Sempre ao seu Lado
54 𝟐𝟒 𝐝𝐞 𝐍𝐨𝐯𝐞𝐦𝐛𝐫𝐨 ➶
Notas iniciais

Sempre ao Seu Lado
Capítulo 50
Um som me chamava. Havia ritmo, insistência, e quebrava o peso do sono, me tirando do torpor do sonho já esquecido. Engoli a saliva acumulada dentro da boca me virando na direção de onde o som surgia, e mais uma vez ele veio. Três batidinhas leves na porta. Ainda de olhos fechados, reconheci o ritmo delicado dos punhos de Esme contra a madeira, atencioso, quase musical, como tudo o que ela fazia.
— Amberli, querida... Já está quase na hora. — sua voz chegou aos meus ouvidos baixa, doce, do outro lado da porta fechada.
Eu respirei fundo antes de responder com um resmungo que ela escutaria, sentindo o ar frio da manhã escapar pela fresta da janela que eu deixei posar minimamente aberta. Mesmo no calor das cobertas, algo em mim ainda carregava o sal da manhã anterior. Era estranho, não era um sonho, mas a memória física do porto de La Push parecia entranhada na minha pele. O cheiro da madeira molhada, o som das cordas batendo nos mastros, e aquela brisa cortante que atravessava os cabelos..., ainda estavam comigo.
Resmunguei mais um pouco, apreciando os últimos segundos no colchão macio, antes de jogar a coberta para o lado e sentar na beira da cama. Meus pés tatearam o chão para encontrar o par de chinelo. Me forcei a levantar.
O quarto estava parcialmente iluminado pela penumbra acinzentada de Forks, que parecia sempre adiar o amanhecer. Caminhei até o banheiro, sentindo um pouco de frio. A água que lavei o rosto era gelada o bastante para espantar os últimos resquícios de sonho e de lembrança. Mas nada que tirasse completamente o calor que ainda pairava sob minha pele desde o toque de Cole na manhã anterior. Desci meu olhar para o dorso da mão. A sensação daqueles momentos dançando por trás dos olhos.
Um leve arfar escapou por entre meus lábios.
Puxei a toalha de rosto com pressa para enxugar, e com o rosto ainda húmido, empurrei a porta lateral do banheiro que dava acesso ao closet. A madeira deslizou com um som suave, revelando o interior amplo e elegantemente iluminado pelas luzes embutidas nas prateleiras. Havia algo reconfortante naquele espaço: a ordem, os tons neutros, os tecidos dobrados com perfeição. Escolhi uma blusa de tricô bege claro, de gola alta e toque macio, confortável contra a pele. Para combinar, peguei uma calça jeans escura de cintura alta, de tecido mais grosso, ideal para enfrentar o vento do porto. Acrescentei uma jaqueta de lã cinza com botões grandes, e finalizei com um cachecol cor areia. Nos pés, botas marrom-escuro de couro resistente, com interior forrado.
No canto inferior da prateleira onde minhas coisas se mantêm, eu vi um par de brincos pequenos de argola dourada e um anel simples de prata, herança dos meus tempos de silêncio, que insisti em manter. Coloquei os acessórios, e me autoafirmei de que não foi por vaidade. Queria mudar as marcas dessa memória.
Saí do quarto, pegando o celular na mesa de cabeceira, passei pelo corredor de quartos vazios e desci os lances de escadas em silêncio, guiada pelo som sutil de vozes infantis vindas da cozinha.
Hilary e Helena já estavam ali, cada uma em seu cadeirote alto, posicionadas lado a lado. Hilary batia levemente as mãozinhas na bandeja da cadeira, os olhos castanhos faiscando de curiosidade ao me ver entrar. Helena, mais tranquila, me olhou com aquele ar observador, os cachinhos meio bagunçados.
— Bom dia, meus amores!... — murmurei, sorrindo para elas ao me aproximar.
Esme sorriu de volta do outro lado do balcão, já preparando a mesa com frutas cortadas, pãezinhos e uma chaleira fumegante. Caminhei até o armário superior e retirei a bomba extratora de leite. Já fazia parte da minha rotina, e mesmo que tivesse superado o desconforto físico, a sensação emocional nunca deixava de me tocar. Me acomodei em uma das cadeiras, deixei o celular em cima da mesa, e puxei o tecido das blusas com cuidado para encaixar a bomba no seio. Enquanto a extração começava, senti Helena me observando com atenção como se, mesmo tão pequena, compreendesse que aquele gesto era só nosso. O barulhinho ritmado do aparelho se misturava ao tilintar da louça na cozinha e ao murmúrio de Esme falando baixinho com Hilary. Ali, no meio daquele instante comum, com leite sendo colhido, pão sendo aquecido, o cheiro de ovos, geleia, do chá fresco começando a preencher o ar, e o dia se abrindo lá fora sob o céu cinza… eu deixei meus olhos vagarem pelas meninas, numa tentativa de guardar aquele instante na memória. Como se algo em mim soubesse que a cada manhã, as coisas se movem sem alarde, mas profundamente.
Foi então que percebi.
Helena.
Ela parecia, maior. Mais do que deveria parecer de um dia para o outro.
Seus pés agora encostavam com mais firmeza na base da cadeirinha, e seus bracinhos, mais crescidos e alongados, agora buscavam objetos com mais intenção. Seus olhos, de um azul cristalino cortante, vasculhavam o ambiente como se estivessem absorvendo tudo de forma consciente, atenta, sabida.
Mas o que me chamou atenção de verdade foram os cabelos.
Os cachos escuros de Helena, quase pretos de tão profundos na cor, estavam mais longos. E não era apenas uma impressão. Eles agora passavam da altura dos ombrinhos dela, caindo em ondas bem delineadas que formavam pequenas espirais ao redor do rosto delicado. E por um momento, me dei conta, estavam mais compridos do que os da Hilary, que era mais velha. Minha mente tentou acusar de que “Isso não era normal. Não segundo os parâmetros humanos!”
Balancei minha cabeça, negando as acusações silenciosas “É claro que não seria normal para os parâmetros humanos. Helena não era totalmente uma”.
Estendi minha mão para pegar o pão com geleia que Esme me estendia. Eu já devia estar acostumada com os avanços da minha filha, mas minha respiração vacilou, foi imperceptível, mas aconteceu.
— Nossa! Helena cresceu bem, de ontem pra hoje. — murmurei, mal percebendo que as palavras me escapavam em voz alta.
Esme, que agora colocava uma pequena tigela de frutas diante de Hilary, olhou na direção da Helena e sorriu de maneira quase… sucinta.
— Sim. Ela está se desenvolvendo rápido. — respondeu com aquela calma típica dela, como quem já sabia e apenas esperava que eu notasse.
Minhas mãos apertaram levemente o tecido da blusa cobrindo o outro seio. O leite continuava a ser extraído em silêncio, mas dentro de mim havia algo pulsando: um misto de encanto e curiosidade. Helena me olhou naquele instante. E o que vi nos olhos dela não era só inteligência, era uma consciência adormecida, como se estivesse despertando para algo que nem ela, talvez, soubesse nomear. Sorri para ela, não permitindo que algum olhar meu a deixasse insegura. E comecei a comer.
Hilary, ao lado, fazia barulhinhos com as frutas na boca, completamente alheia à intensidade daquele momento. Ela ainda era minha bebê humana, cheia de doçura, previsível em sua curva de crescimento, no ritmo que a vida exige. Helena, por outro lado… era algo novo. Um milagre silencioso. E eu ainda não entendia muito como cuidar disso, mas a cada dia novo, dou um jeito de aprender.
Com a bomba ainda colhida ao seio, respirei fundo. A colheita do leite continuava, e eu compreendia o que estava nutrindo: não apenas um corpo híbrido, mas um futuro que eu sequer sabia como nomear. E por mais que isso tentasse me assustar, também me dava forças.
Porque ela era minha. E eu estou disposta a acompanhá-la, por mais rápido que o tempo ousasse correr.
A bomba emitiu um último chiado suave antes de silenciar por completo. O frasco acoplado estava quase cheio, o leite branco levemente morno contrastando com o vidro frio, fiquei feliz. Retirei o aparelho com cuidado, a sucção libertando o bico sentindo a leveza que sempre vinha depois, uma mistura de alívio físico e de realização silenciosa, como se aquele pequeno gesto cotidiano selasse meu compromisso com elas… com nós três.
Meus dedos seguravam o frasco de vidro morno, enroscado na bomba. O leite escorria lentamente pelas paredes internas. Coloquei com cuidado sobre a mesa.
Ajeitei um tecido em forma de disco ao redor das aureolas, pois poderia continuar a vazar o leite, arrumei o sutiã, a roupa no corpo e estendi a mão até o celular sobre a bancada da cozinha, destravando a tela automaticamente. Entre notificações triviais que foram facilmente ignoradas, uma mensagem destacava-se no topo da conversa com Cole:
“A oferta de ontem ainda está de pé? Se quiser ver o mar de novo, chego aí às 8:00 am.”
Meu coração acelerou.
O convite era claro. E doce. E carinhosamente seguro.
No dia anterior, eu havia sussurrado que aceitaria ir de novo, se ele quisesse me levar. Mas agora, vendo o convite materializado ali na tela, algo em mim hesitava. Por medo do que mais podia crescer ali entre nós. Por medo do que já estava crescendo. Permaneci com o celular na mão por mais tempo do que deveria, mordendo o canto inferior do lábio.
Esme, atenta mesmo quando fingia não estar, se aproximou com uma xícara de chá e me ofereceu sem dizer nada. Aceitei, grata pelo gesto, enquanto ela puxava uma cadeira próxima.
— Você parece, pensativa. — comentou, com aquele olhar que me atravessava como se lesse páginas inteiras que eu mesma tentava esconder.
Soltei um riso fraco, cansado.
— Às vezes, sinto que tudo está indo rápido demais. E outras vezes… que sou eu quem está devagar demais.
