Sempre ao seu Lado
48 𝟏𝟓 𝐝𝐞 𝐍𝐨𝐯𝐞𝐦𝐛𝐫𝐨 ➶
Notas iniciais

Sempre ao Seu Lado
Capítulo 44
As horas pós-almoço avançavam. E agora estou sob o alpendre dos fundos, com os pés cobertos com meias grossas revestidas por uma bota de trilha ofertada por Esme. A chuva caía num ritmo preguiçoso, dentro da casa, Hilary e Helena dormiam, um raro intervalo simultâneo de um silêncio que me permitia apenas, existir. Minhas mãos estavam abrigadas dentro dos bolsos do casaco, a mão direita envolvia o celular com força, e tive vontade de vasculhar minha galeria de fotos. Tirei minha mão daquele refúgio quentinho, expondo ao frio e acessei as fotos. Havia o meu último registro com a minha barriga enorme cheia de hematomas, havia fotos e vídeos das minhas filhas. Em algumas das filmagens eu ativei o som da reprodução, eram registros que eu não havia me dado a liberdade de assistir antes, e acabei descobrindo que haviam sido registrados por Rosalie, a voz que mais prevalecia de iniciativa da grande maioria, era a dela.
Ouvi o som suave da abertura da porta, um perfume gostoso no ar e saltos fazendo batidinhas suaves na madeira como se fosse a introdução de uma música animada. Olhei para a minha direita, bloqueando o celular e guardando-o dentro do bolso do casaco, vendo Alice, era como se o ar carregasse seu perfume antes mesmo de sua silhueta, ela se aproximava saltitante, com aquele olhar brilhante que me fazia suspeitar que estava tramando algo.
— Amberli, posso falar com você um minutinho? Posso? — ela já estava se sentando ao meu lado antes mesmo que eu respondesse.
Seus olhos dourados percorreram meu rosto, depois desceram para o meu cabelo. Fiz um movimento instintivo de prender uma mecha atrás da orelha, seu olhar acabou por me deixar constrangida.
— Você está linda. — ela disse, sincera — Mas... posso te fazer uma proposta? É sobre... seu cabelo.
Levei a mão ao topo da cabeça, meio sem graça. Meu long bob já não era tão "long" assim, e definitivamente não parecia mais um "bob". As pontas estavam desalinhadas, e o frizz teimava em aparecer.
— Eu sei que faz tempo desde o último corte... — comecei, mas ela me interrompeu com um sorriso travesso.
— Tempo demais, querida. E sinceramente, com esse rosto lindo, você merece um corte que realce ainda mais. E eu sei que nunca cortei seu cabelo antes. — continuou, com aquele entusiasmo contido que só a Alice sabia ter — E isso me parece quase um pecado. Você tem um long bob que está quase virando um long despair.
Deixei escapar uma risada baixa. Ela sorriu, satisfeita com a minha reação.
— Eu... não sei se estou pronta pra me ver diferente. — murmurei — Mas acho que talvez isso nem tenha a ver com o corte. Só... com tudo.
— Então deixa eu te ajudar com esse “tudo” começando pelo mais simples: cuidar de você. Um corte novo não muda a vida, — disse ela, encostando a ponta dos dedos no meu ombro com delicadeza — mas às vezes lembra a gente de que ela continua.
Fiquei em silêncio por um instante, sentindo o peso leve daquela verdade. Suspirei, mas não consegui evitar o sorriso. A verdade é que, apesar de toda a exaustão que a maternidade me trazia, e dos traumas que ainda me rondavam, uma parte de mim sentia falta de me olhar no espelho e ver alguém inteira, ou ao menos, alguém que parecesse um pouco comigo antes de tudo.
— Você pode deixar ele perto da altura do queixo de novo? — perguntei, tentando parecer desinteressada, mas já meio rendida. O sorriso dela aumentou ainda mais, seus olhos brilhavam em expectativas, ela claramente queria ouvir a minha permissão — Tá bem! — disse por fim — Você pode cortar. Mas vai com calma. Ainda sou uma mãe recém-saída da tempestade.
— Ah! Perfeito! — Alice arqueou uma sobrancelha, empolgada. Os olhos como um ouro, se iluminaram como se o Natal tivesse chegado mais cedo e sua voz tornou-se como de uma sonhadora — Um pouquinho abaixo do queixo. Levemente repicado nas pontas, pra dar movimento?!... É, talvez... Uma franja lateral suave? Só se você quiser, é claro.
Hesitei por um segundo, nem um pouco disposta a ter uma franja, mas aquele brilho nos olhos dela era quase hipnótico.
— Ok... Vamos evitar a franja por enquanto. Só não me transforma em uma boneca de porcelana. — brinquei.
— Impossível! Você já é uma obra de arte! — disse ela animada, se levantando com a leveza de quem flutua, e estendeu a mão — Então vem comigo. Pela primeira vez, você vai conhecer o meu quarto. Não costumo mostrar, mas..., você merece.
Aceitei o toque gelado da sua mão estendida, talvez deixar Alice cuidar do meu cabelo fosse mais do que vaidade fútil. Era um pequeno gesto de carinho, de cuidado, de alguém que via beleza em mim, mesmo quando eu não conseguia enxergar. Quando entramos na casa quentinha, eu deixei as botas de lado e subimos as escadas com os seus saltos anunciando nossa chegada, caminhei pelo corredor atrás dela até uma porta que eu nunca vi aberta. Era o cômodo mais discreto do andar, quase como se estivesse escondido de propósito.
Ao cruzar a soleira, meu olhar se perdeu.
O quarto de Alice era como um jardim secreto envolto em luz. As paredes eram revestidas com papel de parede delicado, em tons perolados, com detalhes que pareciam brocados à luz. Um espelho enorme ocupava quase toda uma parede, com moldura dourada e desenhos finos de folhas e estrelas. Havia uma arara com os vestidos dos sonhos, tecidos que dançavam com o menor sopro de ar. Perfumes, caixas organizadas por cor, uma penteadeira digna de cinema clássico. Era como estar dentro da alma dela: leve, luminosa, encantadora.
— Uau!... — sussurrei, sem conseguir evitar — Isso aqui é...
— Um refúgio! — completou ela, fechando a porta atrás de si com cuidado — E hoje, ele é seu também.
