, em outra casa, em outra família; e tão longe quanto jamais imaginei estar, não vi nenhum empecilho de por meu sonho em ação. Eu tinha filhas aqui comigo e velaria pela tradição.
Hilary pulava animada, quase tropeçando nos próprios pés, enquanto Helena se remexia com entusiasmo, como se soubesse que estava prestes a experimentar algo completamente novo. Levei Hilary primeiro para o quarto dela. Escolhi cuidadosamente um vestido rosa escuro de lã macia, com pequenos botões dourados, por cima das peças térmicas e uma mantinha grossa de tricô feita por Franchesca, para ela se enrolar. Ela deu uma giradinha diante do espelho, encantada com o reflexo do próprio sorriso.
— Mamãe, olha! Bonita! — disse, os dedinhos acariciando o tecido.
— Muito bonita, minha pequena. — respondi, ajustando o casaco e certificando-me de que a gola estava bem protegida contra o frio — Assim você vai se divertir sem se resfriar.
Peguei Helena nos braços, parando em frente a cômoda. O meu coração já batia forte, mas desta vez havia algo a mais, uma mistura de ansiedade e expectativa, porque este seria um momento completamente novo para nós duas. Desde que nascera, Helena só conhecera o branco. Cada roupinha, cada mantinha, cada detalhe da vida dela sempre girara em torno da pureza do branco, do contraste com a imortalidade dos Cullen. Mas hoje… hoje eu queria mais. Queria vê-la vestida em cor, queria sentir que ela já podia ter escolhas minhas, sim minha; como sua mãe, guiando, decidindo, por que ela estava crescendo rápido demais.
Abri a gaveta, minhas mãos tremendo levemente. Peguei um macacão acolchoado azul-claro, com botinhas de pelúcia que pertencia à Hilary, imaginando como ficaria em Helena. Era macio, quente e confortável, e não era branco. Pela primeira vez, eu a vestiria com algo que não simbolizava apenas pureza, mas vida, cor, personalidade. Em seguida, fomos para o quarto de Helena. Hilary sentou-se obedientemente na poltrona do quarto enquanto eu sentava sua irmã na cama de casal disposta ali. Segurei-a firme, os olhos fixos nos dela, e comecei a passar cuidadosamente o macacão sobre os bracinhos finos dela. O toque do tecido diferente contra a pele macia me fez prender a respiração. Enquanto a vestia, observei cada detalhe: o brilho dos olhos dela, a pele macia, o cabelo levemente bagunçado, e senti uma pontada de ternura tão intensa que quase me fez engolir o choro. Cada movimento parecia conter toda a história da nossa vida: do nascimento, ao coma, à recuperação, de uma pequena e frágil bebê a uma híbrida curiosa e cheia de força.
— Minha pequena… — sussurrei, a voz embargada, sentindo um sorriso crescer nos lábios — hoje você vai usar algo diferente… algo colorido.
Helena olhou para mim com aqueles olhos azuis cristalinos, confiando completamente em cada gesto meu. Ajustei o macacão sobre o corpinho dela, ajeitando o zíper nas costas, sentindo cada curva pequena, cada detalhe que agora estava mais firme e definido do que quando a conheci pela primeira vez, muitos dias depois do seu nascimento. Ela estava quase do mesmo tamanho que a Hilary, e pela primeira vez eu percebi de forma intensa como o tempo passa e como cada escolha minha, cada decisão, muda tudo.
— Olha, filha..., — continuei, segurando suas mãozinhas e ajeitando a gola do macacão — você está linda… diferente… mas ainda você.
Quando terminei, dei-lhe um pequeno giro, e ao vi sorrir, surpresa e encantada com o tecido e a cor. Aquela risadinha cristalina atravessou meu peito, me apertando o coração de um jeito que eu não conseguia explicar. Era uma combinação de orgulho, amor e um toque de saudade: a lembrança de cada momento branco, agora substituída pela primeira vez por cor, calor e vida. Segurei Helena firme, ainda admirando cada detalhe do macacão azul que a envolvia pela primeira vez. Seus olhos azuis cristalinos brilhavam com curiosidade, mas havia algo mais, um brilho de compreensão, de percepção que eu sabia que só uma híbrida poderia ter.
Ela me olhou atentamente, inclinando a cabecinha levemente, e disse com clareza surpreendente para sua idade:
— Azul! É um macacão azul muito bonito! — exclamou Helena, apontando para o macacão — Eu gostei, mamãe!
Meu peito apertou. Aquela frase, tão curta e certeira, carregava um peso de inteligência e empatia que apenas reforçava a singularidade dela. Era como se ela tivesse lido meus pensamentos, entendido minhas emoções e colocado em palavras antes mesmo que eu pudesse explicá-las.
Sorri, abraçando-a contra mim com força, sentindo o calor dela se misturar ao meu, e por um instante, todo o mundo parecia se resumir àquela pequena troca de roupa: a primeira que não era branca, a primeira que eu decidia sozinha, a primeira que simbolizava que minha filha estava crescendo, transformando-se, ganhando corpo, presença e identidade própria.
— Sim, minha pequena, — sussurrei baixinho, quase chorando — azul… é perfeito em você. Hoje você vai descobrir que o mundo tem muitas cores, e eu queria ver você assim… diferente, mas ainda minha pequena Helena.
Segurei suas mãozinhas, sentindo o peso da vida e da transformação nas minhas próprias mãos. Pela primeira vez, não era só cuidar, não era só proteger… era escolher, guiar, e me maravilhar com cada detalhe do que ela está se tornando. Ela sorriu, com aquela expressão serena que talvez só os híbridos conseguissem manter, e estendeu os bracinhos para mim.
Segurei-a nos braços, sentindo o corpo dela quente contra o meu, e dei um leve beijo na testa. A sensação de ternura era quase esmagadora; cada fibra do meu ser parecia pulsar com amor e emoção. Pela primeira vez eu percebia que não era apenas o ato de vestir uma roupa, mas um símbolo de crescimento, identidade e conexão entre nós duas. Ela riu baixinho, e eu senti uma mistura de alívio, orgulho e alegria. Por um instante, fiquei apenas segurando-a, absorvendo cada sensação: a suavidade do tecido azul, o calor do corpo dela, o perfume delicado de pele de bebê misturado com o cheiro da manta de tricô que eu usara para preparar sua irmã, e a compreensão profunda nos olhos dela, que parecia dizer “eu sei, mamãe, e estamos bem assim”.
Quando finalmente terminei de ajustar o macacão, coloquei as botinhas, as luvas e o gorro, e a levei até a janela para que olhasse a neve que caía lá fora. Ela esticou as mãozinhas curiosa, e eu a abracei firme, sentindo cada segundo daquele momento como se fosse eterno: minha filha, em cor pela primeira vez, pronta para descobrir o mundo, pronta para crescer, e eu ali, completamente inteira e emocionada, testemunhando cada passo.