Ela sorriu. Aquele sorriso calmo, de quem já viveu cem vidas em silêncio.
— Não há pressa em sentir. Mas há momentos em que não se sentir, é o que mais machuca.
Eu a encarei, deixando as palavras dela se acomodarem dentro de mim.
— Ontem foi... diferente. — confessei — Ele me tocou com tanto cuidado… e ao mesmo tempo, parecia que meu corpo inteiro queria se entregar. Mas aqui dentro… Ainda tem medo.
Toquei o centro da testa, havia um flamejar dentro peito, onde o peso antigo ainda dormia. Esme segurou minha mão. Meus braços se arrepiaram pelo frio do seu toque.
— Medo não é fraqueza. É só um lembrete de que você ainda está se curando. Mas curar não precisa ser uma prisão. Às vezes, pode ser uma travessia e você já começou a atravessar.
Respirei fundo, sentindo um nó na garganta afrouxar devagar. Assenti, mesmo sem palavras.
Peguei o celular de novo.
“...chego aí às 8:00 am.”
Ainda dava tempo. Digitei com os dedos trêmulos, mas firmes:
“Estarei pronta.”
Enviei.
E, no instante seguinte, voltei o olhar para elas. Minhas filhas, minhas meninas.
Hilary gargalhava com um pedaço de banana preso no queixo, batendo as mãozinhas contra a bandeja. Algumas frutas estavam jogadas no chão, outras escorriam pelas pernas do cadeirote, ela falava sobre alguma cantiga de princesa, ou histórinha para dormir sobre bananas, castelos, arco-íris e balé. Só sei que a alegria dela era contagiante. Helena, por sua vez, olhava atentamente para sua irmã, acompanhava em palmas e ria do que Hilary se embolava para falar, e até engataram juntas numa histórinha sobre os restos de mamão que jazia caído debaixo do cadeirote da Hilary. Mas percebi seus momentos de introspecção, onde seus olhos se prendiam a sua colher, como se a estivesse decifrando. Seus olhos azuis encontraram os meus e, por um breve momento, senti como se ela soubesse que algo estava mudando, em mim, nela, em tudo.
Me levantei, caminhando até a pia e me concentrei no frasco de vidro sobre minha mão. O leite recém-extraído ainda quentinho, com aquele brilho perolado entre o branco, que só uma mãe reconhece como sagrado.
Me inclinei para despejá-lo no recipiente maior, com cuidado.
Foi aí que meu pensamento escapou.
Sem pedir licença, ele voltou para o banco do carro do dia anterior. Para a estrada molhada, para o retorno. A primeira entrada da qual me lembro de chegar a esse lugar.
Bastou um segundo, um piscar distraído para que Cole voltasse à minha mente.
A voz dele.
“O mundo não sabe que você mudou. Mas você sabe.”
A frase voltou inteira. Com a mesma firmeza delicada.
E com ela, a sensação exata que senti quando ele a disse: como se algo dentro de mim tivesse finalmente encontrado nome.
Meus olhos se perderam por um segundo no brilho do vidro.
Minha mão vacilou. Como se o pensamento fosse mais intenso que o peso do frasco.
E no instante seguinte, vidro escorregou da minha mão, inclinado perigosamente em direção à cuba da pia. Um ângulo a mais, e teria derramado tudo.
Segurei a tempo com o coração acelerado, respiração suspensa.
Foi por pouco.
O líquido balançou, tocou a borda, mas não se derramou.
Respirei fundo, voltando ao controle. Deixei o frasco sobre a bancada com mais cuidado do que deveria. Respirei fundo. Senti o calor no rosto, não do esforço, mas da lembrança. Ele ainda estava lá. Cole. E tudo o que ele disse naquela estrada cercada de árvores e silêncio. Do jeito como ele me olhou quando disse aquilo. Sem fazer parecer drama. Sem fazer parecer lição. Apenas… verdade.
Talvez o mundo lá fora não tenha mudado.
“O mar não espera ninguém, Amberli. Ele segue o próprio ritmo.”
Enquanto fechava a tampa do reservatório do leite materno, pensei em como ele tinha falado aquilo; como quem não está tentando impressionar, só contar a verdade que aprendeu com a vida.
“Quem não se move, afunda.”
De repente, tudo à minha volta pareceu se encaixar nessa metáfora: o leite, a pia, as meninas rindo, a memória da dor, e o movimento que me trouxe até aqui. Talvez a rotina ainda envolvesse leite, fraldas, canções inventadas e frutas grudadas nas mãos das minhas filhas.
"Mas quem encara, mesmo com medo… acaba encontrando paz. Não porque o mar se acalma. Mas porque a gente aprende a flutuar."
Talvez eu ainda esteja aprendendo.
Envolvi o frasco, seguro.
Eu não estou mais parada, algo dentro de mim se deslocou.
Como uma maré interna.
Como uma mulher que, sem perceber, começou a flutuar.
Guardei o frasco de leite no recipiente térmico e beijei o alto da cabeça das duas, sentindo o cheirinho de cada uma. Puxei a cadeira e me sentei novamente, agora ao lado delas, com as mãos livres e o coração mais leve. A manhã, ainda envolta na névoa húmida de Forks, parecia um casulo, um daqueles dias em que o tempo desacelera, só para que possamos ver o que normalmente passa despercebido. Hilary, animada, me estendeu um pedaço de pão humedecido com leite e me olhou com os olhos castanhos brilhando de orgulho.
— Mamãe! 'Toma’! — disse, meio rindo, meio gritando, as sílabas ainda escorregando como peças de um quebra-cabeça em construção.
— Obrigada, minha alegria! — respondi, pegando o pedaço com cuidado — Você quem fez?
Ela assentiu com força, o queixo lambuzado de migalhas. Ao lado, Helena me observava em silêncio. Suas mãozinhas repousavam sobre a bandeja do cadeirote, mas seus olhos… não se moviam tanto. Eram fixos. Profundos. Atentos.
— Mamãe… Você está bonita. — disse ela, com clareza.
Meu corpo congelou por um breve instante, não pelo medo, mas pelo espanto terno. Virei o rosto lentamente em sua direção. Mesmo que eu tivesse ouvido, eu precisava também ver com clareza.
— O quê, meu amor? — tive que perguntar, um leve sorriso surgia em meus lábios.
Ela sorriu, com os dentinhos pequenos à mostra.
— Você está bonita. — repetiu, como se dissesse a coisa mais simples do mundo.
Olhei para Esme, que estava ao fundo, colocando pratos na lava-louças, e ela apenas sorriu de canto, como se aquilo já fosse esperado. Como se aquela menina, de olhos impossivelmente azuis e mente afiada como a brisa do mar, estivesse apenas sendo quem é.
— Obrigada, minha pequena estrela. — respondi, minha voz um pouco rouca — Você também está… muito bonita. — “absurdamente” acrescentei dentro de mim.
Helena sorriu e, então olhou para Hilary e apontou para ela com carinho.
— A Hilary tá fofa hoje. Ela me deu suas uvas. Eu gosto de uva roxa, ainda não gosto da verde. A verde é azeda. — falou com firmeza, o tom seguro e ainda infantil, mas incrivelmente preciso.
Hilary bateu palminhas, achando graça, mesmo sem entender exatamente o que a irmã dizia. Seus dedinhos se tocaram brevemente. Logo estariam do mesmo tamanho. Me aproximei mais das duas, apertando suavemente os dedinhos de Helena.
— Como você sabe tantas palavras, hein? — pela primeira vez permiti que minha dúvida sincera viesse à tona.
Ela apenas me olhou por um momento, como se não soubesse explicar. Como se as palavras simplesmente estivessem lá dentro de si, esperando para sair.
— Eu só escuto tudo, mamãe. — respondeu — Sempre escutei. Até quando estava na sua barriga. — e então riu, satisfeita consigo mesma.
Meus olhos lagrimejaram, mas não era tristeza. Era uma alegria confusa, doída, quente. Do tipo que só as mães conhecem. Um sentimento que beirava ao milagre e a responsabilidade de cuidar dele. Abracei as duas com cuidado, tentando não esmagar nenhuma, ou sujar a roupa com as frutas.
— Vocês são meu mundo. — sussurrei como uma reza, num fio de voz.
E ali, entre um gole de chá quase frio e um toque de pele quente de bebê, senti que aquele instante valia mais do que qualquer plano para o dia. Mesmo que o mar me esperasse. Mesmo que Cole estivesse a caminho. Naquele momento, o mundo inteiro cabia nos bracinhos que se estendiam ao meu redor e nas palavras doces de uma filha que parecia ter vindo de um lugar onde o tempo não obedece a nenhuma lógica.
Me inclinei devagar, desencaixando Helena do cadeirote, puxando-a para o meu colo. Ela se encaixou com facilidade, ainda com um peso moderado, com o corpo mais firme que nos dias anteriores. Enrosquei o rosto em seus cachos macios, e falei só para ela, num sussurro que nem o tempo teria coragem de roubar:
— Você sabe que a mamãe te ama, né? Muito. Do jeitinho que você é. — seus olhos fixaram-se em mim, atentos. De pertinho assim, os olhos dela tinham a transparência do azul cristal, como se a verdade morasse neles — Você não precisa parar, nem esconder nada pra caber em lugar nenhum. Nem aqui, nem em mim, minha estrelinha. Angie veio da oportunidade... Hilary foi meu primeiro milagre. E você, meu segundo. E eu sei… Eu sei que tudo em você acontece mais rápido, mais intenso e que para a minha cabeça humana é difícil de acompanhar. Mas não precisa ter medo de crescer, meu amor. Porque meu amor por você é mais forte do que qualquer medo das mudanças. Eu tô aqui. Sempre vou estar. E nada vai mudar isso.