Fui conduzida por ela a sentar-me no banquinho diante do espelho, observando meu reflexo emoldurado por um mundo que parecia me aceitar mesmo nos dias em que eu não me reconhecia. Alice sorriu por trás de mim no reflexo do espelho e começou a separar meu cabelo com os dedos leves.
— Vamos te devolver um pouco de você mesma, Amberli. Uma ponta de cada vez. Vou buscar as tesouras!
Alice pegou uma nécessaire preta, colocando-a em cima da penteadeira, e de dentro retirou uma tesoura fina, prateada, que parecia mais uma joia do que uma ferramenta. Ela a manuseava com delicadeza, como se estivesse prestes a restaurar uma obra de arte e não apenas cortar meu cabelo gasto pelo tempo e pelo descuido. Ela cobriu meus ombros com a capa de corte, e fez repartições perfeccionistas dos fios, dividindo as mechas de um lado para o outro.
— Posso começar? — perguntou atrás de mim, com a ponta dos dedos frios em minha nuca.
Assenti no espelho. Ela prendeu parte do meu cabelo separado no alto da cabeça com umas presilhas em forma de flor. O toque dos dedos frios em contraste com meu couro cabeludo quente me fez arrepiar de leve.
— Sabe, nunca deixei ninguém além de mim mesma cortar meu cabelo depois de Angie. — murmurei sem pensar.
Alice parou por um instante. Seus olhos encontraram os meus pelo reflexo. Havia compreensão ali, mas sem pena. Apenas uma escuta silenciosa.
— Entendo... — disse ela, com doçura — Você confiou em mim agora, e eu prometo honrar isso.
E então o som da tesoura preencheu o silêncio.
Cada mecha que caía sobre o manto branco em meu colo parecia mais leve que a anterior. Como se junto ao cabelo, ela também estivesse aparando fios invisíveis de culpa, exaustão, medo. O quarto estava perfumado com algo suave, talvez lavanda com chá branco e por um momento, fechei os olhos apreciando a fragrância e as sensações ao redor.
— Você já cortou o cabelo de outras pessoas? — eu perguntei, mais por quebrar o silêncio do que por real curiosidade.
— Algumas vezes... Rosalie nunca me deixaria chegar perto do dela, claro. Bella deixou uma vez quando era humana... E me fez prometer nunca mais cortar. — ela riu baixinho — Mas o seu... tem algo diferente. É como se ele tivesse uma história própria.
Abri os olhos devagar. No espelho, vi algumas pontas novas tomando forma, levemente alinhadas, dando vida ao corte que antes parecia morto.
— E tem. — senti o nó apertar na garganta, mas continuei — Ele já me cobriu o rosto pra esconder o choro. Já se embaraçou nos dedos da Hilary quando ela ainda nem sabia segurar direito. Já foi puxado por mim mesma em noites de desespero. Já serviu de escudo quando eu quis desaparecer...
Alice parou o corte por um momento e me abraçou pelos ombros, sem palavras. Não precisava delas.
— Agora, — sussurrou — ele vai contar uma nova parte da história. Uma que começa com alguém que sobreviveu. Que ainda está aqui. E que merece se olhar no espelho e se reconhecer.
As lágrimas vieram, mansas. Não pela dor, mas pelo alívio. Sorri para ela através do espelho, um sorriso agradecido e fechei meus olhos mais uma vez e esperei que ela terminasse. O som da tesoura preencheu o ambiente mais uma vez, e após ter cessado há minutos, Alice ainda passeava ao meu redor como se admirasse uma obra de arte recém-finalizada.
— Uau! — ela disse, ajeitando um fio atrás da minha orelha — Esse corte nasceu pra você. Prático, mas cheio de personalidade. Combina com a mulher que você tá se tornando. Pronta para ver?
Assenti erguendo o rosto e abrindo os olhos. Olhei para o espelho, e por um segundo, hesitei, ela terminou com precisão. Nenhum fio fora do lugar, nenhum exagero. O corte era simples, mas elegante. Eu ainda era eu. Mas uma versão minha que parecia... mais viva. Alice deu um passo pra atrás e sorriu como quem acabava de pintar uma tela e eu me olhei novamente, percebendo algo.
Era eu.
Eu.
Ainda cansada, ainda marcada, mas ali. Com o rosto mais à mostra, com o olhar um pouco mais claro. Com o cabelo que não escondia, mas que revelava.
— Eu me reconheço... — sussurrei, um pouco deslumbrada. Me inclinei um pouco mais para frente, e não impedi meus lábios de abrirem um sorriso, ou os meus dedos de tocarem os fios mais curtos que desciam na altura do queixo — Acho que é o primeiro corte desde que... tudo aconteceu. Sinto como se tivesse deixado uma versão de mim pra trás, sabe?
— E deu espaço pra uma nova. É assim que a gente cresce! — respondeu, sua voz leve como pluma, mas firme como alguém que sabia bem do que falava.
Alice sorriu como se já soubesse que isso aconteceria. Como se esse tivesse sido o plano desde o início. E naquele quarto que era um refúgio, com um clima de chuva lá fora e o cheiro de lavanda ao meu redor, ponderei sobre como os pequenos gestos também curam. Às vezes, uma tesoura nas mãos certas pode aparar mais do que cabelos. Pode aparar mágoas.
Sua mão pequena e pálida se agitou no ar, e o cheiro adocicado do spray finalizador pairou no ar, Alice deu um passo para o lado, analisando o resultado com um sorriso satisfeito.
— Pronto. Agora sim, seu rosto está livre, leve e... lindamente perigoso! — disse ela, empurrando meu ombro de leve com a ponta dos dedos.
Ri, mexendo nos fios mais curtos que agora roçavam meu pescoço. Era mesmo um corte elegante, limpo, e ainda assim cheio de personalidade. Alice conseguia esse equilíbrio com uma facilidade irritante, nem parecia que um dia eu também havia cortado o meu cabelo da mesma maneira.
— Você sempre sabe exatamente o que fazer! — comentei, sincera.
— É um dom! — respondeu com falsa modéstia, piscando um olho — Mas o seu rosto colabora, convenhamos.
Houve um breve silêncio, apenas o som da chuva contra os vidros altos do quarto. Enquanto ela me tirava a capa e guardava os instrumentos na nécessaire preta com zíper prateado, com a leveza de sempre, eu hesitava. Tinha algo entalado, uma curiosidade que não saía da minha cabeça desde que ouvi a palavra ecoar em uma conversa com Renesmee ontem. Não lembrava o contexto. Só a palavra: imprinting. Respirei fundo, procurando uma maneira gentil de puxar o assunto que martelava minha cabeça desde então.
