Sempre ao seu Lado

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Sempre ao Seu Lado

Capítulo 57

Apenas dois dias haviam se passado desde a terça-feira em que o nome de Cole apareceu na tela do meu celular, acompanhado de um convite simples demais para ter causado um impacto tão profundo dentro de mim. Ainda consigo lembrar com nitidez a forma como meu coração acelerou como se algo dentro de mim tivesse aceitado antes mesmo de eu responder.

Agora, o céu do início da tarde permanecia fiel à própria essência: cinza, pesado, com uma chuva fina escorrendo pelos vidros altos como dedos pacientes. O inverno húmido tornava o ar denso, e o silêncio da casa parecia carregado de expectativa. Minha expectativa.

Nesses dois dias, eu não guardei o convite só para mim. Não seria capaz, eu me vi surpresa pela grande felicidade que chegava a irradiar de mim.

Contei primeiro à Esme, numa conversa baixa na cozinha, enquanto ela organizava novas flores que encomendara para os vasos de cristal. Ela segurou em minhas mãos com cuidado, como se estivesse lidando com algo frágil e precioso ao mesmo tempo e não fez perguntas invasivas, apenas sorriu e disse que eu merecia isso.

Aquela sua frase ficou na minha cabeça mais do que eu esperava.

Rosalie soube logo depois. Seu olhar percorreu cada detalhe meu antes mesmo de eu terminar de explicar, avaliador, atento, quase intimidante. Quando ouviu o nome de Cole, arqueou levemente a sobrancelha, como se estivesse medindo riscos invisíveis. No fim, apenas assentiu comentando com carinho como se não fosse nada demais “o quanto a vida dele o fez sortudo”. E vindo dela, aquilo significava que ela também estava feliz, não só por mim. Pelos dois.

Já Isabella, que estava ao lado dela, reagiu com um sorriso fácil, sincero. Comentou que certos convites simplesmente fazem sentido quando chegam, e eu soube, naquele instante, que ela tinha razão. Eu sentia isso desde a primeira palavra da mensagem.

Nessie não precisou de detalhes. O que eu achei ser um milagre, já que ela gosta tanto de arrancar todos os detalhes possíveis. Com o espanto pelo seu desinteresse, apenas retribuí seu olhar longo por alguns segundos à mais do que achei ser possível, ela sequer piscava, e quando meus olhos não aguentavam mais essa troca de olhares sinistra entre nós duas, ela só inclinou levemente a cabeça, os cachos acompanhando seus movimentos e quando ela me pareceu querer dizer alguma coisa, o seu celular começou a tocar. Não houve nada além de uma piscadela divertida quando ela se virou falando com o remetente.

E então havia Alice.

Alice não apenas soube, como passou a decidir os detalhes por mim.

Agora, estamos dentro do closet, Alice bateu palmas uma única vez, animada, como se estivesse dando início a uma celebração importante. Suas reações me dava vontade de rir, ela me parecia a versão jovem da Fada Madrinha da Cinderella.

— Ah, o primeiro encontro!... — disse ela, sonhadora — Mas não um primeiro encontro qualquer!

Ri baixo, cruzando os braços, sentindo o nervosismo se instalar de forma quase tímida.

— Eu nem sei para onde ele vai me levar.

— Não precisa saber. — respondeu com naturalidade — Cole tem bom gosto, eu bem sei. E você confia nisso, mesmo sem perceber.

Ela começou a abrir as gavetas e as portas que nunca me atrevi a tocar, revelando possibilidades como se me apresentasse futuros alternativos. Tirou primeiro um vestido mídi de lã fina, em tom grafite, com cintura marcada e gola alta. Elegante, contido.

Depois, um conjunto de calça de alfaiataria preta com uma blusa de seda marfim. Minimalista e sofisticado. Porém achei a combinação muito fechada. Não me pareceu oferecer a disponibilidade que eu queria transmitir na presença de Cole.

Passei os dedos pelo tecido de um vestido verde-escuro de veludo, profundo como a floresta à noite. Era bonito e a cor, familiar demais.

— Você não vai querer desaparecer hoje. — Alice murmurou, como se tivesse acesso a pensamentos que eu ainda não tinha coragem de externar.

Ela se afastou por um instante, movendo mais cabides pra lá e pra cá e voltou com um vestido que fez meu fôlego falhar.

Um vestido longo preto, coberto por paetês delicados, refletindo a luz de forma quase líquida. O decote em V desenhava uma linha segura, sem exageros e as mangas longas equilibravam tudo, trazendo uma elegância sem igual. Os outros ficaram tão xoxos do lado desse.

— É esse, né. — ela disse, simplesmente.

— Não acha que é demais? — perguntei em voz baixa.

— É ideal. — respondeu, sorrindo — Você não está indo para provar nada pra ninguém. Está indo para ser vista. Por alguém que merece te ver.

Quando vesti o vestido e encarei meu reflexo no espelho, demorei alguns segundos para reconhecer a mulher diante de mim, o sorriso surgiu imediatamente emoldurando os lábios. Eu já estava longe de ser aquela que tentava sobreviver ao mundo, agora sou alguém se permitindo existir dentro dele. Me virei de um lado para o outro na frente do espelho, minha postura estava diferente, mais segura. Alice me observava em silêncio, com aquele sorriso enigmático que sempre parecia saber mais do que dizia. Não me deixou muito tempo encarando meu reflexo antes de se mover novamente. Ela tinha aquela energia elétrica contida, como se estivesse organizando tudo e nada ao mesmo tempo, algo que já aceitei não compreender.

— Agora, acessórios! — cantarolou, abrindo uma das gavetas rasas.

O som delicado das peças se tocando fez algo relaxar em mim. Talvez porque, naquele ponto, eu já tivesse aceitado que não estava mais tentando ignorar aquele momento. Alice dispôs algumas opções sobre a superfície clara: brincos pequenos e brilhantes que ela murmurou serem de “diamante, discretos demais”; argolas finas em ouro branco, que ela me mostrou sem chances de negar, como sendo apenas “elegantes, mas previsíveis”; como se não tivessem um pingo de valor e expôs um colar delicado, quase invisível, e quando ela ergueu os olhos na minha direção e analisou minha expressão facial, seus lábios se fecharam. Ela observou tudo por um segundo… e então empurrou a maioria para o lado.

— Humpt! O vestido já faz o bastante. — murmurou — Não vamos competir com ele.

Escolheu um par de brincos longos e finos, de prata escura, que desciam em uma linha suave até pouco abaixo do lóbulo. Nada chamativo demais, mas o suficiente para captar a luz quando eu me movesse.

— Esses ornam... Não roubam a atenção exagerada. — explicou.

Para o meu pulso, ela optou pela troca da pulseira dourada que Cole me presenteou a meses atrás, por uma pulseira prata delicada, quase orgânica, como se tivesse sido moldada à mão. Apesar de aceitar, senti que a ausência daquela pulseira me deu uma falta absurda.

— Agora o cabelo. — Alice passou os dedos por ele com cuidado — Eu tinha pensado em uma maneira de juntá-los quase como num coque baixo... Mas agora... Não. Não vamos prender. — decidiu.

Ela desapareceu a frente dos meus olhos, e a porta ainda se abria lentamente quando retornou, me fazendo pular de susto. Em sua mãozinha fina estava um modelador de cachos.

Num gesto leve com a mão livre ela indicou à penteadeira, e obedientemente me sentei. Ela ajustou apenas o necessário, sempre me perguntando se tudo o que fazia me agradava também: ondas suaves, num caimento quase natural, um lado levemente jogado para trás, expondo o pescoço e o decote em V do vestido. Ela também me propôs uma maquiagem, nada tão carregado, mas foi impossível não deixar meus olhos marcados pelos tons de marrons esfumados.

Quando ela terminou, eu olhei pela janela passeando meus olhos para a paisagem de fora, analisando o início da noite escurecendo ao redor da mansão, o vento balançava as árvores próximas, deixando claro o quanto lá fora estava naquele frio constante que parecia entrar pelos ossos na mínima oportunidade.

— Será que levo um casaco? — me perguntei, quase por reflexo.

Alice falou alguma coisa que não consegui compreender. Virei o rosto procurando pelo seu corpo miúdo, achando-a entre as roupas penduradas nos cabides, procurando por alguma coisa. Seu braço se afundou entre muitas peças pesadas, e quando voltou à vista, tinha em mãos: um sobretudo preto, longo, num tecido estruturado o suficiente para me proteger do frio, mas não menos elegante. E, curiosamente, isso me fez sorrir.

Ela estendeu a peça para mim, pedindo que eu já vestisse. Apesar da nítida diferença de altura entre nós, ela é muito eficiente em me ajudar a ajustar tudo em seu devido lugar. Uma clutch discreta foi colocada em minhas mãos, e dei um jeito de colocar a pulseira dourada dentro dela. E logo, mais uma vez eu estava na frente do espelho, fiquei alguns segundos parada, sentindo o peso do tecido, o frio do clima do lado de fora e o silêncio momentâneo do cômodo.

— Droga! — ela praguejou mordiscando a ponta da unha — Eu ainda não me decidi sobre qual daqueles saltos ficará melhor em você. — apontou para as duas opções à frente dos outros calçados.

Ambos eram scarpin, elegantes e altos na medida certa. Um era nude com a sola vermelha, e o outro era o preto clássico. Olhei para ela, minhas sobrancelhas pendendo em indecisão. Eu também não conseguiria escolher.

— Uma escolha difícil, Alice. — olhei de um para outro — Só que vou me arriscar na minha opção mais segura. — dei um olhar significativo para os saltos — O preto.

Seus olhos amarelos quase sorriram ante a minha escolha, erguendo o par, estendendo-o para mim.

— Você sabe caminhar com saltos, né? — me pareceu preocupada.

— Acredito que sim. — recolhi o par colocando-os no chão e calçando. Dei uma leve passeada pelo closet para Alice aprovar minha desenvoltura nas passadas — Só espero que aonde eu for, seja fácil para andar.

— Você anda bem. — soou aliviada, sorrindo — Vai dar tudo certo. — Alice foi confiante.

— Tem certeza de que eu não precisarei levar nenhuma botina? Sei lá... — fiz uma careta de indecisão — Vai que o jantar seja no meio de uma trilha?!

As minhas palavras fizeram Alice gargalhar, pendendo a cabeça para trás. Riu com gosto.

A temperatura da sala me contornava como ondas quentes que saía da lareira acesa, a chuva deu uma trégua um pouco quando ouvi o som grave de um motor se aproximando pela estrada de acesso à mansão. Não precisava olhar pela janela para saber que era ele, mas mesmo assim, olhei. Do ângulo que eu estava, meus olhos atentos puderam ver a Dodge RAM surgir pelo caminho entre as árvores como algo metálico demais para o cenário húmido desse lugar, a carroceria grande, escura, limpa apesar da estrada molhada. Não houve pressa na forma como estacionou. Nenhum gesto abrupto. Cole desceu do veículo depois de um instante com a mesma calma segura que parecia acompanhá-lo em tudo.

Meu estômago se contraiu num reflexo imediato.

— Ele chegou! — Alice anunciou atrás de mim, desnecessariamente, com um sorriso que dizia “eu sabia”.

Respirei fundo antes de me virar. Hilary estava sentadinha obedientemente no tapete da sala, concentrada demais em uma boneca para perceber o que estava me acontecendo. Helena, mais atenta a tudo, ergueu o rosto na mesma hora, os olhos claros me observando como se soubesse que algo estava fora da rotina. Me firmei sobre os saltos e me ajoelhei primeiro diante da Hilary.

— Amorzinho, a mamãe vai sair um pouquinho, tá? — disse baixo, ajeitando uma mecha do cabelo dela — A tia Esme e Alice ficarão com você.

Ela não respondeu com palavras, mas estendeu os bracinhos e me puxou para um abraço apertado com sua força, desajeitada, uma reação calorosa demais para alguém tão pequena. Apertei os olhos por um segundo a mais do que pretendia, aspirei seu perfume infantil e beijei-lhe os cabelos.

Depois foi a vez da Helena.

Disse-lhe que iria conhecer um lugar novo para mim, para jantar. Seus olhos claros absorviam todas as palavras que meus lábios articulavam para lhe explicar. Ela entendeu, era fácil para Helena, e não me vi nem um pouco surpresa quando ela afirmou que seria com Cole. Ela tocou meu rosto com cuidado, os dedos quentes e pequenos pousando na minha bochecha como se estivesse me reconhecendo de novo.

— Está tão bonita, mamãe. — disse, simples, sincera.

Senti o peito apertar. Sorri.

— Obrigada, meu amor.

Esme se aproximou, recebendo Helena com naturalidade, e me ofereceu um sorriso tranquilo. Alice inclinou levemente a cabeça, atenta a tudo o que não estava sendo dito. Me ajustei no sobretudo, sentindo o peso reconfortante sobre os ombros, e caminhei até a porta. Quando abri, o frio húmido de Forks me envolveu imediatamente.

Cole estava encostado na lateral da caminhonete, nem um pouco incomodado com os pingos d’água.

— Olá! — saudei.

E então eu realmente o vi.

Ele usava calça de alfaiataria escura, perfeitamente ajustada às coxas fortes, e uma camisa preta de tecido encorpado, aberta apenas o suficiente no colarinho para não parecer formal demais. Por cima, um casaco bem estruturado, sóbrio, caro, o que era perceptível pelo corte impecável.

Nada nele era ostensivo.

O tecido da camisa acompanhava o contorno do peito e dos braços de um jeito impossível de ignorar. Mesmo parado, mesmo relaxado, o corpo dele parecia carregado de força com músculos definidos demais para serem apenas biotipo, largos demais para passarem despercebidos em qualquer roupa que vestisse. Cole é o tipo de homem que não precisava se impor. O espaço se ajustava a ele. Quando seus olhos claros me encontraram, algo mudou na linha dos ombros dele. Um ajuste mínimo. Como se estivesse se preparando para mim.

— Oi Lee. — disse, o pequeno fragmento íntimo do meu nome com aquela voz baixa, firme, que parecia sempre chegar um segundo depois do som.

Desci os últimos degraus sentindo o olhar dele me acompanhar, não foi invasivo; não foi apressado, mas foi de profunda apreciação. Como se estivesse absorvendo cada detalhe: o vestido, o brilho discreto dos paetês, meu cabelo curto modelado de forma suave.

— Você está… — ele começou, depois parou, um sorriso contido surgindo no canto da boca — Exatamente como eu imaginei. E ainda assim, melhor. He bish ha’ba. Absurdamente linda.

Senti o calor subir pelo meio das costas até meu rosto, mesmo com o frio.

— Você também. — respondi, antes que o silêncio se tornasse denso demais.

Cole se aproximou. O seu calor me tocou antes mesmo de sua mão me tocar na cintura e circundar o braço ao meu redor, puxando-me em direção ao seu corpo, cobrindo-me em seu abraço. O cheiro de seu perfume inundou minhas narinas, embaralhando meus pensamentos. Deixei que meu corpo se apoiasse contra o seu erguendo meus braços no apoio de seus ombros, sentindo seu toque me apertar ainda mais contra si. Suspirei, sem me conter.

Uma de suas mãos deixaram minha cintura, trilhando um novo caminho por cima do sobretudo subindo por minha costa, a pele sensível do meu pescoço se arrepiou com seu toque, e não consegui conter o tremor quando seu calor chegou na minha nuca, tocando os primeiros fios de cabelo daquele local.

Sua mão se arrastou por entre as mechas deixando um rastro quente no meu couro cabeludo, fazendo com que minha cabeça pendesse para trás, erguendo meu queixo em sua direção. Bem perto. Perigosamente perto.

— Absurdamente linda.

O elogio ardeu por seus lábios tanto quanto sua temperatura e me atingiu. Seus olhos apesar de claros, pareciam conter uma chama entre os pontinhos castanhos que constantemente ficam tão discretos. Ergui ainda mais meu queixo, roçando meus lábios contra sua pele, ávida por mais. O seu calor me incentivava silenciosamente a me aproximar.

Mais. Mais. Mais.

Engoli em seco, mas não me retraí. Me elevei um pouco mais na ponta dos pés, seus olhos ardendo sobre mim e reivindiquei o toque cálido de seus lábios nos meus.

Por mais breves ou longos que fossem, sempre havia algo novo e diferente no sentir. Era sempre singular. Éramos os mesmos, mas sempre havia algo de diferente que parecia grunhir, vinha de fora e se alimentava dentro de mim.

Cole me recebeu bem. Mesmo que estivéssemos numa troca de afeto calmo, ele estava tão sedento quanto eu. Lento e intenso. Parecia combinar com nós.

Nos separamos momentos depois, havia sido o suficiente para os cumprimentos da noite. Nos afastamos um pouco quando me lembrei de que havia espectadores invisíveis me observando; ele havia murmurado algo por debaixo do fôlego parecido com não querer borrar minha maquiagem e me deu um pouco de espaço para me recompor, enquanto o próprio fazia o mesmo, mas suas mãos estavam quentes sobre mim e não seria eu a ordenar que não estivessem.

Ele abriu a porta do passageiro para mim com um gesto natural, educado. Antes de entrar, olhei uma última vez para a mansão, as luzes suaves atrás das janelas, minhas meninas seguras ali dentro. Estavam em segurança.

Algo em mim se fechou com cuidado. Outra coisa, nova e inquieta, se abriu.

Quando me acomodei no banco, Cole fechou a porta e contornou a caminhonete. Ao assumir o volante, o espaço pareceu mudar de eixo como se, a partir dali, o mundo tivesse decidido seguir um ritmo diferente. Acomodei a pequena bolsa sobre meu colo, abrindo-a para retirar a joia oculta ali dentro com tanto cuidado, que tive receio de Alice bater no vidro da porta exigindo que eu a devolvesse.