— É neve, mamãe! Está tudo branco lá fora!
— Sim, legal né? — disse, sorrindo contra o cabelo dela — A primeira neve em Forks. Agora… Vamos brincar na neve, minhas mocinhas coloridas. — murmurei, sorrindo enquanto percebia o impacto daquela simples escolha em meu coração.
Helena assentiu com um sorriso largo, quase como se entendesse que aquela primeira saída seria uma tradição de descoberta e magia, e não apenas uma brincadeira com neve. Eu a levei até Hilary, que já estava animada para descer da poltrona, e segurei ambas pelas mãos, misturando meu calor ao que emanava de seus corpos pequenos. A expectativa pairava no ar.
— Preparadas para a primeira neve de Forks? — perguntei, tentando conter minha própria excitação, embora meu coração estivesse disparado.
Hilary chacoalhou a mãozinha livre no ar e gritou com toda sua animação:
— Sim, mamãe!
Helena apenas me olhou com aqueles olhos azuis, cheios de compreensão, e murmurou:
— Sim. Juntas… sempre.
Segurei firme ambas, respirei fundo e me preparei para dar o próximo passo.
➶
Abri a porta, e o ar frio invadiu a entrada como uma onda viva. O contraste foi imediato: o calor do interior se dissolveu diante da brisa cortante, carregada do cheiro húmido da floresta e do doce som distante da neve cedendo sob o peso dos galhos. Descemos a varanda, alcançando os degraus que nos levava aos cascalhos encobertos. Hilary foi a primeira a sair, andando com cuidado e depois correu à frente em círculos, tropeçando em seus próprios passos, as bochechas já rosadas pela excitação, rindo alto, e a gargalhada dela pareceu se misturar com o farfalhar suave do vento. As pegadas pequenas ficaram marcadas atrás dela.
Já Helena seguiu mais devagar, observando cada detalhe.
— Pode pisar, vai. — falei, sorrindo — Só é frio, não morde.
Ela hesitou por um segundo, parada ao meu lado, com os olhos translúcido que parecia absorver cada partícula de luz fixos na paisagem branca que se estendia diante de nós.
A primeira reação dela foi de puro silêncio.
Os cílios longos piscavam lentamente, enquanto flocos começavam a pousar sobre eles. Cada um deles derreteu rapidamente, escorrendo até a ponta do nariz, e foi aí que ela soltou um risinho encantado, um som cristalino que atravessou meu peito. Ela tirou a luvinha e ergueu sua mãozinha, e observou um floco se desfazer sobre ela. Sua admiração genuína, me arrancou um sorriso.
Ela riu, olhando o chão, e então abaixou-se, quase instintivamente, para tocar a neve. Ajoelhou-se, e passou os dedos lentamente, como quem decifra algo sagrado. O contraste do branco contra o azul que ela usava parecia tornar a cena quase simbólica: minha filha, que sempre viveu envolta em tom neutro, agora descoberta em cor, descobrindo também o mundo.
— Mamãe… — Hilary esticou as mãos pequenas para o céu, deixando que os flocos pousassem nelas — Tá frio!
— Frio… mas bonito. — Helena murmurou, franzindo o nariz e olhando para mim como se quisesse confirmar que aquilo era realmente permitido, que o contato com algo tão gelado podia ser seguro.
— É bonito, sim. E é só gelo. — respondi, aproximando-me e tocando o chão ao lado dela — Um gelo que quando o sol toca o faz transformar em brilho.
Ela me observou, pensativa, e então olhou o próprio reflexo difuso em uma poça rasa de água derretida próximo aos seus pezinhos.
— Eu… vou brilhar? — perguntou, tocando a própria bochecha, que começava a ficar corada do frio.
— Você já brilha, Helena. Por isso que é a minha estrelinha. — sussurrei, com a voz embargada.
Helena observava, encantada. Estendeu a palma, capturando outro floco. Ele derreteu tão rápido que ela franziu a sobrancelha, como se tentasse entender por que algo tão bonito desaparecia.
— Querem brincar? — perguntei, pegando meu par de luvas pequenas no bolso do casaco — Eu vou ensinar uma coisa que eu fazia quando era criança.
Mostrei a elas como juntar a neve e moldá-la nas mãos. Hilary tentou, mas as bolas se desfaziam antes de ganhar forma. Helena, em contrapartida, observava fascinada o movimento da irmã, depois olhou para mim, buscando permissão. Eu calcei sua luva de volta à sua mão e assenti. Ela ajuntou um tanto de neve, mas apertou com força demais; a bola de neve estalou em um bloco compacto, quase gelo.
— Assim não, meu amor. — ri, surpresa — Você é muito forte pra isso. Faz mais leve. Bem de levinho.
Ela me olhou de lado, confusa, como se não entendesse de onde vinha aquela diferença, mas tentou de novo. E conseguiu. O segundo punhado ficou perfeito, e em um só movimento moldou uma bola perfeita, compacta, e ela o ergueu com orgulho.
— Consegui! — disse, os olhos brilhando como topázio azul à luz cinzenta.
Hilary começou a rir e a jogar neve para todo lado. Helena entrou na brincadeira, mas de um jeito diferente. Ela a arremessou com tamanha precisão que acertou de leve a barra do vestido da irmã. Hilary soltou uma risadinha e revidou, espalhando neve por todos os lados.
A gargalhada das duas ecoou entre as árvores.
Helena correu, desviando dos flocos que a irmã lançava. Sua velocidade era inacreditável, sutil, mas nítida para mim. Nenhum tropeço, nenhum vacilo. Ela girava, desviava, deslizava sobre o solo gelado como se o corpo já conhecesse aquele terreno desde sempre.
— Ei! — eu ri, fingindo um tom de bronca — Assim não vale!
— Nena tá... muito rápida... né mamãe! — Hilary protestou, as bochechas coradas.
Helena apenas deu de ombros, rindo. As pontas do cabelo estavam cobertas de flocos, e seus olhos azul-claros refletiam o branco ao redor, cintilando. Hilary se aproximou correndo e esbarrou nela, mas, ao invés de desequilibrar-se, Helena apenas deslizou para o lado com uma leveza improvável, os pés quase flutuando sobre a neve fofa. Foi rápido, natural, tão espontâneo quanto o riso que soltou logo depois. Eu ri junto, o coração aquecido apesar do frio. As duas começaram a girar, lançando punhados de neve uma na outra, e naquele instante o som das risadas delas enchia o ar, quebrando o silêncio denso da floresta ao redor.
Quando a brincadeira acalmou, Hilary veio correndo, tropeçando na neve, e se jogou no chão com a energia que só uma criança humana poderia ter, e tive a ideia de mostrar a elas como fazer anjos de neve.
— Querem ver outra coisa bonita? — me aproximei, abaixando-me ao lado delas.
