Sempre ao seu Lado

52 𝟏𝟗 𝐝𝐞 𝐍𝐨𝐯𝐞𝐦𝐛𝐫𝐨 ➶


Notas iniciais
Sejam bem-vindos a mais um capítulo 📑✨

Sempre ao Seu Lado

Capítulo 48


Minha manhã de quinta-feira começou com aquela claridade leitosa de Forks, filtrada pelas copas húmidas das árvores.

O corredor da mansão estava silencioso, como se guardasse o sono de quem ainda dormia e só era quebrado pelos estalos da madeira no meu andar leve. Abri devagar a porta do quarto que Hilary dormia, um cômodo generoso, com móveis claros que Esme mesma escolheu, adentrei sendo guiada pela luz suave de um abajur que deixava sombras quentes nas paredes. Ela estava enroscada no meio das cobertas, dormia com as perninhas dobradas, os cílios escuros colados na pele, o cabelo caindo sobre o rosto. Aproximei devagar, passei os dedos nos fios dela, sentindo a textura macia, quase quente.

— Bom dia, minha alegria. — murmurei, encostando o joelho no chão.

Hilary mexeu o rosto, enterrou-o mais no travesseiro antes de abrir os olhos aos poucos, meio colados, ainda inchados de sono. O olhar encontrou o meu, ainda pesado, mas veio um sorrisinho pequeno, lento que derretia tudo dentro de mim.

— Vem com a mamãe? — perguntei, estendendo os braços e me pondo em pé.

Ela sentou no colchão. Dei-lhe o tempo para que coçasse seus olhos, e passasse as mãozinhas pelos cabelos. Ela piscou os olhinhos devagar, a boquinha se abrindo e fechando e suspirou. Peguei ela no colo, sentindo o calor morno do corpinho dela, e seus bracinhos se penduraram no meu pescoço e saímos juntas pelo corredor, os meus passos ecoando o ranger leve da madeira levemente, meu olfato captou o cheiro da cera. Segui para o banheiro para lavar seu rostinho e escovar seus dentes, após, caminhei até o quarto da Helena, que antes pertencia exclusivamente à Rosalie e Emmett, agora tomado discretamente por brinquedos pequenos e pelo cheiro doce da minha bebê.

Empurrei a porta, que estava apenas encostada. Helena já estava acordada e de pé no berço de ferro adornado, segurando firme nas grades, os olhos cristalinos brilhando ao nos ver. Os pezinhos batiam no colchão, o sorriso largo quase maior que o rosto.

O dentinho novo aparecia, branco e reluzente, quando ela ria.

— Bom dia, estrelinha! — a saudei por nós duas.

— Mamãe! Hilary! — exclamou, a voz rouca, doce, mais clara do que deveria ser pra idade dela.

Hilary se remexeu no meu colo, querendo descer.

Eu?! Eu a Hiwawy? — perguntou, meio rindo.

— É, você. — respondi, rindo também.

Coloquei Hilary no chão, e ela foi direto até o berço, os olhinhos brilhando de sono misturado com curiosidade. Dei a volta, peguei a preciosa escova de cabelo de madeira clara, presente da Esme, e fiz um gesto pra Hilary, chamando-a.

— Senta aqui, vamos arrumar esse cabelinho antes de descer?

Ela hesitou, olhando a irmã, mas obedeceu, se sentando na pontinha da poltrona, perto da janela, ainda observando a irmã. Comecei a passar a escova devagar pelas pontas dos fios castanhos, ouvindo Helena batucar nas grades do berço, ansiosa.

— Hilary! — Helena chamava, batendo as mãozinhas — Você percebeu meu dente?!

Eu sei, Nena! — Hilary respondeu, quase rindo — Você tem denti! Ta ficâno gandi!

Sorri, parando um instante de escovar o cabelo da Hilary, sentindo o calor que nascia desses pequenos diálogos entre elas, tão cheios de naturalidade, tão livres de peso. Helena apoiou os bracinhos na grade do berço, acompanhando tudo com atenção, os olhos curiosos, e aquele sorriso mostrando a pontinha branca do dentinho recém-nascido. Elas trocavam frases breves, como Helena tinha mais desenvoltura para falar, Hilary tentava copiar algumas palavras, mas elas se embaralhavam tanto que a própria caía na gargalhada, Helena exultava de dentro do berço, num riso que chacoalhava seu corpinho. Era gostoso de assisti-las, natureza diferente, amor igual.

Quando terminei, Hilary escorregou da poltrona e correu até o berço, apoiando o queixo entre as grades.

Nena tem denti gandi! — disse, orgulhosa, como quem compartilha um segredo.

Helena abriu a boca num sorriso largo, quase se exibindo. Nesse momento, a porta se abriu devagar, revelando Carlisle. O toque suave dos nós dos dedos dele na madeira antes de entrar já era sua assinatura de gentileza.

— Bom dia, Amberli. Bom dia, meninas. — disse, com aquela voz calma, quase grave.

— Carlisle! — Helena chamou, o rostinho se iluminando. Helena esticou os bracinhos por cima da grade.

Ele sorriu, aproximou-se do berço e, com toda paciência, pediu à Helena.

— Posso ver o novo dentinho, minha pequena?

Helena assentiu com aquela obediência natural que ela só tinha. Ele se abaixou à altura do berço, puxou do bolso um pequeno estojo e retirou um instrumental de luz, ela abriu a boca, deixando o lábio inferior cair, exibindo a pontinha branca. Carlisle usou a pequena luz e examinou, inclinando a cabeça dela com um gesto delicado.

Observei com atenção, e mesmo eu já tendo visto aquele dente, havia algo de quase mágico na precisão do olhar de Carlisle.

Denti! — Hilary repetiu, como quem lembra da missão importante.

— É exatamente como o esperado, Amberli. — disse, levantando o olhar pra mim com um sorriso breve — O dente definitivo está surgindo com uma densidade singular.

Eu me aproximei mais, ainda segurando a escova.

— É mesmo tão especial assim? — perguntei com interesse genuíno, num tom quase de espanto, quase sem querer.

Ele virou o rosto pra mim, com aquele sorriso contido, um brilho nos olhos claros.

— É sim, Amberli. É um dente que pode romper até as fibras mais resistentes, mas sem causar desconforto à mandíbula dela. Esse dente é feito de uma matriz de dentina e esmalte mais densa do que qualquer estrutura humana. É algo que mistura a organização quase perfeita dos cristais de hidroxiapatita com fibras microscópicas que só encontramos nos híbridos. Na prática, ele parece mais claro, quase translúcido, mas pode resistir a forças que nenhum dente humano suportaria. É um processo de transição perfeito, Amberli. Exatamente como foi com a Renesmee.

Fiquei olhando para Helena enquanto ele explicava. Era impossível não sentir uma pontada estranha de orgulho e um leve receio, tão pequena, tão delicada e já tão mais diferente, tão única. Hilary bateu palminhas, rindo, como se entendesse tudo. Helena olhou para a irmã, Hilary olhou do berço para mim.

Nena denti forte!

O riso escapou da minha garganta, leve, quente.

— Sim, meu amor. Um dente muito forte. — afaguei suas costas.

Carlisle se inclinou, explicou devagar, como se falasse exclusivamente para ela.

— É muito forte, pequena. Mas não vai machucar ninguém, porque a Nena sabe usar.

Helena entendia, ela sorriu. Eu passei a mão na cabeça dela, sentindo a textura dos fios de cabelo.

— É tão perfeita… — sussurrei, mais pra mim do que pra eles.

Carlisle fechou o pequeno estojo, ainda olhando para as meninas com ternura.

— Ela está se desenvolvendo de maneira maravilhosa. Se quiser, mais tarde podemos registrar no diário de acompanhamento.

— Quero sim. — assenti, ainda com as mãos nas costas da Hilary — Obrigada, Carlisle. Por tudo.

Ele sorriu, se levantou, ajeitando a camisa.

— O mérito é todo dela e seu, Amberli. — completou.

Ele se aproximou devagar, e Helena levantou o bracinho, sem hesitar. Foi tão natural que até me deu um aperto bom no peito. Ele passou o braço por baixo do corpinho dela, apoiando firme, mas com uma delicadeza quase reverente. Antes de sair, parou perto de mim, a voz baixa, quase num sussurro para não assustar Hilary.

— Vou levar a Helena até a outro ambiente. É mais seguro que ela se alimente longe de vocês. — explicou, olhando nos meus olhos, deixando espaço pra eu dizer “não” se quisesse.

Apenas assenti, esse era o momento do seu outro lado se alimentar, faz parte da sua rotina comum.

— E, em breve, ela estará pronta para aprender a se alimentar da forma correta… como nós fazemos. — ele completou, com aquele tom calmo que trazia mais esperança do que medo — Caçar, controlar a sede, escolher presas sem colocar inocentes em risco. Vai ser um passo grande, mas ela vai ter a gente pra ensinar.

Eu engoli seco, olhando para Helena, os olhinhos claros fixos em mim, quase querendo garantir que eu não estava triste.

— Tá bem… — consegui dizer, numa voz rouca — Obrigada, Carlisle.

Ele sorriu de leve, e antes de sair do quarto, passou os dedos nas costas da Hilary, que assistia tudo com a boca entreaberta, sem entender direito. Hilary se virou ergueu a mãozinha para pegar o pente na minha mão, Helena abanou a mão em um “tchau”, mas ela não viu, apenas eu correspondi. A porta fechou devagar, deixando um silêncio espesso atrás. Fiquei parada alguns segundos, segurando a respiração, como quem tenta ouvir o som dos passos do Carlisle no corredor. Mas só havia os sons infantis de Hilary e o barulho das árvores do lado de fora.