Toquei os elos com carinho e o estendi para Cole.

— Você pode colocar em mim?

Seus olhos claros analisaram a corrente conhecida e sem hesitação foram para suas mãos quando ele quase sussurrou um “Claro”. Parecia ainda mais delicada com ele.

Estendi o pulso enquanto ele ajustava a posição para poder fechá-la, seus dedos quentes tocando-me ante o movimento.

— Alice me fez tirar por não combinar tanto com tudo o que estou vestindo. — me percebi estar justificando — Só que me senti muito... incompleta sem ela.

Cole ergueu os olhos para mim e sorriu. Seus dedos se arrastaram ao redor do meu pulso, girando a pulseira dourada, o leve atrito dos elos e suas digitais na minha pele causaram arrepios. Sua mão envolveu a minha e ficamos ainda mais próximos, seus lábios tocaram o dorso da minha mão, dando um beijo ali.

— É bom saber que algo que eu dei te completa. — o ar quente que saiu com as palavras fizeram cócegas na minha mão. Sorri, o coração mais disparado dentro do peito. Ele se afastou com calma, sua mão ainda segurando a minha — Você lembra que Alice pode ouvir você daqui?

— Ah!... — exclamei, perdendo o contato de sua mão quente na minha e virei o rosto para olhar a mansão através da janela temendo ver a baixinha me olhar de cima zangada — Verdade, né?

O motor voltou a roncar baixo e quando a Dodge RAM começou a se afastar da mansão Cullen, sob o frio de Forks, eu tinha dentro de mim que essa noite não seria apenas um primeiro encontro. Era um começo consciente.

Aquela parte do caminho já era uma área remotamente conhecida para mim, em curtos momentos nós trocávamos breves diálogos, ora perguntando sobre Kaylee, ora perguntando sobre minhas meninas, e quando o silêncio ganhava espaço entre nós, ele era aceito, bem-vindo sem problema algum. Ouvi quando a seta foi acionada, e o veículo deixou a estrada principal de Forks e de acordo com a nova placa, entrou na La Push Road, a SR-110, onde a floresta parecia se fechar sobre o asfalto como um corredor selvagem. As árvores altas formavam um arco natural, e a chuva fina que caía ali criava um brilho contínuo sobre a pista, refletindo os faróis como se o caminho estivesse sendo desenhado à medida que avançávamos.

Através dele, agora eu conhecia essa estrada.

Mas Cole não reduziu a velocidade como imaginei que aconteceria, ele avançou e a partir de então, tudo era novidade para mim. Alguns minutos depois, um restaurante surgiu entre as árvores, discretamente recuado da estrada, quase escondido. Nenhuma placa chamativa. Apenas um letreiro baixo, elegante, iluminado por luz quente:

Tide & Timber

O prédio era uma fusão perfeita entre o ambiente e a elegância: madeira escura, vidro amplo e linhas arquitetônicas limpas, modernas, mas respeitosas com a paisagem. A fachada parecia ter crescido ali, não sido construída. Ao fundo, eu conseguia perceber o som distante do oceano, não visível aos meus olhos, mas presente, constante. Cole estacionou com precisão, desligando o motor antes de se virar para mim.

— Esse lugar… — comecei, observando o exterior pela janela.

— Foi o primeiro. — ele disse, simples — O primeiro restaurante da região a carregar uma parte da culinária quileute.

Havia algo no tom dele, nenhuma cadência de orgulho inflado, apenas me apresentava o fato. Interessante, pensei, olhando para a faixada mais uma vez, percebendo que sua porta já estava aberta e ele descia do veículo. O casaco dele se moveu com o vento leve, revelando novamente aquele porte impossível de ignorar. Cole abriu a porta para eu descer do carro, e o frio húmido da noite me envolveu imediatamente. Sua mão quente me deu o apoio necessário para firmar meus pés sobre o salto. Cada passo de Cole parecia calculado sem parecer rígido, natural e leve; o movimento era trabalhado numa harmonia de músculos pela estrutura do seu corpo.

Ao atravessarmos a porta, o mundo lá fora ficou para trás. O interior do Tide & Timber era intimista, mas amplo. Passeei meus olhos pelo ambiente. o teto alto sustentado por vigas de madeira aparente contrastava com paredes de pedra clara e vidro. Uma lareira central queimava baixo, criando um ponto de calor e luz que refletia suavemente nos detalhes metálicos do ambiente. A iluminação me pareceu ser pensada para não chamar atenção: luz âmbar, baixa, direcionada às mesas, deixando o restante do salão em sombras confortáveis. Nada gritava luxo, mas tudo mostrava dinheiro bem investido e bom gosto. As mesas eram espaçadas, permitindo conversas privadas.

Bastou um olhar para que o maître reconhecesse Cole imediatamente, mudando o foco da recepção para nós, chamando nossa atenção, atraindo nossos olhares. Nos aproximamos, ele se inclinou em uma reverência profunda, no limite entre o teatral e respeito profissional.

— Boa noite, Capitão. — saudou, com um leve sorriso — Sua mesa está à espera.

Capitão. A palavra pairou no ar. Eu gostei do som daquela palavra direcionada a Cole. Não era um título vazio, ou cerimonial apenas. Era um reconhecimento de quem ele realmente era.

Uma breve saudação foi dirigida a mim e logo nos ofereceram cabides para descansar nossos casacos, em seguida ele passou a nos direcionar. A nossa mesa ficava próxima a uma parede de vidro que dava vista para a escuridão da floresta húmida, onde pequenas luzes externas marcavam o contorno do terreno. Quando nos sentamos, percebi outros detalhes: a louça minimalista, pesada, feita à mão; talheres escuros, foscos; guardanapos de tecido espesso. Tudo ali tinha textura, peso e presença. Havia algo profundamente coerente naquela escolha. Era sofisticado, sim. Mas também honesto. O cardápio era enxuto, impresso em papel espesso, sem descrições exageradas. O foco estava nos ingredientes: linguado do Pacífico, salmão selvagem, bacalhau negro, mariscos locais.

Enquanto eu lia, percebi novamente o alinhamento do look de Cole com o ambiente: a camisa escura contrastando com a luz quente, revelando os ombros largos, o antebraço firme quando ele apoiava a mão na mesa. Tudo nele parecia fazer parte daquele cenário como se o lugar fosse uma extensão natural da vida que ele construiu.

— Eu queria que fosse aqui. — ele disse, me observando por cima do menu — Não só pelo status de serem o melhor restaurante da região, mas porque é... Faz parte da casa.

Levantei meus olhos para os seus, sentindo o peso suave daquela escolha.

— É o lugar perfeito. — respondi. E percebi que não estava falando apenas do restaurante de forte característica quileute.

A lareira estalou baixo ao fundo. A chuva seguia constante do lado de fora. E, desde que a Dodge RAM deixou a mansão Cullen, eu tive a certeza silenciosa de que aquela noite estava sendo conduzida com a mesma precisão cuidadosa com que Cole tem de conduzir sua própria vida. Nada era improvisado e muito menos excessivo.

Tudo ali, o lugar, o homem a minha frente, a forma como ele me observava dizia a mesma coisa: isso importa.

O garçom deixou duas taças de água sobre a mesa e se retirou em silêncio, como se entendesse que aquele primeiro instante precisava seguir sem interrupções. A luz âmbar do restaurante fazia o vidro das taças brilhar de forma suave, refletindo pequenos fragmentos no tampo escuro da mesa.

Eu ainda segurava o cardápio, mas percebia que meus olhos não estavam realmente lendo, estavam focados em absorver, sentir. O crepitar da lareira ao fundo, o murmúrio distante das outras mesas, o som abafado da chuva tocando o vidro alto atrás de mim. Tudo criava uma espécie de concha ao redor daquele momento.

Levantei o olhar novamente para Cole.

Ele estava apoiado levemente para trás na cadeira, uma postura relaxada que contrastava com a estrutura poderosa do corpo. Mais uma vez reparei no tecido da camisa escura se ajustava aos ombros largos e aos braços com uma precisão que não parecia acidental. Quando ele estendeu a mão para pegar o copo d’água, o movimento fez o antebraço tensionar de forma natural, músculos firmes sob a pele morena, definidos como os de alguém que passou boa parte da vida trabalhando com o próprio corpo antes de comandar homens e embarcações.

Eu desviei o olhar por um segundo tarde demais, e pude ver quando o canto da boca dele se ergueu.

— Você está tentando descobrir se aceitou vir ao lugar certo ou com o homem certo? — perguntou, a voz baixa o suficiente para não ultrapassar nossa mesa.

Soltei um pequeno riso, sentindo o calor subir pelo rosto.

— Ainda estou decidindo. — apertei meus olhos para percorrer as letrinhas do menu, mas não pude esconder meu sorriso que ainda persistia nos lábios.

Ele inclinou levemente a cabeça, aceitando o jogo sem pressionar.

— Justo.

Um garçom retornou com uma garrafa de vinho e parou ao lado da mesa.

— Senhor Uley, — disse com respeito tranquilo — o sommelier recomendou este Pinot Noir da região de Willamette Valley. — pausou — Harmoniza bem com os pescados desta noite.

Cole assentiu.

— Perfeito.

O vinho foi servido primeiro para ele. Cole observou o líquido rubi na taça com atenção breve antes de provar. Um gesto simples, mas que me revelava a familiaridade com aquele tipo de ritual. Nada exalava ostentação nele, mas havia uma autoridade silenciosa. Quando minha taça foi preenchida, o aroma subiu imediatamente: frutas escuras, algo terroso, quase lembrando madeira molhada depois da chuva.

— Você vem aqui com frequência? — perguntei.

Cole girou o vinho na taça antes de responder.

— Não tanto quanto poderia.

— Por quê? — minhas sobrancelhas franziram, e me esqueci do cardápio em minhas mãos.

Ele apoiou o cotovelo na mesa, inclinando-se um pouco mais perto.

— Porque eu não tinha tantos motivos, mesmo conhecendo o trabalho por trás de cada prato que sai da cozinha.

Aquilo me fez erguer as sobrancelhas.

— No sentido de conhecer o chef?

— No sentido de origem mesmo. Sei que eles recebem os peixes ainda ao amanhecer. — Cole explicou, ao notar meu olhar atento — Muitas vezes antes mesmo de chegar ao porto maior. É uma parceria direta. O que chega aqui… descarregou vivo poucas horas antes. — ele apontou discretamente para o cardápio aberto diante de mim — Vê esse linguado do Pacífico? — seu dedo indicador deslizou pela superfície do papel, apontando para as informações do prato em específico. Assenti — Esse peixe provavelmente foi capturado por um dos meus barcos. Talvez pelo Horizonte Noroeste, ou talvez pelo Nômade do Oceano. Dois dos maiores da frota. — ele falava com a tranquilidade de quem conhece cada detalhe da própria operação — Eles passam dias em alto mar. — continuou — Às vezes semanas. Quando o peixe chega ao porto, ainda antes do primeiro sol tocar o horizonte, uma parte da carga já está destinada aqui.

— Então esse restaurante… — comecei, entendo.

— Sim. Foi o primeiro que apostou todas as fichas na nossa pesca de alto-mar quando a empresa ainda estava crescendo, quando ninguém ainda queria se comprometer com volume e qualidade ao mesmo tempo. — ele levou a taça aos lábios novamente — Antes de eu ir a Ilwaco expandir as operações. Antes de Forks virar um dos principais centros logísticos da costa para nós.

Através dele, eu já sabia, vagamente, da importância econômica da pesca na região. Mas ouvir mais aquilo diretamente dele tornava tudo mais concreto.

— Quantas pessoas trabalham para você hoje? — perguntei.

— Diretamente? —Cole pensou por um momento — Mais de duzentas.

Aquilo me fez soltar um pequeno suspiro.

— E você ainda dirige uma Dodge RAM.

Ele riu baixo.

— Caminhonetes são mais úteis do que carros esportivos quando você cresce carregando redes e caixas de peixe.

Houve um breve silêncio depois disso, e nem um pouco desconfortável. Era tipo uma pausa que acontece quando duas pessoas começam a perceber que estão se conhecendo de verdade, ficando cada vez mais além da superfície.

Um garçom trouxe um prato, acomodando-o entre nós.

— Cortesia da casa. — explicou.

Olhei curiosa para isso: um prato largo com uma base de gelo raspado onde repousavam uma boa quantidade de conchas cinzentas e irregulares, já abertas. A massinha de dentro delas brilhava na luz, mergulhada em um pouco de um líquido translúcido.

Não soube dizer se era algo próprio ou um tempero colocado.

Era uma entrada simples que li no cardápio: ostras frescas sobre gelo triturado, acompanhadas por uma pequena porção de limão e molho mignonette.

Cole olhou para mim.

— Você gosta de ostras?

— Nunca provei. — encolhi os ombros, dando um sorriso leve.

— Sério? —ele ergueu uma sobrancelha, surpreso.

— Uh-rum. Cresci longe do mar.

Cole pegou uma das ostras com cuidado, inclinando o prato levemente na minha direção.

— Então hoje é um bom dia para mudar isso.

Olhei para o prato, hesitei. Ele percebeu.

— Confie em mim. — disse, em tom calmo.

Agrupei uma boa quantidade de ar dentro dos pulmões e soltei calma, devagar. Estendi minha mão em direção ao prato oferecido e peguei a ostra, imitando o gesto dele com o limão. Seguindo seus movimentos, eu espremi levemente; observei a ostra retrair-se quase imperceptivelmente ante a reação do ácido, confirmando o frescor que eu tanto temia e desejava. Cole pegou um do par de talher deixado ao lado do prato, e trocando o limão, fiz o mesmo; usei o pequeno garfo de dois dentes para cutucar a borda como ele me mostrou, sentindo a textura gelatinosa se desprender do fundo da concha com facilidade.

Com um incentivo silencioso vindo do homem a minha frente, levei a peça gelada aos lábios, sentindo o atrito da casca áspera contra minha pele. O cheiro de mar puro invadiu meu nariz. E ainda copiando seus gestos, eu inclinei a cabeça para trás e sorvi.

O conteúdo escorregou para dentro da minha boca de uma vez e a sensação foi inesperada: o primeiro impacto foi a sensação salina, fresca, quase viva. Como se a minha ideia do sabor do oceano tivesse sido capturado ali. Logo em seguida ocasionou uma doçura profundamente metálica que eu nunca tinha provado antes e uma textura tão macia que mal precisei mastigar, e não é como se eu tivesse certeza de que era necessário mastigar a coisa. Não era ruim, mas também não consegui firmar se era bom. Porém tive a sensação de que eu estava engolindo o próprio mar.

Fechei os olhos por uns segundos, processando a mescla de sabores. Eu havia esperado por algo borrachudo ou excessivamente forte, até mesmo repulsivo, mas a realidade era uma delicadeza que me pegou desprevenida. O frescor gelado daquilo deslizou pela minha garganta, deixando um rastro de mar que parecia limpar todos os meus sentidos.

— Isso é… — comecei.

— O sabor da costa. — completou.

Abri os olhos e não consegui conter um sorriso de canto, sentindo o gosto levemente adocicado que restava no paladar. Era vibrante, vivo. Encontrei o olhar de Cole me observando com uma sobrancelha erguida e um sorriso de quem já previa a minha reação.

— E então? — ele perguntou, a voz encorpada numa diversão contida — Sobreviveu à primeira experiência ou preciso chamar o resgate?

Soltei um riso leve junto com ele, balançando a cabeça em negação enquanto passava o guardanapo nos lábios com a mão esquerda.

— Eu estava preparada para odiar! Juro. Achei que teria gosto de... bem, de..., eu não sei, de fundo do mar apodrecido?! — confessei, sentindo meu rosto esquentar um pouco pelo receio superado — Mas eu diria que é incrível... É gelado, diferente. Como eu nunca provei isso antes?

Olhei para a concha vazia na mão, agora apenas um casco de nácar brilhante, e imediatamente senti vontade de repetir o gesto. Sorri abertamente para ele e estendi minha mão para abandonar àquela concha vazia no gelo e ir para a próxima concha.

— É um caminho sem volta. — ele brincou, inclinando-se um pouco mais sobre a mesa, o brilho nos olhos dele deixando claro que ele estava adorando aquele momento de descoberta tanto quanto eu — A partir de agora, você vai virar uma crítica gastronômica exigente.

— Talvez. — respondi, devolvendo o sorriso e já alcançando a próxima concha no prato — Mas só se você me prometer que não vai ficar rindo da minha cara de choque toda vez que eu gostar de algo novo.

Eu tinha acabado de descobrir um prazer novo, sofisticado e selvagem ao mesmo tempo, e a sensação de que eu poderia comer uma dúzia delas sozinha me fez rir baixinho da minha própria hesitação anterior.

— Promessa difícil de cumprir, Lee. Você fica ótima quando está surpresa.

O garçom retornou tempo depois para o pedido principal. Cole deixou que eu escolhesse primeiro. Depois de alguns segundos de indecisão, optei pelo salmão selvagem grelhado com redução de vinho e ervas costeiras. Cole escolheu o bacalhau negro do Pacífico, servido com purê de raiz de aipo e cogumelos da floresta.

Quando o garçom se afastou novamente, ficamos apenas nós dois degustando da entrada. Cole não precisou me incentivar pela segunda vez, e uma conversa amena surgia pelos nossos lábios.

A lareira estalou mais alto num momento. Do lado de fora, a chuva havia aumentado, formando pequenos rios sobre o vidro. Cole observou aquilo por alguns segundos antes de falar:

— Posso perguntar uma coisa?

Assenti.

— O que te fez dizer sim?

A pergunta me pegou desprevenida. Poderia ter sido muitas coisas. A forma como ele me via. O cuidado nas palavras. Os textos breves na minha caixa de mensagens. A sensação estranha de segurança absoluta que eu sentia perto dele. E até mesmo à distância.