Nos sentamos lado a lado, eu no meio, Helena à esquerda, Hilary à direita. Deitei-me de costas na neve fofa e abri os braços.
— Faz igual a mamãe. — falei.
Hilary caiu ao meu lado com um ploft divertido, abrindo e fechando os braços com energia. Helena se deitou devagar, o movimento foi tão leve que nem deixou marca no impacto, o azul do macacão destacando-se no branco puro, e começou a mover os bracinhos curtos com delicadeza. Dei mais algumas instruções de coordenação e movemos braços e pernas até chegar num ritmo coordenado. O céu parecia tão próximo que eu quase podia tocar as nuvens.
— Olha, mamãe! Mamãe! Eu faço... anjo! — Hilary gritou, abrindo os braços e pernas como a ensinei.
E quando terminou, sentou e ficou apenas olhando o desenho que havia feito. Um anjo imperfeito, assimétrico, mas o primeiro dela.
— Ele… dorme? — Hilary perguntou, com aquele olhar curioso.
— Não, meu amor. Ele fica aqui. Sempre que nevar, vai se lembrar que vocês estiveram neste lugar. — respondi, ajoelhando-me ao lado delas, sentindo a neve colar nos joelhos da calça.
— Parece... asas!
— E tem mesmo. — respondi, com a voz baixa e o peito apertado — Duas asas enormes.
Helena, por sua vez, moveu os braços devagar, concentrada, e quando parou, o anjo dela parecia mais nítido que o meu.
— Olha só. O seu ficou perfeito.
Ela se levantou com uma agilidade que nenhuma criança normal teria. O movimento foi tão leve, tão rápido, que a neve nem se despedaçou sob seu corpo. Fiquei observando, silenciosa. Ela olhou para mim, o cabelo escuro salpicado de flocos, e sorriu sem perceber o que aquilo significava.
— Foi fácil. — respondeu, inocente.
Talvez fosse. Para ela.
Olhei para minhas filhas, uma humana, a outra metade de algo que eu ainda aprendia a compreender e senti um nó de ternura na garganta.
O vento soprou, fazendo os flocos dançarem ao redor de nós. Hilary estendeu a língua para o céu, tentando capturar os flocos. Helena fez o mesmo, mas, em um gesto delicado, um floco pousou na ponta de seu dedo enluvado, ela o observou derreter devagar, como se entendesse a beleza efêmera daquele instante.
Hilary passou a chutar a neve fofa com as botinhas, e ria cada vez que ela se espalhava no ar como pó brilhante.
— Olha, mamãe! Tô fazendo nuvem! — dizia, girando até ficar tonta.
Helena a observava, encantada, mas diferente. Seu olhar não era de pura brincadeira; havia um foco curioso, quase analítico. Ela se abaixou, apanhando um punhado de neve, e o girou entre os dedos com precisão. Ela ergueu os olhos para o céu, o rosto sereno, e estendeu uma das mãos, deixando que os flocos caíssem sobre a palma coberta. Hilary correu até ela e a puxou pela manga.
— Mamãe! Hiwawy quer boneco! Vamos fazer boneco! — gritou.
Nos agrupamos mais uma vez, e dei instruções às duas para começarem a juntar neve, e eu fiquei observando, até que um som diferente, um estalo rápido, chamou minha atenção. Helena se endireitou de repente, os olhos fixos em algo acima, seguindo algo que eu não vi. Eu mal tive tempo de perceber o movimento.
Num impulso leve, ela dobrou os joelhos… e saltou.
O ar se abriu. Foi tão alto que o coração me subiu pra garganta.
Helena subiu mais alto do que qualquer criança poderia. Que qualquer ser humano poderia fazer! O capuz azul se abriu como asa pequena, e por um instante, sob a neve em queda, ela parecia suspensa no tempo, num fragmento de luz e força.
— Helena! — o grito escapou antes que eu pensasse.
Ela pousou no chão a alguns metros de distância, sem som, sem desequilíbrio. A neve se ajeitou sob seus pés, intacta, como se a tivesse acolhido. Ficou ali, parada, com um sorriso leve, o mesmo sorriso que ela dava quando acertava uma palavra difícil ou aprendia algo novo com facilidade.
Hilary olhou para mim, os olhos arregalados.
— Mamãe, a Nena voa!
Meu coração batia tão forte que o frio pareceu sumir. A mente racional tentava encontrar uma explicação, terreno escorregadio, impulso, qualquer coisa que soasse possível. Fiquei ali, ajoelhada na neve, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. O ar frio queimava meus pulmões, mas eu mal respirava, ainda presa à imagem dela suspensa no ar, leve como um floco, forte como o vento. E o olhar de Helena, tão tranquilo, me dizia que não havia nada acidental naquilo. Ela voltou correndo, quase saltitante, até nós, e sua velocidade me deixou ainda mais sem fôlego. Nenhum tropeço, nenhum desequilíbrio; seus movimentos eram suaves, exatos, o corpo em perfeita harmonia com a força que o habitava. Quando chegou, parou diante de mim, ofegante apenas por curiosidade.
— Desculpa, mamãe! Eu só queria ver até onde conseguia pular. — a voz dela era calma, mas havia um lampejo de excitação nos olhos, como se tivesse acabado de revelar um segredo sobre si mesma.
Tirei a luva direita da minha mão, e toquei seu rosto, o calor da sua pele contrastando com o frio da minha mão.
— Está tudo bem, meu amor. Só… me avisa antes da próxima vez, tá? — tentei sorrir — Quase perdi o coração. — admiti, deixando escapar um sorriso — Mas é porque você me surpreendeu, filha. Foi tão rápido que eu nem consegui piscar.
— Lindo, né mamãe?! Lindo! Lindo! Nena tá igual um vo-vó. Faz de novo, Nena! Faz! Faaz!
— Acho melhor não. — respondi antes que Helena se preparasse para outro salto — Já foi o suficiente. A neve está escorregadia… e o coração da mamãe ainda tá se recuperando. — falei, tentando esconder o nervosismo.
Helena riu, e Hilary se juntou a ela, já esquecida do susto. Helena abaixou-se e passou os dedos sobre a superfície branca, traçando linhas no chão.
— Eu não sabia que podia fazer isso, mamãe. Só senti vontade.
— E o que sentiu quando estava lá em cima? — perguntei, tentando compreender.
Ela pensou por um instante, os olhos azuis perdidos nas copas das árvores.
— Um sentimento..., não sei se ele tem um nome, mas é como o descanso. E a temperatura fria. — respondeu, simples, sincera — Foi como se o vento me segurasse, mamãe.
Hilary se jogou na neve, interrompendo o momento com sua alegria pura.
— Eu quero fazer anjo! Anjo! — gritou, abrindo os braços e mexendo-os num ritmo desordenado.