Helena me deu um sorriso miúdo, mas cheio de certeza, e encostou a cabecinha no meu ombro. O silêncio entre nós duas falou mais do que qualquer resposta. Abracei minha filha uma última vez, seu calor me aquecia e seu corpinho macio tornava a ação de não a apertar contra mim quase impossível. Soltei um riso, dando um beijinho na testa dela, e então me levantei, colocando-a de volta no cadeirote. Meu coração estava um pouco mais preparado para o mar. Para ele. E para mim mesma.
Subi as escadas em passos calmos, deixando o som das risadas infantis na cozinha ecoar atrás de mim, como um lembrete de onde está o meu chão. Mas agora, por alguns instantes, eu precisava me permitir flutuar um pouco entre o que eu sou e o que talvez esteja me tornando. Entrei no quarto devagar, fechei a porta sem fazer ruído e fui direto para o banheiro. Lavei o rosto outra vez, mais por ritual do que necessidade e encarei meu reflexo por alguns segundos. Meus olhos estavam diferentes, cansados, sim, mas mais vivos. Escovei os dentes com calma. Havia algo ali no meu olhar que se acendia devagar. Algo que talvez estivesse apagado há tempo demais. As palavras de Renesmee, Bella e até as da Rose vieram na minha mente como um lampejo naquele instante.
Entrei no closet para passar um hidratante nos lábios e um toque de perfume leve, fresco, com notas amadeiradas e um fundo floral, o mesmo que usei no dia anterior. Respirei fundo antes de sair. Não era vaidade. Era presença.
Quando desci, Esme me olhou com aquele ar silencioso de quem nota tudo e apenas sorri. As meninas ainda estavam entretidas com frutas e canções infantis. Beijei cada uma no alto da cabeça, e então ouvi.
A campainha não tocou. Mas o som grave do motor já perto e sendo desligado do lado de fora, e o ruído abafado de uma porta de carro se fechando me bastaram para que meu corpo reconhecesse antes mesmo da razão organizar meus pensamentos. Ele havia chegado.
Me concentrei na minha respiração. Voltei minha atenção às meninas.
Me abaixei ao lado do cadeirote de Hilary, que ainda segurava um pedaço de banana entre os dedos, se remexia e cantava baixinho uma das musiquinhas que Esme havia colocado num aparelho de som. Ela riu quando me aproximei, e estendi a mão para fazer um carinho na sua bochecha suja de fruta.
— A mamãe vai ali ver o mar, tá, meu amor? É rapidinho. Quando voltar, quero te ver dançando igual agora, tá bom?
Ela balançou os ombros de um jeitinho engraçado, acompanhava o ritmo da música infantil. Sorri e meu coração apertou. Virei-me para Helena, que me observava com aquele olhar que parecia sempre saber mais do que dizia. Toquei seu rostinho quente, afastando um cachinho rebelde da testa.
— Cuida da sua irmã, tá? Mas só um pouquinho… sem crescer mais enquanto eu estiver fora, combinado?
Ela riu e segurou meus dedos com propriedade e carinho.
— Prometo só um pouquinho, mamãe. — respondeu, num tom quase solene, infantil e sábio ao mesmo tempo.
Me levantei e voltei até Esme, que enxugava um copo com o pano de prato pendurado no ombro. Ela me olhou com ternura e sem dizer nada, estendeu os braços. Me deixei ser abraçada.
— Qualquer coisa... — comecei, mas ela me interrompeu com um gesto suave.
— Vai tranquila. Aqui está tudo bem. E você merece respirar um pouco.
Abracei mais forte, tentando conter aquela pequena dor no peito que sempre vinha quando eu me afastava delas, mesmo que por pouco tempo.
— Obrigada, Esme. Por tudo.
Ela apenas sorriu, como quem sabe que amor também é deixar ir, vez ou outra. Sorri também.
Desci os lances da escada até que estivesse atravessando o hall com o coração pulsando apertado e o passo lento, como se o simples fato de sair fosse um pequeno mergulho no desconhecido mesmo que eu soubesse bem para onde ia. Cole estava ali fora, com aquela névoa leve que parecia envolver toda a propriedade da mansão Cullen. Abri a porta da frente devagar, o ar carregava aquele cheiro típico de folhas molhadas e terra fresca. Saí da casa ajeitando o cabelo, com os passos leves, ainda com a sensação calma de início de dia.
Antes que a porta se fechasse por completo, percebi que ele já estava mais próximo de mim, parado ao pé da escada da varanda. Ele estava diferente. Mas o que me atingiu primeiro não foi isso.
Foi o cheiro.
Era o mesmo cheiro que eu tinha sentido no porto. Sal, madeira, humidade e, a essência do seu perfume e aquele algo indefinido que só ele carregava.
Meus olhos piscaram, e eu foquei no que havia de diferente. Cole não usava as roupas que eu já estava acostumada a ver. Nada da camiseta simples ou das botas que ele sempre usava no trabalho, nada do jeans... Hoje, Cole vestia uma camisa social de tom azul escuro, impecavelmente passada, e uma calça de tecido alinhado, que apesar de não ser exageradamente formal, era totalmente fora do meu habitual para com ele. O traje lhe dava uma postura ainda mais firme e decidida.
Absurdamente lindo.
Meus olhos demoraram a captar todos os detalhes: o corte exato da camisa, a gola ajustada, os punhos discretamente dobrados, o cinto de couro escuro, o brilho discreto do sapato que não era o de sempre. Ele tinha o jeito de quem estava cuidando da parte séria da empresa, aquelas reuniões que eu sabia que ocupavam o tempo dele constantemente. Por um instante, me perguntei se ele sentia o peso dessa mudança, se ao vestir essas roupas, também vestia um papel diferente, mais distante do padrinho com olhos de floresta, mais próximo do homem que precisava ser levado totalmente a sério, que dava a palavra final. Fiquei surpresa, não sabia que ele teria algum compromisso tão formal assim.
Nossos olhos se encontraram, e nenhum dos dois disse nada por um momento. Apenas... respiramos. Como se o ar entre nós tivesse sua própria linguagem. Ele sorriu, daquele jeito tranquilo, e os olhos, que eu já conhecia bem, tinham um brilho novo, cheio de segurança.
E eu, do alto da minha bota já meio gasta, jeans confortáveis e uma jaqueta grossa com o zíper meio emperrado, me senti deslocada.
“Hã...Prática demais”. Pensei, com um pouco de constrangimento.
Eu não havia pensado em “estar bonita”. Só em estar pronta. Mas ali, diante dele, tive a súbita vontade de me esconder atrás da escada por mais um minuto.
Cole notou.
— Bom dia, Lee. — a voz dele era grave e baixa, quase um sussurro. E ainda assim, ecoou dentro de mim com força.
— Bom dia, Cole. — respondi, tentando manter o tom neutro. Mas algo na minha voz saiu mais suave do que eu pretendia enquanto eu puxava o zíper até o topo da gola, com as mãos frias.
Cole inclinou um pouco o queixo, olhando de cima a baixo, mas não de um jeito que me fizesse encolher, não com desejo obsceno, não com pressa. Havia algo respeitoso e, ainda assim, atento demais naquele olhar verde marcado por suaves manchas castanhas. Com aquela precisão de quem já conhece a paisagem e, mesmo assim, se surpreende com a beleza que ela tem sob uma luz nova.
— Você está linda, Amberli. — disse, direto. Simples. Não disse “bonita”, não disse “tá legal”. Ele disse “linda”.
Olhei para ele com um riso contido, apreciando suas palavras. Mas logo franzi as sobrancelhas e desci meu olhar para mim.
— Com essa roupa, e cara de mãe que acordou cedo demais?
Ele sorriu mais, deu um passo em minha direção.
— Com esse olhar. E esse jeito de quem sempre carrega o mundo, mas mesmo assim caminha com leveza. Tá linda porque é você.
Aquela última frase me desmontou mais do que eu gostaria de admitir. Engoli em seco, desviando o olhar por um instante, sentindo o calor subir pelas bochechas se evidenciando ainda mais com o frio do lado de fora.
— Você que está elegante demais pra um passeio no cais! — falei, tentando devolver o comentário, mas minha voz saiu mais suave do que provocativa.
Ele deu de ombros, com as mãos nos bolsos.
— Tá meio assim, né? — disse com um sorriso, meio brincando, meio compreensivo.
Eu ri, sem jeito.
— Um pouco. Você veio tão... arrumado? Achei que você só usasse isso em reuniões...
Ele riu junto, um som leve e sincero.
— Só nas reuniões mesmo eu me arrumo. Mas pra andar pelo porto, ainda prefiro minhas botas velhas. — ele disse, aproximando-se com passos calmos, que contrasta com o verde de seus olhos — Pronta para mais um passeio no porto, ver o mar de novo?
Eu assenti, o coração dando pequenos saltos dentro do peito, misturado entre o conforto da familiaridade e a curiosidade. Puxei a jaqueta com as mãos, como se aquele gesto pudesse conter a euforia interna, sentindo uma mistura de conforto e algo novo. Algo que me fazia pensar que, assim como o tempo muda as cores das folhas, algumas coisas também mudam dentro de mim.
— Pronta.
E então ele estendeu a mão, como se fosse a coisa mais natural do mundo. E foi.
E sem dizer nada, dei os passos que faltavam para estarmos próximos e encaixei meus dedos nos dele com um pouco de hesitação. Mas logo o calor da palma dele envolveu a minha com naturalidade, firmeza e gentileza, mais do que o vento gelado podia tirar. Tinha algo firme na forma como ele segurava minha mão, não com domínio, mas com uma espécie de confiança genuína. E, juntos, cruzamos a varanda da casa, sem alarde, descemos os degraus da varanda em silêncio, mas com tudo dentro de mim se movendo como as marés, silenciosas, inevitáveis, e já fora do meu controle.
E enquanto eu me perguntava se aquele dia seria só mais uma visita ao porto… parte de mim já sabia a resposta: Não era sobre o porto. Era sobre ele. E sobre como, sem pressa e sem promessas, ele estava começando a ocupar espaços dentro de mim, onde antes só havia silêncio.