Mas a verdade era mais simples.

— Você... Nunca me pareceu interessado em me impressionar. — respondi — Parecia interessado em ser… honesto. Bom..., pelo menos na segunda vista, né? Você estava muito mal-humorado na primeira. — rimos, um riso fraco, sem jeito — Eu não me esqueci de nenhuma das suas palavras naquela manhã, no porto, Cole. E quero assumir que o que nós estamos vivendo é real para todos. Para mim, principalmente.

Cole me observou em silêncio por alguns segundos e eu mantive a intensidade do olhar a altura. Era um olhar profundo, atento, como se estivesse avaliando cada nuance da resposta. E como eu usei suas próprias palavras para justificar.

— E você? — perguntei — Por que me convidou?

Ele não respondeu imediatamente. O garçom trouxe os pratos naquele instante, e o aroma quente de peixe grelhado e ervas tomou o espaço entre nós. Cole esperou o garçom sair. Então se inclinou levemente sobre a mesa.

— Porque você não olha para mim como todo mundo olha. Desde a primeira vez, — pontuou — e isso mudou a minha vida. Por isso te disse tudo aquilo naquela manhã.

Meu coração deu um salto. Um suspiro escapou por entre meus lábios.

— Como todo mundo te olha? — foi o que saiu de mim logo em seguida. Não era o mais importante, mas foi tudo que me escapou.

Ele deu um pequeno sorriso.

— Como um homem que ainda não estava firme nas suas raízes indígenas e dádivas do seu sangue... Como alguém que mede valor apenas pelo tamanho da empresa ou pelos barcos no porto.

Eu não tinha pensado nisso.

— E como eu te olho? — eu quis muito saber, a ponto de me não me conter ao inclinar a frente da mesa. Ele me encarou diretamente. No profundo dos meus olhos.

— Como se ainda estivesse decidindo quem eu realmente sou. E me aceitasse mesmo que não saiba totalmente.

Senti algo apertar no peito e não era um tipo de desconforto. Havia algo bem ali, era perceptível, nas entrelinhas, tive um leve lampejo de reconhecimento. Mas não forte o bastante para que eu pudesse realmente ler e entender.

Meu cenho se franziu, e meu corpo não soube bem o que expressar; num reflexo de incompreensão peguei o garfo, tentando retomar o ritmo normal da conversa. Sorri para ele, mas percebi que algo havia mudado.

A noite continuava tranquila. A comida era saborosa, excepcional. A lareira queimava em labaredas baixas. E ainda assim… Havia uma tensão sutil no ar, quente, como se a mesa, esse restaurante escondido entre a floresta e o mar, tivesse se tornado o ponto exato onde duas histórias diferentes começavam a se aproximar de verdade. Oficializando a verdade. E enquanto eu via Cole voltar a cortar o peixe com precisão e movimento tranquilo, percebi algo que não havia notado antes. Cole não parecia apenas interessado em jantar comigo. Ele parecia interessado em entender ainda mais quem eu era.

E aquela minha descoberta, silenciosa e inesperada, fez meu coração bater um pouco mais rápido do que eu estava preparada. Havia uma nova variação nos batimentos do meu coração; se é que isso possa ser possível.

O aroma do salmão subia quente do prato quando levei o primeiro pedaço à boca. Era macio, notavelmente fresco, com um sabor profundo que parecia carregar algo do próprio oceano. Por um momento eu apenas mastiguei em silêncio, absorvendo a sensação.

Cole me observava com atenção, pacífico.

— Isso vem de um dos meus barcos. — comentou, quase casualmente.

— Então você está literalmente me alimentando com o resultado do seu trabalho. — respondi, erguendo uma sobrancelha.

O sorriso dele apareceu aos poucos.

— Eu poderia dizer que sim.

Houve um pequeno silêncio confortável enquanto continuávamos comendo. A lareira estalava baixo atrás de nós, e o som da chuva mais forte contra o vidro criava um ritmo constante no fundo do ambiente.

Eu apoiei o garfo na borda do prato. Uma nova curiosidade se tornando som na ponta da minha língua.

— Você sempre quis trabalhar com pesca?

Cole inclinou a cabeça, pensativo, como se estivesse voltando no tempo.

— Sempre quis estar perto do mar. — ele girou a taça de vinho entre os dedos antes de continuar — Quando eu era criança, o porto não era exatamente grandioso.

— Imagino.

Ele soltou um pequeno riso.

— O porto em La Push era… bem simples, mal existia. Só algumas docas antigas, barcos pequenos, redes penduradas para secar. Nada da estrutura que existe hoje.

Eu tentei imaginar aquilo. O garoto que ele tinha sido naquele cenário.

— Eu passava as manhãs lá. — continuou — Antes da escola, às vezes depois. Meu pai me levava quando ainda estava escuro. — o nome veio com naturalidade na voz dele — Meu pai se chamava Arthur.

Havia respeito naquele simples modo de pronunciá-lo.

— Ele era pescador? — minha cabeça se inclinou levemente para um lado.

— Capitão de barco. — respondeu Cole — Não dos grandes. Um barco de médio porte, forte o suficiente para enfrentar o Pacífico, mas pequeno o bastante para que cada homem a bordo fosse essencial. — ele fez uma pausa curta — Eu achava que aquilo era o maior mundo possível.

— E não era?

Cole olhou para mim.

— Era o começo dele.

Senti um calor inesperado no peito com aquela resposta.

— O que você fazia no porto quando era pequeno?

— Principalmente atrapalhava. — ele apoiou os braços sobre a mesa, mais relaxado agora. Ri. Meus olhos até se fecharam quando o fiz — Eu carregava caixas menores, aprendia a consertar redes, escutava os pescadores reclamando do tempo, das marés, dos preços do mercado.

— Parece uma boa escola.

— É. E foi. — ele pegou o garfo novamente, cortando o bacalhau com precisão antes de continuar — Meu pai dizia que o mar não aceita arrogância. Se você entra achando que manda nele… ele te dá um sacode rapidinho.

O modo como Cole falou aquilo me fez imaginar Arthur com clareza. Um homem forte, moldado pelo oceano, ensinando o filho a respeitar algo maior do que ele.

— Então sua empresa… — comecei.

— É uma extensão disso. — ele não hesitou — Eu só ampliei o que aprendi lá.

Houve um pequeno brilho nos olhos dele quando falou aquilo. Não era orgulho superficial, era algo mais profundo.

— E sua família? — perguntei, deixando-o entender que eu abrangia para além de Franchesca — Você sempre comenta mais de uma prima… Rebecca.

O sorriso dele mudou imediatamente. Mais leve.

— Rebecca sempre foi a que acreditava que qualquer dia podia ser transformado em algo especial.

— Mesmo em Forks? — brinquei.

— Especialmente em Forks. — ele riu — Ela adorava organizar piqueniques pela reserva.

— Na chuva?

— Na chuva.

Eu ri de novo.

— Isso parece impossível.

— Acredite, não para ela. — ele apoiou o cotovelo na mesa — Imagine só... Uma garota que aparecia com uma cesta enorme, cobertores, comida suficiente para alimentar metade da reserva… e um plano completamente otimista de que o céu abriria em algum momento.

— E abria?!

— Às vezes não. — Cole deu de ombros.

— Então vocês comiam embaixo de chuva?

— Muitas vezes. —ele parecia genuinamente divertido com a memória — Eu ajudava a montar tudo. Estender os cobertores, segurar a cesta enquanto ela organizava as coisas.

— Parece que você era o assistente oficial dela.

— Eu era o único, além do Embry, que ela conseguia convencer a ajudar sem reclamar.

— Você reclamava sim. — acusei, sem acreditar que ele aceitasse de bom grado, mesmo que fosse para a prima.

— Bastante. — ele confessou e sorriu.

— Mas pelo menos sempre aparecia. — pontuei com um leve sorriso.

Houve um pequeno silêncio enquanto eu imaginava aquilo: Cole mais jovem, carregando cestas de piquenique sob um céu cinza constante.

— E a mãe dela? — perguntei — Você já mencionou algo dela para mim.

Ele assentiu.

— Tia Olívia trabalhava muito no centro comunitário da reserva.

— Fazendo o quê? — me inclinei um pouco para frente.

— De tudo um pouco. —ele pousou o garfo — Eventos culturais, oficinas de artesanato tradicional, reuniões da comunidade. Não que ela parado, é claro. —o olhar dele ficou mais nostálgico — Às vezes eu ajudava a descarregar materiais. Madeira, tintas, tecidos.

— Você sempre esteve… bem prestativo com sua família.

— Era o que se esperava. —ele disse aquilo com simplicidade — E também era o que eu queria. —Cole tomou um gole de vinho antes de continuar — Minha tia sempre diz que comunidade não é algo que você só observa de fora. É algo que você constrói participando até com pequenas coisas.

— Como carregar muitas caixas.

— Exatamente.

Eu apoiei o queixo levemente na mão.

— Então você tinha três empregos quando era jovem.

— Três?

— O porto, os piqueniques e o centro comunitário. — numerei.

Ele riu.

— Não esqueça da escola.

— Oh, essa parece a parte menos interessante.

— Em alguns dias era mesmo.

Houve outro silêncio confortável entre nós. Mas agora era diferente. Mais próximo. Cole me observava com atenção, e eu percebia que havia uma espécie de curiosidade recíproca crescendo ali.

— Tudo isso…, — murmurei — ainda permanece em você.

Ele franziu levemente a testa.

— Como assim?

— A forma como você fala da sua empresa. — apontei discretamente para o prato — Isso não parece apenas negócio.

Cole ficou quieto por alguns segundos. Então assentiu.

— Não, não é. — a voz dele ficou um pouco mais baixa — Cada barco que sai para o mar carrega mais do que a carga. Carrega famílias, amores, histórias, expectativas. — ele olhou diretamente para mim — Eu sei exatamente o que significa esperar alguém voltar do oceano.

Senti algo apertar dentro de mim ao ouvir aquilo.

— Por causa do seu pai?

Ele não respondeu imediatamente. Mas o silêncio não era pesado. Era respeitoso.

— Meu pai me ensinou tudo que eu precisava saber sobre o mar. — disse por fim — E sobre responsabilidade. — a lareira estalou novamente — Quando ele morreu…, — continuou — eu já sabia o que precisava fazer. Continuar. Honrar. — ele inclinou levemente a cabeça — O que eu construí depois… a frota, os portos, a empresa… tudo isso é uma versão ampliada daquilo que começou com ele. — Cole passou os dedos lentamente pela borda da taça — Cada barco que parte, carrega um pouco da memória dele.

Eu senti algo quente se espalhar pelo peito.

— Isso é… algo bonito.

Ele deu um pequeno sorriso.

— É apenas verdadeiro. — o silêncio voltou por alguns segundos, mas desta vez havia algo mais entre nós. Algo que parecia crescer na mesma direção. Cole me observou com uma intensidade tranquila — Agora é minha vez de perguntar algo.

— O quê?

— O que moldou você dessa forma?

Meu coração bateu um pouco mais forte. A pergunta não era invasiva, mas era profunda. E enquanto a chuva continuava caindo do lado de fora e o restaurante permanecia envolto em luz quente, percebi que aquela noite estava se transformando em algo muito mais significativo do que apenas um jantar de primeiro encontro. Significativo o suficiente para me fazer desejar mais jantares como esse pelo resto da minha vida. Era o início de uma confiança mais profunda e, talvez, de algo ainda mais perigoso.

Algo que ambos parecíamos estar a querer descobrir.

A pergunta dele ficou entre nós por alguns segundos. Não me pressionando, apenas preenchendo o espaço. Cole não desviou o olhar, e isso era curioso. Muitas pessoas perguntam coisas profundas apenas por educação. Ele não parecia fazer nada por educação. Parecia realmente disposto a ouvir.

Passei os dedos lentamente pela haste da taça de vinho.

— Isso depende… — murmurei.

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Do quê?

— Do quanto você quer ouvir de mim.

O canto da boca dele se curvou de forma quase imperceptível.

— Lee, eu trabalho com o oceano e tenho o sangue quileute em minhas veias. Tive que aprender a ter paciência para profundidades.

Aquilo me fez soltar um pequeno riso.

— Justo. — dei uma pausa para agrupar tudo que seria necessário, respirei fundo antes de o responder — A maternidade me moldou mais do que qualquer outra coisa. Mais do que a adoção e mais do que até mesmo o luto. — houve uma pausa prolongada, ele não interrompeu — Quando você tem uma criança…, — continuei — você começa a ver o mundo de outra forma. Cada decisão pesa mais. Cada risco parece maior. — Cole apoiou o cotovelo na mesa, escutando com atenção verdadeira — Angie me ensinou a amar. Hilary me ensinou a ser mais forte mesmo quando eu não tinha certeza se conseguia.

Houve um breve silêncio.

— E Helena? —o modo como ele mencionou o nome foi cuidadoso. Eu firmei o olhar.

— Helena me ensinou algo diferente.

— O quê?

Sorri de leve.

— Coragem.

Ele absorveu aquilo em silêncio.

O garçom passou discretamente pela mesa para retirar alguns pratos vazios, deixando apenas o vinho e pequenas velas que queimavam devagar no centro da mesa e o calor suave da lareira. Do lado de fora, a chuva havia diminuído. Agora era apenas uma neblina como um véu constante tocando o vidro.

Cole se recostou um pouco na cadeira.

— Você fala das três como se cada uma tivesse transformado uma parte diferente de você.

— E transformaram. — anuí.

— Isso não parece ter sido fácil. — seus olhos divagaram por um segundo.

— Não foi. Você viu que não foi.

Ele assentiu lentamente, respeitando o limite implícito naquela resposta. Por alguns instantes apenas bebemos o vinho em silêncio e então ele disse algo que me pegou de surpresa.

— Você sabe o que eu pensei quando te vi pela primeira vez?

— Isso deveria me preocupar? — ergui as sobrancelhas.

— Provavelmente.

— Então diga. — pedi.

Cole apoiou os antebraços na mesa, a luz da vela refletiu brevemente nos olhos dele.

— Eu pensei que era como ver pela primeira vez, após viver de olhos abertos sem realmente enxergar; e você parecia alguém que carregava muitas histórias… mas não deixava que elas definissem quem você era.

Aquilo me fez piscar algumas vezes.

— Essa é uma leitura muito específica para um primeiro olhar.

Ele deu de ombros.

— Eu passo muito tempo observando o horizonte. Acabei aprendendo a perceber detalhes.

— Você compara pessoas ao mar com frequência?

— Só as mais interessantes.

Senti o calor subir novamente ao rosto. Peguei a taça de vinho para disfarçar.

— Então me diga, — falei depois de um gole — quando foi a primeira vez que você percebeu que seu negócio estava… crescendo de verdade?

Cole soltou um pequeno suspiro pensativo.

— Provavelmente quando compramos o segundo barco grande.

— O Nômade do Oceano?

Ele sorriu.

— Você prestou atenção.

— Eu tento.

Ele passou a mão pelo queixo por um instante antes de continuar.

— O primeiro barco grande foi um salto enorme. O segundo… foi quando percebi que não era mais apenas o foco da sobrevivência. Era uma potencial expansão.

— Isso deve ter sido assustador, no bom sentido.

— Foi mesmo. — ele não hesitou — Crescer no ramo significa carregar mais responsabilidades. Mais famílias dependem de você. Mais decisões importam.

— Você sente esse peso?

— Todos os dias. — Cole me encarou diretamente. Havia algo profundamente sincero na forma como ele disse aquilo — Mas também há orgulho. — continuou — Não no dinheiro. — ele fez um gesto pequeno com a mão — No fato de que hoje muitos dos pescadores que trabalham para mim têm estabilidade. Seguro. Casas melhores.

— Comunidade. — murmurei.

Ele assentiu.

— Sempre foi isso.

Por um momento eu apenas o observei. Era fácil entender por que as pessoas o respeitavam, não era apenas por também ser proprietário da empresa. Era pela forma como ele carregava aquilo.

— Posso te fazer outra pergunta? — ele disse.

— Pode. — permiti.

— Você sempre viveu em Casper?

— Não. —balancei a cabeça.

— Mas parece que você pertenceu muito bem àquele lugar. Sempre comentou com carinho.

Olhei pela janela por um instante. A floresta escura além do vidro parecia respirar sob a chuva leve.

— Talvez porque a maior parte da minha vida eu passei lá. E agora..., estou tendo oportunidade de continuar, aqui eu tenho encontrado espaço para recomeçar.

Quando voltei o olhar para ele, Cole estava me observando de uma forma diferente, mais carinhoso.

— Recomeços são importantes. — disse ele.

— Você já precisou de um?

Ele sorriu de leve.

— Vários.

— Como qual?

Ele pensou por um instante.

— Quando percebi que não poderia passar a vida inteira no mar.

Aquilo me surpreendeu.

— Você sente falta?

Cole ficou em silêncio por alguns segundos.

— Às vezes. — ele olhou para as próprias mãos antes de continuar — Há algo diferente em comandar um barco no meio do Pacífico. O vento, o cheiro de sal, a sensação de que você está exatamente onde deveria estar.

— E por que parou?

Ele ergueu o olhar novamente.

— Porque liderar homens e uma frota exige estar em terra.

A resposta foi simples. Mas percebi que havia algo de sacrificial nela.

— Você trocou o mar pela responsabilidade.

— Eu troquei a solidão pela construção. Foi necessário, e não me arrependo.

O silêncio que veio depois foi um pouco mais diferente, um aspecto novo, mais profundo, carregado. E quando nossos olhos se encontraram novamente, Cole pegou a taça de vinho mais uma vez.

— O que você mais sente falta em Casper, Amberli? — ele perguntou, e o modo como pronunciou meu nome fez meu estômago dar um nó apertado, uma mistura de vertigem e entrega; ele realmente queria acessar as partes de mim que eu costumava manter trancadas.

