Sem você
2 Dois
Notas iniciais
Passei o restante do dia estudando qualquer caso que poderia enfrentar cuidando dos artistas e as equipes do camarim. No fim percebi que poderia me deparar com muitas coisas diferentes, de uma dor de cabeça a uma fratura. Fui frustrante. Então fiz uma básica pesquisa sobre acidentes em concertos, perguntei a algumas colegas de faculdade se era frequente os cantores se machucarem e assisti muitos vídeos para entender o gravidade dos relatos.
Resultado? Basicamente lidaríamos com torsões, distensões musculares, queimaduras, edemas, talvez pequenas inflamações, fadiga, cansaço, desidratação e possivelmente desmaios. Poderia lidar com isso facilmente. Não foi difícil entender que tipo de material de emergência que acabaria encontrando nos kit de primeiro socorros. Fiz uma pequena lista do que levar extra e encerrei meus estudos.
Voltando pra casa no metro observei as pessoas ao meu redor. Todos em seus mundos, absortos em noticias ou em alguma conversa estimulante. Senti uma pontada de inveja. Ela estaria comigo agora, contando algo muito engraçado me fazendo rir alto na frente de todos. Passaríamos em alguma loja e compraríamos algo estranho para comer e ficaríamos em casa conversando ou só executando nossas tarefas. Gostaria que fosse uma possibilidade. Hoje não parece um dia bom.
Liguei o aquecedor assim que entrei em casa. Estava realmente frio durante a noite ainda. Escolhi sair dos quartos que a faculdade oferecia para ter mais privacidade. Era modesto o lugar, uma sala cozinha com dois quartos pequenos e um banheiro aconchegante. Dividia o lugar com um rapaz que veio para cidade sonhar. Ele nunca estava e sempre me preocupava com isso, suas mensagens na madrugada não vinham a uns dias. Nossos horários eram totalmente diferentes. Ele devia dormir três ou quatro horas durante a manhã, enquanto eu fazia isso durante a noite.
Comecei a preparar meu banho, olhava a banheira encher e deixava a mente divagar com o som da agua. Sentia o vapor quente preencher o ambiente. O que queria indo tão longe? Aonde chegaria depois de conquistar o diploma? Recordei da aula de hoje e suspirei pesarosamente. Ele não entendeu o que lhe contei. Enquanto trabalho não tenho nenhum problema com o toque, só não consigo manter as pessoas por muito tempo em minha vida. Por isso evito contatos desnecessários. E também havia o fato de que em seis meses iria embora. Sem toques, sem intimidades de qualquer nível, sem despedidas dolorosas.
Desliguei a agua e entrei na banheira. Fechei os olhos com a sensação de aconchego que a agua quente proporciona. Aqui é seguro, posso ser transparente como a agua. Só não posso ser quente. Apoio a cabeça nos joelhos pensativa. Christi , como sentia sua falta. Então recordei do acidente, confusão, sangue, gritos. Como sempre me assustou. Quase dois anos e tudo continua sem cor. Não imagino quanto tempo se passou até me recuperar, fiz tudo com calma e sai da banheira me sentindo um pouco melhor. Escolhi minha roupa de ginastica para vestir (que consistia em legue, uma camisa simples e um moletom grosso), pois sabia que acabaria saindo depois. Sequei os cabelos e fui me deitar. Deixei o celular no volume alto e próximo a cama. Desconfiava que ele tocaria essa madrugada. Tomei apenas um comprimido para dormir. Seria suficiente para descansar esta noite.
Acordei com um insistente toque. Levei a mão ao celular, como esperado, Chung- Hee. Ignorei sua chamada e passei logo para as mensagens, havia três dele. Uma pedindo comida, como sempre fazia e as outras desesperadas porque não respondi. “Missão acordar : concluída. Estou indo.” Enviei o curto texto para ele e me levantei. Lavei o rosto rapidamente, peguei mais uma jaqueta e meu material para aula. Provavelmente não voltaria em casa a tempo. Puxei o capuz do moletom assim que coloquei os pés na rua. Quatro horas da madrugada. Ele tem sorte de gostar do frio e de conseguir dormir pouco, mas precisava muito parar com esses pedidos. Já pagava o aluguel sem ajuda dele. Ele mal conseguia comprar comida, sempre mentia os preços para não vê-lo desmaiar de fome na minha frente.
Antes de ir ao metro já comprei a comida, jantar as quatro da manhã. Não concordava com essa alimentação e já havia expressado toda minha desaprovação para ele. Contudo não chegávamos a lugar algum, então sempre que levo comida tento adicionar muitas calorias., provavelmente levara um bom tempo para a próxima refeição. Ambos tínhamos objetivos a perseguir, mas Chung exagerava demais no termo perseguir.
O caminho do metro ao prédio que Chung se encontrava era curto. Avisei ao segurança que iria levar comida ao menino no terceiro andar. Era sempre fácil passar pela entrada essa hora. Poucos ficavam na empresa durante a madrugada então supunha que os seguranças conheciam os malucos por treino que se mantinham lá.
Encontrei o studio com facilidade. E lá estava ele, jogado no sofá com os cabelos molhados e dormindo. O cobri com a manta que estava no sofá, coloquei sua comida ao lado do mesmo. Encarei sua posição desajeitada, ele era grande demais para o móvel. Mentalmente o reprovei: ficará doente se continuar dormindo com os cabelos molhados. Tirei minha jaqueta colocando em cima dele e me sentei no chão abaixando o capuz do moletom. Peguei meu celular e liguei os fones, selecionei uma melodia leve de batida presente. Lentamente me alonguei cantando silenciosamente a musica. No decorrer da melodia comecei a fazer pequenos passos de dança tornando-os mais fortes e rápidos juntamente com a musica.
Gostava desta pequena bolha. Sempre mergulhava fundo com as musicas e a dança parecia expressar o que guardava para mim. Esgotava minhas emoções e me trazia a leveza que precisava para os próximos dias. Fechava os olhos e sentia cada nota me preencher e as traduzia em passos de dança. Essa melodia e letra em especial me faziam relaxar, chegava a esquecer do mundo externo. Uma pequena parte da musica me lembrava de Jazz . De repente sinto alguém ao meu redor, abro os olhos, atrás de mim está Chung abaixando meus fones. Fico estática por uns segundos e sorrio de leve para ele. Me viro querendo nos distanciar fisicamente.
—Deixe-me adivinhar, "Horse Of Cards" ? — Disse com um sorriso largo.
Fale com o autor