Cole abriu a porta da caminhonete para mim, um gesto simples, mas cheio de cuidado.
— Mas sabe de uma coisa? — ele comentou, enquanto me ajudava a entrar — Não importa o que eu vista, o que importa é que nós vamos juntos.
Olhei para ele, surpresa com a sinceridade na voz.
— E porque você fala assim, Cole Uley? — falei baixinho, meio provocando.
Ele piscou.
— É porque é verdade. A gente não precisa combinar roupa pra se entender.
Sorri, e me sentei no banco do passageiro em silêncio, quase como da primeira vez, com aquele friozinho no estômago, sem saber onde colocar as mãos, ou o olhar. Havia algo de estranho em repetir trajetos com alguém. Parecia que cada pequeno detalhe começava a querer se fixar dentro da gente.
A porta foi fechada devagar. Ele contornou a parte da frente do carro com passos firmes e entrou tranquilo, como se não houvesse pressa alguma em estar ali. Cole acionou a partida com naturalidade, os dedos firmes no volante. O motor despertou com um ronco poderoso e constante. Os painéis estavam suspensos, o rádio estava desligado. Nenhuma música, nenhuma voz, apenas o som dos pneus vencendo o cascalho da estrada dos Cullen.
Minha segunda partida.
Me virei um pouco puxando o cinto para prender a fivela, e foi aí que meus olhos foram além e vi.
No banco de trás, discretamente instalado, havia uma cadeirinha infantil, encaixada com precisão, firme, com um tecido cinza suave e um leve desgaste no encosto. O tipo de desgaste que só o tempo e o uso cotidiano deixam, com as fivelas de segurança repousadas no acolchoado.
Ainda fiquei olhando por mais alguns segundos.
Eu não tinha reparado nela da primeira vez. Não sei se por distração ou por escolha inconsciente.
Me ajeitei no banco, tentando não parecer afetada. Não era como se ele a tivesse colocado para impressionar ou esconder, a cadeirinha fazia parte do carro. Como o cheiro amadeirado no banco. Minha garganta apertou um pouco, num gesto involuntário, um reconhecimento silencioso. Aquela cadeira pertencia à Kaylee. A afilhada de quem ele falava com carinho, como quem descreve o sol de uma manhã boa. E agora, depois de ver o lugar onde ela sentava, imaginei as pequenas mãos, os pés balançando, a risada que talvez enchesse esse carro nos dias de passeio.
E, sem querer, algo em mim reagiu.
Um calor discreto, como se uma parte da minha memória maternal tivesse se entrelaçado com aquilo. Como se ver esse objeto me fizesse lembrar que nem todo homem foge do que é frágil. Alguns, como ele, protegem até quando ninguém está olhando.
De repente, Cole não era mais apenas o homem firme, contido, vestido com camisas bem passadas e mãos de quem conhece o peso de tudo que se carrega no mundo real. Ele era alguém que deixava a memória de uma criança ocupar aquele espaço, sem vergonha, sem pressa de esconder. E parte de mim se comoveu por isso.
Olhei pela janela e deixei o silêncio preencher o carro por mais alguns minutos. Mas Cole, como sempre, parecia sentir até o que eu não dizia.
— Tá tudo bem aí, Lee? — ele perguntou, com aquele tom baixo e meio rouco, quase risonho.
— Uh-hum! — respondi, tentando disfarçar o pensamento distante — Só… acordei mais pensativa hoje.
Ele assentiu, como se entendesse. Sempre parecia entender.
— É o mar. — ele disse depois de um instante — Ele puxa essas coisas da gente.
— Desde quando você ficou tão poético? — sorri, virando levemente o rosto para ele.
— Desde que você começou a vir comigo. — retrucou com um meio sorriso, sem tirar os olhos da estrada — Dá um certo efeito, sabe… levar alguém que realmente observa.
Meus olhos recaíram sobre suas mãos firmes no volante, com as veias saltando discretas, os dedos longos e seguros. Vi a pulseira de couro escuro que ele usava no punho direito, uma peça simples, com tramas trançadas à mão. Autêntica. Como tudo nele.
— Eu vi a cadeirinha. — soltei, de repente, sem saber por que disse — Não tinha reparado antes…
Ele não desviou os olhos da estrada. Mas sorriu.
— É da Kaylee. Depois de um tempo, ela começou a deixar os brinquedos ali também... Faz parte do carro agora.
Não sei por quê, mas aquilo me tocou mais do que qualquer coisa dita com intenção.
— E por que você nunca tirou?
Ele deu de ombros, como quem já sabia a resposta antes mesmo de eu perguntar.
— Porque eu gosto de lembrar que ela existe ali. Mesmo quando não está comigo.
Sorri. Fiquei em silêncio, olhando para frente. O céu de Forks seguia nublado, como sempre. Um cinza contínuo que descia até as árvores, e uma névoa fina que cobria parte das copas. O cheiro de chuva iminente pairava no ar. Por um tempo, seguimos sem dizer nada. Mas não era um silêncio desconfortável, era o tipo de silêncio que só existe entre pessoas que não estão tentando preencher vazios, apenas respeitando o tempo que o outro precisa. Do meu lado, Cole dirigia com uma mão só no volante, a outra apoiada no encosto entre nós, com o corpo relaxado, mas o olhar atento à estrada. Seus olhos, mesmo sob a luz filtrada do céu opaco, mantinham aquele verde contrastante, denso, com traços castanhos que pareciam se acender quando ele me olhava de relance. Às vezes eu o pegava me observando no canto do olho. Mas ele não dizia nada. E eu também não.
Havia uma tensão entre nós. Não daquela que aperta o peito como medo, mas daquela que aquece o sangue de forma sutil, espalhando-se devagar.
Pela janela, as árvores iam ficando mais esparsas, dando lugar ao horizonte irregular de La Push. Casas simples, telhados húmidos, fios elétricos cruzando o céu como costuras. E mais ao fundo, o mar, mesmo ainda distante, já fazia parte do ar que respirávamos.
Cole soltou um leve suspiro e falou, a voz rouca cortando a quietude com delicadeza:
— Gosto dessa parte da estrada. Quando o mar começa a se anunciar antes mesmo de a gente vê-lo.
Assenti, olhando para o céu em mutação.
— É como se o lugar tivesse cheiro antes de ter forma. — respondi, quase num sussurro.
Ele sorriu de lado, aquele sorriso pequeno, como se gostasse da forma como eu percebia as coisas.
— Você entende isso melhor do que imagina.
Me viro um pouco no banco, puxando o cinto com leve desconforto, mas também me permitindo observá-lo melhor. O queixo coberto por uma leve barba começando a crescer, os cabelos ainda alinhados com alguma pomada e da humidade da manhã. A força contida no corpo dele era visível até nos momentos mais calmos, mas havia também uma gentileza em tudo que ele fazia. Até no modo como mantinha a mão perto, sobre o encosto, sem jamais encostar em mim, mas como se estivesse pronto para reagir se eu precisasse.
A estrada até o porto serpenteava entre árvores húmidas e céu branco. A neblina fina começava a se dissolver com a brisa vinda do mar, revelando pouco a pouco o perfil das construções baixas, feitas de metal, madeira e concreto envelhecido pelo sal. E quando menos esperei, o carro começou a desacelerar para entrar na ladeira que levava direto à área portuária. O barulho das gaivotas ficou mais evidente antes da visão clara do mar. As embarcações, mesmo paradas, pareciam conversar com o vento. Cordas balançavam, mastros tilintavam com sons de metal contra metal.
Cole estacionou no mesmo lugar. Desligou o motor, mas nenhum dos dois se moveu por um instante. A brisa marinha entrava pelas frestas do carro, pude sentir outra vez o cheiro inconfundível daquele lugar, mistura de maresia viva, óleo de motor, madeira molhada, cordas húmidas e peixe recém-saído da água. Era o tipo de aroma que gruda nas roupas, nas lembranças, e que trouxe de volta tudo o que eu havia sentido ontem.
Ele me olhou, sério agora. Mas não havia dureza em seu rosto.
— A gente pode só caminhar, se quiser. — disse — Ou ficar em silêncio. Ou... falar. É você quem dita o ritmo.
Meu peito se aqueceu com aquela simplicidade. Assenti devagar.
— Eu só quero... estar. Sem precisar explicar.
Ele sorriu de leve.
— Então vamos estar.
E saiu do carro, dando a volta até minha porta. Abriu com a mesma naturalidade da primeira vez, mas agora havia um cuidado mais íntimo no gesto, como se eu já fosse esperada. A brisa me atingiu por inteiro. O cheiro do mar era mais forte ali, e carregava o som abafado das ondas quebrando nas docas ao fundo. O ar parecia mais salgado. Mais denso. E o calor da mão dele, estendida para mim, também.
— Cuidado com o degrau. — murmurou, a mão estendida.
Eu a aceitei, sem hesitar. E desci, sentindo que, mesmo sem nomear nada… tudo em mim já tinha começado a mudar.
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A mão de Cole segurava a minha com firmeza tranquila enquanto caminhávamos lado a lado pela doca principal após passarmos pela guarita de identificação ao lado do prédio administrativo para ser identificada aos guardas, Samuel e Emma. O céu cinzento, tão comum em La Push, parecia mais claro com a luz suave filtrada pelas nuvens. A brisa marítima bagunçava meus fios soltos e fazia o casaco balançar levemente contra minhas pernas.
O porto estava vivo.
Barcos ancorados se moviam com o balançar da maré, rangendo devagar contra as cordas que os prendiam. Homens e mulheres com capas impermeáveis, botas largas, espalhados pelos arredores carregavam caixas, enrolavam redes, revisavam instrumentos. O cheiro de sal, óleo e peixe fresco era intenso, mas não desagradável, era parte daquele mundo. Real. Bruto. Orgânico. E por mais estranho que parecesse… havia algo reconfortante nisso.