— Sinto falta da minha melhor amiga, Leonor. — respondi, a verdade subiu à garganta e senti o peso dessa confissão pairar sobre a mesa. Sustentei o olhar dele, mergulhando naquelas írises e só de dizer o nome dela, senti aquele aperto familiar no peito — Ela se mudou para Casper quando éramos crianças e, desde então, viramos uma extensão uma da outra.

Fiz uma pausa, observando como a luz da vela deixava o verde dos olhos dele ainda mais denso, quase magnético.

— Hã... A gente não se desgrudava para nada; era aquela amizade que você cresce achando que é imune ao tempo. Mas a vida tem esse jeito silencioso de desbotar as coisas. Ela foi para uma faculdade distante, em outro estado, a distância física acabou virando uma distância emocional que eu não soube como evitar. — sustentei o olhar dele, sentindo uma vulnerabilidade que não era desconfortável, mas intensa. Era estranho como, mesmo falando de uma perda, a presença de Cole ali, focado em cada palavra minha, me fazia sentir estranhamente completa naquele momento — As mensagens foram ficando raras, os assuntos já não batiam mais... e a gente simplesmente se perdeu. Dói perceber que o contato sumiu aos poucos, sem uma briga, sem um motivo real. Só o vazio do que a gente costumava ser.

Enquanto eu falava, Cole não desviou o olhar nem por um segundo. Ficar ali, sob o escrutínio daquela intensidade cor de verde, era como ser lida por dentro. Eu sentia uma sedução latente no modo como ele processava minha dor, um entendimento que não precisava de frases feitas.

Eu me perdi na textura daquele momento, uma emoção sem nome me atravessando: era a percepção de que Cole não estava apenas ouvindo minha história, ele estava habitando o meu silêncio, transformando minha melancolia em algo denso, orgânico e perigosamente íntimo. Com o brilho das velas tremulando entre nós, percebi quando ele se inclinou, a voz descendo um tom, carregada daquela gravidade que sempre me desarmava.

— Sabe uma coisa curiosa?

— O quê? — pisquei meus olhos e firmei meus olhos nos seus.

— Quando eu te convidei para sair… eu imaginei que a noite seria agradável.

— Apenas agradável? — ergui a sobrancelha.

— Sim. — ele inclinou levemente a cabeça — Eu não imaginei que seria… assim.

— Assim como? — encolhi os ombros.

Cole me observou por um momento antes de responder.

— Como duas pessoas descobrindo que talvez tenham muito mais em comum do que esperavam.

Senti meu coração bater mais rápido e sorri, assentindo.

Do lado de fora, a névoa dava um aspecto de um ambiente quase parado, dentro do restaurante, a lareira continuava queimando baixo, a música ambiente soava agradável e naquele instante eu percebi algo que talvez estivesse evitando admitir desde o começo da noite. Eu não estava apenas amando toda nossa conversa. Eu estava começando a me apaixonar por ele.

E a forma tranquila com que Cole continuava me observando sugeria que ele havia percebido exatamente a mesma coisa. E gostava o que estava vendo.

A constatação de que eu estava começando a me apaixonar por ele não desapareceu. Pelo contrário, ela ficou ali, silenciosa, ocupando o espaço entre nós. Cole parecia perceber isso também. Não havia pressa nos gestos dele, mas havia uma mudança sutil na forma como se inclinava um pouco mais para frente, como se quisesse diminuir a distância da mesa sem parecer que estava fazendo isso. O jantar parecia suspenso em um tempo só nosso, onde o tilintar dos talheres e o murmúrio das outras mesas eram apenas ruídos de um mundo que não nos pertencia. Eu me perdia naquela imensidão dos olhos esmeralda diante de mim, decifrando os veios terrosos que cruzavam as írises de Cole como se fossem segredos contados em voz baixa. Havia uma sensualidade crua ali, mas envolta na delicadeza de quem parecia me proteger com o simples ato de me enxergar.

Agora o restaurante estava mais quieto. Algumas mesas já tinham sido liberadas, e o murmúrio ao redor diminuía lentamente.

Cole girou a taça entre os dedos antes de olhar para mim. Minha respiração travou quando ele quebrou o silêncio, inclinando-se levemente, o brilho da vela refletido no verde do seu olhar.

— Posso dizer uma coisa sem parecer presunçoso?

— Depende muito da coisa. — respondi, apoiando o cotovelo na mesa.

O sorriso dele se aprofundou um pouco.

— Eu estava curioso... — a voz dele saiu baixa, e trazia um calor — Queria descobrir se você era assim mesmo ou se era apenas uma impressão minha.

Senti o peso daquela frase e o calor subir pelo meu pescoço. Sustentei o olhar, embora meu coração batesse contra as costelas em um ritmo desenfreado.

— Assim como? — perguntei, minha voz saindo quase como um sussurro, uma confissão de que ele tinha toda a minha atenção.

Ele não respondeu imediatamente. Cole deixou que o olhar abandonasse meus olhos por um instante, iniciando um percurso lento e deliberado que me fez sentir um calafrio elétrico. Vi seus olhos percorrerem o contorno do meu rosto, deslizarem pela textura do meu cabelo curto e descerem, sem pressa, pelo decote do meu vestido. Era um olhar que possuía o peso de um toque físico.

Quando ele finalmente voltou a ancorar o verde nos meus castanhos, a intensidade era quase insuportável.

— Difícil de ignorar. — ele respondeu, com uma franqueza tão atraente que o ar ao meu redor pareceu rarefeito.

Senti um calor subir pela minha pele. Fiquei ali, presa naquela verdade orgânica, sentindo que cada pequeno rastro castanho no olhar dele agora guardava um pouco de mim também.

O silêncio que se seguiu àquela confissão de Cole não era vazio; era uma substância densa, quase tátil, que preenchia o espaço entre nossos cálices de vinho. Senti o calor subir pelo meu pescoço, uma reação que eu não conseguia domar, enquanto o eco de suas palavras, difícil de ignorar, reverberava em cada terminação nervosa minha.

Eu o observava, ainda presa naquela imensidão esmeralda. Agora, os veios terrosos que cruzavam sua íris não pareciam apenas segredos; pareciam convites. Havia uma verdade orgânica ali, algo que remetia ao cheiro de terra molhada e à solidez das pedras antigas, uma sensualidade que não precisava de esforço para se impor.

— Isso parece um elogio perigoso. Você diz isso como se fosse um problema. — respondi me ajustando no assento, minha voz recuperando a cadência, embora o tom tivesse descido uma oitava, carregado pela mesma gravidade que ele impunha ao momento.

Apoiei os cotovelos na mesa, aproximando-me apenas o suficiente para que o perfume dele, algo que lembrava floresta e uma masculinidade limpa, nublasse meus sentidos e aguasse minha boca. Eu queria que ele sentisse que, para mim, ele também era um enigma impossível de deixar de lado.

Constantemente.

— Talvez seja.

— Então por que dizer? — indaguei, deixando meus olhos percorrerem o desenho da mandíbula dele antes de voltarem para o verde-claro de seu olhar — E você? É sempre assim, tão deliberado no que diz, ou é apenas uma impressão minha de que cada palavra sua é um teste?

Cole deu um pequeno suspiro divertido, inclinou a cabeça, um brilho de diversão misturado a um desejo contido iluminando suas feições. Ele não desviou. Sob a luz âmbar que transformava seus olhos em joias brutas, eu entendi que não estava apenas sendo observada, estávamos ambos mergulhando em águas profundas, onde a delicadeza de um gesto escondia a intensidade de um incêndio que nenhum de nós dois parecia disposto a apagar.

— Porque eu não sou muito bom em fingir indiferença.

A forma direta com que ele falou aquilo me fez rir baixo, um som que escapou quase como um desabafo de tensão. Havia algo tão cru naquela confissão, algo que combinava perfeitamente com a natureza dele.

— Isso explica muita coisa. — falei, sentindo o peso do meu próprio olhar sobre o dele.

— Como o quê? — ele arqueou uma sobrancelha, o verde-claro dos olhos brilhando com uma curiosidade genuína.

— Como o fato de você ter finalmente me convidado para sair, sem rodeios.

Cole inclinou a cabeça, um movimento lento que fez os rastros castanhos de sua íris captarem a luz âmbar das velas, tornando-os quase dourados.

— Você preferia rodeios?

— Não. — balancei a cabeça em negativa, sentindo o roçar suave do meu cabelo curto contra a nuca, um contraste frio para o calor que subia pelo meu rosto — Gosto da clareza.

— Então estamos quites. — ele disse, com uma satisfação contida que beirava a possessividade.

Peguei a taça de vinho e dei um pequeno gole, sentindo o líquido frio descer enquanto tentava, em vão, ignorar a forma como o olhar dele parecia pesar um pouco mais agora. Era um peso bom, uma gravidade que me firmava ali, naquela mesa, naquele momento exclusivo.

— Posso perguntar outra coisa? — ele disse, a voz baixando um tom, tornando-se algo íntimo, feito apenas para os meus ouvidos.

Apoiei a taça de volta na mesa, meus dedos ainda gelados pelo cristal, o jantar ao nosso redor havia desaparecido; éramos apenas nós dois e aquela corrente elétrica que ameaçava transbordar.

— Você faz muitas perguntas. — respondi, quase sem fôlego, esperando pelo que quer que viesse daquela imensidão esmeralda.

— Só quando estou interessado em uma coisa.

— Interessado em quê coisa? — apertei os olhos, deixando a taça descansar entre meus dedos, mas sem quebrar o contato visual. O cristal era frio contra a minha pele.

Cole se inclinou um pouco mais, e a luz das velas sobre a mesa pareceu se concentrar inteiramente no verde-claro dos seus olhos. Aqueles rastrinhos castanhos, que eu antes via como segredos, agora pareciam labirintos onde eu aceitaria de bom grado me perder.

Cole apoiou os braços na mesa novamente, um movimento que exalava uma confiança que me desarmava.

— Em descobrir até onde vai essa sua calma.

Arqueei uma sobrancelha, sentindo um desafio silencioso pairar no ar.

— Minha calma?

— Você parece tranquila. Segura. Mas também parece que existe uma parte sua que… — ele fez um pequeno gesto com a mão, procurando a palavra entre nós, como se tentasse capturar a própria essência do que eu era — ainda não decidiu se deve confiar completamente no momento.

Fiquei alguns segundos olhando para ele, mergulhando nos veios terrosos de sua íris. Era como se ele estivesse lendo as entrelinhas da minha alma, as partes que eu guardava em silêncio.

— Você sempre analisa tanto assim as pessoas?

— Só quando elas me intrigam. — rebateu, a voz carregada de uma sensualidade que não precisava de esforço.

O silêncio que veio depois foi carregado, denso, quase tátil. A conversa começou a caminhar por outro território. Cole quebrou o silêncio primeiro:

— Posso confessar outra coisa?

— Você está em uma noite muito confessional. — observei, sentindo um leve sorriso brincar em meus lábios.

— Talvez seja culpa do vinho.

— Ou da companhia. — tentei não sorrir, mas a provocação brilhou no meu olhar.

O sorriso dele apareceu de novo, iluminando as facetas verdes de seus olhos como o sol que atravessa a copa das árvores.

— Provavelmente da companhia. — ele se inclinou um pouco mais, invadindo meu espaço pessoal de uma forma que fazia minha pele formigar — Quando você desceu os degraus da mansão hoje… eu precisei lembrar a mim mesmo de não ficar olhando por tempo demais.

Soltei uma pequena risada surpresa, o som me escapando antes que eu pudesse contê-lo.

— Eu não acredito nisso.

— Por quê?

— Porque você me parecia muito controlado.

— Eu estava sendo. — ele apoiou o queixo brevemente na mão, o olhar fixo no meu com uma franqueza absoluta — Não significa que estava sendo fácil.

O calor voltou ao meu rosto, uma quentura que começava na nuca e se espalhava pelas minhas bochechas.

— Você está tentando me deixar nervosa? — perguntei, buscando um resquício daquela calma que ele tanto mencionara.

— Está funcionando? — Cole perguntou, e eu pude ver a diversão e o desejo dançando naquela imensidão à minha frente.

— Um pouco. — admiti, a honestidade vencendo o meu orgulho.

— Então talvez eu esteja fazendo algo certo.

Balancei a cabeça, rindo da audácia dele, da forma como ele parecia ler meus movimentos antes mesmo de eu os executar.

— Você é perigoso, Cole.

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— Perigoso?

— Sim. — afirmei, sentindo o peso daquela verdade.

— Por que você acha isso? — ele quis saber, a voz baixando para um sussurro que parecia uma carícia.

— Porque eu sinto isso. Sem contar que você fala como se tudo fosse muito simples.

Ele me observou, inclinando levemente a cabeça, os olhos de olivinas raras me estudando com uma profundidade que me fazia sentir nua e protegida ao mesmo tempo.

— Algumas coisas são simples. — afirmou.

— Como o quê? — eu quis saber, meu coração já acelerando em antecipação.

Cole sustentou meu olhar por alguns segundos antes de responder. A verdade ali era tão crua que parecia brilhar.

— Como perceber quando a ligação entre duas pessoas é forte e real.

Meu coração deu um pequeno salto, um tropeço no ritmo que ecoou em meus ouvidos.

— E você acha que isso está acontecendo?

Ele não desviou o olhar. Pelo contrário, mergulhou ainda mais fundo no meu, como se estivesse selando uma promessa que a natureza já havia feito por nós.

— Acho que você também já percebeu. — me respondeu.

Houve um silêncio breve em que nenhum de nós tentou preenchê-lo imediatamente. Era aquele tipo de quietude onde as palavras não ditas pesavam tanto quanto as pronunciadas. Cole pegou a garrafa de vinho e encheu novamente nossas taças; não o impedi, mesmo já percebendo que a quantidade que ingeri era o suficiente para toda a semana. O álcool trazia uma névoa doce, mas era o olhar dele que realmente me entorpecia.

— Você sempre foi assim, tão direto? — perguntei observando a firmeza de seus movimentos.

— Nem sempre.

— O que mudou? — eu quis saber, buscando nos rastros castanhos de suas íris a origem dessa segurança.

Ele deu um pequeno suspiro, um som que pareceu carregar um peso bem contido.

— O mar.

— O mar te deixou direto? — franzi o cenho, achando a conexão tão poética quanto inusitada.

— Estar no mar te ensina que não vale a pena desperdiçar tempo com coisas que você realmente quer dizer. — ele empurrou minha taça suavemente na minha direção — Então eu prefiro ser honesto.

Levantei a taça, o cristal refletindo a intensidade esmeralda que me cercava.

— A honestidade pode ser assustadora.

— Pode. — ele tocou a própria taça na minha com suavidade, um tilintar que pareceu selar um pacto entre nós — Mas também pode ser libertadora.

O som delicado do vidro se tocando ecoou entre nós, vibrando até a ponta dos meus dedos. Tomei um último gole, mínimo, sentindo o sabor frutado antes de perguntar:

— Então me diga algo honestamente.

— Pode perguntar.

— Você sempre planeja encontros tão bem?

O sorriso dele se ampliou um pouco, revelando uma satisfação que ele não tentava esconder.

— Não.

— Então, por que esse?

Cole ficou em silêncio por segundos antes de responder. Seus olhos verdes brilharam com uma luz que parecia vir de dentro, uma sensualidade natural misturada a uma reverência que me deixou sem fôlego.

— Porque você é a única mulher para mim que merece uma noite pensada com cuidado.

Senti algo aquecer no peito, uma expansão que ia além do efeito do vinho. Era a sensação de ser vista, de ser importante.

— Isso é… surpreendentemente gentil.

— Eu consigo ser gentil.

— Eu percebi. — sussurrei, sentindo a barreira da minha aparente calma habitual ceder um pouco mais.

Cole apoiou a mão sobre a mesa, perto da minha, o suficiente para que eu percebesse seu calor emanando.

— Posso perguntar mais uma coisa?

— Você já perguntou várias. — dei um sorriso preguiçoso, piscando um olho, deixando que a leveza do momento me guiasse.

— Essa é importante.

— Então pergunte.

Ele sustentou meu olhar novamente, e por um instante, senti que ele decifrava cada pensamento meu através daquela imensidão verde-clara.

— Você está se divertindo comigo?

A pergunta parecia simples, mas havia algo por trás dela, algo genuíno e vulnerável que me tocou profundamente.

— Estou. — sorri sem perceber, a resposta vindo tão natural quanto a respiração.

— Só se divertindo?

— Cole…

— Sim?... — ele murmurou, a voz como um rastro de veludo sobre a minha pele.

— Eu estou amando e me divertindo.

Algo no olhar dele mudou naquele instante. Tornou-se mais quente, intenso. como se a noite fosse trocada pelo dia e o sol tivesse acabado de romper as nuvens sobre uma floresta fechada. Ele não disse nada por alguns segundos, mas o canto da boca dele se ergueu lentamente, um triunfo silencioso e belo.

— Ótimo.

— Por quê?

— Porque eu também estou. — ele respondeu, e o peso daquela confirmação me fez entender que, para nós, o "simples" era apenas o começo de algo vasto e irremediável.

A lareira estalou novamente atrás de nós. Do lado de fora, a chuva finalmente tinha parado e enquanto eu observava Cole, seu jeito calmo, a força tranquila no corpo, o olhar atento que parecia não perder nenhum detalhe, percebi que aquela noite estava começando a caminhar para um território ainda mais perigoso.

Não era apenas química, era atração consciente. E, pela forma como ele continuava me observando com aquela confiança silenciosa, eu tinha a sensação de que Cole estava perfeitamente disposto a descobrir até onde aquilo poderia nos levar.