Mamãe? E a Nena? — Hilary olhou para mim, o semblante confuso.

Me abaixei até ficar na altura dela, passei a mão no seu cabelo, ela ergueu o pente, passando no mesmo lugar logo em seguida.

— O tio Carlisle foi dar a mamadeira pra Nena, meu amor. É melhor ela se alimentar longe, lembra?

Ela não perguntou mais nada, só encostou o corpo pequeno no meu, procurando calor. Eu puxei ela para o meu colo, sentando na poltrona perto da janela. O sol ainda tentava furar o cinza de Forks, deixando riscos pálidos na parede. Fiquei olhando ali, distraída, tentando não imaginar Helena num cômodo distante, sugando o sangue que ainda era humano para sua outra parte, possivelmente a que mais prevalecia, poder sobreviver. No peito, uma mistura estranha: orgulho dela ser tão forte, medo do que isso significava, e aquele vazio quente de quando a gente precisa soltar um pouco quem ama, mesmo sendo tão cedo.

A Nena volta logo? — Hilary passou o dedinho pela minha mão, perguntando, simples, direta, como quem só queria saber quando tudo voltaria ao normal.

— Logo, meu amor. — respondi, encostando um lado do rosto na testa dela — A Nena logo volta. — minha voz saiu com mais certeza do que eu achei que teria.

Esperei mais alguns minutos, o corpo quieto, mas a mente ainda lá no corredor, tentando adivinhar se já dava pra ouvir o som abafado da voz do Carlisle ou algum resmungo da Helena.

Nada.

Só o som abafado da respiração da Hilary contra minha blusa.

Inspirei fundo, tentando afastar o medo com a mesma paciência que Carlisle sempre mostrava pra mim. Passei a mão no cabelo dela e me levantei.

— Vamos, filha? Vamos descer? — perguntei, a voz ainda mais baixa do que eu pretendia.

Hilary assentiu, escorregando pelas minhas pernas até ficar firme no chão, ela esperou que eu me levantasse para encaixar a mãozinha na minha, e me impulsionar para a saída do quarto, os pezinhos batendo de leve no soalho do corredor. Descemos devagar, degrau por degrau. Quando chegamos ao fim da escada, o cheiro quente de café fresco, pão e fruta cortada nos recebeu.

A cozinha grande estava aquecida, iluminada pela luz cinza que entrava, com aquele céu chumbo de Forks, o vento batendo contra as janelas da cozinha. Rosalie estava encostada na bancada, com os braços cruzados, observando algo no celular; Bella, sentada na ponta da mesa, segurava um livro, as duas levantaram o olhar quando me viram. Rosalie guardou o celular no bolso, o rosto ainda sério, mas havia um jeito menos distante no olhar dela hoje.

— Bom dia! — Bella falou primeiro, num tom suave, quase caloroso.

Bom dia, tia Bella! Bom dia, tia Rose! — Hilary abanou a mãozinha livre para o alto.

— Bom dia. — respondi ao sorrir, a voz saiu baixa — Carlisle foi dar a mamadeira da Helena…

— Sabemos. — Rosalie cortou, seco, mas não rude; era só o jeito dela. Pelo menos me economizara nas palavras.

Hilary se soltou da minha mão e correu à minha frente até um dos cadeirotes perto da mesa, batendo o dedinho na madeira do cadeirote oposto ao que ela costuma ser colocada. Ergui a sobrancelha.

Mamãe, eu aqui! Aqui!

— Já vou te colocar, meu amor. — disse, e a ergui, ajudando-a a sentar.

Meus olhos passearam pelo ambiente, Isabella e Rosalie estavam próximas e conversavam entrei si, viam alguma coisa no celular da Rose, e reparei que na pia havia algumas tigelas, colheres usadas, ainda com respingos de uso recente. Olhei ao redor mais uma vez, aquela leve culpa subiu no peito, como um reflexo antigo; Esme não estava por perto, não seria tão difícil de insistir se acaso uma delas me parasse. Me aproximei da bancada da pia, com leve desinteresse, como se estivesse por ali para pegar algo, e comecei a juntar os itens para dentro da cuba com cuidado.

— Espera, Amberli. — Rosalie chamou, descruzando os braços. Parei o movimento das mãos, num instante impossível ela já estava ao meu lado — Vou te mostrar a lava-louças. É mais rápido.

Não consegui conter o suspiro de alívio que escapou por entre os lábios, fiquei parada, olhando para ela, enquanto Bella só sorria de leve, com aquele jeito de quem queria dizer “Vai, confia”. Rosalie abriu a porta do eletrodoméstico quase camuflado entre as portas dos armários e puxou a gaveta de baixo.

— Pratos e tigelas grandes aqui. Copos e xícaras em cima. — apontou, e eu fui repetindo o gesto dela, sentindo o metal frio da grade contra meus dedos.

Peguei uma tigela, o restinho da massa de panqueca estava ali, e coloquei devagar entre as grades do espaço que ela indicou.

— Talheres aqui. — ela disse, mostrando o cesto, a voz um pouco mais baixa, quase paciente.

— Tá… — murmurei.

Ela me esperou agrupar tudo da minha maneira nos locais indicados, pratos, xícaras e tigelas, copos de vidro, uns copos infantis da Hilary, e fechou a porta com um clique suave e apertou um botão. O som começou baixo, quase um ronronar mecânico, mas aos poucos ficou mais constante, como uma respiração ritmada.

— Pronto. Vai lavar tudo sozinha. — e me lançou um olhar rápido — Assim você cuida da mesa e das meninas sem precisar se preocupar.

— Obrigada. — falei, sincera, e percebi que saiu mais alívio do que constrangimento.

— Quer que eu dê o café da Hilary? — Bella ofereceu, o olhar gentil.

— Pode deixar, ela está comendo bem, sozinha. — respondi, quase por reflexo de mãe.

Enquanto isso, Hilary tamborilava os dedinhos na bandeja, olhando curiosa para a lava-louças.

Faz barulhio? — perguntou, com aquele “r” escorregadio que ainda não sabia dizer tão bem em algumas palavras.

— Faz um pouquinho, né? — respondi, rindo da maneira que suas palavrinhas soaram, sem má intenção — Mas limpa tudo.

Rosalie encostou de novo na bancada, os braços cruzados, mas com uma expressão quase satisfeita.

— Você vai ver o quanto que isso ajuda. Ainda mais com duas pequenas em casa.

Cadê a Nena, mamãe? — Hilary virou o rosto pra mim, ela parecia já impaciente com a ausência da irmã, ansiosa.

— Ela já volta, meu amor. Tá com Carlisle, tomando a mamadeira dela.

Mamadeira mágia da Nena. — Hilary repetiu, como quem guarda o detalhe mais importante. O olhinho curioso foi direto até a portinha da máquina mais uma vez, como se enxergasse ali dentro — Meu copo! — apontou, o dedo firme — Azul, mamãe! Eu quero!

— Filha, o copo já está na máquina. Não dá pra tirar agora, tá sujo. — falei.

Ela empurrou o corpo pra frente no cadeirote, quase como quem queria pular dali.

Mas eu quero agora! — o “quero” saiu mais alto, a voz pequena ganhando um tom esganiçado.

Antes que eu respondesse, a atenção dela foi distraída pelo som dos passos que vinham dos degraus da escada. Era Carlisle, voltando com Helena. Ele entrou devagar, carregando-a encostada no peito. Ela parecia satisfeita, os olhinhos moles, o dentinho novo aparecendo de leve entre os outros quando ela bocejou.

Nena! Nena! — ela comemorou a chegada da irmã.

Analisei-a por um instante, nem um pouco satisfeita com o acontecido. Ergui meu olhar para Carlisle, quando senti sua presença próxima de mim.

— Aqui está ela, bem alimentada. — disse Carlisle, num tom tão baixo.

Ele a colocou devagar no cadeirote alto ao lado da Hilary. Helena se acomodou, ainda meio mole, mas quando sentiu o cheiro da irmã, abriu um sorriso pequeno, tão espontâneo que aqueceu tudo dentro de mim. Hilary sorriu de volta, batendo as mãozinhas na beirada da bandeja.

Nena, mama?

— Nena já mamou, filha. — expliquei, a voz mais suave — Ele já deu a mamadeira dela.

Helena fez um som, como quem confirma, e ficou balançando o pezinho, brincando com a costura da roupa.

— Agora é a sua vez! — ela esticou seus dedinhos na direção da Hilary.

Carlisle ajeitou a camisa social bem passada no corpo, passou a mão leve no ombro da Hilary, como quem se despede.

— Vou para o hospital. Se precisarem de mim, liguem. — olhou pra mim por um instante, como quem diz sem dizer que estava ali por nós.

— Obrigada, Carlisle. — respondi, e senti a palavra sair mais carregada do que imaginei.

Ele se despediu das suas filhas, e saiu pela porta do deck, fechando-a devagar. Acompanhei pelo olhar seu corpo se distanciando, até que sumisse da minha visão, a mente relaxando em pensamentos de como a manhã começou bem, até demais: Hilary riu enquanto eu penteava seus cabelos, batia palminhas, e Helena conversava e brincava no berço, feliz de estarmos juntas no cômodo usado para ser seu quarto. O silêncio voltou, mas não durou mais que uns segundos. A cozinha retomou a agitação, o som baixo da lava-louças, o balançar do cadeirote, o sussurro de Rosalie trocando uma frase curta com Bella. Peguei um copo rosa da prateleira baixa e coloquei na bandeja à frente de Hilary. Ela ergueu o rosto para mim, os olhinhos castanhos intensos.