— Esse sim, é o ritmo daqui. — Cole disse, olhando ao redor com familiaridade — Nada para. Nem com chuva, nem com frio. O mar tem seus próprios prazos. E a gente se adapta.
Havia orgulho em sua voz, mas não ostentação. Era o tipo de orgulho que nasce da responsabilidade. Alguns trabalhadores o cumprimentavam com acenos rápidos ou sorrisos contidos. Alguns erguiam o queixo em saudação silenciosa, outros diziam seu nome, ou sobrenome, ou...
— Capitão.
— Bom dia, chefe.
— O barco do Elijah voltou cedo hoje, Cole. Te conto depois.
Ele respondia a todos com pequenos gestos, um aceno de cabeça, uma palavra, uma presença constante. Era claro que respeitavam ele. Mas mais do que isso, confiavam nele. Logo à frente, um homem mais velho empurrava um carrinho de mão com redes enroladas. Tinha cabelos brancos e grossos, a pele tostada de sol e olhos que deviam ter visto todas as marés da última metade do século. Quando nos viu, parou.
— Capitão! — chamou, acenando de longe com um pano sujo no ombro — Olha só quem veio conhecer nosso pedaço do mundo de novo! Chegou cedo hoje. — disse com um sorriso que dobrava os olhos. Talvez não tenha sabido que Cole esteve por aqui ontem — E trouxe uma moça com ele...
Cole soltou minha mão por um instante, riu, num tom caloroso que eu raramente ouvia dele fora daquele ambiente e deu um tapinha nas costas do homem.
— Falei que traria sorte. — respondeu ao homem — Amberli, esse é o Sebastian. Cuida da manutenção dos equipamentos há mais tempo do que eu sou vivo.
— E antes do pai dele também. Que Deus o honre... — o homem completou, piscando pra mim — Um prazer imenso, senhorita. Seja bem-vinda ao nosso caos organizado.
— O prazer é meu, Sebastian. — respondi, sorrindo com um pouco de timidez, mas sendo acolhida pela gentileza imediata daquele olhar enrugado.
— Ela é especial, hein, capitão? — Sebastian disse num tom que me aqueceu o rosto, mesmo sem saber exatamente o que queria dizer — Então é ela quem anda devolvendo o sorriso desse quileute? — completou Sebastian, olhando para Cole como quem conhece sua alma desde garoto.
Cole apenas sorriu de lado.
— É. É sim.
Sebastian assentiu, como se entendesse tudo sem precisar de mais palavras.
— Se precisar de café forte ou história velha, saberá onde me achar. — disse a mim, antes de seguir seu caminho com o carrinho de mão rangendo atrás dele.
Seguimos adiante, passando por cordas grossas empilhadas, caixas de gelo com inscrições quase apagadas e redes penduradas nos ganchos de ferro, até que eu olhei para Cole.
— “Capitão”? — perguntei, arqueando uma sobrancelha, divertindo-me.
Ele soltou uma risada baixa, rouca.
— É como eles me chamam por aqui. Vem com o cargo. E com o tempo.
— Fica bem em você. — comentei, sincera, quase sem pensar.
Ele me olhou de lado, aquele sorriso contido de quem sente mais do que diz.
— E você fica bem aqui. — disse, com simplicidade.
A frase caiu entre nós com um peso suave, talvez como uma âncora lançada em águas calmas. Desviei os olhos por um instante, observando as embarcações e o reflexo trêmulo da água, tentando disfarçar o impacto daquelas palavras simples. Mas ele sabia. E eu também.
A caminhada continuou. Cole caminhava ao meu lado com passo firme, mas sem pressa, como se soubesse que eu estava absorvendo tudo, e quisesse me dar espaço. Cada passo ao lado dele me levava um pouco mais fundo, não no mar, mas nele. E, sem perceber, eu já não queria mais voltar à superfície.
Aquele lugar era dele. Mas, de algum jeito sutil, ele fazia com que não fosse só dele. E eu… Eu começava a me perguntar se era isso o que ele queria: me incluir no que era permanente.
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Estávamos caminhando devagar pela lateral de um dos galpões, com vista para as docas. Cole, como sempre, parecia saber exatamente onde pisar. Eu, por outro lado, tinha que cuidar para não tropeçar nos meus próprios pensamentos. Foi ele quem puxou um novo assunto, olhando de canto, com aquela leveza que escondia a intensidade que ele sempre parecia carregar por dentro.
— E as meninas? Tirei você de casa mais cedo hoje... Deu tempo de um café tranquilo?
Sorri com um suspiro quase risonho, abaixando o olhar por um segundo como se estivesse revendo a cena toda de novo.
— Tranquilo não é a palavra certa… mas foi uma delícia. — o sorriso abrilhantava meu rosto, eu sei. Me deu vontade de contar em detalhes sobre aquele momento da manhã — Hilary passou a maior parte do tempo contando histórinhas sobre uma princesa chamada “Framboesa do Reino das Bananas”.
Cole riu, daquele jeito baixo e quente.
— Essa eu queria ter escutado.
— Ela misturava tudo o que via pela frente. — gesticulei com as mãos, movimentando os dedos num embaralho — Tinha morango voador, uma maçã que dançava balé e um mamão falante que morava embaixo da cadeira.
— Genial! — ele riu, um som gostoso — Eu teria contratado o mamão pro cais.
— Pois é, ele seria bem útil por aqui! — continuei, rindo também — E entre uma fala e outra dela, ela ia comendo as frutas… do jeito mais desajeitado possível. Tinha pedaço de melancia nas pontas do cabelo, bochecha lambuzada de manga, e duas uvas coladas nos dedinhos. Helena ficava só observando. Ria tanto, tão de verdade, que chegou a bater palminha. Até arriscou engajar nas histórias, tentando cantar junto.
Cole sorriu com um brilho que só aparece em quem imagina a cena de verdade.
— Deve ter sido bonito de ver.
— Foi. — falei mais baixo, sentindo aquele calor que não vem do sol. O sorriso ainda ali em mim — Sabe aquele tipo de momento que parece pequeno, bem comum, mas você sente que vai lembrar pra sempre?
Ele assentiu devagar, com os olhos presos em mim mais do que no caminho à frente.
— São esses que valem mais do que qualquer outro. Os que a gente não programa… mas que ficam marcados.
Fiquei em silêncio por um instante, apenas ouvindo o som das gaivotas ao longe e o barulho ritmado dos passos dele ao meu lado.
— Às vezes, eu olho pra elas e não sei se agradeço ou se peço desculpas. Por tudo que ainda não sei fazer.
— Não precisa se desculpar. — ele respondeu, firme, mas calmo — Você já faz mais do que a maioria jamais conseguiria. E elas sabem disso. Cada sorriso delas te entrega, Lee.
Olhei para ele por um instante mais longo do que devia. E, por um momento, a vontade de segurar aquela mão grande e segura que balançava ao lado do meu corpo foi quase maior do que eu mesma.
Mas me contive.
Em vez disso, apenas sorri, um daqueles sorrisos que não precisam ser explicados. E seguimos andando. O sol escondido, o vento ainda frio… e o coração, aquecido demais pra dizer qualquer coisa além do necessário. A brisa vinda do mar soprava com mais força agora, levantando fios do meu cabelo e fazendo os galhos das árvores próximas rangerem num ritmo que parecia conversar com as ondas.
Cole parecia se lembrar de cada detalhe do terreno, era curioso como ele desviava dos pontos mais escorregadios, me guiava com o corpo sutilmente inclinado para o lado do vento, como se me protegesse sem que eu notasse.
Mas eu notava.
— Preciso confessar uma coisa. — digo, tentando parecer casual.
Ele me olhou de lado, arqueando uma sobrancelha de leve, com aquele meio sorriso que parecia ser só dele.
— Lá vem.
— Quase derrubei a bomba de extração cheia de leite dentro da pia hoje cedo! — comentei, rindo de mim mesma — Por pura distração!
— Por quê?!
Tomei fôlego, tentando colocar em palavras.
— Eu estava lembrando do que você disse ontem..., no carro… Quando falamos sobre como tudo à volta pode seguir igual, mesmo quando a gente muda por dentro. Sobre como o mar não espera ninguém. — suspirei, rindo do absurdo. Ele me olhou com mais atenção agora. O som do mar preenchia os silêncios entre nós — “Porque o mundo não sabe que você mudou. Mas você sabe.” — repeti em voz baixa — Essa frase não saiu da minha cabeça.
Ele não disse nada de imediato. Apenas sorriu com os olhos, como se soubesse exatamente o efeito que aquilo teve em mim e como tinha sido sem intenção alguma.
— Foi um bom pensamento pra começar o dia. — acrescentei, gesticulando — Mesmo com leite quase voando pela cozinha e uma bebê cantando historinhas que só ela entende.
— E mesmo assim você deu conta. — ele disse — Porque você mudou. E segue sendo a mesma. É isso que eu mais admiro.
— E de alguma forma associei isso às minhas manhãs caóticas. — sorri inclinando meu ombro para mais perto dele. Afastei os fios de cabelo que se bagunçavam no meu rosto, não permitindo que ele visse o rubor nas minhas bochechas — Entre fraldas, leite, frutas grudadas em tudo e uma bebê que parece crescer uma polegada por hora!
Cole riu, um riso livre, quase rouco.
— Fico honrado de ter sido lembrado entre mamões falantes e seios doloridos.
— Não romantiza, Cole. — revirei os olhos.
— Mas eu romantizo você. — a frase saiu tão naturalmente dele que por um instante meu coração hesitou.
Minha resposta morreu antes de nascer. Apenas desviei os olhos para o mar, tentando disfarçar o sorriso que me escapava.
— Você fala como se fosse fácil… gostar de mim. — minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia.
— Não é. — ele parou. Eu também — Não é fácil porque você é real. É isso que torna tudo mais certo. E mais difícil também.