Helena olhou para ela, riu e a imitou, mas com a mesma delicadeza sobre-humana que tinha em tudo. A neve se moveu ao redor dela sem se despedaçar, os flocos pareciam dançar com ela. Quando se levantou, o desenho ao redor era perfeito, como se tivesse sido moldado por mãos invisíveis.
— Uau! O anjo... ficou certinho! — disse Hilary, admirada — Aah... O meu tá um sapo! Feio! Hiwawy não qué!
Helena olhou para a irmã, inclinou a cabeça e começou a ajeitar o contorno das asas dela com cuidado, os dedos ágeis.
— Agora ficou igual ao meu, Hili. — disse, orgulhosa.
Eu as observava, o coração apertado num calor que não vinha do meu corpo.
Aquela diferença entre elas, que às vezes me assustava, agora parecia desaparecer diante da beleza do momento, uma humana e uma híbrida, duas metades perfeitas do mesmo milagre.
As duas começaram a pular juntas, no ritmo humano e infantil da Hilary, e a neve voava em torno delas como um milhão de pequenas estrelas. Hilary estendeu as mãozinhas e girou junto, gargalhando. Helena a acompanhou, o rosto erguido, o olhar refletindo o céu branco.
— Mamãe, olha! — exclamou Hilary — A ne-neve tá dançando com a bebê!
— Está mesmo. — respondi, a voz falhando de emoção — E vocês também estão dançando com ela.
Suspirei, o vapor do hálito subindo condensado pelo ar, duas meninas tão diferentes e, ainda assim, tão minhas. E isso me mostrava que, mesmo em meio ao sobrenatural que cercava Helena, havia algo profundamente humano em cada gesto dela: a curiosidade, o riso, o brilho nos olhos ao descobrir o mundo pela primeira vez.
Por um instante, o mundo me pareceu parar. O som da floresta, o murmúrio distante da água correndo, o riso da Hilary e o brilho tranquilo nos olhos de Helena se misturaram em uma sinfonia silenciosa que parecia me envolver inteira. Eu respirei fundo. O ar frio entrou pelos meus pulmões, doeu um pouco, mas era uma dor boa. Ali, no meio da neve, se abria algo simples e avassalador: não era a cor rosa e azul que tornava aquele momento especial, nem a paisagem branca, nem o frio que queimava a ponta dos meus dedos, era o fato de que, pela primeira vez, eu estava vendo minhas filhas descobrirem o mundo juntas, com os próprios olhos.
Passado certo tempo, Helena parou de girar, caminhou até mim, e encostou a testa na minha, pondo a mãozinha sobre a minha, e o toque me fez estremecer.
— Mamãe está bem feliz… — murmurou.
— Muito. — respondi, sem conseguir conter o sorriso — E você?
— Eu… também. Sinto meu coração mais quente. — disse ela, tocando o próprio peito — Eu gosto daqui. — disse baixinho — Gostei da neve.
Aquela frase me desmontou por dentro.
— Eu também, meu amor. — sorri — Mas o que eu mais gosto é ver vocês felizes.
Abracei as duas, ali mesmo, no meio do quintal coberto de neve, sem me importar com o frio ou com a humidade que começava a subir pelas roupas. Tudo o que importava estava entre meus braços: duas pequenas vidas, dois corações quentes, e o sentimento incontrolável de que, finalmente, estávamos começando a florescer em meio ao inverno. E eu desejei, com toda a força que ainda restava em mim, que aquele momento durasse para sempre.
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O vento soprou, levantando a neve remexida ao redor de nós.
— Vamos entrar, Hilary e Helena. Está ficando gelado demais.
Elas correram até mim, uma de cada lado. Entrei com as duas nos braços, tentando disfarçar o pensamento que ainda não me deixava: aquele salto.
Tão leve, tão certo, tão fora do normal.
Quando entramos de volta na casa, o calor nos envolveu como um abraço. O ar cheirava a madeira aquecida, lavanda e canela, provavelmente influência da Alice e de algum dos seus difusores de “espírito natalino”. Helena ainda olhava para trás, para o quintal branco. Hilary, por outro lado, já tentava se soltar de mim para ir correndo em direção à escada, com o nariz vermelho e as bochechas coradas.
— Banho, mocinhas! — anunciei, tirando as luvas molhadas das mãos delas.
Hilary fez um biquinho, cruzando os bracinhos.
— Não tô xuja, mamãe!
A voz dela saiu meio arrastada, com aquela entonação infantil que me fazia sorrir até nos dias mais exaustos.
— Você está com os pés congelados, isso sim. E cheirando a neve. — respondi, levantando uma sobrancelha.
Helena riu baixinho, o riso suave e musical.
— Ne-neve tem cheiro? — Hilary perguntou, curiosa.
— Hoje teve. — respondi, encostando o dedo na pontinha do nariz dela, que ainda estava frio — Cheiro de aventura.
Subimos juntas, o frio ainda estava grudado nas nossas roupas quando entrei com as meninas no quarto. As bochechas delas estavam rosadas pela neve, e ambas tremiam de leve, Hilary de frio, Helena… só imitava a irmã.
— Vamos pro banho antes que vocês virem picolés! — falei, direcionando-as.
Abri a porta do banheiro e logo o vapor quente começou a preencher o lugar assim que eu liguei o registro. O som da água caindo ecoava contra o azulejo, criando um pequeno refúgio de conforto. Helena foi a primeira a tirar as botinhas, jogando cada uma para um lado com entusiasmo demais. Hilary tentou imitar, mas na primeira tentativa, a meia enroscou no pé, e ela quase caiu sentada. Segurei pelas axilas antes que batesse no chão.
— Calminha, meu amor. — sussurrei.
As duas ficaram lado a lado enquanto eu ajudava a tirar os tecidos molhados, as blusas grudadas no corpo e o cheiro frio da neve que ainda saía das fibras. Era a primeira vez que eu juntava as duas no banho assim, sozinhas comigo, sem pressa, como uma mãe acostumada. Achei que seria confuso ter duas crianças, duas temperaturas diferentes, dois ritmos mas, na verdade, elas encaixaram como se eu já fizesse isso há anos.
— Vamos entrar, mamãe! — Helena pediu, puxando minha mão para o box.
Entrei com elas. A água bateu nas minhas costas e logo escorreu pelas duas cabecinhas. Hilary fechou os olhos e deu uma risadinha curta. Helena inclinou o rosto para cima como se a água não tivesse temperatura nenhuma; estava só curtindo.
— Cuidado, está quente. — falei, passando a mão no cabelo molhado dela.
Ela não sentiu desconforto nenhum, claro. Híbrida. Mas não era hora de pensar nisso. Comecei esfregando o sabonete nas costas da Hilary. Ela deixou a cabeça encostar na minha coxa, tranquila, quase derretendo de preguiça. Enquanto isso, Helena não conseguia ficar parada. Ela escorregava de propósito no piso antiderrapante, girava em círculos, e depois tentava “pegar” a água que caía, como se fosse algo sólido. Num desses movimentos, ela deu um mini salto, só para testar… e subiu mais do que qualquer criança normal subiria. Não o suficiente para me alarmar, mas o suficiente para eu sentir o estômago apertar.