Copo azul, mamãe. — repetiu, agora mais insistente. Suspirei, pensei que ela nem iria reparar.

Rosalie estava sentada na banqueta, distraída vendo algo no celular. Bella, encostada no balcão ao seu lado, segurava um livro e parecia bem envolvida na leitura. A casa estava tão quieta que até meus passos nas tábuas rangiam mais alto, e talvez fosse justamente essa quietude que tornou tudo mais difícil de suportar.

— Filha… — suspirei — O copo azul já tá lavando, lembra? Está dentro da máquina.

Vi a mãozinha dela bater de leve na bandeja, sua feição se rebelou, o olhar se encheu de água.

Hilary queria “aquele” copo.

O copo azul, que eu tinha acabado de colocar na máquina de lavar louças. E não estava adiantando explicar que estava sujo, que tinha outros iguais, que podíamos esperar, era só um copo azul.

E, mesmo assim, parecia que todo o resto do dia dependia dele.

Hilary, quase completando dois anos, queria aquele copo e nenhum outro.

Eu queeeero o azul! O azul! — a voz dela saiu em um grito agudo, carregado de frustração, o olhar se encheu de água.

Tentei respirar fundo, mas senti o ar raspar no peito. O caos parecia crescer devagar, enchendo cada canto da cozinha. Hilary empurrou seu corpinho dentro da cadeira, bateu com as mãos na bandeja, o barulho ecoando alto demais. Helena virou o rosto para a irmã, olhando com curiosidade, como quem não entendia por que ela estava tão zangada.

— Hilary… — comecei, a voz baixa, mais firme do que eu queria, tentei manter a calma, mas senti o peito esquentar — O copo azul está sujo. Vamos usar o rosa hoje. — mostrei o copo rosa, quase igual.

Ela bateu as mãozinhas contra a bandeja do cadeirote mais uma vez, os olhos marejados se apertando num choro quase rouco.

Não! Eu quéééro azul! — ela gritou mais alto.

Por dentro, senti a paciência se partir num estalo seco e por um instante, tudo pareceu maior: o barulho da lava-louças ficou mais forte, o cheiro do café mais amargo. Não era só sobre o copo. Era o cansaço de dias, as noites mal dormidas, o peso desconhecido que eu mesma carregava calada.

— Hilary! Chega. — o som da própria voz me escapou um pouco mais ríspido. Respirei fundo, fechei os olhos um segundo — Eu sei que você quer o azul, mas hoje não tem. Você vai usar o rosa.

Ela me olhou, surpresa com o tom. Os lábios tremeram, as lágrimas finalmente caindo. Chorou alto, quase se jogando para trás, as mãozinhas cerradas, batendo contra o cadeirote, derrubando o copo sobre a bandeja. Rosalie virou o rosto para mim, o olhar duro, quase um aviso silencioso; Bella ajeitou o corpo na banqueta, preocupada, mas nenhuma das duas interferiu.

O rostinho da minha filha foi ficando avermelhado. E foi ali que senti a culpa. O medo de ter falado duro demais. Mas também o medo maior de ceder, de ensinar que bastava chorar mais alto para conseguir. Me mantive firme.

— Hilary, olha pra mamãe. — segurei o rostinho dela com cuidado, mas firme — Eu sei que você está brava. Eu sei que queria o copo azul. — passei o polegar na bochecha molhada — Mas hoje não vai ter. Ele está sujo. Não podemos tirar. Você vai beber no outro copo, e depois, quando o azul estiver limpo, pode usar ele, tá? — disse, pausando cada palavra — Pode ficar brava, pode chorar. Eu vou ficar aqui. Mas não vou dar o copo azul. Não tem como. — seu choro ficou mais rouco, mais cansado. Ela tentou virar o rosto, mas continuei a segurar com delicadeza, repetindo baixo — Eu tô aqui. Pode ficar brava. Mas não vou mudar.

Por dentro, era um conflito, vontade de abraçar e dar logo o copo azul, acabar com o grito; e a consciência de que educar também era dizer não, mesmo que doesse mais em mim do que nela.

Bem ao lado, Helena, com aquele olhar impossível de ignorar, me observava. Os olhos dela, de um azul cristalino quase hipnotizante, se moviam entre mim e a irmã. Parecia… pensar. E, com a voz surpreendentemente clara, disse:

— Hili está brava, mamãe. — o tom era seguro, quase tranquilo — Não tem azul.

Foi como se alguém apertasse pausa dentro do caos. Hilary, ainda choramingando estressada, virou o rosto para a irmã, surpresa por ouvir o nome dela daquele jeito. Helena não sorriu.

Apenas repetiu, mais baixo:

— Tem rosa. Rosa é bom também. Eu gosto.

Eu fiquei imóvel por um segundo, sentindo o coração disparar, não só pelo alívio, mas pelo espanto. Porque Helena falava como quem realmente entendia. Como quem via não só o copo, mas também o que se passava no peito da irmã.

Hilary balançou a cabeça, choramingando mais baixo, como se quisesse discordar, mas o choro perdeu força. As mãozinhas ainda bateram na bandeja, num protesto final.

— Hilary. — chamei, agora com a voz mais calma — Eu sei que você queria muito o azul, meu amor. Mas hoje vai ser o rosa. Você pode ficar brava, pode chorar. A mamãe entende, tá tudo bem ficar brava. — deixei o copo rosa de pé na bandeja do cadeirote — Tá aqui. É esse por agora.

Helena esticou o braço gorducho, tocando de leve na manga da irmã.

— Está tudo bem, Hili. Mamãe fica. Eu fico.

Foi tão rápido, tão simples, que quase partiu meu coração. Sorri, cansada, mas aliviada. Hilary ficou me olhando, os olhos marejados, o peito subindo e descendo rápido, a boquinha tremendo.

E então, baixou o rosto, soluçou alto, mas ficou quieta.

Afaguei seus cabelos e, mesmo com o peito ainda apertado, soube que tinha feito certo. Hilary fungou alto, as lágrimas penduradas nos cílios, e empurrou o copo mais para o lado uma última vez.

Mas não gritou mais.

Ficou ali, respirando aos trancos, como quem aceitava, ainda contrariada. Eu sabia pelo jeito que ela me olhou por debaixo dos cílios: o queixo duro, os olhos castanhos apertados como quem decide sozinha o tom do dia.

Helena, sentada no cadeirote, observava tudo com aquela calma que sempre me desconcertava, como se fosse mais velha do que parecia. E por dentro, quase sem querer, pensei: Ela entende tanto… tão cedo.

O pensamento não era só orgulho. Era também medo, do quanto Helena percebia, do quanto sabia, e daquilo que ainda não dizia em voz alta. Mas, naquele instante, deixei esse medo quieto.

O barulho da lava-louças continuava, firme, constante num lembrete de que tudo estava em ordem, mesmo que dentro de mim parecesse borbulhar desordenado.

Me sentei na cadeira da ponta da mesa, peguei uma das fatias de pão bem-posicionadas no cesto, passei um pouco de manteiga e em seguida cortei as panquecas em tiras para Hilary. E quando Hilary finalmente pegou o copo rosa, foi Helena quem murmurou, com a voz calma, parecia estar consolando a irmã, ou convencendo-a.

— Rosa é bom, Hili.

O cheiro simples do pão se espalhava entre os outros cheiros suculentos pela cozinha, misturando-se ao aroma de madeira molhada que vinha da floresta lá fora. Isabella puxou seu livro mais pra perto, num gesto quase imperceptível, e Rosalie voltou a encostar na bancada, soltando o ar devagar, como quem observa, mas não condena mais. E eu, por dentro, soltei o ar que nem sabia que segurava, deixando o peito esvaziar daquele medo e daquela raiva que quase transbordaram. Era só um copo azul.

Bella apoiou o cotovelo na pedra, o queixo na mão, olhando pra mim com aqueles olhos grandes, atentos, que pareciam ver mais do que eu conseguia esconder.

— Foi certo o que você fez, sabe? — ela disse, sem rodeios — É difícil, mas elas precisam aprender que nem tudo pode ser do jeito que querem.

As palavras dela entraram fundo, mais fundo do que eu gostaria de admitir. Porque doía. E, ao mesmo tempo, me aliviava ouvir.

— Eu sei… — murmurei, erguendo meu olhar na direção da Hilary, que ainda fungava, mas já segurava o copo rosa com mais calma — Mas me sinto horrível, Bella, não gosto de dar espaço para a raiva.

— Sentir raiva não faz de você uma mãe ruim, Amberli. — Bella balançou a cabeça, devagar — Faz de você… humana.

— Crianças sentem, testam. — Rosalie manifestou — E você precisará mostrar o limite. Se não fizer isso agora, depois será pior. — ela parecia dura… mas foi como se dissesse: “você precisa ser firme, porque é isso que protege ela”.

O jeito dela era quase naturalmente seco, mas tinha algo ali, um calor meio escondido que, só quem prestasse atenção, perceberia. Fiquei olhando pras duas, com Helena ao lado, balançando no cadeirote e dizendo coisas, como se cantasse para a própria irmã. Talvez querendo que ela se acalmasse.

— Vocês falam como se fosse tão simples… — suspirei, deixando o peso sair — Mas às vezes parece que tudo em mim quer quebrar. Como se eu não fosse feita pra isso.

— Eu também pensei assim, no começo. — Isabella disse, a voz mais baixa, lembrando de algo que só ela sabia a profundidade. Ela descruzou as pernas, se mexendo sobre a banqueta onde estava, marcou a página do livro e poiou a mão na pedra da bancada — Eu tive medo de mim mesma… medo de machucar quem eu mais amava. Mas a gente aprende. Um dia por vez.