— Alice... — comecei devagar, ajeitando a gola do casaco, quando ela retirou a capa de mim — Posso te perguntar uma coisa meio fora de contexto?
Ela parou de organizar os objetos e se virou na mesma hora, inclinando a cabeça com curiosidade.
— Claro. Pode tudo.
— Eu ouvi... uma palavra outro dia. — preferi que ela não soubesse que fosse tão recente — E não sei por quê, mas ela grudou em mim. Você já ouviu falar em... imprinting? Você sabe o que significa?
Por um segundo, o ar pareceu mudar. Alice manteve o sorriso nos lábios, mas seus olhos brilharam de outro jeito. Rápido demais pra quem não estivesse prestando atenção. Mas eu estava.
— Imprinting? Hmm... — Alice soltou uma risadinha curta, quase debochada — É uma palavra ampla, bonita. Mas pode significar tanta coisa, né? Impressão, marca... depende do idioma, da área, do contexto... — disse, com a voz levemente musical, virando-se para fechar a nécessaire.
— Mas tem algum significado... mais específico? Tipo, relacionado a pessoas? — minhas sobrancelhas franziram — Digo... no sentido dos quileutes.
Alice riu baixo, aproximando-se para ajeitar uma mecha rebelde minha com dedos leves, desviando do meu olhar com a delicadeza de quem embala um segredo; ela piscou lentamente, como se escolhesse as palavras com cuidado cirúrgico.
— Há muitos tipos de laços no mundo, Amberli. Alguns nascem com o tempo. Outros, com o olhar. E alguns... simplesmente acontecem, antes que a gente entenda o porquê.
— Mas imprinting é isso? Um laço? Um tipo de... ligação?
— Talvez. — respondeu, inclinando a cabeça com o sorriso de quem brinca de charada — Ou talvez seja só um nome bonito pra algo que não precisa ser nomeado.
— Alice... — tentei com mais firmeza, mas ainda gentil — É que eu sinto... como se fosse algo importante. Como se tivesse a ver comigo. Você não pode me contar mais?
— Você vai entender, Amberli. No tempo certo. Algumas verdades precisam encontrar a gente quando o coração estiver pronto. Antes disso... elas só confundem.
Engoli em seco, frustrada, mas ao mesmo tempo estranhamente confortada.
— Então você sabe. — minhas pálpebras franziram ao redor dos meus olhando, acusando. Ela sorriu doce, misteriosa, fraterna.
— Eu sei de muitas coisas. — deu de ombros — Mas o que realmente importa, é que o que precisa chegar até você, vai chegar. Nem antes, nem depois. — seus bracinhos embalaram a nécessaire — Sua filha acordou. E acho que ela está esperando por você.
Encarei-a diante do espelho, com o cabelo novo e a sensação de que “imprinting” era mais do que uma palavra em outra língua. Era um aviso. Respirei fundo, vendo que ela não me falaria mais nada, então preferi confiar de que ela falava a verdade sobre uma das minhas filhas ter acordado. Me levantei, agradeci pelo corte de cabelo com carinho e, antes de eu sair, ela lançou por cima do ombro:
— Ah, e se alguém soltar essa palavra de novo... Só sorria e finja que não ouviu. Vai ser mais fácil assim.
Fechei a porta do seu quarto atrás de mim, e caminhei até ao primeiro quarto mais próximo, que é onde Hilary deveria estar descansando. Abri a porta devagar, entrando pé ante pé para dentro do cômodo. De longe eu já via pequenas mãos erguidas para cima, os dedinhos dançando no ar. Hilary acordou do cochilo com o cabelo todo bagunçado e um humor indecifrável. Estava com uma das bochechas amassadas e os olhos sonolentos, piscavam devagar, ainda conectado no sonho do qual havia saído. Peguei-a no colo devagar, sentindo aquele calorzinho bom de filha pequena que se encaixa em nós como se fosse extensão do corpo.
— Então a minha alegria já acordou da soneca? — cheirei seu pescocinho, fazendo ela se encolher. Hilary coçou os olhos, tentando ficar mais desperta. Tirei a chupeta da sua boca jogando-a dentro do berço — Olha, a mamãe tá diferente hoje. — falei baixinho, já esperando que ela olhasse para mim sem entender.
E olhou mesmo. Seus olhos castanhos, tão parecidos com os meus, ficaram grandes. Ela me encarou por um momento longo demais. Primeiro com seriedade..., depois com um leve franzido no nariz, e por fim, sorriu. Aquele sorrisinho que ela faz quando vê panquecas no prato ou escuta o nome do Cole.
— Cabelinho, mamãe! — apontou, encantada — Tá bonito!
Soltei uma risada surpresa, emocionada. Porque ela viu. Ela percebeu. Não só o corte. Ela viu a mudança.
— Você acha, meu amor? — perguntei emocionada, o coração quentinho, e curiosa para saber sua opinião.
Hilary assentiu com convicção, puxando uma mecha do meu cabelo e passando entre os dedos como se fosse fita de presente. Parecia se agradar do que estava vendo. Seus olhinhos voltaram a olhar para os meus, e sorriu de leve.
— Tá nova, mamãe. Tá linda, linda. — suas palavras meio emboladas foram fáceis de entender.
Meu coração deu um salto no peito. Suas palavras me abalaram positivamente, me desmontando. Ela não sabia o peso que havia por trás daquilo, mas talvez sentisse mais do que qualquer um. Porque filhos sentem. Eles carregam a gente no colo sem nem saber. E ali, com aquele elogio singelo e honesto, Hilary me devolveu algo que eu nem sabia que estava faltando.
— Obrigada, meu amor. — agradeci mais do que ela um dia iria saber — A mamãe te ama. Muito.
Caminhei pelo quarto com ela em meus braços, planejando banhá-la. Abri a gaveta onde eu tinha organizado algumas mudas de roupa com ajuda da Esme. Atualmente a maioria das roupas que Hilary veste são novas, as que eu trouxera para ela meses atrás foram doadas, só seus acessórios de cabelo, ou um sapato e outro ainda tinham a sorte de servir. Contemplei as peças bem dobradas que Esme organizava com tanto carinho e por um instante me emocionei de novo com o fato de alguém ter se importado em dobrar as roupas da minha filha como se ela fosse da casa desde sempre.