Ficamos ali, por um instante que durou mais do que deveria. O som das ondas batendo contra o cais, o barulho distante de um guindaste em movimento, tudo parecia continuar existindo… mas longe.
— Lee... — ele disse, e meu nome exclusivo em sua voz soou como uma coisa que ele já dizia por dentro há muito tempo — Você vive tentando disfarçar o quanto é extraordinária.
— Eu não disfarço. — meu rosto se aqueceu.
— Disfarça. Principalmente quando começa a me contar sobre manhãs bagunçadas como se isso não fosse a parte mais bonita de você.
Sorri, rendida, mas ainda me contendo.
— Você é perigoso com palavras, sabia?
— Só quando elas te fazem sorrir desse jeito.
O sorriso durou em meus lábios, o meu rosto permaneceu quente diante de seus elogios. Passeei meus olhos pelo ambiente, sem pressa. A luz pálida da manhã filtrava-se pelas nuvens cinzas pesadas e o som da água batendo nas docas preenchia os espaços entre as palavras que não eram ditas. Cole parecia tranquilo por fora, mas eu já reconhecia os pequenos gestos como os dedos se entrelaçando, o olhar que fugia de vez em quando.
— Você ficou diferente. — murmurei, quase sem querer, mas não deixei de procurar seu olhar — Desde que eu “voltei”. Não sei... É como se algo em você tivesse ficado preso no tempo e trazido à tona.
Ele sorriu de lado, mas foi um daqueles sorrisos quebrados nos cantos. Sem alegria. Seus olhos focaram-se em outro lugar.
— Tive medo de você não se lembrar de mim. — confessou, a voz baixa, quase como se falasse para si mesmo. Franzi o cenho, surpresa. Antes que eu perguntasse, ele completou — Na maioria das séries e livros, a mocinha sempre volta de um coma esquecendo de alguém importante... — fez uma pausa, respirou fundo, sem me encarar — …e eu pensei que talvez fosse o seu caso.
Demorei um instante para responder, estava surpresa. Meu corpo permaneceu imóvel, mas por dentro, algo se apertou com tanta força que tive que me concentrar para não desmoronar na frente dele. Não porque a frase me doeu. Mas porque me revelou.
Ele tinha esperado. Sofrido. Se mantido inteiro de um jeito que nem eu compreendia, por alguém que nem sabia o quanto significava. E mesmo agora, quando já tínhamos voltado a nos ver, meses depois, o medo ainda habitava o fundo da voz dele. O medo de ser esquecido por alguém que ele nunca deixou de lembrar. Abracei minhas próprias mãos no colo e olhei para frente, para o barco, tentando conter a vontade súbita de tocá-lo. Não por impulso. Mas por... gratidão.
— Eu não esqueci de você, Cole. — falei, com a voz mais firme do que esperava — Nem mesmo quando tudo era escuro. — olhei de soslaio, ele estava me observando, e pela primeira vez, vi seus olhos brilharem de um jeito diferente, como quem se permitia acreditar.
Seguimos caminhando entre o vai-e-vem ritmado dos funcionários.
Passamos por um pequeno pavilhão onde redes eram consertadas à mão, cheias de nós bem-feitos e histórias emaranhadas no cheiro do sal. Homens se cumprimentavam com batidas fortes nas costas, e havia um barulho constante de coisas sendo erguidas, puxadas, empilhadas.
Mas mesmo assim, Cole andava comigo como se não houvesse pressa.
De vez em quando, alguém o chamava com um gesto discreto, e ele respondia com um simples aceno de que depois passaria.
E a cada passo, ficava mais evidente: aquele lugar pulsava nele.
Nossos passos ritmados nos levaram em direção ao prédio principal do Porto. O cheiro de maresia era mais forte ali, próximo ao escritório de madeira escura que se destacava entre os galpões industriais do porto de La Push. O frio da manhã já havia se transformado em um vento constante, gelado, que dançava entre as cordas dos barcos e fazia ranger os portões metálicos que levavam ao setor de carga. Caminhei ao lado de Cole, sentindo as botas baterem contra o chão húmido do deque. O porto não era bonito no sentido tradicional, mas havia algo de sólido ali. Algo que me acalmava. Talvez fosse a repetição dos sons, gaivotas, motores, madeira estalando, ou a presença firme de Cole ao meu lado, com os ombros largos cobertos pela camisa social azul escura que o deixava ainda mais imponente.
Perto de uma entrada lateral, subimos uma escada estreita de ferro que rangia levemente a cada degrau. O som dos nossos passos ecoava entre os tubos de metal e os pilares revestidos de madeira crua. Lá embaixo, os funcionários seguiam como num balé bruto, cheio de força e familiaridade.
Diferente da movimentação externa, ali dentro tudo era mais silencioso. Um corredor largo de madeira encerada e aço escovado nos levou até uma porta alta de vidro fosco com moldura escura. Sobre ela, gravado discretamente em metal:
“Administração Central – Setor Operacional”.
No alto, ele destrancou uma porta cinza-escuro com uma chave que parecia antiga demais para ser substituída. Passamos juntos, não era bem um corredor, apenas parecia uma antecipação para entrarmos no próximo local, já que só havia uma porta a nossa frente. Cole destrancou com um cartão magnético, e a porta se destravou com um estalido suave.
— É aqui. Nada muito refinado. — disse, quase como um aviso.
Ele abriu a porta do escritório e me deu passagem primeiro. Sempre silencioso nos gestos, mas de alguma forma sempre me oferecendo espaço. Entrei. E parei por um momento.
O ambiente era sóbrio, funcional e ao mesmo tempo acolhedor, uma harmonia entre o necessário e o pessoal. O piso de madeira envelhecida estalava levemente sob os pés, e o cheiro do lugar era diferente do resto do porto. Misturava sal, couro envelhecido, café forte, verniz e papel. E também, claro... O cheiro dele. Discreto, quente, familiar.
A sala era ampla, com paredes em cimento queimado acinzentado e grandes janelas voltadas para o mar.
De onde estávamos, era possível ver os navios ancorados e parte do canal de saída para alto-mar. No centro, havia uma mesa de carvalho maciço, escura, com régua de latão, pranchetas, um laptop aberto, rádios comunicadores e um mapa náutico dobrado com precisão. Sem luxo, mas funcional. Ao lado, uma caneca com um emblema repousava como se fizesse parte da mobília.
Cole seguiu até a mesa e deixou o molho de chaves sobre uma pilha de papéis. Ele abriu uma das janelas para ventilar, e o som do mar entrou com uma lufada suave de brisa. Não o suficiente para incomodar, apenas o bastante para lembrar que estávamos à beira de algo muito maior.
Meus olhos continuaram a passear pelo ambiente. A cadeira com as marcas dos cotovelos, o gancho na parede onde um colar de contas quileute balançava com o vento que entrava pela fresta da janela. Havia quadros de mapas náuticos nas paredes e registros empilhados em estantes laterais.
Nas prateleiras de ferro escuro, havia livros sobre oceanografia, espécies marítimas e legislação pesqueira.
Na parede atrás, um mural com algumas fotos em preto e branco de barcos, outras datavam tripulações antigas, e uma imagem de Cole bem mais jovem ao lado de dois homens mais velhos. Provavelmente o pai dele e algum antigo mentor.
À direita, uma estante de aço com livros técnicos, pastas com etiquetas datadas e um pequeno espaço com objetos pessoais: um relógio náutico de bronze, um par de binóculos antigos, três pequenas esculturas feitas em detalhes exímio em madeira escura, uma de salmão, uma de baleia e outra de um lobo uivando, e outros símbolos que deviam ser quileutes. Era bonito. Ali também, há um porta-retrato com a imagem de uma criança indígena de olhos verdes que sorri com um boné de pescador. Discreto. Como tudo que ele não fazia questão de exibir, mas fazia questão de manter perto.
— Aqui é onde parte de tudo acontece. — ele disse, com as mãos nos bolsos, me observando absorver tudo.
— Você passa mesmo o dia aqui? — perguntei, ainda observando.
— Praticamente. Aqui, e nos barcos. Mas esse é o único lugar onde ninguém me chama de imediato. — disse com um sorriso enviesado — Por isso guardo aqui as coisas que não quero perder.
Meu olhar cruzou o dele por um segundo a mais. Me aproximei devagar, passando os dedos sobre o tampo da mesa. Havia marcas, pequenos arranhões, traços de uso real. Não era um escritório apenas para mostrar, era um lugar vivido. Observei os detalhes. Os papéis com anotações a lápis, os mapas riscados com traços firmes, o quadro com horários e escalas de barcos. Tudo organizado à sua maneira: caótica para os olhos de qualquer um, mas visivelmente funcional para ele.
E então ele se virou, olhando para mim.
— Quer sentar? — perguntou, apontando para a poltrona mais baixa, acolchoada, perto da janela.
Assenti e me aproximei. Sentei com cuidado, mas não tirei os olhos dele. Cole ficou ali, me observando por um instante. O tipo de olhar que não se impõe, mas que me alcança mesmo assim.
— Você parece… diferente hoje. — ele disse, num tom que era metade constatação, metade provocação leve.
— E você parece igual. — retruquei, sorrindo — Mas, por algum motivo, isso me incomoda menos hoje.
Ele riu. Aquele riso baixo, cheio de calor. Se aproximou e apoiou uma das mãos no encosto da poltrona onde eu estava.
— Posso te contar um segredo?
— Claro.
— Quando você entrou nesse lugar… tudo pareceu fazer mais sentido.
Meu coração deu um leve tropeço. Não o suficiente para doer, mas o bastante para me lembrar de que estava viva demais. Meus olhos se fixaram nos dele, verdes como floresta molhada, mas com pequenos indícios castanhos que lembravam terra húmida, calor, casa.
— Cuidado com o que diz, Cole. — murmurei, corajosa — Às vezes você fala como se estivesse escrevendo alguma coisa permanente.