Cole ainda mantinha a mão próxima da minha sobre a mesa, mas não me tocava, e a distância entre nossos dedos era pequena demais para ser ignorada. O ar no restaurante parecia ter ficado mais ralo, carregado por uma eletricidade que nem o brilho das velas conseguia suavizar. Eu podia sentir a presença pulsante dele ali, no calor da pele, a tensão sutil que parecia existir no corpo inteiro dele mesmo quando estava parado. Eu sentia o peso do olhar de Cole como uma carícia física, constante e perturbadora.

As luzes das velas entre nós tremularam levemente, e a luz se moveu pelo rosto dele, acentuando a linha do maxilar forte, os olhos atentos.

— Você está pensando demais. — ele murmurou, a voz vibrando em uma frequência que me atingia diretamente no baixo ventre.

Ergui os olhos, encontrando aquela imensidão esmeralda me estudando.

— Como sabe?

— Porque você olha para o vazio quando está tentando organizar as próprias reações. — ele respondeu, com uma precisão que me desarmou.

Soltei uma pequena risada, nervosa e fascinada ao mesmo tempo.

— Você observa muito.

— Eu já disse. Só quando estou interessado. — rebateu.

O jeito como ele disse aquilo, com uma honestidade limpa, fez meu estômago apertar levemente. Peguei a taça de vinho entre os dedos mais uma vez, mas antes que eu brincasse com o líquido, ele falou meu nome com uma gravidade nova:

— Amberli.

A voz dele tinha ficado um pouco mais baixa, mais rouca.

Parei o movimento da mão, presa pelo som.

— Sim?

Cole inclinou levemente a cabeça, e o olhar dele desceu devagar pelo meu vestido. Não foi uma passada de olhar rápida; foi lenta, consciente, tátil. Ele absorveu o brilho discreto dos paetês, o desenho do decote em V, a forma como o tecido acompanhava as curvas do meu corpo. Quando ele voltou aos meus olhos, os rastros castanhos na íris dele pareciam labaredas em meio ao verde. Havia um sorriso discreto no canto da boca.

— Eu estava tentando ser educado. — justificou ele, ao ser flagrado no escrutínio.

— Tentando? — arqueei uma sobrancelha, desafiando-o.

— Sim.

— E por que exatamente?

Ele soltou um pequeno suspiro divertido, relaxando os ombros largos na cadeira, embora a intensidade em seu rosto só aumentasse.

— Porque quando um homem convida uma mulher para um jantar elegante, o mínimo que ele deve fazer é manter certa… compostura.

— E você não está conseguindo?

Cole recostou-se levemente, os ombros largos relaxaram, mas o verde de seus olhos escureceu, como uma floresta sob uma tempestade iminente, havia algo mais intenso no olhar agora.

— Não completamente.

Senti meu coração bater um pouco mais rápido. Bem mais rápido. O calor do vinho já não era o único responsável pela quentura na minha pele.

— Por causa do vinho? — tentei desviar, minha voz saindo um pouco mais trêmula do que eu gostaria.

Ele balançou a cabeça devagar, os olhos fixos nos meus.

— Não.

— Então por quê? — minha cabeça pendeu levemente para o lado, rendendo-me àquela gravidade.

Cole arrastou a mão pela toalha da mesa e, desta vez ele tocou a minha. Foi apenas a ponta dos dedos, um contato mínimo, mas foi suficiente para que um arrepio subisse pelo meu braço e se alojasse na base da minha nuca.

— Porque você está sentada na minha frente usando um vestido que claramente foi escolhido para causar impacto.

Soltei uma pequena risada nervosa, tentando dissipar a tensão que se acumulava.

— A culpa é da Alice.

— Eu imaginei.

Os dedos dele ainda estavam sobre os meus, traçando um movimento leve, quase distraído. Mas nada naquilo me parecia realmente um gesto distraído, porém me fazia perder o foco de qualquer outra coisa no recinto.

— E você? — perguntei, tentando recuperar um pouco do controle da conversa. — Esse visual todo alinhado… também teve ajuda?

Ele sorriu, um sorriso que iluminou seu rosto de uma forma que me fez perder momentaneamente o fôlego. Tive que disfarçar, fingindo interesse na borda da taça.

— Não. — respondeu, ainda sorrindo.

— Então você simplesmente decidiu aparecer assim?

— Eu sabia que você viria absurdamente linda.

— Muito confiante. — provoquei.

— Realista. — ele apertou levemente meus dedos antes de soltá-los, mas o contato deixou um rastro de calor persistente — Além disso, — continuou — eu gosto de mostrar que levei a noite a sério.

— Isso inclui intimidar discretamente?

Cole inclinou o corpo um pouco para frente, a distância entre nós diminuiu até que eu pudesse sentir o calor de sua respiração.

— Eu estou te intimidando? —a pergunta veio quase como um sussurro. Balancei a cabeça devagar, hipnotizada.

— Não. — meu coração acelerou ainda mais.

— Então o que eu estou fazendo?

Segurei o olhar dele por um segundo, mergulhando fundo naquela imensidão, antes de responder:

— Testando meus limites. — fui convicta.

O sorriso dele cresceu lentamente, revelando uma satisfação perigosa.

— E quais são eles?

— Garanto que eu ainda estou descobrindo.

— Posso ajudar com isso. — ele prometeu, e senti um calor súbito subir pelas minhas pernas.

Cruzei-as por debaixo da mesa, buscando algum tipo de contenção.

— Você parece muito seguro disso.

— Eu sou um homem paciente. —ele pegou a taça de vinho novamente, observando o líquido rubi por um instante antes de voltar a me encarar — Mas também sei reconhecer quando duas pessoas estão… se provocando.

Soltei um pequeno suspiro, derrotada pela percepção dele.

— Você está fazendo isso de propósito.

— Claro.

— Por quê?

Cole voltou a olhar para mim, o olhar dele estava ainda mais intenso agora, mais direto, despido de qualquer barreira.

— Porque você reage.

— Isso é cruel.

— Não. — ele disse calmamente — Isso é divertido.

Ri baixo, passando os dedos pela borda da taça, sentindo a vibração do cristal gelado, um contraste gritante com o calor que a mão dele havia deixado na minha segundos atrás.

— Você sabe que está jogando um jogo perigoso.

— Você também.

— Eu?

Ele inclinou a cabeça, os pontinhos terrosos de seus olhos parecendo vibrar.

— Lee… você olha para mim como se estivesse tentando decidir se deveria se aproximar ou fugir.

— Talvez eu esteja.

— E qual das duas opções está ganhando?

Pensei por um momento, sentindo a pulsação no meu pescoço, o calor do toque dele ainda vivo na minha mão. Depois sorri, aceitando o desafio.

— Ainda não tenho certeza.

Cole riu baixo, o som era profundo e quente que pareceu reverberar dentro de mim.

— Honestamente? — parecia querer ter certeza de que eu estivesse pronta para o que viria a seguir.

— Honestamente. — confirmei.

Ele apoiou os braços na mesa novamente, aproximando-se ainda mais, até que o mundo ao redor fosse apenas o verde de seus olhos.

— Se você quisesse fugir… já teria inventado alguma desculpa para ir embora.

Senti o coração acelerar. Ele tinha razão, e ambos sabíamos disso.

— Talvez eu esteja só esperando a sobremesa. — tentei soar esnobe, mas o brilho nos meus olhos me traía.

— Então é bom saber que ela está a caminho.

Isso chamou minha atenção, quebrando momentaneamente o transe.

— Você pediu sobremesa?

— Claro.

— Você planejou tudo mesmo.

— Eu te disse. — ele finalizou, e naquele sorriso vitorioso.

O garçom apareceu naquele exato momento, trazendo um prato delicado para o centro da mesa, e eu entendi que a sobremesa seria apenas o preâmbulo para o que realmente importava naquela noite. Chocolate amargo derretido com frutas vermelhas e creme de baunilha. O aroma doce subiu imediatamente entre nós, me dando água na boca; Cole pegou uma das pequenas colheres e mergulhou no chocolate, e então empurrou o prato um pouco mais para perto de mim.

— Dividir sobremesa é sempre um bom sinal. — disse ele, a voz banhada em uma satisfação que me fez vibrar.

— É? — repliquei divertida, tentando manter a guarda alta enquanto o açúcar e o cacau faziam efeito.

— Significa que a noite está indo bem.

Peguei a outra colher cheia, quando ele me estendeu. No momento em que nossos olhares se encontraram novamente, a atmosfera mudou; não era mais apenas flerte, era algo novo. Mais quente, como a eletricidade térmica que precede uma tempestade de verão. Mais carregado. Levei a colher à boca devagar.

O chocolate era intenso, quase pecaminoso, e eu me permiti saboreá-lo com uma lentidão que não planejei.

Cole observou o movimento com uma atenção predatória e fascinada que me fez prender a respiração por um segundo.

— Isso foi injusto. — ele murmurou, a voz rouca, os olhos fixos nos meus lábios.

— O quê? — a colher estalou para fora dos meus lábios, um som suave que pareceu alto demais no nosso silêncio particular.

— Você fazer isso enquanto me olha desse jeito.

Arqueei uma sobrancelha, sentindo o magnetismo dele me puxar. Cruzei as pernas para o outro lado por debaixo da mesa, o roçar do tecido do vestido na minha pele apenas aumentando minha percepção de tudo.

— Desse jeito como? — deixei que minha voz soasse o mais tranquila possível, embora meu pulso o traísse.

Ele apoiou o queixo na mão, seus olhos brilhando sob a luz das velas.

— Como se soubesse exatamente o que está fazendo comigo.

Soltei uma pequena risada, tentando dissipar o peso daquela declaração.

— Eu acho que você está exagerando.

— Não estou.

— Então me explique.

Cole inclinou levemente a cabeça, os olhos dele percorreram meu rosto mais uma vez, mapeando cada traço, antes de pararem nos meus.

— Lee… se essa noite continuar assim… — ele disse devagar, cada palavra pesando como chumbo e seda — eu vou começar a achar que você está me provocando tanto quanto eu estou provocando você.

Meu coração bateu mais forte contra as costelas, um galope descompassado, porém eu não desviei o olhar. Encontrei naquela imensidão verde-clara o reflexo do meu próprio desejo.

— Então, talvez eu esteja. — não resisti em sorrir.

O sorriso que apareceu no rosto dele foi lento. Confiante. E perigosamente satisfeito. Eu voltei a olhar para o prato de sobremesa apenas para ganhar um pouco de tempo, sentindo que se continuasse encarando-o, acabaria confessando mais do que deveria. Mergulhei a colher no chocolate novamente, mas senti o olhar dele me acompanhar como uma sombra persistente.

Quando levantei a colher, ele falou:

— Se você continuar fazendo isso…

— Fazendo o quê?! — parei no meio do movimento, a colher suspensa no ar.

Cole inclinou a cabeça, os olhos acompanhando o gesto da minha mão com uma intensidade que fazia o ar parecer denso.

— Brincando com a sobremesa desse jeito.

— Eu estou apenas comendo. — indiquei o prato com a colher, tentando uma defesa vã.

— Não parece apenas isso.

Ergui uma sobrancelha, meus lábios atrevidos não resistiram em tracejar um leve sorriso. A provocação agora era um fio esticado entre nós.

— Então o que parece?

Ele demorou um segundo antes de responder, o silêncio preenchido apenas pela nossa respiração contida.

— Parece uma provocação.

Soltei um riso baixo.

— Você está vendo provocação em tudo hoje.

— Não em tudo. —ele apoiou os cotovelos na mesa novamente, aproximando-se um pouco mais — Só em você.

As luzes das velas refletiam nos olhos dele de um jeito que tornava difícil sustentar o olhar por muito tempo… mas também difícil desviar. Peguei outra colherada da sobremesa, mas dessa vez empurrei o prato na direção dele, tentando inverter o jogo.

— Sua vez.

Cole pegou a colher sem pressa, mas antes de levar à boca, ele disse, a voz quase recitando um segredo:

— Você sabe que dividir sobremesa assim cria uma espécie de… proximidade.

— Estamos sentados na mesma mesa, entre pessoas que não conheço, há horas. — respondi, sentindo o calor do ambiente subir — Acho que já superamos essa etapa.

— Talvez. — ele me deu um pequeno sorriso, aquele que ia além dos lábios e chegava aos olhos.

Cole levou a colher à boca, provou o chocolate e fechou os olhos por um segundo, apreciando o sabor. Quando abriu novamente, a intensidade ali me atingiu em cheio. Estava me observando com uma clareza que me deixava exposta.

— Você tinha razão. — disse.

— Sobre o quê? — meus olhos se apertaram, tentando ler o que se passava naquela mente estratégica.

— A sobremesa.

— Eu disse que estava boa? — perguntei indecisa, perdendo o fio da meada, não me recordando se de fato havia dito.

— Não. —ele apoiou a colher no prato novamente, o som do metal no vidro finalizando o ato — Você disse que estava esperando por ela.

— E estava.

— Agora eu entendo por quê.

Inclinei um pouco o corpo sobre a mesa, curiosa.

— Por quê?

Cole não respondeu imediatamente. O olhar dele, lento e deliberado como um toque físico, desceu novamente pelo meu vestido, parando por um instante no decote antes de subir de volta para meus olhos. A sensualidade ali era crua, intrínseca.

— Porque você tem um gosto perigoso por coisas intensas.

Meu coração bateu tão rápido que temi que ele pudesse ouvir.

— Chocolate amargo é perigoso, Cole? — tentei usar o sarcasmo como escudo.

— Pode ser.

— Você está extrapolando.

Ele riu baixo, um som que pareceu vibrar na minha própria pele.

— Talvez.

Houve um pequeno silêncio depois disso, e não me senti constrangida com isso. Estamos caminhando para um território mais íntimo, fora do habitual, mas não menos interessante.

Cole passou o polegar lentamente pela borda da taça antes de falar:

— Posso confessar outra coisa? — ele perguntou, a voz descendo para aquele tom que parecia uma carícia direta na minha nuca.

— Você tá soltando muitas confissões hoje. — comentei, tentando manter o tom leve, embora meu coração batesse contra as costelas com uma força um pouco além do normal.

— Só quando a noite vale a pena. — ele rebateu, sem hesitar.

— E vale? — minha voz saiu quase como um desafio, mas meus olhos entregavam a curiosidade.

Ele me encarou diretamente, a imensidão verde fundindo-se aos rastros castanhos em uma intensidade absoluta.

— Mais do que tudo.

Senti um calor leve no peito ao ouvir aquilo, uma expansão que não tinha nada a ver com o vinho e tudo a ver com a forma como ele me enxergava.

— Qual é a confissão? — dei toda a minha atenção, esquecendo por mais um instante o resto do mundo.

Ele respirou fundo, mas havia uma diversão contida no brilho dos olhos, aquele magnetismo que ele carregava com tanta naturalidade.

— Quando eu parei a caminhonete na frente da mansão… eu fiquei alguns segundos pensando se deveria sair do carro.

— Por quê? — franzi o cenho, genuinamente surpresa.

— Porque eu tive a sensação de que essa noite poderia ser… complicada.

— Complicada? — repeti a palavra, sentindo o peso dela no ar.

— No melhor sentido. — ele completou, o canto da boca se erguendo naquele sorriso que me tirava o fôlego.

Inclinei a cabeça, deixando que meu cabelo curto roçasse em meu pescoço, observando-o com a cautela de quem tenta decifrar um enigma mineral.

— Isso parece suspeitamente calculado.

— Não foi calculado. —ele encostou as costas na cadeira novamente, os ombros largos relaxados, mas o olhar fixo em mim como se eu fosse a única coisa sólida no universo — Foi instintivo.

— E o seu instinto costuma estar certo? — perguntei, sentindo a provocação queimar entre nós.

Cole me observou por um segundo antes de responder, o verde de seus olhos parecendo escurecer sob a luz das velas, tornando-se algo profundo e selvagem.

— Na maioria das vezes. — assentiu ele, com uma segurança que me fez cruzar as pernas novamente sob a mesa.

— E o que ele está dizendo agora? — sussurrei, inclinando-me levemente para a frente, rendendo-me à gravidade que ele exercia sobre mim.

Ele não respondeu de imediato, em vez disso, estendeu a mão outra vez sobre a mesa, o movimento foi tão fluido e natural quanto o crescimento do musgo sobre a pedra, mas o efeito em mim foi sísmico. O ar entre nós parecia ter se tornado um condutor de eletricidade estática. Senti a ponta dos meus dedos formigarem, uma necessidade quase magnética de romper o espaço que nos separava. No momento em que a pele dele encontrou a minha, o mundo ao redor, o som dos talheres, o brilho das outras mesas, o murmúrio das conversas, simplesmente evaporou. A mão dele sempre é muito quente, uma temperatura que contrastava com o meu calor ameno e o frio da noite, a textura era firme, carregando a força contida.

Quando seus dedos envolveram os meus, senti uma pulsação compartilhada, como se nossos corações tivessem decidido bater no mesmo compasso, uma cadência biológica que eu não conseguia controlar. Engoli seco.

Um calafrio líquido desceu pela minha coluna, espalhando-se como tinta em água, atingindo a boca do meu estômago com uma intensidade que me deixou sem fôlego. Era uma sensação de pertencimento e perigo, um nó apertado de uma nova camada de emoção que eu ainda não sabia nomear, mas que reconhecia como vital. Eu não conseguia desviar. Perto assim, o verde-claro dos olhos dele parecia pulsar. Os rastros castanhos não eram mais apenas cores; eram fendas por onde eu podia ver a verdade da sua sede por mim. A sensualidade ali era absoluta, desprovida de máscaras, e a delicadeza com que ele acariciava o dorso da minha mão com o polegar era o tipo de proteção que desarmava todas as minhas defesas.

— Amberli... — ele pronunciou meu nome, e o som vibrou através do toque de nossas mãos, subindo pelo meu braço até se alojar no meu peito.