As palavras dela ficaram reverberando, quase queimando o fundo da garganta. Helena esticou a mãozinha curta e tocou o braço da irmã, num gesto tão gentil, mas que fez meu peito apertar. Eu fiquei parada por um instante, olhando as duas mulheres: Isabella, tão tranquila, quase como água; Rosalie, tão firme, quase pedra; e eu, ali no meio, feita de medos, cansaço… mas também de algo que não sabia nomear, que nascia toda vez que olhava pras minhas filhas.

— Obrigada… às duas. — falei, mais baixo.

— Só estamos dizendo o óbvio. — Rosalie olhou pro teto, fingindo desdém, mas um canto dos lábios quase quis subir.

— É que às vezes, a gente precisa ouvir o óbvio da boca de outra pessoa. — Bella riu baixinho.

Fiquei observando as meninas: Helena balançando o cadeirote, batendo levinho os pés, cantarolando; Hilary mordendo a borda do copo, distraída; e o som constante da lava-louças no fundo, lembrando que, apesar de tudo, a vida seguia. Me levantei, e coloquei o pequeno prato infantil na frente da Hilary, panquequinhas cortada em tirinhas, tigelinha com frutas, e um pouco de iogurte. Nada que ela não tivesse comido mil vezes.

Ela olhou, virou o rosto para o lado:

Não quéééro isso!

— Hilary, meu amor… — tentei, mantendo a voz baixa, não acostumada com suas atitudes — Você gosta. É o que sempre pede.

Não! Não! Eu não quéééro! — ela balançava a cabeça com força, o rosto avermelhando, os olhinhos ficando marejados com rapidez.

Ela bateu a mão na borda do prato, jogando algumas tiras de panqueca no chão. O som seco do prato batendo contra a bandeja me fez respirar fundo, o coração acelerado.

— Hilary! — a voz escapou mais dura do que eu queria — Não faça isso.

Rosalie levantou o olhar do celular, sem dizer nada, mas o canto da boca se apertou. Bella também olhou, os olhos ligeiramente arregalados, mas permaneceu quieta.

Não quéééro! Hiwawy não qué! — ela insistiu, agora chutando a borda da bandeja por baixo, o corpinho rígido, o rosto rubro de raiva.

Helena sentada no cadeirote ao lado, a olhava com aquela expressão quase séria, o cenho franzido, como quem avalia, entende, e observa, os olhos de um azul translúcido se movendo entre mim e a irmã.

— Hili… come… — murmurou, num tom quase preocupado.

— Hilary, meu amor, você precisa comer um pouquinho. Só um pouco, tá? — insisti com calma.

Não! — ela gritou, chutando a bandeja com as perninhas. Algumas tiras de panqueca voaram, caindo no chão com um som seco.

Senti a paciência estalar por dentro.

— Hilary… — respirei, tentando não mostrar a raiva que fervia por trás dos dentes cerrados.

Mas ela não parava. Agora chorava alto, as lágrimas escorrendo pelas bochechas, a respiração curta, quase soluçando. A pequena boca se contorcendo em protesto puro, sem lógica.

— Hili… come… mamãe fez... — Helena balbuciou tão clara que doeu ouvir.

Mas Hilary não ouvia nada, o choro subindo, rouco, raivoso. O som ecoava na cozinha grande demais, fazendo minha pele arder. Bateu com as mãos na bandeja, fez o prato sacudir, quase cair. O som ecoou dentro de mim, doendo como se fosse um tapa.

E foi aí que veio.

O pensamento sujo, rápido, quase cruel: Igual ao Augustus! Igualzinho. Essa teimosia cega, esse querer tudo do jeito dela, como se o mundo tivesse obrigação de se dobrar…

O gosto amargo da lembrança me deu náusea. O rosto dele, tão jovem, tão bonito e tão mimado, lembrança de portas batendo, de longas discussões onde ele não levantava a voz, mas onde cada palavra dele era lei porque “era o que ele queria”. Lembrei da sensação de ficar sozinha dentro do próprio casamento, sendo sempre a que cedia.

O coração bateu forte, a respiração falhou.

Hilary jogou mais panqueca, o iogurte respingou na minha roupa.

E ali, por um segundo, perdi. A voz saiu mais alta, dura, quase fria.

— Hilary, CHEGA! — o grito ecoou alto, mais do que deveria, e as palavras saíram antes que eu pudesse puxá-las de volta — Eu já disse que vai comer! Eu não sou sua criada!

O ar na cozinha pareceu parar. Rosalie levantou as sobrancelhas, a reprovação era nítida no esplendor de seu rosto. Hilary me olhou assustada, o choro preso na garganta, os olhinhos arregalados, as lágrimas prontas. Helena também, os olhos azuis arregalados, o corpinho encolhendo como quem sentiu o corte da minha voz.

Mas em vez de recuar, os lábios de Hilary tremeram, as lágrimas caindo, grossas. Chorou ainda mais alto, quase se jogando para trás, as mãozinhas cerradas bateram mais forte contra o cadeirote.

NÃO! NÃO! NÃO QUÉÉÉRO! — a voz estridente ecoou pela cozinha, até mesmo Helena pareceu se assustar.

Helena esticou a mãozinha, a vozinha rouca, quase triste. Vi quando ela virou o rostinho para mim, como quem pedisse algo, talvez que eu parasse, que eu voltasse a ser a mãe que ela conhecia.

— Mamãe tá brava. — disse, como se fosse um aviso.

E foi ali que percebi que tinha mesmo passado do limite.

Eu me vi tremendo, as mãos suadas. E, pior do que tudo, me vi sentindo raiva. Raiva da minha filha. Raiva de mim mesma. Raiva de Augustus, tão distante, quase esquecido, mas que naquele instante parecia tão vivo dentro do sangue dela.

E se ela for assim? Se crescer achando que tudo precisa girar em torno dela?

É só uma criança, eu pensei, rebatendo. Ela não é ele.

Mas, por dentro, alguma coisa em mim gritava: E se for? E se ela tiver herdado isso dele?

Aquele pensamento me rasgou por dentro.

O medo virou veneno. Eu abri a boca para falar mais alguma coisa, mas o nó na garganta foi tão grande que não saiu nada. Hilary chorava alto agora, as mãos sujas de iogurte, o cabelo grudado na testa. Por um instante, a minha vontade era gritar com ela de novo. Falar que ela não podia, que ela não ia ter sempre tudo. Falar que eu não aceitava criar alguém como ele.

Mas respirei.

Uma, duas, três vezes; tão fundo que o peito chegou a doer. A culpa queimava como febre.

Helena ainda me olhava, olhos enormes, assustados, como se dissesse: Não faça.

E, no meio daquele caos, vi Bella dar um passo pra frente, mas parar. E vi Rosalie cruzar os braços, o queixo erguido, desaprovando cada milímetro do meu descontrole, mas sem dizer nada.

A vergonha queimou.

A voz saiu falha, mas mais firme:

— Hilary… — fui até ela, me abaixei, ficando na altura do olhar dela — Você tá brava? Pode ficar brava. Mas não vai jogar mais nada. Nem bater. E muito menos chutar.

Ela soluçava, a respiração descompassada.

Quéééro… — repetia, a palavra entrecortada de choro.

— Não vai ter. — falei, baixo, mas firme — Você pode chorar. Pode bater o pé. Mas não vai ter.

Os olhinhos castanhos ficaram confusos, o peito dela subindo e descendo rápido. Helena pousou a mãozinha na perna dela, devagar.

— Não chora, Hili… — disse, num tom que me cortou.

Hilary fungou, baixou o queixo, o corpo todo tremendo, ainda teimosa, mas parou de bater o pé no cadeirote. Eu apoiei a mão na bandeja, o coração martelando contra as costelas.

— A mamãe não é sua inimiga. — sussurrei, mais pra mim mesma do que pra ela — Hilary… — segurei de leve o bracinho dela, que estava quente — A mamãe se irritou. Mas eu estou aqui. Você não vai mandar em tudo, meu amor. Você precisa comer. Pode ficar brava. Pode chorar. Mas vai comer um pouco. Eu estou aqui. Mesmo quando você fica brava, eu fico.

Ela choramingou mais baixo, o corpinho ainda duro, os soluços ainda sacudindo os ombros, porém ficaram mais espaçados. Ela olhava para mim, ainda meio com medo, meio com raiva. Rosalie virou o rosto, suspirou, o olhar dizendo tudo: “Você perdeu a mão”. Bella mordeu o lábio, os braços cruzados, sem dizer nada, mas com os olhos cheios de compreensão.

Eu passei a mão nos cabelos da Hilary, molhados de suor.

— Eu também erro, filha. — falei, quase num sopro — Mas eu não vou deixar você mandar em tudo. Porque eu te amo.

Ela ficou quieta. O choro virou fungada, e ela encostou a testa na borda da bandeja, cansada da própria raiva. Helena, com aquela calma de quem parece muito mais velha, balbuciou:

— Hili é boa… É obediente e a mamãe ama. — deu um leve sorriso. E com aquele jeito impossível de tão precoce, tocou o bracinho da irmã — Come, Hili… A mamãe pode ficar triste. — disse, quase num sussurro.

Meu coração partiu e cicatrizou no mesmo segundo. Estendi o garfinho, peguei um pedacinho de panqueca, aproximei devagar.

— Um pedacinho só. Depois você pode beber água. — ofereci para Hilary.

Ela hesitou. Olhou para mim, para o garfo, para a Helena, que continuava com a mãozinha pousada no braço dela. E, quase contrariada, abriu a boca. Quando mastigou, vi o corpo dela relaxar, devagar. Ela fungou, o olhar ainda fechado, mas sem grito.