Agrupei as peças de roupas necessárias para que ela passasse o fim da tarde e noite, pensando em ficar com ela lá fora um pouco. Tenho me sentido confiante de sair de dentro dos cômodos da casa cada dia mais, e não me sinto culpada por fazê-lo como poderia ter sentido.
Deixei-a dentro de berço, com a promessa de retornar para levá-la para o banho. Equipei suas coisas dentro do banheiro deixando a água quente encher a banheirinha portátil com um ruído baixo e constante. O vapor começava a embaçar o espelho atrás de mim, desenhando fantasmas difusos na superfície. Voltei para o quarto, tirando minha filha do móvel e comecei a despi-la durante o caminho.
Hilary já sentadinha, com os joelhos dobrados, os brinquedos boiando e os dedinhos brincando de capturar bolhas, soltava risadinhas baixinhas, o tipo de som que tinha o poder de desmontar qualquer armadura que eu ainda carregasse por dentro. Sorri para minha menina, tocando a ponta do seu narizinho com o meu dedo molhado, peguei um pouco da espuma nas mãos e soprei, espalhando bolhinhas perfumadas pelo ar.
— Borbulhas! — ela disse, rindo, com a maneira certa das palavras ainda se formando.
— Isso mesmo, bolhinhas de sabão. — repeti em voz baixa, mais para mim do que pra ela.
A água escorria pelo seu cabelo castanho, deixando os fios colados na testa, nos ombros e nas costas. Peguei a conchinha de silicone e despejei com cuidado mais água morna, evitando os olhinhos, enxaguando o shampoo que tinha cheiro suave de camomila. Ela piscou, mas não reclamou. Estava tranquila. Estava segura. Me ajoelhei mais perto e, por um momento, apenas a observei. Aquela barriguinha redonda, os braços gordinhos, a forma como ela franzia o nariz antes de rir… Tudo tão pequeno, tão breve, tão precioso. Havia horas em que eu ainda duvidava. De mim. Do que sentia. Do que fui forçada a viver. Mas não hoje. Hoje ela era só minha filha. E eu era só a mãe dela.
Peguei a toalha felpuda e a estendi ao lado.
— Pronta pra ser enrolada? — perguntei baixinho, e ela soltou um “uh-hum” animado.
Levantei Hilary para fora da banheira com calma, tomando cuidado para que as gotas d’água não respingassem em mim. Enrolei-a na toalha como num casulo, cobrindo até mesmo sua cabeça, sentindo seu corpo quentinho contra o meu. Coloquei Hilary sentada sobre a pedra da pia, com as perninhas dobradas como uma bonequinha de porcelana. Ainda quente do banho, com aquele cheirinho de shampoo infantil e o corpinho relaxado, havia um sossego ali, daqueles que só vem depois da água morna, do cheirinho do sabonete infantil e da segurança do colo materno. Puxei sua escovinha de dentes, colocando a pequena quantidade de pasta de dente sem flúor para higienizar seus dentinhos e toda a boca. O sabor doce de uva que contém na pasta fazia com que Hilary cobrisse constantemente os dentes com sua linguinha, para saborear, e o enxague era hilário, ela acabava por engolir a água que eu introduzia na sua boca ao invés de cuspir adequadamente na cuba. Enxuguei seus lábios na ponta da sua toalha, e me agachei para pegar a escova secadora de dentro da última gaveta, conectando na tomada, o som do clique ecoou no instante em que liguei, o barulhinho do motor preencheu o banheiro, e os olhinhos dela me seguiram com atenção, seu olhar tinha um misto de curiosidade e familiaridade.
— Vamos deixar esse cabelinho bem sequinho, tá, meu amor? — tirei a ponta da toalha de sua cabeça, passando os dedos pelos fios lisinhos e castanhos, que ainda escorriam gotinhas pelas pontas.
Ela ficou quietinha enquanto eu desembaraçava com cuidado, sempre com os dedos primeiro, de maneira suave, depois, apertei um pouco mais a toalha sobre eles e comecei a passar a escova sobre uma mecha. Minha filha permaneceu quietinha, apenas virando os olhos de leve para tentar ver o que acontecia atrás dela. A escova girava devagar, soltando aquele calor morno que dava uma sensação boa na pele. O cheiro do cabelo limpo se misturava ao vapor leve que subia conforme o calor secava as mechas. Aquele cheirinho doce e suave... Shampoo de camomila, um toque de lavanda, e algo que era só dela. Só da Hilary. Ela olhava pro lado, tentando espiar o que eu fazia, seu movimento inocente acabava por fazê-la puxar a cabeça contra a direção que eu a mantinha e eu segurei seu rostinho, tentando ser delicada, advertindo-a:
— Fica quietinha… Isso, princesa… só mais um pouquinho.
O cabelo dela, já liso por natureza, ia ficando ainda mais alinhado, com um brilho bonito. Macio. De dar vontade de encostar o rosto. Eu pausava a secagem entre uma mecha e outra, nunca descuidando do couro cabeludo, e sempre ajeitando a toalha em seu corpo, atenta ao frio que poderia gelar o banheiro. Peguei uma mecha mais abaixo, no redemoinho da nuca, sempre aquele redemoinho levantava uma mechinha que teimava em não deitar. Ri sozinha, falando quase num sussurro:
— Esse cabelinho aqui sempre faz festa, né?
Ela balbuciou algo como resposta, com os olhos atentos. Talvez fosse uma tentativa preguiçosa de conversar, ou só vontade de fazer parte daquele momento. Me inclinei e beijei sua têmpora, sentindo o calorzinho do couro cabeludo. A escova girava e alisava, girava e secava…, e eu perdia a noção do tempo. Era só eu e ela. Minha filha. Minha menina. Minha alegria.
— Mais um pouquinho e já tá quase!… Olha esse cabelão! Meu bebê tá quase uma mocinha!
Hilary sorriu, tímida, enfiando os dedinhos dentro das mechas secas. Eu desliguei a escova, pondo-a de volta na última gaveta, e passei a mão por cima dos fios uniformes, admirando a textura. Tão sedosos, tão leves… brilhando sob a luz do banheiro. Cheios de vida.
— Prontinho! — sussurrei, passando os dedos de leve pela mecha que moldava seu rostinho — Agora, vamos pro quarto colocar uma roupa bem quentinha!