— Helena. — chamei firme, segurando-a pelo antebraço.
— Desculpa, mamãe. — ela murmurou, sem culpa, apenas sincera.
Tirei os cachos molhados da testa dela.
— Não tem problema. Mas aqui dentro a gente só brinca no chão, está bem?
Ela assentiu, e pela primeira vez no dia ficou quietinha.
Continuei o banho das duas ao mesmo tempo, uma no meu braço esquerdo, mais calminha; a outra encostada na minha perna, controlando a energia do jeito que conseguia. E, estranhamente, nada pareceu demais.
Só… natural.
Como se eu tivesse nascido para esse momento.
Enquanto Hilary brincava com a espuma, Helena observava cada movimento, fascinada com as bolhas que estouravam nas mãos.
— Elas fazem um som quando aparecem… — murmurou, encantada, esfregando as palmas — E o som… some. E quando estouram, o som é outro.
— Isso mesmo. — falei, enxaguando seu cabelo escuro, que agora começava a mostrar um brilho castanho profundo mais quente sob a luz amarelada — Elas somem, mas sempre deixam um cheirinho gostoso...
Helena encostou a cabeça no meu braço, relaxando. Era bom vê-la tão entregue, e naquele instante o tempo pareceu se dissolver. Hilary, ao lado, já inventava pequenas canções improvisadas, misturando palavras e sons, o que arrancava sorrisos espontâneos de mim e de Helena.
Quando as duas estavam limpas, desliguei o chuveiro, as duas vieram para o meu peito ao mesmo tempo, procurando meu calor e envolvi cada uma em uma toalha macia e senti a pele quente e húmida sob meus dedos, e ficamos um instante ali, as três apertadas, com cheiro das loções e respirações descompassadas. Hilary cheirava a sabonete de baunilha; e mesmo que eu tenha usado o mesmo em Helena, ela exala um pouco de lavanda, bem suave.
Nos direcionei ao closet, separando minhas peças de roupa sem escolher muito para as vestir com as roupinhas escolhidas, possivelmente, pela própria Alice, dobradas e empilhadas sobre o puff, senti o coração apertar de ternura.
Hilary usava um vestidinho vermelho com bordados dourados na barra, e Helena, um conjunto verde musgo que parecia realçar o tom claro dos olhos.
— Minhas duas pequenas cores vivas. — murmurei, ajeitando os fios do cabelo delas.
— Mamãe… bonita. — disse Hilary, olhando-me atentamente.
— E você também, minha flor. — respondi, beijando-lhe a testa.
Descemos juntas, de mãos dadas. O som de vozes e risadas ecoava da cozinha. Assim que viramos o corredor, o aroma nos envolveu, um misto de pão fresco, especiarias e algo assando no forno. Rosalie e Esme estavam por lá, em plena harmonia. Esme misturava algo em uma tigela de cerâmica, enquanto Rosalie ajeitava travessas na mesa, o semblante sereno e um leve sorriso no rosto.
— Que bom que voltaram! — disse Esme, erguendo os olhos e abrindo os braços — Estava prestes a chamar vocês.
— Elas aproveitaram bem a neve! — respondi, com um sorriso cansado, mas feliz — E agora estão famintas.
Hilary já tentava subir no cadeirote sozinha, enquanto Helena observava tudo, farejando o ar como quem decifra um novo tipo de prazer.
— Cheiro bom… — murmurou, tocando o nariz.
— Obrigada, querida. — Esme riu, encantada — É sopa de abóbora e pão de mel. A Alice achou que seria perfeito para um dia frio assim.
— Posso provar? — Helena olhou para mim, os olhos curiosos.
— Pode sim, meu amor. — respondi, servindo-a com cuidado.
Sentei-me entre as duas, observando-as provar o primeiro gole. Hilary soltou um “hummm” exagerado, que me fez rir baixinho. Helena levou mais tempo, experimentando com cautela, até que um pequeno sorriso despontou no canto dos lábios.
— Muito bom… quente. — disse, olhando para a tigela.
Fiquei em silêncio por um instante, tocando o cabelo dela com os dedos.
Aquelas pequenas descobertas, o frio da neve, o calor do banho, o sabor da sopa, eram as primeiras memórias que ela estava construindo fora do branco. E eu… eu as guardava todas como se fossem tesouros. Do outro lado da mesa, Rosalie observava discretamente, os olhos dourados suavizados pela luz da tarde. Ela me lançou um olhar breve, algo entre aprovação e ternura silenciosa.
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Depois do almoço, eu me reuni com minhas filhas na sala, havia uma pequena pilha de livros infantis empilhada em uma das poltronas, e agora estávamos as três esparramadas no mesmo sofá. Vi quando Esme simplesmente apareceu nos últimos degraus da escada e se aproximou de mim com aquele sorriso acolhedor que parecia envolver qualquer ambiente.
— Ela está quase dormindo, Amberli. — disse, estendendo a mão para Hilary, que piscava devagar, lutando contra o sono — Posso levá-la para o quarto?
— Claro. — assenti, alisando o cabelo da minha pequena. Deixei que os braços frios de Esme circundasse o corpinho da minha filha — Se ela tentar resistir, basta entregar a chupeta. Ela sempre cede.
— Eu imagino. — respondeu Esme, com um brilho suave nos olhos — Ela é cheia de luz, como a mãe.
Assisti enquanto ela subia as escadas com Hilary no colo, o corpo pequeno afundando contra o ombro da vampira como se tivesse encontrado o colo mais seguro do mundo. E então fiquei ali, na sala, apenas com Helena. Ela segurava minha mão, olhando ao redor com aquela curiosidade quieta. Seus olhos azuis percorreram cada canto, até que algo dourado no canto da estante capturou minha atenção, um tabuleiro de xadrez. Era lindíssimo: as peças em marfim e ônix polido, cada uma entalhada com detalhes minuciosos; a rainha tinha um véu translúcido de pedra, o cavalo parecia pronto para galopar. O tabuleiro, em tons de carvalho escuro e dourado, refletia um pouco da luz que entrava pela janela.
— Olha, estrelinha… — murmurei, rompendo o contato de nossas mãos com carinho, me levantei, aproximando-me da peça e voltando para ela — Isso é um jogo de xadrez.
Ela franziu o rostinho, curiosa, inclinando-se ligeiramente.
— Xadrez… — repetiu, sem nenhuma dificuldade, o olhar já fixo nas peças — Bonito.
Sorri, abrindo a tampa e organizando as peças sobre a mesa de centro à nossa frente. O som suave das pedras deslizando contra a madeira ecoou pela sala suave.