Ela mastigava devagar, os olhinhos ainda húmidos, evitando os meus. Ficou claro que ela estava cansada da própria raiva e talvez tão assustada quanto eu com o que tinha acabado de acontecer. Dei mais um pedacinho, esperando. Ela pegou, dessa vez sem protesto.

Só quando percebi que ela não ia gritar de novo, deixei o garfo na borda da bandeja. Passei a mão pelos cabelos dela, limpando o suor e os fios de seus cabelos grudados na testa. Depois olhei ao redor: os pequenos pedaços de panquecas espalhados, marcas do iogurte na madeira. Me abaixei mais, puxando um pano na ponta da mesa que eu deixava sempre por perto, comecei a limpar.

Soltei o ar, como se fosse a primeira vez que respirava em minutos. Ela não é ele, pensei de novo, quase como uma oração. Ela é só ela. Minha menina.

Fiquei ali, ajoelhada, respirando fundo, o corpo todo tremendo por dentro, sentindo o suor frio escorrer pelas costas. E, baixinho, pensei: Ela não é ele. Ela não é ele. Ela é só ela. E eu sou só eu.

Os joelhos doíam no chão frio da cozinha, porém o que mais doía vinha por dentro: a culpa que ainda queimava. A lembrança do meu grito, tão seco, tão impaciente, saindo quase como um eco de outra pessoa, mas no meio dela veio também a certeza: Eu não ia fugir. Mesmo falhando, mesmo me assustando com os fantasmas do passado, eu ficaria.

O silêncio que veio depois da birra soava tão pesado quanto o choro que o precedeu, como se o ar ao redor tivesse virado chumbo, tão pesado quanto as nuvens do céu. Hilary fungava, o rosto ainda manchado de lágrimas, exausta da própria fúria.

Quando ergui o rosto, vi Helena olhando fixo para mim, calada, ainda mantinha a mãozinha pousada na perna da irmã, como quem segura uma barreira. Ela tinha aquele jeito impossível: a testa franzida, os lábios húmidos, quase como se quisesse dizer algo. E mesmo tão pequena, suas palavras perfeitas saíram:

— Mamãe está triste… — a vozinha arrastada, mas firme.

A mãozinha dela bateu levinho nos meus cabelos, tentando me alcançar.

Um gesto tão simples, tão fora de hora, que fez meus olhos arderem.

Eu me forcei a respirar. Uma, duas vezes... Mas o peito ardia. O corpo inteiro latejava com aquela eletricidade bruta que vem depois da raiva.

A voz da Hilary ainda ecoava dentro da minha cabeça, aquela birra desmedida, a sensação esmagadora de impotência diante dela que pareceu cada vez mais difícil de controlar. Eu mal tive tempo de digerir a cena e já me via num impulso irrefreável. Apoiei as mãos no joelho, sentindo o calor húmido da pele e do suor. Deixei o pano de lado. As pernas formigavam do tempo ajoelhada. Me ergui devagar, o coração batendo tão alto que parecia vibrar nas costelas. Meu rosto ainda ardia, o peito apertado numa mistura de frustração, cansaço e uma tristeza que queria se afogar com raiva. Meus olhos marejados buscavam um ponto fixo, mas tudo parecia oscilar como um espelho distorcido.

Rosalie cruzou os braços, a testa levemente franzida, o olhar afiado como uma lâmina. A boca se curvou num quase desprezo contido.

— Você precisa aprender a não perder a cabeça, Amberli. — disse ela, seca, quase fria — Birras acontecem. É o que crianças fazem.

A frase caiu no ar como uma lâmina, cortante e fria, as palavras me cortaram, ferindo mais que o esperado, não pelo tom, mas porque, no fundo, eu sabia que ela tinha razão. O sangue subiu ao rosto, e me vi sem defesas. A vergonha queimava, a voz seca de Rose parecia corroer qualquer argumento, como se diminuísse minha luta diária à simples “falta de firmeza” e misturou-se com raiva: dela, de mim, do passado todo que eu trazia às costas.

Bella, que estava mais próxima, percebeu a faísca quase agressiva no ar. Ajeitou o cabelo atrás da orelha, a preocupação era clara, ela tentou mudar o clima.

— Rose… — chamou, com a voz suave e baixa, num sussurro quase de alerta — Acredito que a Amberli está fazendo o melhor que pode, você sabe o quanto é difícil... Talvez só precise de um pouco de apoio. — ela deu um passo na minha direção. Depois olhou pra mim — Amberli, não foi fácil, a gente viu. Você segurou mais do que pensa.

Eu balancei a cabeça, sentindo o nó na garganta engrossar.

— Eu… — comecei, mas as palavras empacaram.

A raiva ainda rodopiava por dentro, misturada com culpa, medo, lembrança. “Você precisa aprender a não perder a cabeça”.

Eu sei que Rosalie não está errada em parte, mas a maneira como falava fazia tudo parecer tão simples, tão trivial. Como se fosse fácil. Como se eu não passasse noites lembrando que a mãe não pode vacilar, que a mãe não pode cansar. Como se ignorasse noites mal dormidas, o medo constante que me esforço para ainda não ter, a pressão de criar sozinha. Como se eu não me lembrasse de cada vez que cedi no casamento, cada vez que engoli o que sentia só pra manter a paz, as cicatrizes invisíveis que carrego.

E agora, com a minha filha… Com a minha amada filha... eu explodi.

A boca ficou seca. Dou alguns passos para trás, sentindo o calor subindo pelo meu rosto, uma mistura de vergonha e raiva. Fecho os olhos por um instante, tentando puxar o ar, tentando encontrar um espaço dentro de mim onde essa tensão possa se dissipar. Respiro fundo, lentamente, tentando controlar o turbilhão de pensamentos que me invadem: a lembrança do Augustus, como ele fazia suas vontades virarem lei só porque podia, só porque os pais sempre cederam. E agora minha filha, tão pequena, mas com um temperamento que me lembra isso, esse egoísmo cru.

Não, não é só birra. Não é só um capricho. É medo. É frustração. É tudo que eu tenho para dar, embora às vezes pareça tão pouco.

Abro os olhos devagar, com o peito ainda apertado, olhei de novo pras duas meninas: Hilary, ainda fungando, o queixo sujo de iogurte; Helena, tão quieta, me observando com aquela lucidez quase impossível.

O calor ao redor dos olhos subiu de novo. Não queria chorar na frente delas. Nem na frente de Rosalie, que me olhava como se dissesse: Controle-se! Seja melhor!

— Eu… — forcei as palavras — Eu vou… Preciso de um minuto.

Rosalie ergueu uma sobrancelha, mas não disse nada. Bella fez um gesto discreto com a cabeça, como quem diz: “Vai, vai respirar”.

Virei as costas.

O chão guinchou sob meus pés. Caminhei com rapidez. As paredes da casa pareciam mais apertadas do que nunca, alcancei a escada. As pernas ainda tremiam, o corpo suado, o peito queimando. Subi degrau por degrau, cada passo como se fosse arrastar um peso preso às costas. Entrei no quarto e fechei a porta devagar, quase sem deixar o trinco bater. O silêncio ali dentro era denso, quase vivo, e o eco do que acabara de acontecer ainda martelava nos meus ouvidos. A respiração saía áspera, entrecortada. Sentei na beira da cama, apoiei os cotovelos nos joelhos e enterrei o rosto nas mãos.

Eu gritei nela.

O pensamento veio, cru, sem dó.

Eu comparei ela com ele.

Com Augustus.

E doeu.

Porque, mesmo sem nunca ter levantado a voz, ele sempre fez questão de dobrar todo mundo à vontade dele. Ele não gritava. Ele convencia. Na doçura, na chantagem emocional, na birra de homem crescido que nunca ouviu um não. E ali estava eu, olhando pra minha filha de quase dois anos… e enxergando ele. O medo corroeu por dentro: E se ela for assim? O que vou fazer se for?

O calor do quarto parecia me sufocar.

Tirei a presilha do cabelo, prendi de novo, como se isso ajudasse a organizar os pensamentos.

Fechei os olhos.

A imagem dela me veio: Hilary, chorando, tão parecida comigo em traços… mas com algo que pela primeira vez, lembrava ele. E Helena, quieta, segurando o braço da irmã, como se soubesse que estava tudo por um fio. Meus ombros começaram a tremer. As mãos, ainda suadas, pousadas nas coxas, ficaram vermelhas de tanto apertar.

Eu não sou ele.

Repeti mentalmente.

Ela não é ele.

Mas naquele instante, confesso: não soava tão verdadeiro.

Senti a garganta arder, os olhos queimarem. Quis chorar, mas as lágrimas não vieram, ficaram presas, duras, como um grito não dado. Lembrei do olhar da Rosalie: aquela mistura de julgamento e preocupação. O olhar da Bella: contido, compreensivo, mas que também dizia: “Eu sei como é lutar com a própria sombra”.

Deitei as costas na beira da cama, encostei a cabeça no colchão. Fechei os olhos, respirando fundo, tentando controlar o coração disparado. E, no meio do calor, da vergonha e do medo, pensei na Hilary: que ainda estava lá embaixo, fungando, talvez cansada, talvez arrependida, talvez só confusa. E na Helena, que me viu falhar, e entendeu. Minha mão deslizou pela coxa, apertando o tecido da calça.

Senti o sangue pulsar na pele, quente, pesado.

Eu vou levantar. Vou descer. Vou ficar. Mesmo com medo. Mesmo com vergonha.

Porque fugir não era opção.

E, por mais que eu não fosse perfeita, eu ainda era a mãe delas.