A peguei no colo e ela se aninhou no meu ombro, deitando a cabeça, o cabelo recém-seco escorrendo como uma cascata morna, braços pendendo em confiança absoluta. Saímos do banheiro devagar, uma sorrindo para a outra, o coração aquecido, e nada no mundo parecia mais urgente do que isso: segurar minha filha com firmeza e ternura, secar seu cabelo com segurança e saber que eu estava sendo o porto seguro que ela precisava.
Levei Hilary até o quarto, o calor do banheiro já começava a desaparecer da pele, e o ar mais fresco do cômodo me lembrou que o mundo lá fora era outro, húmido, escuro, e muito mais gelado do que cabia na nossa bolha de espuma e vapor. Deitei-a sobre a cama com delicadeza, ainda enrolada na toalha grossa e morna e deixei que a toalha a envolvesse por mais alguns segundos. Seu rostinho rosado contrastava com o branco fofo do tecido. Ela estava calma, com aquele cansaço doce que só o banho proporciona. Enxuguei seu corpinho minuciosamente e passei uma loção na sua pele, massageando seu corpo. Ela esfregou os olhinhos com o dorso da mão, já começando a dar sinais de cansaço. Eu sabia que, se demorasse mais uns minutos, ela dormiria ali mesmo, toda húmida e enrugada.
— Ei, nada de cochilar agora, mocinha. A gente vai passear. — sussurrei, beijando sua bochecha húmida.
Peguei primeiro a camiseta de algodão térmico branca, de manga longa, e uma calça justa de plush, confortável e quentinha.
— Vamos começar com a parte mais fácil, tá bom? — disse, enquanto a deitava na cama, para começar a vesti-la.
— Tá bom, mamãe. — ela assentiu com um murmúrio sonolento e deixou que eu enfiasse seus bracinhos nas mangas, depois ajeitei a gola ao redor do pescoço pequeno.
Depois vesti a calça com cuidado, para não apertar o elástico nos tornozelos. Por cima, coloquei o macacão forrado de lã roxa, com zíper até o queixo. Era grosso, como um cobertor em forma de roupa, mas permitia que ela se movesse. Ela se deixou vestir com a paciência serena de quem confia. Encaixei suas perninhas dentro com cuidado, fazendo cócegas de leve em seus pés antes de calçar as meias térmicas com antiderrapante, mesmo que ela fosse nos meus braços, eu queria que estivesse o mais protegida possível. Prendi os botões com destreza, seu queixo apareceu entre os pelos macios, e os olhos me encararam como se me conhecessem melhor do que eu a mim mesma.
— Agora só falta o chapéu de urso e as botinhas. — brinquei, pegando o gorro de lã cinza com orelhinhas e colocando sobre sua cabeça até cobrir parte das orelhas.
Ela sorriu. Seus olhos castanhos, tão parecidos com os meus, pareciam ainda maiores sob o gorro. As botinhas impermeáveis foram a última peça, duras de encaixar, como sempre, mas indispensáveis para o chão húmido e gelado lá de fora.
— Vamos sair pra ver o mundo lá fora, mas sem virar picolé, né, amor?
— Sim, mamãe! Sem picolé! — Hilary sorriu, ainda deitada.
Peguei as luvinhas impermeáveis, verifiquei se havia alguma parte de pele exposta ao vento frio que nos esperava. E então a peguei de novo no colo.Olhei para a janela, vendo o lado de fora, o mundo ainda era molhado e nebuloso. Mas não parecia mais tão ameaçador quando ela estava comigo. Talvez porque, agora, eu também estivesse com ela por inteiro.
— Bora?! — bati uma palma, convidando-a se levantar.
Ela me estendeu suas mãozinhas para que eu a erguesse, e assim subiu no meu colo, enganchando suas pernas nas minhas laterais, e sua mão direita indo certeira para os fios de cabelo da minha nuca. Estava pronta. Abracei seu corpinho agasalhado contra meu peito, respirei fundo sentindo seu perfume e caminhei para fora do quarto.
Quando avançamos pelo corredor, passando pelas portas dos demais quartos, Hilary estendeu seu bracinho para frente, apontando o dedinho miúdo para um quarto em especial:
— A bebê, mamãe!
Sua reação me deixou curiosa, e retrocedi alguns passos, levando-nos à frente da porta do quarto onde Helena dormia. Olhei para Hilary, que ergueu o rostinho para me encarar, como se me perguntasse em silêncio se não íamos entrar. Sorri para ela, soltando um leve riso, encantada com a sua sugestão silenciosa. Encarei a porta, olhando para o trinco, que não selava a porta totalmente, suspirei e empurrei a porta do quarto com o quadril, bem devagar, tentando não acordar Helena.
— Shh... — sussurrei para Hilary, pedindo por silêncio enquanto nos aproximava do berço.
Helena deveria estar dormindo.
Mas não estava.
Ela estava acordada.
Sentada.
Sentadinha dentro do berço, com a mãozinha agarrando a barra de ferro, as mãozinhas firmes, e os olhos azuis cristalinos me encarando com uma lucidez nova. Meu coração tropeçou dentro do peito. Ela não só estava acordada, mas também tinha... Ela tinha mudado. Não era um daqueles saltos óbvios, como quando um bebê começa a sentar ou balbuciar. Era mais sutil, quase secreto. Um delicado realinhamento da natureza. Hilary resmungou contra meu ombro, e eu a ajeitei com cuidado. Depois, me aproximei ainda mais, em silêncio. Helena não fez barulho. Só me olhava, como se já soubesse que eu vinha, como se estivesse me esperando há horas em seu mundo pequeno e imenso.
Foi aí que percebi.
O nariz.
O nariz… não era mais aquele botãozinho recém-formado. Estava mais firme na base, e o ângulo que se desenhava entre o ossinho e o dorso se alongava com leveza, como se a própria respiração tivesse moldado aquilo nos últimos dias. A pontinha ganhara um refinamento quase esculpido, como uma escultura em evolução.
E os cílios... Mais longos. Era impossível negar.
Curvavam-se com naturalidade, projetando uma sombra fina sobre as bochechas a cada piscada. Como pequenos fios de seda, se mexiam como se tivessem vontade própria. Antes pareciam fios de bebê. Agora… pareciam promessas de uma beleza que crescia em silêncio.
As mãos me comoveram.