Ele se abaixou levemente, perto o suficiente para que a sombra do seu rosto tocasse o meu.
— Talvez eu esteja.
Os centímetros entre nós pareciam acender o ar. Eu podia sentir os batimentos do meu coração forte na palma das mãos. Respirei fundo, engolindo seco. E então, como se respeitasse aquele instante em que eu precisei respirar, ele se afastou com delicadeza. Voltou para a mesa, pegou um dos mapas e começou a se concentrar no que precisava fazer. E eu continuei ali, olhando para ele. Era fascinante vê-lo assim.
Cole se movia com precisão, como quem conhecia cada linha do oceano que estava representado ali. Os dedos firmes passavam pelos contornos das ilhas, das rotas, das margens. Ele falava com o mar sem precisar de voz, com gestos, com decisões, com olhos que liam a correnteza. Às vezes fazia pequenas anotações, outras vezes apenas encarava as linhas como se nelas houvesse algo que ninguém mais pudesse decifrar.
— Você sempre quis isso? — perguntei, quebrando o silêncio com voz baixa — O mar, os barcos, esse lugar…
Ele não levantou o rosto de imediato, mas respondeu com naturalidade:
— Desde menino. Meu pai chegou a trabalhar com embarcações também. Cresci ouvindo histórias de tempestades e redes pesadas demais pra subir. Mas o que mais me prendeu… foi a sensação de que o mar nunca é o mesmo. Nem por um dia. — ele levantou os olhos para mim, e seus lábios se curvaram num sorriso suave — Mesmo quando parece calmo… ele esconde segredos. Acho que gosto disso. Gosto daquilo que não se revela por inteiro de uma vez só.
Meus olhos permaneceram nos dele. Havia algo mais por trás dessas palavras e, de novo, não precisava ser dito para ser compreendido. Ele então puxou uma gaveta lateral, tirou um pequeno objeto de dentro, parecia um chaveiro feito à mão, com miçangas coloridas e penas presas por um cordão trançado. Ele girou entre os dedos por um instante antes de explicar:
— Foi a Kaylee quem fez. Disse que era pra me proteger quando eu fosse pro mar. Ela tinha cinco anos na época. Ela me entregou dizendo: "É pra espantar os monstros grandes e os pequenos também."
Soltei uma risada baixa, encantada com a lembrança.
— E funciona?
— Acho que sim. Desde que ela me deu isso, nada me puxou pra longe do que importa.
Ele deixou o chaveiro ao lado dos papéis, como se aquilo fizesse parte da ordem natural das coisas naquele escritório. Fiquei olhando para o objeto. As miçangas eram simples, mas as cores combinavam com um cuidado infantil que só o amor conhece.
— Você ama muito ela, né? — murmurei, quase sem pensar.
— Com tudo que sou. — ele não hesitou — Ela me ensinou que… existe uma forma de amar que não quer nada de volta. Só quer ver alguém crescer sem medo.
Pisquei devagar. Aquela frase ficou ecoando dentro de mim. Porque, de algum modo, era exatamente o que eu vinha tentando fazer com as minhas meninas todos os dias, mesmo entre as incertezas, mesmo quando o mundo parecia maior que meus braços. E acredito que estou começando a reconhecer isso nele também. A capacidade de amar assim. De estar, de não se afastar. Sem exigir, mas permanecer.
Fiquei ali por alguns segundos, observando o chaveiro, o movimento das mãos dele, o modo como o silêncio entre nós dizia tudo o que eu ainda não sabia nomear.
Levantei-me devagar da poltrona, me aproximando sem pressa.
Ele guardou o chaveiro de Kaylee com cuidado, como se fosse parte dos instrumentos de navegação. Depois, passou a mão sobre os mapas e me lançou um olhar com uma faísca leve. Pousei a mão sobre o antebraço dele, sentindo a maciez do tecido, a pele quente, o músculo firme, a pulsação contida. Ele não se moveu. Só aceitou minha aproximação.
— A forma como você falou da Kaylee… Me lembrou do que eu sinto pela Hilary. E agora, pela Helena também. — respirei fundo — Às vezes, acho que estou tentando protegê-las do mundo… quando na verdade, o mais importante seja ensiná-las a crescer sem medo. — deu um sorriso agradecido — Você me fez lembrar disso hoje. Sem esforço. Sem intenção.
Ele virou o rosto para mim, devagar, e nossos olhares se encontraram naquele ponto exato entre afeto, respeito e algo maior, que ainda não tinha nome.
— Obrigada por isso. — sussurrei.
E então, me permiti fazer algo simples e íntimo: encostei a testa na altura do ombro dele, só por um instante. Ele respondeu com um toque quente no meu pescoço. O gesto fez com que eu erguesse a cabeça para olhá-lo e não me afastei, isso deu mais possibilidade para o seu toque percorrer por mais espaços da minha pele, subindo na minha nuca. Silencioso. Imenso.
Fiquei olhando para os olhos dele por um tempo. À primeira vista, eram verdes. Mas bastava um instante a mais de atenção para notar os pontinhos castanhos escondidos, como quem guarda lembranças nas frestas da alma. E agora que estávamos tão próximos... Tão silenciosamente próximos..., me dei conta de que eu tinha decorado os olhos dele, mas ainda não tinha realmente observado o resto.
O rosto de Cole era cheio de linhas silenciosas.
Não linhas duras, marcadas por raiva ou amargura, mas daquelas que o tempo traça em quem vive ao ar livre, o vento, a maresia. A pele morena avermelhada carrega o tom quente das raízes quileutes, como bronze polido pelo sal, com leves variações de cor que mostrava o quão profundas são suas raízes.
O maxilar era forte, firme, mas não rígido. Como se ele pudesse, em um instante, parecer indomável..., e no seguinte repousar o queixo no ombro de uma criança sem perder o gesto. A barba por fazer desenhava a fronteira entre o bruto e o cuidadoso, e os lábios..., ah os lábios.
Tinham um formato que me fazia pensar em silêncio. Lábios que não falam por falar; que escolhem o momento, que guardam promessas em forma de pausa.
O nariz era reto, mas não arrogante, e havia uma pequena marca na lateral esquerda, talvez um corte antigo, uma lembrança de infância, ou só um traço da vida que ele não quis apagar.
E quando ele sorria...
O sorriso começava primeiro no canto da boca, como se testasse o terreno antes de se abrir inteiro. Mas quando vinha de verdade, transformava tudo. Como se por um instante, todos os mapas, as rotas, os planos..., sumissem. E sobrasse só ele. Cole, com esse rosto que é metade tempestade e metade abrigo; que parece sempre em silêncio, mesmo quando dizia algo. Um mistério.
Respirei fundo, deixando que o ar do lugar enchesse meus pulmões. O som das gaivotas ecoava pelas frestas da janela. Um barco apitou ao longe. E Cole continuava ali, com os dedos na minha nuca desenhando rotas, o olhar fixo, o corpo imóvel, mas o coração inteiro impresso em tudo que tocava.
Não falei nada. Não precisava.
Me afastei um pouco, até que seus dedos não tocassem minha pele sensível. Retrocedi um passo, e outro. Voltei a me sentar na poltrona, cruzando as pernas e só... o assisti. Como se assistir já fosse estar perto.
Ele não perguntou o que eu pensava. Talvez porque, de algum modo, já soubesse que existia uma parte de mim que já se sentia em casa naquele lugar. Não por causa do mar. Mas por causa dele.
E ainda assim...
— Tem algo em tudo isso que me faz sentir… pequena. — me pus em pé, falando baixo, como se estivesse conversando mais comigo mesma do que com ele.
Cole se aproximou, encostando de leve o braço no meu ombro.
— Mas você cabe aqui. Como se sempre tivesse feito parte. — sua voz saiu com calma, sem nenhuma pressa — Pode parecer grande, mas nunca foi inacessível pra você.
Virei o rosto lentamente, sentindo o peso daquelas palavras pousar no meu peito. E de repente, aquele espaço frio e corporativo parecia mais quente. Talvez porque ele estivesse aqui. Talvez porque eu estivesse permitindo que isso me atravessasse. Ou talvez, apenas talvez, porque tudo em mim já estivesse começando a ficar… em casa.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Ele não disse mais nada. Apenas caminhou até a janela de vidro fosco, encostando uma das mãos no parapeito e olhando o mar ao longe, inquieto, acinzentado, espumando contra os rochedos. Abaixei meu olhar para minhas mãos. Eu ainda sentia o calor da mão dele nos meus dedos. Ele havia segurado minha mão quando descemos do carro, com um toque firme e seguro. Achei que fosse apenas para me guiar, para me proteger do vento… mas ele não soltou, não até Sebastian surgir pelo caminho.
Ele continuava ali, em pé, com os ombros largos e o rosto semi-voltado para a janela como se ainda duvidasse que eu realmente tivesse vindo.
— Achei… — ele disse baixo, como quem entrega algo que guardou tempo demais — Que talvez você não viesse. Que tivesse mudado de ideia.
Dei mais três passos e parei na lateral da mesa. Seu tom não era de mágoa, nem de cobrança. Era mais próximo do… receio.
— Por um instante, — ele continuou, virando-se lentamente — eu acreditei nos meus temores..., que você pudesse mesmo se esquecer de mim.
Meu peito se apertou. Aquilo me desmontou por dentro. E eu, que achava que ele era feito de ferro e paciência. E então, ele se virou para mim. A luz difusa da janela desenhou sombras nos traços do seu rosto e havia algo diferente ali. Uma urgência. Uma profundidade que ele não costumava deixar vir à tona.
— Amberli… — disse ele, com a voz baixa, quase áspera. A maneira como me chamou pelo nome inteiro me chamou a atenção — Preciso dizer algo.