Fiquei ali parada por um tempo que não sei medir. O quarto silencioso, o cheiro do lençol limpo, a poeira quase invisível dançando na luz cinza que entrava pela janela. O coração aos poucos desacelerou, mas não voltou ao normal.

Porque nada ficava realmente normal depois de uma explosão daquelas.

Caminhei até o banheiro, passei a mão pelos cabelos, ajeitei a presilha. Respirei fundo. O peito doía, mas menos. A raiva passou, restou só a exaustão. Ergui o rosto. Olhei no espelho da parede mais uma vez, ele refletia uma mulher de olhos com veias dilatadas, com alguns fios de cabelo despenteado, as olheiras marcadas, o semblante cansado, mas de pé, com uma força nova queimando por dentro. E isso, naquele momento, bastava.

— Eu não sou perfeita, mas elas têm a mim. E isso já basta. — sussurro para mim mesma.

E é isso que vai me manter de pé, por mais difícil que seja.

Desci os primeiros degraus devagar, sentindo o chão ranger sob os pés. A cada passo, o estômago se apertava: Como vou encarar as meninas?

E Rosalie.

E Bella, que sempre entende mais do que demonstra.

Quando cheguei ao último degrau, vi a cena: Hilary ainda no cadeirote, mais calma, os olhos inchados de chorar, o queixo apoiado na bandeja, e Helena, no colo da Bella, a cabecinha encostada no peito dela, os dedinhos brincando com a gola da blusa da tia. Isabella murmurava algo, me era inaudível, enquanto passava a mão nas costas de Helena, num gesto que partiu meu peito em dois, porque eu sabia que Helena tinha sentido tudo.

Não só visto, mas sentido.

Rosalie estava de pé, escorada na bancada da cozinha, braços cruzados, postura elegante e firme como sempre. Os olhos fixos em mim assim que desci.

O ar pareceu pesar mais.

Hilary me olhou, rápida, o olhar meio assustado, meio curioso. Helena levantou o rosto devagar, os olhos cristalinos, mais atentos do que deviam ser pra idade dela. Dei dois passos, sentindo o calor subir ao rosto. Rosalie descruzou os braços só para ajeitar o cabelo atrás da orelha, o olhar ainda fixo.

— Resolveu se recompor? — disse, sem ironia, mas num tom firme, quase cortante.

O comentário me doeu, mas não era mentira. Engoli em seco, tentando manter a voz estável.

— Resolvi, Rose. — respondi, a voz rouca, falhada, mas sem fugir do olhar dela.

Ela assentiu, virou o rosto de leve como quem diz “É o mínimo”. Bella manteve Helena no colo, a mão pequena ainda repousada em seu ombro.

— Ela ficou quietinha o tempo todo… — Isabella disse baixo, a voz delicada, acariciando os cachos de Helena — Ficou preocupada.

Helena virou o rostinho para mim, a boca tremendo num quase choro que não chegou a sair.

— Mamãe está bem? — perguntou, num tom arrastado, mas tão claro que meu coração estalou por dentro.

Fui até elas, ajoelhando ao lado. O chão gelado na pele quente me lembrou que eu estava viva.

— Mamãe tá melhor, meu amor. — falei, a voz ainda fraca — Foi só um momento ruim.

Helena estendeu a mãozinha, encostando devagar na minha bochecha. O toque foi tão doce, tão cheio de algo maior do que palavras, que meus olhos marejaram de novo. Hilary ficou quieta, observando, o rosto ainda inchado, a boquinha numa linha dura. Mas não desviou o olhar.

— Ela entende, Amberli. — Isabella disse, com aquele jeito calmo, olhando para Helena, mas falando comigo também — Mesmo sendo pequena.

Passei a mão pelos cabelos da Helena, sentindo o calor do couro cabeludo, a respiração acelerada dela.

— Obrigada por cuidar da sua irmã. — sussurrei, vi o brilho orgulhoso nos olhos dela.

Rosalie se mexeu, as botas marcando um passo curto no chão.

— Vocês precisam entender que isso vai acontecer outras vezes. — disse, firme, olhando pra mim, depois para Isabella — Crianças testam limites. Cabe a nós segurar. E, Amberli… — a voz dela endureceu só um pouco mais — Você vai precisar aprender a não ceder ao passado.

As palavras bateram como um tapa, mas não foram cruéis, foram quase um alerta. E, por mais que doessem, reconheci ali uma preocupação real, do jeito dela.

— Eu sei, Rose. — respondi, com dificuldade — Eu tô tentando.

Ela só assentiu, breve, e voltou a apoiar as mãos no balcão, olhando para a janela, deixando claro que não ia se prolongar. Bella olhou pra mim com ternura.

— Foi difícil, mas você voltou. — disse, simples — Isso conta.

Peguei o copo rosa e fui até o balcão, pondo uma certa quantidade de água fresca. Retornei à frente de Hilary e ofereci para ela, que aceitou sem olhar nos meus olhos, ainda resistente no restinho da birra. Eu conhecia esse silêncio: não era rejeição, era só a forma que ela encontrava de processar a frustração.

Helena escorregou do colo da Isabella, as perninhas meio trêmulas. Veio até mim, estirando os bracinhos, me pedindo colo. A aceitei de imediato, ela me abraçou pelo pescoço, o rostinho quente encostando na minha pele. Fiquei ali, ajoelhada, com ela no colo, sentindo o cheiro doce do cabelo dela, o coração ainda pesado, mas batendo mais calmo. Hilary, agora mais calma e quietinha no cadeirote, o queixo sujo de iogurte, balançou as perninhas, os olhos agora menos fechados de raiva, mais cansados. Havia ali um restinho de frustração, mas também a expectativa: “A mamãe ainda tá brava?”

Hesitou um segundo, depois disse baixinho:

Mamãe… mamãe fica?

As palavras dela vieram como quem pede desculpas, mas sem admitir. Assenti.

— Mamãe ficou nervosa. — Falei olhando pra Hilary, sem fugir do olhar dela — Mas a mamãe ama você. Mesmo quando fica nervosa. — respondi, me levantando com Helena no colo — Mamãe tá aqui. E vai ficar.

Ela não disse nada. Mas balançou a cabeça, devagar. E, com a boca ainda cheia, esticou a mão pequena até encostar na minha. Foi tão rápido que talvez ninguém visse, mas eu senti. Estendi minha mão até a sua e apertei de leve aqueles dedinhos gorduchos, sujos de iogurte e frutas.

Sentei-me na cadeira ao lado, Helena ainda grudada em mim, a respiração dela encostada no meu pescoço. Hilary olhou de relance pra Rosalie, depois para mim, e, quase a contragosto, pegou um pedacinho da panqueca fria, levando à boca. Helena, satisfeita, bateu uma palma curtinha e sorriu. Isabella suspirou, passando a mão na testa da Hilary, sem dizer nada, mas dizendo tudo com o gesto.

E, por dentro, ainda que o medo insistisse, repeti como uma oração: Eu não sou ele. Ela não é ele. Nós somos só nós.

Fiquei sentada ali, Helena encaixada no meu colo, as perninhas dela quentinhas apoiadas na minha perna. O silêncio que sobrou não era o mesmo de antes: não era pesado. Era um silêncio de depois, um silêncio de cansaço, mas também de reencontro.

Hilary, agora menos envergonhada, pegava cada pedacinho de panqueca e levava à boca, mastigando devagar.

De vez em quando levantava o olhar pra mim, buscando aprovação, quase como quem quer perguntar: a mamãe ainda tá aqui?

Eu respondia só com o olhar: Tô.

Helena repousou a cabecinha no meu ombro. O calor dela foi quebrando, pouco a pouco, o gelo que ainda me apertava o peito. Rosalie ficou quieta, de braços cruzados, encostada na pedra. O semblante dela era sério, mas a rigidez foi amolecendo: os ombros cederam um pouco, como quem reconhece que, apesar de tudo, eu não fugi. Bella puxou sua cadeira mais para o lado da Hilary, ajeitando os cabelinhos que grudava na testa suada da minha filha. Ela não disse nada, só ficou ali e isso bastava.

Eu encostei as costas na cadeira, afundei o rosto nos cabelos da Helena, inalando aquele cheiro infantil que não se explica, meio adocicado, meio morno. A respiração dela era leve, quase compassada com a minha.

Por um instante, pensei no Augustus, na teimosia dele, na doçura que sempre vinha carregada de veneno, na forma como me fazia sentir pequena só por querer algo diferente.

A lembrança veio como uma brisa, mas não parou.

Passou.

E, no espaço que ficou, outro nome surgiu, mais calmo, quase como um sussurro: Cole.

O nome dele veio sem dor, sem medo. Veio como uma âncora, um ponto calmo. Pensei no jeito que ele olhava, não esperando que eu fosse perfeita, não exigindo que eu fosse outra. E, sem querer, a mão que segurava Helena apertou de leve, como se pedisse desculpa por ter deixado o passado falar mais alto. Hilary mastigava concentrada, as bochechas cheias, o queixo ainda um pouco vermelho de chorar. Ela terminou tudo, até o último pedacinho. Ergueu a cabeça, me olhou, meio cansada, meio vitoriosa:

Acabô. — disse, a voz rouca de quem chorou.

Sorri, um puxar de lábios pequeno, mas sincero.

— Mamãe viu. — falei, deixando evidente o contentamento na minha voz — Você comeu tudo. Obrigada, meu amor.

O brilho de orgulho nos olhos dela foi tão puro, tão simples, que o medo sumiu, evaporou.

Helena mexeu o corpo no meu colo, apontou o dedinho pra irmã.