— É um jogo bem antigo. — sentei-me no sofá, puxando-a para o meu colo — A gente joga com a cabeça, estratégia. Existem dois lados: o branco e o preto. Cada um tenta proteger o seu rei, e quem conseguir encurralar o rei do outro vence.
Ela observava atentamente, os olhos atentos ao movimento das minhas mãos.
— Então, eles lutam?
— De certo modo… sim. Mas é uma luta de mente, não de bater. — peguei um peão branco e o coloquei à frente — Este aqui é o peão. Ele é pequeno, mas muito importante. Só anda para frente, um passo de cada vez, mas chega longe, se for paciente.
Helena encostou o dedinho na peça.
— Devagar…, mas forte.
— Isso mesmo, meu amor. — murmurei, sorrindo com admiração — Muito forte. Ele vai longe se souber o momento certo de se mover.
Expliquei-lhe então cada peça: os bispos que se movem em diagonais, os cavalos que pulam em “L”, as torres firmes e diretas, e a rainha, a mais poderosa do tabuleiro, capaz de ir em qualquer direção.
— Ela pode ir aonde quiser. É a mais livre. — digo, movendo a rainha com cuidado — Mas só vence se proteger o rei.
Helena pensou por um segundo, depois disse:
— Ela cuida de todo mundo.
— Sim… cuida mesmo. — meu coração se apertou.
Helena ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo tudo. Então pegou uma das peças escuras e a moveu, com precisão surpreendente, exatamente como eu havia mostrado.
— Assim? — perguntou, levantando o olhar para mim.
Fiquei imóvel por um instante. Ela havia entendido cada movimento, cada regra, como se o jogo já fizesse parte dela.
— Sim… exatamente assim. — respondi, a voz um pouco trêmula, surpresa — Você aprendeu muito rápido.
Ela deu um sorrisinho satisfeito.
— Eu te vi fazendo… e minha cabeça lembrou de outras partidas...
A maneira como disse aquilo, com uma naturalidade quase inocente, me fez prender o ar. Havia algo de sobrenatural naquela inteligência tranquila. A natureza híbrida dela parecia se manifestar não apenas em força, mas em compreensão: uma mente que absorvia e retinha o mundo com uma facilidade quase totalmente fora do meu comum.
— Você lembra do que eu faço? — perguntei, tocando-lhe o queixo.
— Lembro, e percebo o que você sente quando faz. — e tocou o peão novamente — Quando você falou do pequeninho, eu te senti dentro… querendo que ele chegue longe. Engraçado né? Eu senti isso quando vi a tia Alice jogando uma vez..., mas ela tem alguma coisa diferente. Com você foi mais fácil, mamãe.
Engoli em seco. Aquele comentário, vindo de uma garotinha tão pequena, atravessou algo dentro de mim. Helena não apenas entendia o jogo… ela entendia a mim. O silêncio que se seguiu pareceu vibrar entre nós.
Eu quis dizer algo, mas as palavras fugiram. Ela então pegou a rainha preta e a moveu de forma precisa, demonstrando que saberia bloquear o meu rei. Sua cabecinha cacheada se virou para mim, com um ar vitorioso.
— Isso seria um Xeque, mamãe? — a voz dela saiu doce, consistente, quase musical.
Soltei uma risada baixa, sem conseguir conter o orgulho que me inundava.
— Xeque… — repeti, e toquei seu rostinho — Acho que em breve terei uma pequena campeã aqui.
Helena encostou a cabeça no meu peito, e ficou quieta, os olhinhos semicerrados num sorriso tranquilo.
— Eu gosto quando você sorri. Fica quentinha por dentro.
Soltei um riso surpreso, inesperado. E eu realmente fiquei. Aqueceu algo em mim que nenhuma lareira poderia. O silêncio que se formou não era de ausência, mas de um silêncio que só o amor verdadeiro preenche. Helena era o mais puro equilíbrio entre o humano e o impossível. Absurdamente encantadora.
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Agora estávamos sentadas à mesinha de centro da sala, com o tabuleiro de xadrez montado entre mim e Helena. As peças estavam perfeitamente alinhadas, brancas do meu lado, pretas do dela. Eu havia proposto o jogo como uma brincadeira inocente, algo para nos distrair um pouco naquela tarde fria e Helena estava se esforçando para me derrotar.
— Vou te vencer, mamãe! — Helena disse, com um sorriso confiante no rosto.
— Ah, é? — eu disse, levantando uma sobrancelha — Vamos ver sobre isso.
Eu estava jogando com a minha mão direita, enquanto Helena estava jogando com a sua mão esquerda, mas tinha alta facilidade com qualquer uma. Helena fez o seu primeiro movimento, movendo o seu peão da frente para a frente e eu ajeitei a peça no centro do tabuleiro, tentando manter o olhar fixo na torre preta que ela vinha conduzindo desde o início. Minha filha apoiava o queixo nas mãozinhas, os olhos azuis faiscando em pura concentração, enquanto eu tentava não sorrir com o excesso de seriedade que ela colocava em cada movimento. Eu respondi movendo o meu cavalo para a esquerda, ameaçando o peão de Helena.
A chuva tamborilava na janela, o som misturando-se ao estalar leve das peças. Fiquei um tempo apenas observando Helena mover as peças. Ela fazia tudo com tanta calma, sem hesitação, que por momentos parecia muito mais velha do que era. As pequenas mãos se moviam com precisão, e o brilho atento nos olhos azuis me lembrava de alguém que já tinha vivido muito, talvez mais do que eu pudesse compreender.
— Ah, não! — Helena disse, com um riso infantil — Você não vai me vencer tão facilmente, mamãe.
Eu sorri e continuei a jogar. O jogo foi se desenrolando, com cada uma de nós fazendo movimentos estratégicos. Movi meu peão duas casas à frente, abrindo caminho para o bispo. O som das peças deslizando pelo tabuleiro encheu o pequeno silêncio que se formou entre nós. Helena observou atentamente o movimento, apertando os lábios, ela sempre fazia isso quando pensava. Depois, moveu o cavalo com firmeza, exatamente na diagonal que ameaçava meu peão. “Corajosa”, pensei, observando a jogada. Eu estava acostumada com a rapidez dela em muitas coisas todos os dias, e havia algo novo ali, uma lógica madura demais para a pouca idade, uma leitura instintiva do tabuleiro que me fez endireitar a postura.
Helena estava jogando muito bem, depois de alguns movimentos, eu começava a me sentir… ligeiramente pressionada e estava começando a me preocupar que ela pudesse realmente me vencer. Helena estava jogando como se fosse uma profissional. Ela estava movendo as peças com uma confiança e uma estratégia que eu nunca havia visto antes em uma criança. Ela mantinha um olhar sereno e concentrado, os dedos pequenos pairando sobre o cavalo preto como se calculasse o peso de cada jogada. Quando moveu a peça, seu gesto foi firme e preciso. Eu observei o tabuleiro, tentando decifrar a estratégia que ela parecia estar tecendo com uma calma que eu mesma não tinha.