As mãos… mais abertas, mais decididas. Os dedinhos, mais firmes, ela não mantinha mais os punhos fechados. Agora eles se abriam, mapeavam o espaço. O mindinho já não se curvava tanto; parecia ganhar coragem, o polegar ficava separado dos demais com frequência, e ela tocava a grade do berço com um tipo de consciência nova. E nas unhas, já aparecia a delicada meia-lua, já com uma espessura delicada, uma consistência de coisa definida, um brilho opaco que dava a elas uma aparência quase adulta, em miniatura. Uma pequena perfeição.
O tronco mais erguido.
O equilíbrio do sentar não era mais acidental. O tronco também cresceu, só um pouco, mas o suficiente para eu perceber que o pijaminha que eu vesti para que ela tirasse a soneca já não assentava como antes. A barriga ainda era redondinha, mas agora firme, como se seus órgãos tivessem ganhado mais lugar. E quando respira, o som do ar é mais amplo, mais ritmado, como se os pulmõezinhos aprendessem a cantar.
A pele… ah, a pele.
Tinha deixado para trás o tom indefinido, translúcida, agora parecia ter decidido o tom leitoso suave, que parecia misturar o meu sangue por suas veias e alguma coisa que eu não sei nomear pela herança do..., pai. Na curvatura das costas, o peso dos ombros já se insinuava. Como se ali, logo ali, fosse nascer a força que ela um dia teria para erguer o mundo.
E os olhos… mesmo quietos, mesmo calmos, estavam mais despertos do que nunca. Ela me via, não só com os olhos, mas com o entendimento. Como se a alma já começasse a experimentar o vocabulário da existência.
Me encostei na beirada do berço, com Hilary, olhando para ela em silêncio. Helena sorriu. Não foi um sorriso amplo. Foi um movimento de canto de boca, de quem está mais interessada em descobrir o mundo que eu apresentei para ela. Naqueles pequenos instantes o momento pareceu correr como horas, ela estava bem ali, crescendo, mas era mais do que isso. Era como se uma centelha tivesse se acendido por dentro; como se a vida estivesse correndo nela com mais fluidez, como se o salto não tivesse sido só físico, mas algo que acontecia no interior, uma dança entre o sangue híbrido e a alma humana. Parei ali, observando cada centímetro visível, gravando tudo.
Porque mãe não vê só o crescimento, ela sente a passagem do tempo no corpo do filho. E naquele instante, entre os olhos fixos nela, e minhas mãos reencaixando Hilary nos braços, eu tive mais convicções de que Helena era minha. Mas que também era do tempo, da natureza e do mistério. E eu a veria se transformar mil vezes. Mas sempre com o mesmo espanto no coração.
— Oi, Helena!... Olha para a mamãe aqui! — falei, tentando fazê-la prestar atenção nas minhas palavras — Eu e a sua irmã, a Hilary. Ela te ama... A mamãe te ama. — declarei. Fechei a boca, engolindo em seco. Surpresa comigo mesma. Pela declaração tão plena. Imensa. Inesperada. Verdadeira.
Ela parecia prestar atenção, seus olhos fixos nos meus com uma concentração que me fazia pensar que ela entendia, de alguma forma. Depois, com um esforço óbvio, ela balbuciou algo que se assemelhava a "mam". Não era uma palavra, mas o som... foi o suficiente para me fazer sorrir de felicidade. Eu sabia que Helena estava começando a entender o mundo ao seu redor de uma maneira diferente. Sua inteligência híbrida se manifestava de formas sutis para mim, mas eu podia sentir que ela estava conectada ao que eu estava dizendo. Essa interação, embora tímida, fazia meu coração se expandir. Hilary se remexeu contra meu colo, querendo visão, abri espaço com o braço, ajeitando-a.
— Calma, meu amor... tá tudo bem... — direcionei seu ponto de visão para Helena dentro do berço. Ela seguiu meu olhar com a cabecinha, a testa franzida de leve — Olha, a Helena já está acordada. Helena, sua irmã... Consegue dizer o nome dela? Helena.
— Nena. — murmurou, apontando com o dedinho curto.
— É, a Nena tá acordada! — respondi com um sorriso — Olha só como ela tá sentadinha, filha...
Hilary se ajeitou em mim com aquele instinto de quem quer interagir. Seu corpinho pequeno tentou inclinar-se para frente, em direção à irmã. E então, num gesto que me aqueceu o peito, ela ergueu a mão e passou a falar com palavras rápidas, que ficaram desconexas, mas com uma entonação surpreendente.
— A bebê!... Mamãe!... Princesa! Tia Ness! Hil!... Bebê! Azul! Tia...! Mamãe! Nena!... — era o que eu podia entender, de tudo o que ela dizia, com uma alegria desorganizada e sincera.
Helena a observava com olhos abertos, fixos e encantados. E eu me derreti. Aquela troca entre elas, uma que ainda não formava frases, outra que ainda descobria o próprio eixo, tinha mais conexão do que qualquer linguagem inventada. Abaixei Hilary um pouco mais para que Helena pudesse ver melhor. Hilary não parava de falar, algumas frases saiam corretas e eram essas que, contagiada pela alegria da irmã, Helena passou a balbuciar os sons, como se tentasse repetir as palavras que ela dizia. Eu já sabia que não seria como o desenvolvimento de uma criança humana normal, mas ver esses sinais de conexão me fazia sentir uma esperança enorme.
Helena sorriu de uma forma tão genuína e pura que senti meu peito apertar de emoção. Eu estava começando a entender o que Carlisle queria dizer quando falou sobre as fases de crescimento. Helena estava começando a se adaptar a seu corpo híbrido, e eu estava aqui, com ela, para ajudar a guiá-la. E Hilary estava tendo um peso muito importante para o momento.
— Olha, mamãe! — disse Hilary com entusiasmo, soltando um gritinho no final da fala, apontando para a irmã — Ela mexe!
Eu ri, sentindo um calor no coração ao ver o carinho de Hilary por Helena. Ela ainda não entendia completamente as complexidades da situação, mas seu instinto infantil era claro: ela via Helena como uma amiga, uma companheira.
— Sim, Hilary, sua irmã está se mexendo! — respondi, encorajando a interação.