— Hili foi boa… Obediente! — disse, com aquele jeito de bebê que fala como gente grande.

O riso escapou dos meus lábios, pequeno, quase cansado, mas de verdade. As crianças não guardam as dores como a gente. Elas sentem, choram, se revoltam… mas logo deixam espaço para a próxima coisa boa.

A cozinha, antes tensa, foi se enchendo de sons pequenos: Hilary tamborilando os dedos na bandeja, Helena brincando com a gola da minha blusa, bem perto de onde um respingo de iogurte estava; Bella soltando um suspiro suave, Rosalie descruzando os braços e mexendo distraída numa toalha dobrada.

Meu peito ainda doía, mas já não queimava.

E, no meio desse quase silêncio, pensei em Cole de novo.

No jeito calado dele, no olhar que fica firme mesmo quando eu falo minhas inseguranças. Pensei na ideia de contar para ele sobre o que aconteceu, não como quem busca solução, mas só para ser escutada. Um calor leve subiu pelo rosto, como quem lembra de algo bom, íntimo. Talvez eu conte, pensei. Talvez seja hora de deixar alguém entrar um pouco mais.

A respiração ficou mais lenta.

Hilary encostou o copo na mesa, olhou pra mim, o rosto manchado ainda das lágrimas, mas os olhos já curiosos de novo.

Mamãe… copo azul tá limpo já?

Eu respirei fundo, passei a mão nos cabelos da Helena, com aquele toque que diz “tô aqui”.

— Ainda não, filha. Mas logo vai estar. Até lá, beba nesse.

Ela fez um som baixo, quase uma aceitação, e voltou a segurar o copo rosa.

Quero colo, mamãe. — Hilary pediu.

Balancei a cabeça, sorrindo.

— Já, já. — respondi, olhando pra Bella, que deu um meio sorriso cúmplice.

Rosalie me olhou rápido, desviou, mas eu percebi: no olhar dela não tinha mais só desaprovação. Tinha algo parecido com respeito. Helena, cansada, soltou um bocejo rouco, e mudou de posição no meu colo, levantando o rostinho, os olhinhos ainda marejados, mas calmos.

— Mamãe… quero um beijo… — pediu, a voz rouca, quase um sussurro.

O peito apertou de ternura.

Inclinei o rosto e dei um beijo demorado na bochecha dela, sentindo o calor da pele, o cheiro único de sua pele. Ela sorriu pequeno, meio tímida, e recostou de novo no meu ombro, satisfeita como quem ganha abrigo. Hilary, ainda quieta no cadeirote, me observou por uns segundos.

O choro tinha secado, mas ela segurava firme na beirada da bandeja, como se buscasse coragem. Então, baixinho, quase com medo, murmurou:

Eu tamém quero, mamãe… — Hilary estendeu o bracinho pedindo, a voz saiu falhada, mas tão sincera que o coração quase escorregou.

Estendi o braço, num convite.

— Vem cá, meu amor.

Ela hesitou, mas com a ajuda de Bella, escorregou do cadeirote com as perninhas meio duras, e veio andando devagar, a cabecinha baixa. Quando chegou perto, puxei ela devagar pro meu outro lado, o corpinho quente encostou no meu, ela apoiou a testa no meu peito. Passei uma mão no cabelo da Hilary e beijei o topo da cabeça, deixando os lábios parados ali por um instante, a outra mão segurava firme as costas da Helena, que respirava rápido, quase como quem sente que algo importante está acontecendo. O cheiro das duas misturado, o calor, o peso macio dos corpos pequenos… Tudo isso dissolveu o resto da raiva. O coração, antes disparado, foi batendo mais lento, como se encontrasse de novo o compasso.

Hilary soltou um suspiro, se aninhou mais perto.

Mamãe fica? — repetiu, baixinho.

— Fico, minha alegria. — respondi, a voz quase falhando — Sempre.

Bella, sentada bem perto, soltou um suspiro que parecia de alívio, passando a mão no braço da Hilary num gesto rápido, mas cheio de carinho. Helena levantou o rostinho, encostou a testa na da irmã, murmurando quase num cantar:

— Hili boa…

Hilary encostou a cabecinha na dela, sem falar, mas o gesto dizia tudo. Eu fechei os olhos por um instante, sentindo as duas tão perto que quase não dava para saber onde terminava uma e começava a outra. Rosalie, mais afastada, olhava a cena em silêncio.

O olhar dela continuava sério, mas havia algo diferente: um brilho pequeno, contido, como quem, no fundo, entende que amar também é se perder de vez em quando e voltar. O calor no peito não era mais raiva, nem medo. Era só amor.

Cansado, imperfeito, mas inteiro.

Helena balançou devagar o corpo, encostando mais o rosto na minha clavícula. Hilary mexeu os dedinhos, brincando com a costura da minha blusa. Isabella passou o braço atrás das meninas, quase formando um círculo ao nosso redor, o toque gelado é tão leve que parecia só intenção. Naquele instante, percebi que o que tinha acontecido não sumia, mas também não precisava nos definir.

Elas ainda eram minhas. E eu, mesmo cansada, ainda era delas.

E, por um instante, senti o nome dele ecoar por dentro, suave, quente, bom: Cole.

Primeiro, só a lembrança do som grave da voz dele, sempre num tom meio rouco que me fazia prestar atenção mesmo quando eu não queria. Depois, o jeito que ele olhava para as meninas, principalmente para Hilary, com uma ternura quase orgulhosa, como quem enxerga algo que nem eu mesma vejo. Senti o peito apertar. Não de angústia… mas de algo que eu não sabia nomear, talvez fosse vontade, ou medo dessa vontade. O rosto dele surgiu tão claro na memória que quase parecia que ele estava ali, encostado no batente da porta, segurando aquele jeito contido de sorrir. Como se, mesmo sem estar ali, ele fosse um lembrete silencioso de que eu podia ser forte, sem deixar de ser doce.

Sacudi a cabeça, voltando os olhos para Hilary, os olhos vermelhos do choro ainda húmidos, mas já mais tranquilos, seu riso quebrou o silêncio, ela apertou o nariz da irmã, rindo baixinho.

Helena riu de volta, aquele som de bebê que parece mais luz do que som.

E o ambiente, tão pesado antes, voltou a ser só cozinha, só casa: lugar de migalhas no chão, cheiro de café, e crianças que, apesar de tudo, sabiam perdoar mais rápido que qualquer adulto. Eu as abracei mais forte, sentindo o calor dos corpos pequenos, o cheiro doce delas misturado ao leve amargor do café frio na mesa e deixei a tensão escorrer pelos ombros, ficando só com o que importava. Deixei os pensamentos ruins se afastarem.

Hilary começou a balançar as perninhas, distraída, voltando a ser só criança, como se nada tivesse acontecido. Helena, quietinha, brincava com a costura da minha blusa, os dedinhos tão pequenos, mas tão certos do que queriam tocar. O calor no peito foi trocando de forma: de tensão, pra cansaço… e então pra algo mais suave, quase doce. Levantei devagar o olhar, até a janela grande da cozinha. Lá fora, o céu de Forks ainda era de um cinza pesado, quase de chumbo, mas havia uma claridade por trás, como se o sol tentasse, mesmo sem vencer.

E foi aí que o nome dele veio, suave, na mente, por outra vez: Cole.

Veio sem esforço, sem dor, como quem chega e fica em silêncio ao meu lado, calmo, quente, ficando quieto num canto bom do peito. Por um instante, me peguei pensando no que ele diria se tivesse visto. Talvez não dissesse nada, só ficasse ali, com aquele jeito dele, me dando espaço pra respirar. Talvez olhasse pra Hilary, pra Helena, e depois pra mim, sem pressa. Ele ia entender, pensei. Não ia achar que foi feio, nem que eu devia fingir que não sinto nada. Ele entenderia esses momentos, pensei, sem querer pensar.

Ele não se assustaria com o feio, com o difícil. Ele ficaria.

E só de pensar isso, me senti fraca e forte ao mesmo tempo. Porque eu sabia que não podia me apoiar demais nessa ideia, mas também não conseguia expulsá-la. Era só um pensamento solto, ecoando dentro de mim, no silêncio da manhã húmida de Forks. E, por mais que eu tentasse ignorar, havia algo naquele pensamento que aquecia o que antes estava frio. Deixei o nome dele ecoar de novo, como quem gosta de sentir o som por dentro: Cole.

O peito aqueceu, uma pontada de saudade estranha, não só da presença física, mas da sensação que ele traz: de que posso errar e continuar sendo vista como algo bom.

Respirei fundo.

O cheiro das meninas ainda grudado na pele, a risada da Hilary ficando mais alta, Helena falando com um entusiasmo de alegria. Isabella olhou para mim, um sorriso leve nos lábios, como se adivinhasse que eu tinha ido longe nos pensamentos e não me julgasse por isso. Rosalie virou o rosto pra janela, cruzou de novo os braços, mas não disse nada.

E no silêncio que ficou, percebi: por mais que a manhã tivesse entrado em conflito, havia espaço para outras coisas crescerem depois. As meninas, ali, não precisavam que eu fosse perfeita. Precisavam que eu ficasse, que eu as visse, que eu as abraçasse mesmo depois de perder a calma.

E talvez, só talvez, eu também precisasse permitir que alguém me visse assim: falha, cansada, mas inteira. E o nome dele voltou, como um sopro quente no meio do frio: Cole. Fechei os olhos por um instante, mantendo o rosto inclinado em direção à janela. O barulho das risadas infantis voltou a preencher tudo.