Eu sabia que, se ele me puxasse naquele momento, eu atravessaria qualquer abismo. Minha pele queimava onde ele me tocava, e o resto do meu corpo parecia subitamente consciente de cada centímetro de tecido do vestido, de cada batida acelerada do meu próprio pulso. Estávamos ali, ancorados um ao outro por uma conexão que ia muito além daquele jantar, algo primitivo e inevitável como a própria natureza.

— É uma gravidade que não pedimos, mas que não conseguimos ignorar. — Cole respondeu, a voz descendo para um tom que eu sentia vibrar mais no meu peito do que nos meus ouvidos.

Ele não desviou o olhar. O movimento do polegar dele sobre o dorso da minha mão era lento, quase hipnótico, traçando círculos que pareciam marcar minha pele com ferro em brasa e veludo. Eu podia sentir o calor da palma dele se fundindo à minha, uma estabilidade em meio àquela correnteza de sensações que eu ainda não sabia nomear.

— Meu instinto está dizendo que você também percebe o que está acontecendo aqui. O que estamos consolidando... — murmurou — Estamos consolidando o fato de que, daqui para frente, meu mundo vai parecer silencioso demais quando você não estiver por perto. — ele continuou, a intensidade esmeralda dos olhos se fechando ligeiramente, focada apenas em mim — É uma colisão, Amberli. Daquelas que mudam o relevo de tudo o que conhecemos.

Senti um calafrio percorrer minha espinha, numa antecipação que me deixava sem fôlego. O toque dele era a única coisa sólida em um restaurante que parecia ter se transformado em borrões de luz e som ao nosso redor.

Meu coração acelerou.

— E o que exatamente está acontecendo aqui? Você fala como se não houvesse escolha. — sussurrei, tentando manter a voz firme enquanto meu polegar, num impulso corajoso, retribuiu o carinho, sentindo a textura da pele dele.

— E há? — ele inclinou a cabeça, os rastros castanhos na íris dele brilhando com uma honestidade real e uma sensualidade que me desarmava — Porque, para mim, tentar ignorar o que está acontecendo aqui seria como tentar convencer a maré a não subir.

Ele envolveu meus dedos com mais firmeza, fechando o aperto como se selasse um pacto silencioso sob a luz das velas. Naquele momento, a delicadeza de Cole não era uma fragilidade; era a força de quem sabia exatamente o peso do que estava sentindo e eu me permiti cair naquela imensidão verde sem medo de onde o fundo estaria.

O polegar dele fez um pequeno movimento sobre minha mão mais uma vez. Como se estivesse distraído. Soltei um pequeno suspiro ouvindo a lareira estalar ao fundo; do lado de fora, a noite estava quieta depois da chuva.

O sorriso de Cole ainda estava no canto de seus lábios quando ele soltou minha mão; não foi de forma abrupta, apenas o suficiente para que o toque não se tornasse algo que chamasse atenção demais naquele momento. Ainda assim, a sensação do polegar dele sobre a minha pele permaneceu como um pequeno eco quente.

Ele recostou-se levemente na cadeira, como se estivesse reorganizando os próprios pensamentos. Deixei a taça de vinho de lado e dediquei àqueles segundos para tomar água.

— Vá em frente. — falei, pousando o copo na mesa, mas mantendo os dedos circulando o vidro liso. Eu precisava de algo para ocupar minhas mãos, ou acabaria buscando o calor da dele novamente.

Cole se inclinou um pouco mais, e a luz da vela esculpiu as sombras de seu rosto, destacando a linha forte de sua mandíbula. O verde dos olhos dele pareceu escurecer, como a floresta sob o crepúsculo.

— Quando você me olha desse jeito... — ele fez uma pausa, e o rastro castanho na íris dele pareceu vibrar com uma honestidade que me tirou o chão — Você está me lendo ou está decidindo se me deixa entrar?

O peso da pergunta me atingiu em cheio. Não havia apenas curiosidade; era um desafio lançado com delicadeza como quem sabe que está lidando com algo frágil e, ao mesmo tempo, perigosamente intenso.

— Talvez os dois. — confessei, minha voz saindo mais baixa do que eu planejava, carregada por aquela sensação primitiva de que cada palavra nossa estava construindo um caminho sem volta — É difícil não tentar decifrar alguém que se move com tanta confiança.

Ele deu um sorriso de canto, um gesto que transbordava uma sensualidade contida, quase predatória, mas suavizada pelo respeito que ele sempre demonstrava.

— Confiança é uma palavra forte. — ele murmurou, e o olhar dele desceu por um segundo para meus lábios antes de retornar, magnético, aos meus olhos — Eu chamaria de instinto. O mesmo que me diz que, por trás dessa sua calma, existe um incêndio que você protege com muito cuidado.

Senti um arrepio percorrer minha espinha. Ele não estava apenas me olhando; ele estava me desarmando, peça por peça, com a precisão de quem conhecia cada uma das minhas defesas antes mesmo de eu usá-las.

— E você não tem medo de incêndios, Cole? — provoquei, sentindo a eletricidade entre nós esticar-se até o limite.

— Depende. — ele respondeu, a voz agora um sussurro rouco que parecia fundir-se ao silêncio cúmplice da nossa mesa — Alguns incêndios são a única forma de a gente se sentir realmente vivo.

A franqueza dele era como uma ventania em um quarto fechado: bagunçava tudo, mas trazia um ar que eu não sabia que precisava respirar. Senti o vidro frio contra a palma da mão enquanto meus olhos voltavam a mergulhar naquele verde-claro magnético.

Cole inclinou-se um pouco mais, reduzindo a distância entre nós a um segredo compartilhado. O brilho das velas entre nós parecia se perder nos rastros castanhos da sua íris, que pareciam mais densos.

— Você está tentando me decifrar ou está apenas esperando para ver até onde eu pretendo ir? — a voz caiu para um registro baixo, quase rouco, que me fez segurar a respiração.

O peso daquela pergunta me atingiu em cheio. Não era apenas curiosidade; era um desafio lançado com uma sensualidade tão crua que meu coração tropeçou. Senti a pressão do polegar dele voltar sobre a minha pele e aumentar um milímetro, um gesto de posse suave que me ancorava ali.

— É difícil não tentar decifrar algo que parece mudar de cor toda vez que a luz bate de um jeito diferente. — deixei que soubesse, minha voz saindo com uma honestidade que eu não planejava entregar tão cedo. Eu o comparava a um prisma que me deslumbrava de diversas maneiras.

— Então deixe-me facilitar para você, Amberli. — ele murmurou, e o olhar dele desceu por um segundo para os meus lábios antes de voltar, com uma intensidade renovada, para os meus olhos — Eu não pretendo parar nos rodeios. E meu instinto diz que você também não é do tipo que recua quando a correnteza fica forte.

O ar entre nós pareceu vibrar. Eu podia sentir a textura daquela conexão, algo orgânico e inevitável, como se o jantar fosse apenas o prefácio de um livro que eu já estava ansiosa para ler até o fim.

— Falando em coisas que estão prestes a acontecer… — disse ele, mudando o assunto completamente, como se precisasse de um breve fôlego antes que a tensão entre nós quebrasse de vez o que restava da minha compostura.

Inclinei a cabeça, sentindo o roçar dos meus brincos contra o pescoço, observando a transição no olhar dele.

— Isso me parece uma mudança de assunto.

— Talvez.

— Fugindo de alguma coisa? — provoquei, embora soubesse que Cole não era homem de fugir.

Ele soltou um pequeno riso, aquele som que pareceu vibrar direto no meu baixo ventre.

— Não exatamente. Só achei que você gostaria de ouvir sobre algo.

— O quê? — me inclinei, atenta, fechando o mundo ao redor para que sobrasse apenas a voz dele.

Ele pegou sua taça novamente, tomando um golinho de vinho antes de responder, o olhar perdendo-se por um segundo na chama da vela.

— O Natal na reserva Quileute.

Meus olhos se iluminaram um pouco. A curiosidade sobre o mundo dele sempre fora um terreno fértil em minha mente.

— Vocês têm celebrações grandes? — perguntei com entusiasmo.

— Bastante. —ele apoiou os braços sobre a mesa novamente, e percebi que quando ele falava da reserva, havia algo diferente na expressão dele. Uma mistura de orgulho e carinho que suavizava a dureza de seus traços — A preparação começa semanas antes. — continuou — Principalmente no centro comunitário.

— Onde sua tia trabalha?

— Exatamente.

Sorri, imaginando a força daquela mulher movendo engrenagens invisíveis.

— Olívia deve comandar tudo.

Cole riu, um brilho de admiração genuína cruzando o verde de seus olhos.

— Comanda mesmo. — ele apoiou o queixo brevemente na mão, relembrando — A primeira coisa a ter sido feita é a decoração. Nada exagerado como nas cidades grandes… mas é tão cheio de significado quanto.

— Como assim? — perguntei com a voz leve, mas por dentro, estava ávida por cada detalhe dessa vida que ele levava.

— Muitos enfeites são feitos à mão. Tecidos com padrões tradicionais, pequenos ornamentos de madeira, esculturas simples.

— Ah. O artesanato da comunidade.

— Sim. — ele girou a taça lentamente, o vinho desenhando arcos no cristal — Minha tia passou semanas organizando as oficinas para as crianças. Ensinou a fazer enfeites, pequenas máscaras decorativas, pulseiras.

— Você ainda ajuda?

— Às vezes. — Cole deu de ombros, o movimento denunciava uma modéstia que eu já começava a decifrar.

— Às vezes? — quis ter certeza, arqueando uma sobrancelha.

— Principalmente carregando caixas.

Ri baixo, a imagem dele, com toda aquela força física, sendo recrutado por Olívia para carregar caixas de enfeites era adorável.

— Me parece familiar.

— É praticamente uma tradição. —ele continuou, a voz ficando mais calorosa — Rebecca também aparece sempre nessa época.

— A prima dos piqueniques heroicos na chuva.

— A própria. —Cole sorriu com a referência ao que já havíamos conversado — Ela insiste em organizar uma espécie de feirinha dentro do centro comunitário. Com comida, doces, artesanato.

— Parece ser algo bonito de se ver. — comentei, minha mente montando um possível cenário de luzes suaves e rostos conhecidos.

— É. —ele fez uma pequena pausa, o olhar fixo no meu — E barulhento.

— Ah, eu imagino!

— Crianças correndo, gente conversando, música tradicional misturada com músicas de Natal. —a forma como ele descrevia aquilo fazia a cena parecer viva diante de mim.

— E o porto? — perguntei, sabendo que o mar era a alma dele.

Cole assentiu lentamente.

— O porto também entra na preparação.

— Como que é por lá?

— Agora nos últimos dias antes do Natal, muitos barcos retornam das viagens mais longas. —ele cruzou os braços sobre a mesa, o tecido da camisa tensionando nos ombros — É uma espécie de tradição não escrita. Sempre que possível, os co-capitães tentam trazer suas tripulações de volta antes da noite de Natal.

— Para estarem com as famílias. — supus, sentindo um aperto suave de nostalgia por algo que eu nunca vivi daquela forma.

— Exato. —a voz dele ficou um pouco mais suave, perdendo a aresta cortante da sedução e ganhando um tom de relembrança pura — Quando eu era mais novo, eu adorava essas manhãs no porto nessa época.

— Por quê? O que acontecia?

Ele respirou fundo, como se estivesse vendo a cena novamente.

— O ar gelado. As docas cheias de movimento. Os pescadores descarregando as últimas caixas enquanto o sol ainda está nascendo dentro das nuvens cinzas.

— Parece cinematográfico. — imaginei em voz alta.

— É caótico na verdade.

Ri.

— Mas um caos bom. — contrapus.

Ele assentiu, a intensidade voltando ao olhar.

— O tipo de caos que significa que as pessoas estão voltando para casa.

Aquilo me tocou de um jeito inesperado, uma pontada de verdade que atravessou minhas defesas.

— Você ainda vai lá nesses dias?

Cole sorriu de leve, aquele sorriso que parecia um segredo compartilhado.

— Sempre que posso.

— Mesmo sendo o chefe agora?

— Especialmente sendo o chefe. —ele pegou mais um tanto da sobremesa no talher e empurrou o prato na minha direção, um gesto de partilha que parecia ecoar o que ele acabara de descrever — Eu gosto de lembrar de onde tudo começou. Tanto aqui, quanto em Ilwaco.

Houve um pequeno silêncio enquanto dividíamos a sobremesa, a chama da vela tremulou entre nós, lançando sombras dançantes no rosto esculpido de Cole.

— E na noite de Natal? — perguntei, passando a língua entre os lábios para limpar qualquer resquício de chocolate, ou do creme de baunilha. Vi o olhar de Cole descer e travar ali por um milésimo de segundo antes de subir.

— Desde a véspera, a comunidade inteira se reúne no centro comunitário.

— Todo mundo?! — meus olhos se abriram um pouco mais.

— Praticamente. Tem comida compartilhada, histórias, música, danças… e uma cerimônia simples de agradecimento. — explicou.

— De agradecimento?

— Isso. Pela pesca do ano, pela segurança dos irmãos que foram ao mar, pela proteção..., pelas famílias num modo geral.

A forma como ele dizia aquilo tinha peso.

— Parece muito… único e verdadeiro.

— É sim. —ele me observou por um instante, o verde-claro de seus olhos tornando-se translúcido — Não é só sobre presentes ou decoração extravagante.

— É sobre as pessoas. A comunidade. — entendi aonde queria chegar. Algo caloroso, e novo para mim.

— Exatamente.

Fiquei alguns segundos absorvendo aquilo, aproveitando para pegar mais da framboesa e do morango entre os cremes, os sabores das frutas cortando a intensidade do chocolate. Era um mundo de verdades cruas, longe da artificialidade que eu tanto conhecia.

— Então você vai estar lá este ano?

— Sim. —Cole assentiu, sem sombra de dúvida.

— Mesmo com toda a responsabilidade da empresa?

Ele deu um pequeno sorriso, percebi um lampejo de teimosia Quileute.

— Algumas tradições não são negociáveis.

Eu sorri, sentindo uma admiração profunda crescer.

— Eu gosto disso. — aprovei.

— Gosta? — ele inclinou levemente a cabeça, pedindo silenciosamente por mais esclarecimentos, o olhar pesando sobre o meu.

— Gosto de homens que lembram e valorizam de onde vieram.

Cole ficou me observando em silêncio por alguns segundos depois disso. O olhar dele suavizou de um jeito que me fez sentir um pequeno aperto no peito, uma vulnerabilidade que eu raramente permitia.

— Você diria isso mesmo se soubesse como eu era quando adolescente? Ou até mesmo há algum tempo atrás?

— Eu tenho medo de perguntar.

— Provavelmente deveria.

— Você era problemático?

— Não.

— Então o quê?

Ele se inclinou um pouco mais sobre a mesa novamente, invadindo meu espaço, o cheiro de sua colônia misturando-se ao aroma do vinho e da sobremesa.

— Muito competitivo.

— Em que sentido?

— Em praticamente tudo.

— Inclusive no flerte? — a pergunta escapou antes que eu pudesse contê-la, carregada de um atrevimento que ele mesmo despertara.

Cole soltou uma risada baixa, um som gutural que me arrepiou.

— Talvez.

Inclinei a cabeça, divertida, tentando manter o equilíbrio naquela corda bamba de sensações.

— Então isso é competição?

Ele sustentou meu olhar. O riso desapareceu, dando lugar a uma seriedade que fez o ar estalar entre nós.

— Não.

— Não? — insisti, o coração já começando a dar saltos desordenados.

— Isso é… interesse real.

Meu coração bateu um pouco mais rápido. Pude até mesmo sentir as palpitações ecoarem no pescoço, nas mãos, em cada rastro de pele que gritava pela atenção dele.

— Existe alguma diferença?

— Muita. — o olhar dele desceu brevemente para meus lábios, demorando-se ali com uma fome contida antes de subir de volta — Competição é sobre vencer. —ele se aproximou apenas um pouco mais, e eu jurei que podia sentir o calor de sua pele — Interesse… é sobre descobrir até onde duas pessoas podem chegar juntas.

Senti meu pulso acelerar com aquela proximidade, a sensualidade da frase atingindo-me como uma onda forte.

— E você pretende descobrir?

Cole sorriu, um sorriso que era um convite e uma promessa ao mesmo tempo.

— Se você nos permitir.

Naquele momento ficou claro que, embora ele tivesse começado falando sobre o Natal da reserva… aquela conversa tinha voltado exatamente para o mesmo lugar onde tudo parecia querer ir desde o começo da noite.

Para nós dois. Para o que estávamos construindo naquele jantar exclusivo, entre o chocolate amargo e o verde de seus olhos.

Ficamos alguns minutos em silêncio depois de dizer aquilo, terminando de dividir a sobremesa, a chama da vela entre nós tremulou novamente, refletindo no vidro das taças e nas superfícies polidas do restaurante. Eu ainda estava pensando na forma como ele falara sobre a reserva, sobre a interação no porto, sobre as famílias quileutes se reunindo, havia algo muito genuíno naquilo.

Ele girou a taça lentamente entre os dedos, como se ponderasse algo, antes de levantar os olhos verdes novamente para mim. O som ambiente do restaurante parecia ter se transformado em um zumbido distante, deixando apenas o timbre grave da voz de Cole ecoando entre nós.

— Lee…

— Sim? — prestei a atenção, deixando a colher de lado, capturada pela mudança sutil no ritmo da sua fala.

— Eu estava pensando em uma coisa enquanto falávamos.

Inclinei levemente a cabeça, esperando. Ele sorriu de lado fazendo uma pequena pausa, como se estivesse escolhendo as próximas palavras com cuidado, os pontinhos castanhos em seus olhos brilhando sob a luz amarelada.

— A celebração na reserva… ela é aberta.