— Você está ficando boa demais nisso... — comentei, movendo minha rainha para protegê-lo — Como você está fazendo isso, Helena? — eu perguntei, meio divertida, estupefata — Tá me dando trabalho. Você está jogando como se fosse uma adulta.
Helena ergueu o olhar e apenas sorriu, aquele sorriso contido que denunciava um tipo de satisfação silenciosa, com uma surpresa emocionada percebi a semelhança ao mesmo sorriso que eu costumava dar quando minha mãe percebia que eu estava escondendo alguma traquinagem. Seus olhinhos voltaram ao tabuleiro, continuando a jogar. Ela estava completamente focada no jogo, e eu podia ver que ela estava determinada a me vencer.
— Eu só estou pensando com calma, mamãe.
— Pensando com calma, é? — respondi, tentando manter um tom firme, embora o orgulho já me atravessasse.
Ela ergueu os ombros, sem desviar os olhos do jogo.
— Eu só estou tentando pensar igual a você.
— Igual a mim? — ri — Isso é perigoso.
Helena me olhou por um segundo e deu aquele sorrisinho contido que sempre me desmontava.
— Mas se eu pensar como você, eu vou ganhar de você.
Enquanto ela ajeitava um cachinho atrás da orelha, percebi a naturalidade etérea dos seus gestos, a concentração quase hipnótica. Eu estava começando a me sentir um pouco desconfortável. Eu havia jogado xadrez por anos, conheci o xadrez na adolescência, havia aprendido em tardes após a escola, jogando contra um velho vizinho que me ensinava a paciência mais do que a estratégia. E desde então eu sempre havia sido muito boa. Mas agora, o modo como Helena jogava... era diferente, eu estava sendo desafiada por uma criança de meses de idade.
— Helena, você é uma jogadora de xadrez incrível, sabia? — eu disse, tentando manter a calma — Mas eu não vou desistir facilmente. — murmurei, já imaginando que o resultado não seria exatamente o que eu esperava.
— Não vale elogiar pra me distrair, mamãe. — ela respondeu, e a franqueza na voz me fez rir.
Antes que eu pudesse responder, senti um leve arrepio no ar, uma presença suave atravessar o ambiente, não um som, mas uma vibração. Um sutil abaixamento do ar, uma calma que parecia se espalhar como bruma. Um movimento tão sutil que apenas alguém acostumado à presença dos Cullen notaria.
— Impressionante. — ouvi uma voz grave, suave e controlada atrás de mim.
Virei-me. Jasper estava parado à entrada da sala, as mãos cruzadas nas costas, observando com aquele olhar de calma calculada que lhe era tão próprio. O cabelo dourado captava o brilho das luzes do ambiente, e havia no rosto dele uma expressão entre surpresa e ternura. Helena não se virou, manteve o olhar nas peças, mas um sorriso discreto apareceu no canto de seus lábios.
— Eu não quis interromper. — disse ele, aproximando-se em passos silenciosos — Mas era difícil não sentir a intensidade desse momento.
Helena virou-se curiosa, os olhos fixos nele.
— Tio Jasper… — disse com um sorriso contido, pronunciando o nome com uma doçura encantadora — Você chegou na hora certa, eu ganharei da mamãe. — ela disse, mexendo outro peão.
— Eu vejo. — respondeu ele surgindo mais próximo, agachando-se para ficar à altura dela — Você pensa em cada jogada como se já soubesse o que vem a seguir.
Ela inclinou a cabeça, pensativa.
— Eu senti o que vinha.
— Sentiu? — Jasper arqueou uma sobrancelha, intrigado.
— Uh-hum! — ela confirmou, tocando o peão branco — O tabuleiro… fala baixinho. Diz para onde ir. E sinto a mamãe.
— Ela prevê meus movimentos com uma calma que eu invejo. — respondi, sem tirar os olhos de Helena.
Ele olhou para mim, e eu pude ver o leve brilho de fascínio em seus olhos dourados.
— Isso é notável. Não é só percepção. É sensibilidade pura. Ela pensa diferente. Não reage à pressão emocional, apenas à intenção.
— Ela deve ter isso desde muito pequena, então. — comentei, ajeitando o cabelo de Helena — É como se entendesse o mundo por dentro, antes mesmo de aprender a explicá-lo.
Jasper manteve o olhar nela, mas o que ele dizia era mais para ele do que para mim:
— Ela não apenas percebe emoções… ela as traduz.
Helena o encarou por um instante, quieta, e então estendeu a mãozinha, tocando a manga da camisa dele.
— Você também sente, né? Mas é pesado…
A frase fez o ar parecer prender-se entre nós. Jasper congelou por um segundo, não por medo, mas por genuíno espanto. Ele piscou devagar e respondeu com suavidade:
— É… às vezes é.
Helena assentiu, com a serenidade de quem entende mais do que deveria.
— Eu posso dividir.
Ele sorriu. Um sorriso pequeno, quase imperceptível, mas sincero, coisa rara de ver em Jasper.
— Obrigado, pequenina. Mas hoje, só de ver vocês duas, o peso ficou mais leve.
Ela riu baixinho, e o som pareceu preencher a sala como uma nota clara. Fiquei olhando de um para o outro, sem entender essa última troca de informações. Jasper então se levantou e colocou uma das mãos no meu ombro, num gesto de carinho contido.
— Ela é extraordinária, Amberli. E você também. — olhei para minha filha, ainda mexendo nas peças do tabuleiro, e senti o peito aquecer.
— Eu faria qualquer coisa por ela, Jasper. Por elas.
Ele assentiu.
— E isso é exatamente o que te torna diferente de qualquer humano que já vi.
Por um momento, ficamos em silêncio, eu, ele e Helena, enquanto o som distante do vento do lado de fora batia contra os vidros.
Helena ergueu o olhar para mim, e abaixou os olhos para o tabuleiro mais uma vez e, surpresa, começou a rir e continuou a jogar. Ela estava completamente no controle do jogo, e eu podia ver que ela estava se divertindo muito. A partida seguiu num ritmo crescente. Eu tentava equilibrar a vantagem, mas a cada movimento ela me forçava a repensar o tabuleiro inteiro. Eu me via tentando prever as intenções dela, bloqueando com torres e sacrificando peças para abrir espaço. Helena, por outro lado, parecia antecipar tudo, como se estivesse um passo à frente. Cada vez que eu achava que tinha uma vantagem, ela me forçava a recuar. Aquilo já não era mais um simples jogo, era uma dança silenciosa entre o instinto e a lógica, entre mãe e filha, entre o orgulho e a rendição.