Fiquei ali, com o olhar perdido naquela faixa mais clara do céu, onde o sol tentava romper o cinza. O nome dele ainda rodava por dentro, calmo, quase como uma canção baixa: Cole. O som do riso das meninas bem perto, misturado ao roçar das perninhas da Hilary na cadeira, ao respirar mais pesado da Helena, que já bocejava constantemente no meu colo. Foi então que senti, um toque gelado de leve, quase tímido, no meu braço.

Virei o rosto e encontrei o olhar da Bella. Ela sorriu pequeno, com aquele jeito que mistura força e delicadeza.

— Amberli… — disse, a voz tão baixa que parecia parte do ar — Tá tudo bem?

Demorei um instante pra responder, porque ainda tinha o gosto do nome dele na boca, mesmo sem dizer em voz alta.

Balancei a cabeça, devagar.

— Tá… tá melhor. — falei, num sopro.

Ela não insistiu. O jeito dela nunca foi arrancar as coisas, mas dar espaço pra que saiam. Ela deslizou a mão até o ombro da Helena, que agora esfregava o olhinho.

— Ela está ficando com sono. — comentou, quase como um convite pra eu voltar a relaxar naquele instante.

Assenti, ajeitando Helena no colo. Senti o corpinho dela mais pesado, o calor adormecido, a respiração ficando lenta. Isabella me olhou de novo, os olhos cor de mel calmos, cheios de algo que eu não sabia nomear, mas que lembrava compreensão.

— Você foi muito corajosa agora há pouco. — disse, num tom firme, sem exagero.

As palavras me pegaram desprevenida. A vergonha antiga tentou responder que não, que eu só tinha errado… Mas calei a voz interna, ficando só com a dela.

— Obrigada, Bella. — murmurei, a voz embargada.

Hilary, balançava os pezinhos no ar, distraída, tentando mexer numa colher na ponta da mesa. De vez em quando me olhava, meio sem jeito, como quem testa se a mãe voltou mesmo. Bella passou os dedos devagar nos cabelos bagunçados da Hilary, tirando um fio que grudara na testa suada.

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— E você, mocinha, comeu tudo… — disse, sorrindo.

Foi bom! — Hilary inflou o peito, satisfeita.

O riso saiu sem querer da minha garganta, rouco, mas verdadeiro.

— Nós vimos, meu amor. — sorri para ela, mas a culpa ainda queimava por dentro, por de trás dos olhos.

Bella ajeitou as xícaras vazias na mesa, depois voltou a me olhar.

— Quando quiser conversar… — disse, sem terminar a frase. O tom bastava.

— Eu sei. — assenti, com gratidão.

Por um instante, entre o calor do colo da Helena, o barulhinho do talher na mão da Hilary e o olhar firme, mas gentil, da Bella… O peso no peito pareceu menos. E mesmo que o nome dele, Cole, não tenha saído em voz alta, continuou ali, flutuando suave, como um lembrete bom de que nem todo homem que espera algo de mim quer me dobrar ou me calar. Isabella desviou o olhar para a janela, acompanhando o meu.

— Dá a impressão de que o sol vai tentar sair. — comentou, num quase sussurro, como se falasse tanto do céu quanto de mim.

E, pela primeira vez naquele dia, eu quis acreditar que sim. E mesmo sabendo que as birras viriam de novo, me senti mais firme. Porque não bastava amar, às vezes, era preciso também segurar firme. E depois, quando tudo se acalmava, mostrar de novo que o amor estava ali, inteiro. E que, apesar do medo, da raiva e das lembranças, o amor ainda cabia. Talvez fosse isso mesmo, ser mãe. Talvez fosse isso, ser cuidada por outras mulheres, mesmo tão diferentes de mim, mostrando que eu não estava mais tão sozinha.

E era isso que fazia tudo valer a pena.

Quando tudo se acalmou, lavei as mãos na pia, sentindo a água gelada correr pelos dedos, como se quisesse limpar não só o iogurte, mas também a vergonha. Helena, mais tranquila, se permitiu dormir, deixei que descansasse no sofá. Hilary me observava, séria, mas quando percebia que eu olhava, sorria como se quisesse garantir que ainda estávamos bem e voltava a brincar com algumas coisinhas suas no piso de madeira. Fiquei ali parada, apoiada na pia, o peito pesado. E pensei no quanto eu precisava falar. Antes que isso cresça e me engula.

Saí da sala devagar, indo para o deck. Ao longe, pude ver Esme se aproximar, algumas pazinhas de jardinagem estavam em suas mãos e ela vestia um avental próprio para isso. Ela levantara o olhar para mim, e bastou o jeito como Esme franziu levemente a testa para que eu apressasse meus passos para os degraus que me direcionariam para mais próximo dela, as palavras queriam escapar antes mesmo que nós estivéssemos próximas.

Esme não quis esperar por mim. Antes que fosse possível, ela já tinha surgido como um vapor nos degraus abaixo.

Me assustei com sua presença inusitada, porém meus lábios se apressaram para despejar aos seus ouvidos.

— Eu… eu perdi a paciência com a Hilary. — minha voz saiu baixa, quase trêmula — Eu gritei. Alto. Eu… não queria. Mas saiu. — as palavras ecoaram no ar gelado, pesadas.

Esme, com aquela doçura cansada de quem já viu muito, guardou algumas daquelas pazinhas de suas mãos no bolso menos ocupado do avental.

— Quer sentar, querida? — disse ela, num tom quase maternal que sempre me desmontava.

Balancei a cabeça que não, mas acompanhei seus passos até a cadeira mais próxima e me sentei mesmo assim.

— Eu… — comecei, olhando para as próprias mãos — Eu me vi ficando com raiva dela, de verdade. E foi pior porque… eu pensei nele. — as palavras saíram duras, me remoí de culpa — No Augustus. Pensei que ela parecia com ele. A mesma teimosia… o mesmo jeito de bater naquilo que quer, até cansar todo mundo. E me odiei por isso, porque não quero que minha filha seja assim... — minha voz falhou. O ar doía para entrar.

— Amberli… — disse ela, devagar, como se pedisse para eu respirar — Você teve um momento difícil. Isso não faz de você uma mãe ruim.

— Mas eu gritei. — repeti, sentindo a garganta arder — Eu sempre jurei que não faria isso. Eu não quero que ela lembre da mãe dela assim… fria, impaciente.

— Filha, você não é fria. Se fosse, não estaria tão abalada agora. — Esme esticou a mão e tocou meu braço. A voz dela era calma, firme, mas cheia de ternura — Crianças pequenas testam limites. Elas precisam que a gente segure firme, mesmo quando isso dói. E às vezes nós erramos. É parte de sermos humanos.

Senti os olhos queimarem.

Não chorei, mas foi por pouco.

Ouvimos passos surgirem dos degraus do deck acima, e por não serem saltos foi mais fácil supor de quem seriam.

— O que importa não é só o que você fez naquele segundo, Amberli… é o que você faz depois. Você voltou, explicou, ficou. Ela viu isso também. — Bella se aproximou, completando com aquele jeito mais contido.

— Ela vai lembrar? — perguntei, quase num sussurro — Desse momento?

— Talvez. — disse Bella, sincera — Mas também vai lembrar do que veio depois. Que você ficou. Que você pediu desculpas, mesmo que sem palavras e que ela foi desculpada. Crianças sentem isso.

Fechei os olhos por um instante, deixando o silêncio preencher o peito. A vergonha não sumiu, mas perdeu força. Esme apertou minha mão, as pontas dos dedos frias da pele vampírica, mas o gesto tão quente que quase esqueci disso.

— Amar também é falhar de vez em quando. — Esme disse, olhando nos meus olhos — E depois ter coragem de reparar. Isso é ser mãe, Amberli.

Fiquei quieta, só respirando, ouvi os ruídos pequenos da casa. Logo Rosalie surgiu ali também, os cabelos loiros voando para trás pela força do vento.

— Eu só queria conseguir ser mais calma. — confessei — Não perder a paciência tão fácil.

— Calma não é algo que nasce pronto. É algo que a gente constrói, dia a dia. E ninguém constrói sozinha. — Bella apoiou a mão no queixo, o olhar brilhando, Esme concordou com ela.

Rosalie bufou, desviando o olhar pro lado, mas disse num tom quase impaciente.

— E não se culpe tanto. Se fosse fácil, qualquer um faria.

— Sabe o que me assusta? — falei, sem pensar muito — É que eu vi nela… um pouco do pai. — insisti.

Bella se inclinou um pouco, quase sorrindo.

— E você não é ele. Ela também não é. — ela disse, usando as mesmas palavras que eu tinha repetido para mim mesma minutos antes — Vocês são só vocês. Isso já basta.

Rosalie ergueu o rosto, e por um instante os olhos dela ficaram num tom de amarelo estranho, frios, como gelo fino.

— Então você mostra que ela também pode ter a parte boa de você. — disse, rápido — Antes que seja tarde.

— Crianças não são cópias. São sementes. Crescem conforme quem cuida. — Bella disse, suave, mas firme.

As palavras dela vieram mornas, quase como um cobertor no peito.

E eu só consegui assentir.

Me permiti respirar mais fundo. O peito doía um pouco menos. Suspirei. Pedir ajuda também é um ato de coragem...

Elas permaneceram mais um curto tempo ao meu lado, mais para terem certeza de que eu não teria um declínio, e quando silenciosamente tiveram certeza de que eu ficaria bem, elas entraram para dentro da casa.

E eu fiquei.

O sol não venceu as nuvens pesadas como chumbo. Ouvi pouco a pouco o som dos trovões darem indícios do que estava por vir. Eu bem que não acreditei que o sol conseguiria sair, pensei em lamento, lembrando-me do quase sussurro de Bella.