Hilary se aproximou ainda mais, forçando meus braços para baixo, tocando gentilmente a mão de Helena, que, por sua vez, pareceu se interessar pela ação. A reação de Helena foi instantânea. Ela olhou para Hilary com curiosidade e, em um movimento ágil, estendeu a mão na direção da irmã. A reação delas foi quase mágica, como se algo silencioso tivesse acontecido entre as duas, um reconhecimento natural.
— Ela tocou em mim, mamãe! — Hilary exclamou com alegria.
Fiquei observando a cena com um sorriso de afeto. Era incrível ver como, apesar de todas as dificuldades que Helena enfrentava em seu desenvolvimento híbrido, ela ainda mantinha um lado tão humano, tão inocente. E Hilary, com sua pureza infantil, parecia ser uma conexão importante para Helena. Talvez fosse o amor incondicional de uma irmã mais velha, ou apenas o desejo de brincar como qualquer outra criança, mas o que eu via ali era algo simples e profundo. Eu sabia que, à medida que Helena crescesse, as coisas se tornariam mais complicadas, mas naquele momento, o que mais importava era aquele gesto genuíno de amor entre as irmãs. Um vínculo que não precisava de explicações.
— Isso é ótimo, meninas! — falei, com a voz suavemente emocionada — Vocês duas estão começando a se conhecer.
Hilary sorriu amplamente, e Helena, por um momento, olhou para a irmã com uma expressão quase adulta de satisfação. Eu sabia que ainda havia muito a ser aprendido, mas ali, algo simples e belo estava acontecendo. As duas estavam começando a se encontrar, e isso era tudo o que eu precisava.
— Olha, a Hilary tá tentando falar com você. — falei para Helena, me agachando de vez, colocando Hilary sentada na curva do meu joelho.
Helena piscou, e por um segundo, sua boca se abriu como se fosse imitar algum som, não saiu nada além de um sopro, mas havia ali um esforço perceptível. Ela entortou a cabecinha, e suas sobrancelhas se movimentaram com mais precisão do que eu esperava.
— Você entendeu, né? — murmurei, abaixando minha voz, como se o mundo estivesse conspirando com aquele momento. Para mim, era cedo para palavras. Mas… e se não fosse?
Helena me encarava. Não com a passividade dos bebês de meses. Era um olhar mais profundo, curioso, como se estivesse considerando responder.
— Diz “mamãe”… — pedi num tom suave, carregado de esperança.
— Mamãe!… mamãe!… — Hilary falou primeiro, animada, balançando as perninhas.
— Isso, filha! — beijei sua testa, rindo — Viu, Helena? Sua irmã já sabe… e você? — cheguei mais perto da grade do berço, ficando ao nível dela — Fala “mamãe”, minha pequena…
Helena franziu os lábios. Depois soltou uma espécie de sopro gutural… algo entre um “mmm” e um chiado. Um som bruto, mas intencional. Não era só ar. Era o começo de algo. Fiquei imóvel, absorvendo cada nuance daquele instante. O olhar de Helena vibrava de dentro pra fora. As pálpebras, os músculos do rosto, até os ombros levemente tensionados…, tudo nela dizia que estava tentando participar. A boca se abriu de novo, o som não veio, mas o gesto estava ali, como se dentro de si, uma máquina silenciosa estivesse se ativando, cérebro, faringe, intenção, laço, tudo ganhando estrutura. E ali, no reflexo dos olhos azuis e cristalinos da minha filha, percebi: O salto não era só físico. Era também cognitivo. A linguagem não viria do nada, ela viria por desejo. E Helena já tinha desejo. Abracei Hilary com mais força, como se quisesse que ela sentisse a importância do momento.
— Vocês duas… são meus milagres. — sussurrei com um nó na garganta.
Me vi suspensa no tempo. As duas diante de mim, uma no meu colo, outra sentada dentro do berço, envoltas numa linguagem sem palavras, Helena a olhava com tanta atenção… e Hilary retribuía com barulhinhos infantis cheios de intenção, como se estivessem, de fato, se entendendo. E por mais que eu quisesse apenas viver o momento, algo dentro de mim, um pensamento veio com força: Registra! Peguei o celular do bolso do casaco com cuidado, ainda segurando Hilary, toquei a tela o mais silenciosamente possível e ativei a câmera.
— Vamos fazer um filminho, pode ser? — murmurei, quase como uma confissão.
Hilary fez um “aaaah” desajeitado e sorriu, como se soubesse que estava sendo filmada. Helena acompanhou com os olhos o aparelho em minha mão, a íris azul dilatando um pouco sob a luz fraca. Apertei “gravar” e falei baixinho:
— A Hilary está tentando conversar com a irmã dela… e a Helena tá tentando responder. É cedo, eu sei. Mas tem algo… diferente aqui.
Hilary sempre pareceu saber que Helena era diferente. Nunca estranhou os olhos cristalinos da irmã, nem seu silêncio concentrado, ao contrário: parecia acolhê-lo, instintivamente. Apontei a câmera com delicadeza de Hilary para Helena, que esticou os bracinhos curtos para a irmã e soltou um som sutil, como se estivesse realmente querendo falar. Tão pequeno, tão cheio de sentido. E agora, vê-las tentando se entender, uma com palavras pela metade, outra com olhos que falavam, me fazia sentir uma paz que eu jamais soube existir. Talvez eu não precise entender o que a Helena será. Talvez só precise estar aqui, para amá-las enquanto crescem, pra admirar cada nuance da mudança, desde a curvatura do nariz à tentativa de um som novo. A imagem tremia um pouco porque minha mão externava o quanto eu estava emocionada demais. Eu, que tinha medo de esquecer, agora tinha uma prova viva.
Um registro. Não só da tentativa de fala… Mas da conexão, daquilo que não dá pra descrever com palavras.
De repente, algo mudou. Helena parou o que estava fazendo e, com um olhar tão focado, se virou para mim. Seus olhos, tão únicos, brilharam com uma intensidade que me fez engolir em seco. Ela me olhou com uma calma curiosa, como se tivesse uma pergunta, mas também uma resposta para me dar. Deixei a câmera focada nela, e então, como se fosse algo espontâneo, ela abriu os lábios.
— Mamãe... — sua voz soou, suave, mas tão clara, com uma pureza que me fez estremecer.