— Se eu mover esse aqui… — ela murmurou, franzindo as sobrancelhas de um jeito pensativo — …você vai querer me pegar por aqui, né, mamãe?
— É possível. — sorri —Mas depende do que você pretende me mostrar.
Ela olhou o tabuleiro mais uma vez, e eu pude ver o raciocínio rápido por trás daquele olhar cristalino. Helena não jogava por sorte, jogava por estratégia e sensações.
— Eu quero que você ache que vai ganhar. — disse por fim, baixinho, empurrando o cavalo branco com um movimento decidido.
— Isso é uma armadilha, então? — eu ri baixinho, surpresa com a confiança.
— Eu só quero ver o que acontece depois. — ela deu de ombros, fingindo inocência. — Sinto que vai ter xeque daqui a três rodadas. — ela disse, voltando a focar — Mas ainda posso mudar.
— Três rodadas… isso é muita precisão. — Jasper se manifestou. Assenti concordando.
O jogo seguiu. Aterrissamos de cabeça nos nossos movimentos e minhas mudanças de estratégias.
Eu estava começando a me sentir um pouco frustrada, meus dedos tamborilavam na mesa, num velho hábito de quando eu começava a perder o controle da estratégia. Eu não estava acostumada a perder, especialmente para uma criança. Minha filha. Mas ao mesmo tempo, eu estava muito orgulhosa da Helena. Ela é uma jogadora de xadrez incrível, e eu sabia que ela tinha um grande futuro à frente.
— Helena… — murmurei, semicerrando os olhos — Como você aprendeu a jogar assim?
— Eu só observo quando jogam. — respondeu, simples, sem olhar para mim — E tento lembrar o que fazem, e até melhorar.
Quando percebi, já era tarde.
O rei branco estava isolado e minha rainha encurralada, e Helena apenas levantou os olhos, um brilho travesso dominando o azul cristalino que herdara de outro alguém, sua mãozinha movia a torre com calma absoluta, Helena me fez um xeque-mate. Eu estava perplexa. Eu nunca havia sido derrotada por uma criança antes.
— Xeque-mate. — disse, quase sussurrando.
Fiquei olhando o tabuleiro por um momento, fingindo estudar as possibilidades inexistentes. Depois, ri baixinho e ergui as mãos em rendição. Apoiei-me sobre os joelhos e a puxei para um abraço apertado.
— Parabéns, Helena! — eu disse, e naquele instante, qualquer frustração desapareceu — Você é uma jogadora de xadrez incrível, minha estrelinha! Eu estou muito orgulhosa de você! Eu oficialmente fui derrotada por uma criança de meses.
Helena riu, um som doce e vibrante que parecia iluminar o ambiente inteiro e abraçou-me de volta. Ela estava realmente muito feliz por ter me derrotado, e eu podia ver que ela estava se sentindo muito confiante.
— Parabéns, meu amor. Você jogou como uma verdadeira campeã.
— Obrigada, mamãe! — respondeu ela, escondendo o rosto no meu pescoço, ainda rindo — Eu te disse que ia te vencer!
— Disse mesmo! — ri, passando os dedos pelos cachos dela — E venceu lindamente.
Foi só então que percebi que não estávamos sozinhas mais uma vez, por um movimento discreto no sofá.
Quando olhei na direção, vi Cole sentado ali, observando em silêncio, um sorriso leve brincando no canto dos lábios. Ele parecia completamente envolvido pela cena, as mãos entrelaçadas, os cotovelos apoiados nos joelhos, os olhos fixos em nós duas. Quando Helena se virou e viu que ele estava ali, abriu um sorriso largo.
— Uau, Helena… — ele se levantou, batendo palmas devagar, com aquele tom caloroso que só ele conseguia ter — Isso foi uma jogada impressionante. Eu nem teria visto aquele lance chegando.
— Cole, eu venci a mamãe!
Ele se levantou, batendo palmas devagar, com um brilho divertido nos olhos.
— Eu vi tudo, mocinha. E olha, foi uma jogada de mestre.
— Você acha mesmo? — perguntou ela, erguendo o rosto, animada.
— Acho. — Ele abaixou-se um pouco, ficando na altura dela. — Se continuar assim, vai me derrotar também.
Helena riu e correu até ele, aceitando o abraço espontâneo que ele ofereceu sem pensar duas vezes. Cole retribuiu o abraço, com cuidado, como quem toca algo precioso demais. Aquele gesto tão simples, tão espontâneo, me atravessou por dentro.
— Obrigada, Cole. Eu só pensei que, se eu bloqueasse o cavalo da mamãe e movesse o bispo pra cá, ela ficaria sem saída! — apontou para as posições das últimas peças.
— Ah, claro… — ele disse, arqueando as sobrancelhas, fingindo entender — Uma simples jogada genial.
A maneira como ele falava com ela tinha algo bonito, natural. Não era condescendente, nem exagerado, era genuíno. Eu podia ver a admiração real no olhar dele, e isso me tocou de um jeito silencioso. Quando ele levantou o olhar, me encontrou observando.
Eu desviei rápido, fingindo arrumar as peças no tabuleiro, mas o calor já me subia pelas bochechas.
— Lee, — ele disse, voltando-se para mim — como você ensinou isso pra ela?
Sorri, balançando a cabeça, negando.
— Não ensinei nada, nem um pouco. Ela só... aprendeu sozinha. Pelo jeito, ela observou a Alice jogando com Jasper num dia desses, absorveu, e de alguma forma já entendia tudo antes mesmo de eu explicar. Helena é curiosa demais para esperar que eu ensine qualquer coisa.
Cole assentiu, pensativo, o olhar passando de mim para ela, com uma expressão quase orgulhosa. Helena deixou os braços de Cole caminhando de volta para perto de mim.
— Ela tem algo especial. — comentou como se tentasse decifrar um pequeno mistério — É nítido.
— Eu sei. — respondi, sem conseguir esconder o orgulho de mãe na voz.
Olhei para minha filha, que agora arrumava as peças de volta nas casas iniciais, cantarolando algo baixinho. E, por um instante, senti uma pontada de gratidão por tê-la, por vê-la crescer, e por não estar mais tão sozinha.
Cole se aproximou com propriedade, o tom de voz suave, íntimo.
— Você deve estar muito orgulhosa, Lee.
Ergui o rosto para ele, com um sorriso pleno nos meus lábios.
— Mais do que consigo dizer. — respondi, sentindo meu coração aquecer no mesmo ritmo que o riso dele.
A sala estava quentinha, a lareira acesa deixava reflexos dourados nas peças de marfim, e o som distante da chuva do lado de fora completava o quadro perfeito de paz. Por alguns segundos, eu quis congelar aquele instante. Helena sorrindo. Cole ali. E eu… sentindo um tipo de felicidade contínua que fazia dias que eu deixava entrar, e que se pudesse, nunca mais permitiria que saísse.
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