Meu peito se apertou pelas batidas fortes do coração lá dentro, mas não me movi. Apenas o encarei. Ele deu um passo à frente. E outro. E então, parou diante de mim. Seus olhos verdes pareciam mais escuros sob a luz difusa, mas ainda brilhavam. E foi ali, com a brisa do mar atravessando a sala e o som distante das gaivotas, que ele respirou fundo, como quem decide não se calar mais.
— Amo o seu sorriso.
O tom da sua voz.
A forma como você demonstra tudo que sente sem medo do que podem pensar...
Mas seus olhos sempre serão minha parte favorita em você.
Olhar para eles é como enxergar um espelho. Não o tipo de espelho comum, que só reflete o que se mostra por fora, mas um espelho antigo, como os que os mais velhos da minha tribo descrevem nas histórias da nossa gente... Um espelho d’água, daqueles que não mentem. Que vê através da pele, até o que se esconde no osso, que me enxerga exatamente como eu sou.
Você sempre teve esse dom, Amberli.
De observar profundamente as pessoas à sua volta. Como quem tem faro pra verdade. Como quem ouve com o peito e enxerga com o instinto além do que os olhos podem ver, compreendendo cada traço de personalidade imperfeita que torna as pessoas quem elas realmente são.
Foi através do seu olhar profundo que você sempre me desvendou, mesmo quando eu uivava por dentro e fingia estar em silêncio.
E mesmo assim... Não recuou.
Você viu o que os outros não notaram e alcançou todos meus defeitos, os que eu tanto tentava esconder, mas que sempre fizeram parte de mim. As partes brutas, não más, só primitivas. Coisas que fazem parte de mim como a floresta faz parte do caminho do vento.
Você não me olhou rapidamente como a maioria: você me reconheceu. E assim, eu te conheci.
Eu a amo completamente, com tudo que em mim é homem e tudo que em mim é fera.
Com as histórias antigas que carrego no sangue, com os aprendizados que a vida tatuou em mim como marcas de garra.
Amo, principalmente, os seus olhos, por terem se demorado em cada detalhe, nas minhas partes indomadas e, mesmo assim, ficado.
... Minha parte favorita em você.
Demorar-se nos detalhes.
Eu a amo.
Eu a amo...
Ele havia acabado de dizer. Aquilo tudo.
Aquelas palavras que não pediam resposta, só espaço para existir... sentir.
Essas palavras ficaram presas na minha mente como um sussurro antigo. Eu não soube o que dizer. Não soube como reagir. Senti apenas o ar se prender no peito, como se todo o meu corpo tivesse sido envolvido por uma neblina espessa e densa de emoção. Como se tivesse escutado algo muito mais antigo do que a gente. Algo que me chamava de um lugar sem nome.
Meu instinto era recuar. Não por medo dele, mas por medo de mim. Do quanto eu podia querer aquilo também. Do quanto aquelas palavras pareciam um abrigo que eu não sabia se merecia.
Mas então ele não avançou. Não pediu resposta. Não cobrou sentimento.
Apenas ficou ali, diante de mim, com os olhos fixos nos meus. Como se estivesse dizendo: “Você pode não saber agora, pode não entender ainda… mas eu continuo aqui.” E a luz que entrava pela janela tocava o contorno do seu rosto, metade sombra, metade luz.
Como o próprio mar.
Como tudo que me atraía, mesmo que ainda me assustasse.
E foi isso que me desmontou.
Não chorei. Mas meus olhos arderam. E pela primeira vez em muito tempo, permiti que alguém me visse... inteira.
Naquele instante, tudo dentro de mim pareceu silenciar. Menos o coração, que batia rápido demais, como se estivesse tentando acompanhar algo que meu corpo ainda hesitava em viver. E eu não sabia como corresponder àquelas palavras. Talvez porque elas fossem grandes demais para serem engolidas de uma vez só. Talvez porque nenhuma parte de mim estivesse acostumada a ser amada assim, tão profundamente, com os olhos abertos e sem reservas.
Mas eu precisava tocá-lo.
Meus dedos, antes tensos, buscaram as mãos dele. Grandes, fortes, calejadas, mãos de quem segura o mundo e ainda assim se oferece com gentileza. Segurei-as com delicadeza, e as senti cederem ao meu toque como se o gesto fosse esperado há muito tempo.
Com calma, deixei que meus dedos subissem pelas laterais dos braços dele, sentindo o calor que seu corpo emitia mesmo no frio cortante do porto. Subi pelo antebraço, pelas mangas da camiseta, até alcançar seu pescoço.
A pele era bem quente. Viva. Meu polegar roçou ali, sentindo a pulsação forte logo abaixo da mandíbula. Ele não se mexeu. Apenas me olhava. Como se a minha mão o sustentasse por dentro.
Foi quando meus olhos encontraram os dele mais uma vez. Esses olhos me hipnotizaram.
E tudo o que não coube na resposta, coube naquele olhar.
Era verde. Não qualquer verde, um verde profundo, como olivina escondida entre folhas antigas. Mas não era só isso. Havia também pontinhos castanhos, alguns quase imperceptíveis, como se fossem fragmentos de outono dissolvidos entre a floresta. Como se carregassem saudades de algo que nunca foi dito, ou vivido. Eu o olhei como quem procura um abrigo, e ele me olhou de volta como quem oferece uma casa. E pela primeira vez, percebi… Não eram apenas olhos. Eram um lugar.
E eu…
Eu me vi ali dentro.
Como se sempre tivesse sido esperada.
Havia um desejo neles, intenso, indomável. Mas também havia paciência. Aquele tipo de paciência que não exige nada, apenas espera… porque sabe que o sentimento é certo.
A ponta dos meus dedos alcançou seu rosto, roçando de leve a curva de sua bochecha, descendo até o contorno de sua barba curta. Meus dedos tremiam, mas meu toque era preciso. Como se uma parte de mim, mais corajosa, mais antiga, já soubesse o caminho. Cole fechou os olhos por um instante, como se absorvesse aquele gesto. Quando os abriu, algo dentro dele pareceu se desfazer.
Fui eu quem quebrou a distância, me inclinando. Devagar. Não sei se foi uma decisão ou se meu corpo apenas cedeu. Nossos rostos se aproximaram o suficiente para que minha respiração tocasse a dele. Meus lábios não chegaram a encontrá-lo por completo. Apenas roçaram os dele. Um toque breve, quase imperceptível, como uma promessa sussurrada.
Mas era suficiente para me incendiar por dentro.
Me afastei no instante seguinte, antes que o impulso tomasse conta de mim. Me senti erroneamente quebrando um encanto. E ainda assim, era como se eu tivesse atravessado um limiar sem volta.
— Eu... — tentei dizer algo, mas minha voz falhou. Havia um nó na garganta, e uma euforia silenciosa na minha mente. Algo entre vertigem e paz.
Ele apenas sorriu, como se entendesse.
E, por um instante, ficamos ali. Entre o cheiro do mar e o gosto salgado da emoção no ar. Entre tudo que ainda não sabíamos como viver, mas que, sem dúvida, já havia começado.
Ele não disse nada. Não precisava.
Quando meus lábios recuaram do toque breve e incandescente, sua expressão não se alterou, mas algo em seu olhar se tornou mais intenso. Como se, enfim, tivesse permissão para se aproximar também.
E ele se aproximou.
As mãos grandes de Cole vieram em minha direção, lentas e seguras. Uma pousou suavemente em minha cintura, a outra veio para as minhas costas, e no segundo seguinte ele me atraiu para mais perto de si com uma facilidade quase absurda, como se meu corpo tivesse sido feito para caber ali, naquele espaço exato entre seus braços. Fui envolvida por ele. Literalmente. Perfeitamente. E não houve nenhum gesto de urgência, nenhum puxão apressado. Havia intenção. Havia permanência.
O calor dele me envolveu como um incêndio que não queima, mas consome por dentro. Mesmo com o vento do lado de fora sibilando entre as frestas da janela, mesmo com o frio húmido e salgado daquele lugar grudando em minha pele, ali dentro, entre os braços de Cole, eu senti apenas calor. Forte, real. Quase primitivo.
E ainda assim… suave.
Meu rosto repousou contra seu peito, e por um momento deixei que o mundo ficasse em silêncio de novo. O som abafado do seu coração batendo rápido e forte, a respiração firme contra meus cabelos, o perfume que ele carregava, uma mistura de sal, madeira e algo só dele, tudo isso ficou gravado em mim.
Era mais do que um abraço. Era uma verdade sem palavras. Um refúgio. E eu me permiti ficar. Por alguns segundos. Por muitos segundos.
Até que ele se afastou só o suficiente para olhar nos meus olhos mais uma vez. As mãos ainda em minha cintura, firmes, mas respeitosas. Havia tanto que poderia acontecer a partir dali. Mas ele não forçou o passo seguinte. Ele apenas... esperou.
— Vamos? — sussurrei, minha voz finalmente retornando, mais baixa do que eu imaginava.
Ele assentiu, sorrindo. Um sorriso pequeno, mas cheio de significado.
Saímos do escritório com passos lentos. O vento nos recebeu de volta como um velho amigo, gelado, persistente. As nuvens pesadas escondiam o pôr do sol, deixando o céu tingido de chumbo. O cheiro de maresia voltou a dominar, agora misturado ao leve aroma de peixe fresco vindo dos barcos atracados. Caminhamos lado a lado pelo cais de madeira molhada. E mesmo sem dizer nada, sabíamos. Havia algo entre nós agora. Algo que não precisava ser nomeado, nem explicado. Mas que estava ali pulsando em cada gesto, em cada passo, em cada respiração dividida no frio cortante da praia de La Push. E quando minha mão escorregou para dentro da dele, no meio do caminho até o carro… ele a segurou como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Porque talvez fosse.
Ali, naquele espaço marcado pelo tempo, ele parecia inteiro.
E talvez… talvez era isso que eu mais temia.
Não o toque. Não o desejo.
Mas o quanto ele já morava dentro de mim.
Mesmo sem eu ter percebido quando entrou.
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