— Aberta?... — repeti, sentindo o peso daquela informação e esperei por mais.

— Para convidados. Amigos da comunidade. Pessoas que são bem-vindas.

A forma como ele disse bem-vindas soou muito específica, carregada de uma intenção que fez um pequeno calor se espalhar pelo meu peito, vindo de algum lugar muito profundo.

— Entendi.

Cole apoiou os antebraços sobre a mesa, encurtando a distância física entre nós.

— Eu sei que você estará passando este Natal com os Cullen.

Assenti, lembrando-me da grandiosidade silenciosa daquela casa.

— Sim.

— E imagino que a casa deles deva ter uma celebração bem… interessante.

Soltei uma pequena risada.

— E eu não faço ideia.

— Eu suspeito que não. —ele me observou por alguns segundos, o olhar percorrendo meu rosto com aquela calma de quem mapeia um território querido — Mas se em algum momento antes ou depois da ceia você quiser conhecer a reserva nesta data… — continuou — Você seria muito bem-vinda, Lee.

Eu fiquei em silêncio por um instante, absorvendo a magnitude do que ele estava oferecendo. Não era apenas um convite para uma festa; era um convite para o centro do mundo dele.

— Está me convidando?

— Estou. — Cole deu de ombros, mas havia um brilho divertido e desafiador nos olhos.

— Para uma celebração comunitária inteira? — eu ainda precisava da certeza, sentindo um frio na barriga que não vinha do vinho.

— Sim.

— Isso não parece um convite comum.

— Não é. —ele inclinou um pouco a cabeça, a sensualidade voltando a transbordar em cada gesto — Mas também não é algo formal demais. É… simples. As pessoas conversam, comem juntas, cantam, dançam, contam histórias.

— Parece muito acolhedor.

— É. —ele continuou, a voz tornando-se uma narrativa envolvente — Minha tia Olívia provavelmente vai tentar te convencer a experimentar metade das receitas da cozinha comunitária.

— Isso soa tentador.

— Minha mãe pode insistir que você arrisque alguns passos de dança.

— Eu gosto muito da sua mãe. — confessei, lembrando da força alegre e tranquila que ela emanava.

— Minha prima Allie com certeza vai se prontificar em ser sua guia turística.

— O que, com certeza, um dia eu vou aceitar.

— Minha prima Rebecca provavelmente vai te arrastar para ver as barracas de artesanato.

— Eu gosto de artesanato.

— Então ela vai gostar de você imediatamente.

Eu ri, sentindo a leveza se misturar à intensidade. Cole me observava com uma expressão calma, quase paciente, como se estivesse disposto a esperar o tempo que fosse necessário.

— E você? — perguntei — O que você faria?

— Eu?

— Sim.

Ele pensou por um momento, o olhar fixo em algum ponto além de mim antes de voltar a me encarar.

— Provavelmente ficaria andando entre as mesas com você, cumprimentando as pessoas.

— Soa como o dono de metade da economia pesqueira da região.

Ele sorriu, aquele sorriso que desarmava qualquer tentativa minha de manter a distância.

— Eu tento não parecer tão executivo quando estou lá.

— Não acredito que consegue esconder totalmente.

— Talvez não. —ele apoiou a mão sobre a mesa novamente, mais perto da minha, e eu pude sentir a radiação do seu calor — Mas se você fosse…, eu gostaria de mostrar algumas coisas da reserva.

Meu coração bateu um pouco mais forte, uma batida surda que ecoou na minha garganta.

— Como o quê?

— O centro comunitário todo decorado com a nossa maneira do Natal. — ele contou nos dedos, como se listasse — O pequeno mirante perto da praia onde algumas famílias acendem fogueiras...

— Deve ser bonito.

— É. —ele continuou, a voz baixando para um tom quase confidencial — E talvez… se o céu estiver limpo… a trilha curta que leva até um ponto onde dá para ver o oceano inteiro.

— No inverno?

— Sim.

— Você leva mulheres para trilhas no frio como estratégia de encontro?

Ele riu baixo, um som que pareceu uma carícia física.

— Não. Só pensei em você.

Inclinei a cabeça, sentindo o peso daquela declaração. Ele não estava jogando; ele estava sendo honesto, com aquela franqueza que o mar lhe ensinara.

— E você acha que eu gostaria?

Ele sustentou meu olhar, a imensidão verde-clara parecendo ler o que eu mesma ainda não tinha coragem de dizer.

— Eu acho que você gosta de coisas que têm significado. —aquela resposta me pegou desprevenida, atingindo o âmago de quem eu era — E a reserva tem isso para você.

— Muito. — admiti, em um sussurro.

Ele fez uma pequena pausa, o ar entre nós vibrando.

— Então… — concluiu — o convite está feito.

Fiquei olhando para ele por alguns segundos, meus lábios leves com um sorrisinho no canto. O restaurante continuava elegante e silencioso ao nosso redor, mas naquele momento parecia que existia apenas aquela mesa, apenas aquele pedaço de mundo entre nós.

— Eu vou pensar nisso. — respondi com sinceridade, sentindo que o "sim" já estava escrito em algum lugar do meu futuro.

Cole sorriu lentamente, um sorriso de vitória silenciosa.

— Isso já é um bom começo.

— Você não parece surpreso.

— Não estou.

— Ah! Por quê?

Ele pegou a taça novamente, o movimento firme e seguro.

— Porque eu tenho a sensação de que você é o tipo uma mulher que gosta de conhecer o mundo das pessoas que… — ele fez uma pequena pausa estratégica — deixam você curiosa.

Meu coração acelerou levemente, traindo minha calma aparente.

— E você acha que me deixou curiosa?

Ele inclinou a cabeça, os olhos me desafiando a negar.

— Acho que sim. Desde sempre.

— Está bastante confiante hoje, né Cole.

— Só observador.

— E o que suas observações lhe dizem agora?

O olhar dele suavizou de um jeito que me fez sentir um aperto doce no peito. Ele colocou a taça sobre a mesa e, por um instante, pareceu que o tempo parou.

— Dizem que essa noite ainda não acabou. —ele disse, e o verde de seus olhos escureceu, transbordando uma vontade que me fez perder o fôlego — E que eu gostaria de continuar ela. Se você quiser.

O convite para o Natal ainda pairava no ar, mas a urgência do agora era o que realmente preenchia o espaço entre nós.

Quando deixamos o restaurante, a noite já estava profundamente silenciosa. O ar frio de dezembro me atingiu assim que atravessei a porta de vidro, trazendo aquele cheiro húmido característico de Forks depois de uma breve pausa da chuva. A estrada adiante estava escura e tranquila, iluminada apenas pelos postes espaçados e pelas luzes suaves do estacionamento.

Cole caminhava ao meu lado. A presença dele parecia ocupar o espaço de uma forma muito física, o som dos passos firmes, o movimento natural dos ombros largos dentro do casaco elegante, a altura que o colocava a muitos centímetros acima de mim, mesmo com o salto. Eu abracei levemente os próprios braços quando o vento frio passou.

Imediatamente ele percebeu.

— Frio?

Olhei para ele.

— Um pouco.

Cole abriu o casaco escuro com naturalidade e nem um pouco afetado pela baixa temperatura.

— Venha aqui.

Antes que eu pudesse protestar, ele se aproximou e colocou o tecido do casaco sobre o meu sobretudo por um instante, puxando-me para mais perto de seu corpo maciço, protegendo-me ainda mais do vento enquanto caminhávamos juntos os poucos passos restantes até a caminhonete.

— Você veio muito bem-preparada para a noite em um restaurante. — ele constatou com um sorriso leve, a voz rouca contra o vento, enquanto me conduzia em direção à caminhonete — Mas, aparentemente não o suficiente para o clima de dezembro da península.

— Culpe Alice. — repliquei, encostando-me nele, sentindo a solidez de seu peito contra meus braços.

Ele riu baixo. O som vibrando por meu corpo, a respiração quente tocando minha pele.

— Eu suspeitava.

A Dodge RAM dele estava estacionada sob a luz pálida de um poste, perto da saída. Grande, robusta, com a lataria refletindo as luzes do estacionamento molhado. O som metálico da porta da caminhonete abrindo pareceu ecoar por todo o estacionamento silencioso.

Cole abria a porta do passageiro para mim.

— Depois de você. — foi cortês.

Naquela luz difusa, os olhos dele eram duas fendas de esmeralda, profundas e carregadas de uma verdade que não precisava de muitas metáforas. Os pontinhos castanhos pareciam fundir-se ao preto de suas pupilas dilatadas. Ele levou a mão ao meu rosto, o polegar traçando a linha da minha mandíbula com uma delicadeza que contrastava com a intensidade do seu olhar.

Subi para o banco alto da caminhonete, segurando sua mão e a barra interna. O interior ainda mantinha um leve calor do aquecimento que ele havia deixado ligado remotamente.

— Isso é confortável. — comentei enquanto me acomodava.

Cole fechou a porta e deu a volta pela frente do veículo. Quando entrou pelo lado do motorista, o espaço pareceu diminuir um pouco, não porque a cabine fosse pequena, mas porque ele era… grande demais. Os ombros largos preencheram o assento com facilidade, e quando ele apoiou o braço no volante, os músculos do antebraço ficaram visíveis sob a camisa social escura.

Eu me peguei observando-o. Tanto, ao ponto de Cole perceber. Um sorriso quase imperceptível apareceu no canto da boca dele enquanto ligava o motor. Ele girou o corpo em minha direção, apoiando um braço no encosto do meu banco. A luz do painel, em um tom suave, batia de lado em seu rosto, esculpindo as sombras de sua mandíbula e tornando o verde de seus olhos algo quase sobrenatural.

— Gostando da caminhonete?...

— Muito. — respondi rápido, minha voz soando um pouco mais rouca do que eu pretendia.

— ...Ou do motorista?

Soltei uma pequena risada.

— Talvez dos dois. — admito.

Ele estendeu a mão, mas não para ligar o carro. Seus dedos tocaram a ponta do meu cabelo curto, deslizando até a nuca, onde a pele ainda queimava. O toque era lento, possessivo, e eu senti minha respiração falhar.

— Sabe o que meu instinto está dizendo agora? — ele murmurou, inclinando-se apenas o suficiente para que eu pudesse ver cada rastro castanho em suas írises, como caminhos em uma floresta fechada.

— O quê? — sussurrei, incapaz de desviar.

— Que eu poderia dirigir por horas e ainda assim não seria tempo suficiente para dizer tudo o que esse jantar intensificou.

Ele finalmente ligou o motor, e a vibração potente da caminhonete pareceu ressoar dentro do meu próprio peito. Cole engatou a marcha, mas antes de sair, apertou minha mão uma última vez, aproximando seus lábios na palma deixando ali um beijo ao aspirar o cheiro da minha mão num pacto silencioso de que a noite, embora o jantar tivesse acabado, estava longe de ter um fim. Ele colocou o carro em movimento, saindo lentamente do estacionamento e entrando na estrada que seguia em direção a La Push e depois ao caminho que levava a Forks.

A noite estava realmente calma.

A estrada era ladeada por árvores altas e densas, que agora percebo serem tão típicas da floresta da península olímpica. O asfalto ainda estava bem húmido, refletindo os faróis da caminhonete em um brilho suave que parecia hipnótico dentro da cabine silenciosa. Por alguns minutos, ficamos num silêncio confortável e bem-vindo depois de toda a conversa longa que tivemos.

Cole foi o primeiro a quebrá-lo.

— Você parece pensativa. — ele murmurou, a voz cortando o som do motor com uma suavidade que me fez despertar dos meus próprios devaneios.

Olhei pela janela por um instante, observando os vultos dos pinheiros passando como fantasmas verdes, antes de responder.

— Estou lembrando da nossa noite.

— Isso é bom ou ruim? — Cole perguntou, e pude sentir o peso do seu olhar sobre mim por um breve segundo antes de ele voltar o foco para a estrada.

Voltei o olhar para ele. Minha cabeça se inclinou levemente para o lado, como se secretamente o meu corpo apreciasse o que eu estava a ver. Gosto muito do que vejo: o perfil decidido, a mão firme no volante, a calma que ele emana mesmo em movimento.

— Muito bom.

Ele assentiu devagar, mantendo os olhos na estrada, mas notei um relaxamento sutil em seus ombros.

— Eu também.

Ficamos mais alguns segundos em silêncio, apenas sentindo a vibração do carro. A curiosidade, porém, falou mais alto. Então perguntei:

— Você costuma trazer encontros para aquele restaurante?

Cole soltou um pequeno riso.

— Não.

— Não?! — exclamei, surpresa.

— Não mesmo.

— Então foi especial?

Ele pensou por um momento, os dedos tamborilando levemente no couro do volante.

— Foi estratégico.

Arqueei uma sobrancelha, achando graça da escolha de palavras.

— Estratégico?

— Eu sabia que a comida seria excelente.

— Isso não responde minha pergunta. — contrapus, divertida.

Ele olhou brevemente para mim, e a luz do painel destacou o verde-claro de seus olhos antes de ele voltar os olhos para a estrada.

— E eu sabia que seria um lugar tranquilo para conversar com você.

Meu coração deu uma pequena batida mais forte, uma reação que eu já não tentava mais esconder.

— Conversar?

— Sim.

— Só conversar?

Cole sorriu, aquele sorriso de canto que dizia tanto sem precisar de frases longas.

— Por enquanto.

A forma arrastada como ele disse aquilo fez um calor subir pela minha barriga alcançando meu pescoço. Me ajeitei sobre o assento, mas não deixei de sorrir com sua resposta. A caminhonete seguiu pela estrada sinuosa enquanto a floresta passava escura do lado de fora. Depois de alguns minutos, as primeiras luzes familiares de Forks começaram a aparecer ao longe.

— Já estamos chegando. — disse ele. Assenti — A mansão fica um pouco mais afastada da cidade.

— Eu lembro.

Ele virou na estrada de cascalho que levava à propriedade dos Cullen, o som das pedras sob os pneus substituindo o zumbido do asfalto. O caminho cercado por árvores parecia ainda mais silencioso e barulhento naquela hora da noite. Quando a casa finalmente apareceu entre os troncos altos, iluminada suavemente pelas luzes natalinas, senti uma mistura curiosa de conforto e uma pequena relutância.

Cole estacionou a caminhonete na frente da entrada. O silêncio voltou, e por alguns segundos, nenhum de nós se moveu. Cole apoiou as mãos no volante antes de virar levemente o corpo na minha direção.

— Então…— ele começou, desligando o motor.

Olhei para ele, sentindo a eletricidade da noite ainda viva entre nós.

— Então?

— Eu diria que esse primeiro encontro foi um sucesso.

Sorri, sentindo uma leveza genuína.

— Eu concordo.

— Fico feliz em ouvir isso.

Ele me observou por um tempo mais longo, como se estivesse avaliando algo, decifrando as sombras no meu rosto.

— Posso te fazer uma última pergunta hoje, Lee?

— Claro.

— Quando posso te convidar para o segundo?

Soltei uma pequena risada suave, encantada com a persistência dele.

— Você é tão rápido.

— Eu prefiro não perder mais as oportunidades. — ele disse, com uma seriedade que me fez acreditar em cada palavra.

Inclinei um pouco a cabeça, brincando com a situação.

— Acho que você pode me perguntar de novo amanhã.

Ele sorriu devagar.

— Isso parece promissor.

Cole saiu da caminhonete primeiro e deu a volta para abrir a porta para mim novamente, mantendo a gentileza que marcou toda a noite. Quando ele deu dois passos à frente, eu senti algo puxar minha atenção de volta para a casa. As luzes da mansão Cullen estavam acesas. Não apenas as externas, mas algumas janelas do andar principal também brilhavam suavemente.

Sorri comigo mesma. Eles estavam “acordados”. No mundo dos Cullen, isso era quase um eufemismo.

Quando desci, o ar frio da noite nos envolveu outra vez, trazendo o cheiro de terra e chuva. Cole fechou a porta da caminhonete. Por um instante ficamos apenas ali, frente a frente, sob a luz suave da entrada, o leve brilho colorido dos piscas-piscas.

— Acho que ainda tem gente acordada. — comentei.

Cole acompanhou meu olhar para as janelas iluminadas.

— Parece que sim.

Tomei a frente, sentindo o frio da noite me envolver outra vez, e ele veio logo atrás. Subimos juntos os degraus da entrada e, antes que eu simplesmente entrasse, me virei para ele.

— Espera.

— Tudo bem? — ele perguntou, parando um degrau abaixo, o que ainda não nos deixou na mesma altura.

Assenti.

— Você… gostaria de entrar por alguns minutos?

Ele não pareceu surpreso. Apenas… interessado, mas pude ver o movimento leve das sobrancelhas, um sinal de que ele estava processando o convite para aquele território específico.

— Tem certeza?

— Tenho. — aproximei-me um pouco mais, o suficiente para sentir o calor que emanava dele mesmo naquele frio.

— As meninas estão acordadas? — eu não soube entender se era uma pergunta ou afirmação vinda de alguém tão observador.

— Provável que sim. Se conheço a Hilary, ela deve estar lutando contra o sono assistindo alguma coisa, o que ela sempre faz quando sabe que estou fora.

O olhar dele suavizou imediatamente ao ouvir o nome dela, um leve sorriso apareceu no rosto dele, transformando a intensidade sedutora em algo genuinamente terno.

— Então eu aceito, eu não me importaria de dizer boa noite para elas.

Assenti, satisfeita e me virei. Antes que eu tocasse na porta, ela se abriu.

Claro.

Alice.

Ela estava apoiada no batente com aquele sorriso luminoso e conspirador, os olhos brilhando como se tivesse assistido a um filme maravilhoso e estivesse esperando pelos pós-créditos.

— Boa noite! — disse ela, claramente satisfeita com o que via.