Eu congelei por um instante. O impacto de ouvir minha filha falar pela primeira vez me tomou como uma onda. A sensação sensorial dessa palavra no ar foi inexplicável. O som ecoou em meus ouvidos, e não foi como ouvir um bebê normal balbuciando as primeiras palavras. Não. Aquela voz tinha algo mais, de alguém que, apesar da idade já possuía uma sabedoria silenciosa, como se soubesse exatamente o que estava fazendo, numa ressonância sutil, como se as palavras estivessem carregadas de um significado profundo, algo que fosse além do simples ato de comunicar. Era a voz de uma criança, mas tinha uma qualidade etérea, um tom suave e cristalino, algo misterioso e ainda tão puro. Ela falou, e a certeza de que o desenvolvimento dela estava tomando formas novas, mais complexas, me invadiu com uma intensidade avassaladora.
Foi uma mistura de maravilhamento e pura emoção. Senti algo quente se espalhando no meu peito, uma sensação de plenitude, como se o meu ser estivesse, de repente, em sintonia com aquele momento. Eu não sabia exatamente como descrever o que estava sentindo, mas era como se mais uma barreira invisível entre nós tivesse sido quebrada. A conexão entre mãe e filha, que antes parecia apenas intuitiva, agora tinha uma nova dimensão. Ela falara, e aquele simples som trazia consigo uma carga de emoções que eu nunca soubera que existia.
— Mamãe! — Helena repetiu, ainda com os olhos fixos em mim, que embora inocentes, estavam começando a carregar algo mais profundo. Uma compreensão que me assustava e me encantava ao mesmo tempo.
O tom da sua voz era melódico, quase como um canto suave. Era uma voz jovem, ainda infantil, mas cheia de profundidade, algo que refletia o desenvolvimento híbrido dela. Era quase como se, por trás daquela palavra simples, houvesse camadas de outras percepções, um entendimento além do que uma criança humana poderia expressar tão cedo. Eu continuei paralisada por um instante, absorvendo tudo o que essa palavra carregava para dentro de mim. As palavras de Helena não eram apenas uma descoberta linguística. Elas eram uma ponte que se formava entre nós, algo indescritível, mas tão real. Eu senti um arrepio ao longo da minha espinha. A sensação da voz dela vibrando no ar parecia ressoar dentro de mim, como uma sinfonia silenciosa.
Quando finalmente consegui reagir, o sorriso em meu rosto era inevitável. A emoção que tomava conta de mim era avassaladora, como se meu coração estivesse pronto para explodir de tanta felicidade. Estendi minha mão tremendo levemente entre as grades de ferro, até ela.
— Você falou!... Você..., disse “mamãe”?!— minha voz soou rouca, quase perdida, um pouco embargada. Eu não sabia o que dizer. Minha mente apenas repetia: “ela havia falado. E não era apenas um simples balbucio. Era uma palavra. Meu nome. Mamãe.
Helena não parecia compreender o impacto de suas palavras, mas seu sorriso, aquele sorriso tímido, mostrava que ela também sentia que algo importante acontecera. Ela não tinha apenas dito "mamãe". Ela havia me dado a primeira prova concreta de sua humanidade, de sua evolução. Uma ponte de comunicação entre nós, que antes parecia distante, agora estava firmemente estabelecida.
— Mamãe. — ela repetiu, desta vez mais clara, e eu senti meu coração bater mais rápido. Helena sabia o que estava fazendo. Ela me reconhecia, e a forma como me disse, me fez sentir que, apesar de tudo, algo profundamente humano ainda permanecia nela.
— Mamãe, Nena!! A Mamãe! — Hilary participou, sua voz meiga, infantil e risonha.
— Mamãe! — sua voz ecoou, e eu percebi que as palavras dela eram mais do que uma simples repetição. Ela estava tentando me conectar, me chamar, como se soubesse que a partir daquele momento, tudo mudaria. Ela sabe que agora é capaz de se comunicar, de se expressar, de compartilhar algo comigo, e com sua irmã.
— Eu estou aqui, Helena. Eu estou aqui sempre, minha filha. — disse, com a voz embargada de emoção, ainda tentando entender a magnitude do que acabara de acontecer.
Era um momento que eu sabia que jamais esqueceria. Era como se, ao ouvir a palavra dela, eu tivesse acessado uma nova realidade, um novo universo, com ela no centro, onde eu não era mais uma mãe apenas em treinamento, mas uma mãe que realmente conhecia a sua filha. Não por instinto, mas por conexão. Helena, com sua presença única e sua voz suave, me mostrava, naquele simples ato de falar, que a cada dia que passava, ela não era mais um mistério. Ela era minha filha. Uma filha com uma história diferente, com um corpo e uma alma híbridos, mas com uma humanidade que eu começava a compreender profundamente.
Eu deixei Hilary se apoiar com seus próprios pés, no chão, para que eu me erguesse e pegasse Helena de dentro do berço, sem conseguir controlar as lágrimas que começavam a descer pela minha face. Virei a câmera para nossa direção, tentei esconder minha emoção diante delas, mas sabia que não precisava. Helena me olhava com uma expressão curiosa, como se observasse minha reação. Ela havia falado, e o mundo parecia ter girado um pouco mais devagar para eu conseguir acompanhar.
A textura de sua voz ainda ecoava em meus ouvidos, como uma nova canção suave e profundamente familiar. A sensação de sua pequena mão tocando minha pele, a suavidade da sua pele aquecida pelo seu corpo em crescimento, tudo parecia mais real naquele momento. Eu sabia que a jornada da maternidade de uma criança híbrida não seria fácil, mas ouvir a primeira palavra de Helena, sua voz suave, mas com a força de uma nova fase que estava começando, me fez sentir que eu estava exatamente onde deveria estar. Me agachei, equilibrando-a no meu joelho e puxando Hilary mais para perto de nós. Minha outra mão estava erguida acima da minha cabeça, o celular registrando o momento.
— Ela falou, Hilary! — eu disse, com um sorriso que eu mal conseguia controlar — Eu te amo, Helena. Eu te amo tanto!
— Êêh! A mamãe ama Hiwawy e Nena! Mamãe ama! — Hilary comemorou, batendo palminhas.
Helena sorriu, de um jeito tão simples, tão infantil, mas ao mesmo tempo tão profundo. Era como se, naquele simples momento, ela estivesse me dizendo que, apesar de tudo, ainda éramos mãe e filha, ligadas por algo que ia além das palavras, além das dificuldades. E eu sei que essa era a primeira de muitas palavras que viriam. E com cada uma delas, o vínculo entre nós se fortaleceria mais e mais.
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