Cole inclinou levemente a cabeça em cumprimento, mantendo sua compostura impecável.

— Boa noite, Alice.

Alice olhou rapidamente para mim… depois para ele… captando cada rastro de tensão e felicidade no ar, e então abriu a porta completamente, dando passagem com um gesto teatral.

— Entrem.

O calor acolhedor da casa nos envolveu imediatamente. O som de uma televisão baixa preenchia o ambiente conforme subíamos os degraus, seguimos até a sala principal. E lá estavam eles: Esme e Carlisle estavam sentados próximos ao sofá, com a atenção parcialmente voltada para a TV. Na tela, o som clássico e atualmente inconfundível de Popeye ecoava suavemente. Hilary estava sentadinha no tapete, os cabelos castanhos estavam um pouco bagunçados, e ela ainda usava um pijama macio com pequenas estrelas, com uma manta jogada sobre as pernas, completamente concentrada e, ao lado dela, também de pijama, mais próxima do sofá, Helena observava tudo com seus olhos atentos, absorvendo cada movimento, cada som. Vi quando suas mãozinhas inteligentes cutucaram Hilary para que ela me visse.

Mamãe! — Hilary disse, virando-se imediatamente. Ela se levantou rápido, correndo até mim com a energia típica de uma criança que deveria estar dormindo há horas.

Abaixei-me sobre o salto para recebê-la, envolvendo-a em um abraço. Hilary apertou os braços ao redor do meu pescoço, o cheiro de sabonete infantil e lar sendo o melhor desfecho para o meu jantar.

— Você ainda está acordada.

Eu esperei a mamãe da bebê. Mamãe demoiou.

Beijei sua testa e o topo de sua cabeça, sentindo meu coração amolecer.

— Eu sei. Mas a mamãe prometeu que voltaria.

Ela se afastou um pouco e então percebeu a figura alta atrás de mim. Os olhos dela subiram lentamente… e subiram… até chegar ao rosto de Cole.

Cól voltou!

Cole sorriu, aproximando-se com passos calmos.

— Oi, Florzinha.

Oi! Oi!

Hilary o abraçou, vi quando Cole a correspondeu com carinho e murmurou algo só para ela, que assentiu, satisfeita, como se a presença dele ali fosse a peça que faltava no quebra-cabeça da noite dela.

Helena, por outro lado, já estava olhando diretamente para ele. Analisando. Observando com aquela profundidade cotidiana singular. Cole deu um passo mais próximo, com a mesma postura tranquila de sempre, sem a agressividade que sua altura poderia sugerir.

— Oi, pequena.

Helena inclinou levemente a cabeça, curiosa, e abriu um sorriso pequeno, mas genuíno. Esme se levantou suavemente do sofá, a personificação da hospitalidade eterna.

— Que bom ver você, Cole.

— É sempre um prazer, Esme.

Carlisle também se levantou, com sua elegância serena.

— Boa noite, Cole.

— Boa noite, doutor.

Havia respeito na forma como ele dizia aquilo, um reconhecimento mútuo entre dois homens que, cada um à sua maneira, cuidavam de suas comunidades. Eu me afastei um pouco com Hilary ainda ao meu lado, observando a cena. Cole olhou novamente para as meninas… e então pareceu tomar uma decisão, mudando ligeiramente a postura.

— Na verdade… eu queria aproveitar que vocês estão aqui para comentar uma coisa.

Carlisle inclinou levemente a cabeça, dando-lhe toda a atenção.

— Claro.

Cole cruzou as mãos à frente do corpo, uma postura firme, mas natural.

— Eu estava contando para a Amberli sobre a celebração de Natal na reserva Quileute.

Hilary imediatamente se interessou, os olhos brilhando.

Natal? Brinca?! Tem comida?

Cole soltou aquela risada baixa que eu tanto gostava.

— Bastante.

Huuum a bebê da mamãe quer ir!

Eu ri baixo, acariciando o ombro dela.

— Calma, Bebê.

Ele continuou, voltando à seriedade:

— É uma celebração comunitária. Com famílias, crianças, música… e pensei que talvez… — ele olhou brevemente para mim, um relance carregado de cumplicidade, antes de voltar a atenção para as meninas e para Carlisle — Vocês gostariam de participar.

Hilary nem hesitou, saltitando no lugar.

Sim! Eba!

Já Helena… permaneceu em silêncio. Observando. Absorvendo a reação de Carlisle e Esme.

Carlisle voltou o olhar para ela por um instante, e eu percebi a engrenagem médica e protetora girando em sua mente. Ele já estava analisando, calculando as possibilidades. Hilary era simples. Humana. Previsível e adaptável. Mas Helena… Helena era outra história. Uma híbrida ainda em desenvolvimento, que seria exposta a um ambiente cheio de humanos, estímulos, cheiros e sons. Seria algo novo e potencialmente desafiador para o controle dela.

Carlisle cruzou levemente os braços, pensativo.

— Seria a primeira vez dela em um ambiente assim.

Cole assentiu, compreendendo imediatamente as implicações que iam além do que um humano comum entenderia.

— Eu imaginei. Sei que ela começou a acompanhar as caçadas faz pouco tempo. — ele disse, provando que prestava atenção a cada detalhe da nossa rotina. Ele não pressionou, apenas complementou — Vocês sabem que a reserva é um lugar seguro. Mas entendo que Helena… exige preparo.

Esme lançou um olhar suave e protetor para Helena.

— Talvez com algum tempo…

Eu senti meu coração apertar levemente. Tempo. Treinamento. Controle. Palavras que já faziam parte da nossa rotina e que, às vezes, pareciam pesar mais do que deveriam.

Hilary puxou minha mão, alheia à tensão silenciosa entre os adultos.

Mamãe, pode ir passear?

Abaixei o olhar para ela, forçando um sorriso encorajador.

— Nós vamos ver, está bem?

Ela fez um pequeno bico, mas assentiu, acostumada com as decisões que demoravam a vir. Cole deu um passo atrás, respeitando o espaço, mas mantendo o olhar firme no meu.

— O convite fica aberto. — ele disse, e a intensidade de seus olhos verdes agora carregava uma promessa de suporte — Para você… e para elas.

Havia algo mais ali. Não era só um convite para uma festa de Natal. Era um gesto de inclusão no mundo dele. De espaço para a minha bagagem, por mais complexa que fosse. De um futuro onde eu não precisasse esconder quem elas eram.

— Vamos considerar com atenção, Cole. Obrigado. — Carlisle assentiu levemente, fechando a questão por ora.

Cole inclinou a cabeça, respeitoso e satisfeito.

— É tudo o que eu poderia pedir.

A atmosfera na sala parecia ter se estabilizado em uma aceitação silenciosa, mas o foco de Cole ainda estava voltado para o que realmente importava naquela casa. Ele então olhou para Hilary, seu olhar suavizando-se ao encontrar a energia vibrante da pequena.

— E eu espero ver você lá, Florzinha. — ele disse, com uma promessa silenciosa de que, se dependesse dele, haveria chocolate e música de sobra.

A Hiwawy tamém! — ela respondeu, animada, saltitando levemente no tapete, alheia às complexidades que cercavam aquele convite.

Cole sorriu, um gesto genuíno que iluminou seu rosto de uma forma que raramente mostrava a outros… e depois voltou o olhar para Helena.

Minha pequena híbrida ainda o observava. Silenciosa. Intensa. Como se estivesse tentando entendê-lo, decifrando não apenas o que ele dizia, mas a própria natureza daquele homem que parecia tão confortável entre os nós. Havia uma sabedoria antiga naqueles olhos de criança, uma percepção que ia além das palavras.

— Até logo, Helena. — ele se despediu, mantendo a voz calma e o tom respeitoso, tratando-a com a mesma dignidade que dedicava aos adultos.

Ela não respondeu. Mas não desviou o olhar. Sustentou o verde-claro de Cole com uma firmeza que beirava o desafio e a curiosidade. E, para nós… aquilo já dizia muito. Para Helena, o silêncio não era ausência; era uma forma profunda de reconhecimento.

E, ao olhar para minhas filhas… eu soube que aquele convite não era apenas sobre uma festa, era sobre dar um passo além, mesmo que, para Helena… esse passo precisasse ser cuidadosamente ensaiado.

Acompanhei Cole até a porta, deixando para trás o calor das luzes da mansão e o murmúrio suave da minha família, Hilary já havia sido convencida por Alice a subir para "escolher o livro dos sonhos". Quando o ar frio da noite nos atingiu novamente, ele parou no último degrau da varanda e se virou para mim.

Não havia mais a atmosfera do restaurante ou a provocação do vinho. O que restava era uma densidade crua, orgânica, como a própria floresta que nos cercava. Cole então se virou para mim buscou meus olhos e, naquele momento, a imensidão esmeralda parecia carregar todo o peso das promessas que ele fizera sem precisar dizer uma única palavra.

— Amberli. — ele pronunciou meu nome, e o som foi uma carícia no silêncio gelado — Obrigado por me deixar entrar.

Eu o observei, deixando que meu olhar percorresse as linhas fortes de seu rosto, agora suavizadas pela sombra da varanda. Havia algo de sagrado na forma como ele me via: não apenas como a mulher do vestido de paetês, mas como a mãe daquelas meninas, como a peça central de um mundo que ele estava disposto a entender e proteger.

— Obrigada por ter vindo. Obrigada pela noite, Cole. — sussurrei, aproximando-me o suficiente para que o calor dele fosse minha única defesa contra o inverno — Por tudo.

— Obrigado pela noite. — disse ele.

— Eu que agradeço.

Ele sustentou meu olhar por um segundo a mais, levou a mão ao meu rosto, os dedos roçando minha bochecha com uma delicadeza que me fez fechar os olhos por um segundo. Quando os abri, encontrei os pontinhos terrosos de sua íris vibrando com uma intensidade silenciosa.

— Eu não faço nada pela metade, Lee. — ele murmurou, o polegar traçando o contorno do meu lábio inferior — O convite para o Natal... o segundo encontro... eu estou falando sério sobre te deixar descobrir até onde podemos chegar.

Senti meu coração dar aquele salto familiar, uma confirmação de que eu estava ficando pronta para o risco. Inclinei a cabeça contra a palma da mão dele, um gesto de entrega que selava o nosso pacto invisível.

— Eu sei que está. — respondi, com uma convicção que me surpreendeu.

Ele sorriu de lado, um sorriso lento e vitorioso, e se inclinou, depositando um beijo demorado e casto na minha testa, uma promessa de respeito que queimou mais do que qualquer toque ousado.

— Boa noite, Lee.

— Boa noite, Cole.

Ele hesitou por um segundo, como se decidisse algo. Então deu um pequeno passo ainda mais perto. A proximidade trouxe de volta aquela tensão calorosa que havia nos acompanhado durante o jantar inteiro.

— Durma bem.

— Você também.

Fiquei ali, abraçada ao próprio corpo, observando-o caminhar até a caminhonete com aquela passada firme.

O motor ligou novamente.

Quando ele deu ré e começou a se afastar pela estrada entre as árvores, eu ainda estava na entrada da mansão, com um sorriso inevitável surgindo no meu rosto. Porque uma coisa estava absolutamente clara, essa noite… tinha sido apenas o nosso começo.

Fechei a porta devagar, tentando manter o frio da noite do lado de fora, mas o calafrio que percorria minha espinha não tinha nada a ver com a temperatura. Encostei as costas na madeira maciça por um segundo, inspirando o perfume de pinheiro e cera de abelha da mansão, deixando que a quietude do hall me ancorasse novamente.

Quando alcancei o andar da sala, Esme estava lá. Ela não tinha se aproximado por invasão, mas com aquela suavidade maternal que era sua marca registrada e o silêncio que restava na sala era confortável, preenchido apenas pelo olhar terno de Esme.

— Ele é um homem notável, Amberli. — ela disse, a voz soando como uma carícia.

Caminhei até o sofá, sentindo o peso do salto alto e a leveza do meu coração em um contraste estranho.

— Ele é... direto. — respondi, soltando um riso soprado enquanto me sentava ao lado dela — Às vezes, a honestidade dele chega a ser desarmante.

Esme sorriu, cruzando as mãos sobre o colo com elegância.

— O mundo dele exige isso, não aceita hesitação. E, pelo que vi hoje, ele aplica essa mesma clareza ao que sente por você.

Fiquei em silêncio por um momento, observando as luzes da árvore de Natal refletidas no polimento da mesa de centro.

— Eu nem acredito que ele nos convidou para a celebração na reserva. — confessei, olhando para Esme em busca de uma validação que eu nem sabia que precisava — Não apenas a mim. Ele incluiu as meninas. Ele incluiu a nossa realidade, Esme. Sem pedir desculpas por isso.

Esme estendeu a mão e apertou a minha, o toque frio de sua pele sendo, como sempre, um consolo familiar.

— Isso diz muito sobre o caráter dele. Convidar você para o jantar é um interesse. Convidar suas filhas para a comunidade dele... é um compromisso.

— Carlisle pareceu preocupado com a questão da Helena. — comentei, lembrando da expressão analítica dele.

— Carlisle é cauteloso porque amamos vocês. — ela explicou, o olhar brilhando com sabedoria — Mas ele também viu como Cole a tratou. Com respeito, sem medo. Helena percebe essas coisas, Amberli. Ela não reagiu negativamente porque sentiu que ele é... sólido. Como uma rocha na qual se pode confiar durante uma tempestade.

Senti um nó de emoção se formar na garganta. As impressões de Esme confirmavam o que meu instinto gritava durante toda a noite: Cole não estava apenas testando meus limites, ele estava expandindo o meu mundo.

— Eu acho que vou aceitar. — sussurrei, a decisão finalmente tomando consistência — Eu quero ver esse mundo dele.

Esme inclinou a cabeça, um sorriso satisfeito iluminando seu rosto imortal.

— Eu acho que você deveria. Afinal, Amberli, algumas histórias só começam de verdade quando paramos de olhar para o vazio e decidimos mergulhar no verde de um olhar que nos convida a ficar.

Subi as escadas em silêncio, o som dos meus saltos agora abafados pelo tapete espesso do corredor. A casa estava mergulhada naquela quietude etérea que só os Cullen conseguiam manter.

Primeiro, entrei no quarto de Hilary. Ela estava profundamente adormecida, um braço abraçado a um brinquedinho de pelúcia e o outro estendido sobre o cobertor de estrelas. Aqueceu-me por dentro vê-la num soninho tão em paz. Ajeitei a manta ao redor de seus ombros e toquei a ponta dos dedos em seus fios castanhos. Ela murmurou algo ininteligível, que me fez prender a respiração por achar que eu a tivesse despertado, mas não passou de um balbuciar, talvez sobre mamadeira ou sobre "Cól" e sorri, sentindo que, por mais caótica que nossa vida pudesse ser, momentos como aquele valiam cada desafio.

Fiquei mais um tempinho ali, velando seu sono, antes de seguir para o quarto de Helena. A pequena híbrida não dormia da mesma forma que a irmã; sua consciência era mais vívida, mais presente. Seus olhos se abriram por um segundo quando entrei, claros e inteligentes, reconhecendo-me instantaneamente. Aproximei-me e acariciei seu rosto de porcelana, contornei seu corpinho, descansando a mão entre seus dedos tão quentes. Ela não precisava de palavras para entender que a minha noite tinha sido boa. Senti sua mãozinha apertar meu dedo por um instante antes de ela relaxar novamente. Helena era o meu termômetro de verdade, e o fato de ela ter sorrido para Cole ainda ecoava em mim como uma permissão silenciosa. Velei seu sono por mais tempo do que pretendia, e só saí do quarto quando meus pés estavam doloridos dentro do scarpin.

Já dentro do meu quarto, caminhei direto para o banheiro. Fechei a porta e deixei o vestido de paetês deslizar pelo corpo, sentindo o ar frio da noite finalmente tocar minha pele. No banheiro, diante do espelho, comecei o ritual de me despir da "Amberli do jantar". Com movimentos lentos, passei o algodão embebido em demaquilante pelos olhos. Vir o rímel e a sombra saírem.

Enquanto escovava os dentes, encarei meu próprio reflexo de rosto limpo. Havia um brilho diferente ali. Não era apenas o cansaço satisfatório de uma noite longa, era uma aceitação. Pela primeira vez em muito tempo, eu não estava tentando organizar minhas reações ou racionalizar o perigo. Eu aceitava, com uma honestidade sem igual, que Cole era o tipo de solidez que eu não sabia que procurava. Um homem que não se assustava com a minha bagagem e que oferecia um futuro que parecia tão real quanto a madeira bruta e o cheiro de mar.

Vesti um pijama, sentindo o conforto do tecido. Ao deitar e puxar os cobertores, minha mente repassou cada pequenino rastro castanho no olhar dele. Adormeci com a sensação de que, finalmente, a vida estava a meu favor.

Acordei com um silêncio diferente. Não aquele silêncio pesado que a chuva de Forks costuma trazer, mas um silêncio leve, quase reverente. Algo que me fazia acreditar que meu mundo havia mudado um pouquinho mais.

Me embolei entre as cobertas, me virando em direção a mesa de cabeceira, estendendo minha mão para pegar o celular. A tela foi desbloqueada num breve movimento e no topo havia uma notificação. Não precisei me atentar em saber quem era. O sorriso que surgiu em meus lábios foi tão rápido quanto o palpitar forte do meu coração.

"Acordei pensando se você ainda está com aquela expressão de quem está 'analisando' o convite

ou se já aceitou que o Natal na reserva não vai ser o mesmo sem você lá.

O café no porto hoje está amargo, acho que me acostumei com a nossa sobremesa ontem.

Bom dia, Lee."

Sorri contra o travesseiro, sentindo o calor bom da mensagem se espalhar dentro de mim. Ele não perdia tempo. E, honestamente? Eu também não pretendia perder mais nenhum segundo.