Notas iniciais
Boa noite! O que estão achando?

No dia seguinte estávamos arrumando o local juntos. Comprei poucas coisas para deixar a casa confortável. Ele derrubava e tropeça em tudo me deixando mais irritada a cada segundo. Cantava baixo e sorria o tempo todo. Dificilmente respondia suas perguntas curiosas. Com o tempo parou de fazê-las. Às vezes me pegava cantando baixo com ele. E um dia corrigi seus passos de dança sem perceber porque estava quase o amarando no canto da casa para ele parar de cair e fazer tanto baralho.

Suspirei pesadamente. As coisas aconteceram sem que eu percebesse. Chung-Hee , você tem tantas partes dela. Como não percebi a teimosia, a mania irritante de sorrir, aquela coisa de viver feliz, dançando, cantando, sonhando e fazendo parecer tudo tão simples. Como ela dizia: “Sorria para respirar. Não respire para sorrir“. Transformava ditados populares ou frases de reflexão em filosofias diárias. Era tudo tão leve pra ela. Ninguém poderia dizer como era difícil para nós sobreviver. Meu celular tira minha atenção dos devaneios.

Gentilezas suas me fazem prever castigos em breve.
Em dois dias consigo passar no hospital atarde.

ChuHe

Como era piadista esse menino. Alguém precisa dizer que treinee iniciantes não devem conhecer e nem utilizar o sarcasmo. Chequei a agenda do laboratório e reservei para atarde em questão.



Marcado. Não falte ou sua premonição será realidade.

Se alimente e vá lavar suas roupas. Elas fedem.

K.


O celular não demorou a tocar com outra resposta engraçadinha.

Autoritária, mandona e chantagista.
Mencionei isso hoje?

ChuHe

Estava me dirigindo a sala dos residentes para pegar minhas coisas já. Ele ficaria sem resposta, não daria mais chances para ser engraçadinho comigo. Que gaste energias com seu ensaio.

Os dois dias seguintes foram quase uma repetição. O professor fazia muitas perguntas com suposições, alguns alunos já respondiam mais seguros o que fariam, mas a equipe que trabalharia no evento estava se enrolando cada vez mais. Muitas perguntas eram simples. Como lidar com uma repentina dor nas costas, torsões, distensão muscular, câimbra, tontura... Tudo era relacionado a esforço excessivo, tombos ou acidentes pequenos. Ele me olhava toda vez que a turma ficava sem respostas, mas não respondia todas. Tenho consciência que arrumaria inimigos em sala caso decidisse dar uma de nerd.

Estava extremamente cansada esses dias. Não dormi praticamente nada nos últimos dias, meus pesadelos simplesmente decidiram me atormentar. Não tentei aumentar a medicação para dormir, pois tinha intenções de me desfazer dos comprimidos. O cansaço estava aparente em mim. E quando assinei a agenda de presença no laboratório entendi porque, a data estava se aproximando. Dois anos. Era por isso que não conseguia dormir. Amarrei os cabelos em um coque firme, me sentei e fiquei a espera do meu paciente.

Só notei que adormeci brevemente quando senti meu corpo balançar arrancando a imagem de sangue sobre uma pele clara de minha mente. Ajeitei-me na cadeira e na minha frente estava Chung com um pequeno ar de preocupação. Sentou-se em outra cadeira ficando virado para mim.

—Pesadelos? – Ele estava com um estilo diferente hoje, passou em casa.

—Sim. Mas está tudo bem. – Comecei a preparar o material para coletar o sangue.

— WOW! Não desviou inteiramente da pergunta. – Ele ria. Vou estudar alguma droga para lesar os músculos da face. Revirei os olhos.

—Você sabe dos pesadelos, não tem porque desviar. Achei que não falava mais enquanto dormia por isso não me preocupava. – Coloquei luvas, mascara, peguei algodão e álcool, o olhei – Tire o casaco.

— Você grita às vezes também. – Falou tirando a peça de roupa que pedi. — Continue sem se preocupar. Não me incomoda mais. –escorou-se na cadeira estendendo o braço. Via vários edemas espalhados. Acredito ter balançado a cabeça em reprovação porque ele curvou os lábios sorrindo – Já estão sumindo, fique tranquila.

Amarrei bruscamente o elástico, ele vai ter mais um roxo para a coleção. Limpei a área que iria utilizar, e com cuidado coloquei a agulha em sua veia. Soltei o elástico. Estava enchendo a segunda ampola quando estranhei o silencio. Ele estava me observando. Meu cansaço era mais evidente que o dele. Devia estar se acostumando com a rotina de treinee.

— Quanto anêmico você pretende me deixar?


— Não sei ainda. Teve tempo para aliviar as tensões por ai? Se sim, precisarei de mais três frascos para exames a parte. – O encarei levantando a sobrancelha. Ele ria. Insolente.

— Não precisaremos de mais frascos então. – Tirei a agulha e entreguei para ele um pequeno pedaço de algodão. Descartei o material utilizado e me sentei começando a preparar as empolas. Colocava os adesivos e fazias as anotações. – Sutil sua forma de perguntar se estive com alguma mulher.

Olhei pra ele incrédula. Apenas balancei a cabeça. Joguei em seu colo uma mascara. Levantei para pegar francos menores, retornei e comecei a separar o material para culturas diferentes. Coloquei os francos nas maquinas devidas e as liguei. Deixei em cultura alguns para analisar em alguns minutos. Sentei-me.

— Dr. Kyra. Impressionante. – Batia palmas imaginarias. Como é idiota.

—Sabe, a mascara é pra usar! – Apontei pra minha mascara — Os resultados saem em poucas horas. Vai esperar?

— Tirei à tarde para cumprir minha promessa e não sofrer danos. – Falava enquanto colocava a mascara e em seguida o casaco escorando-se na cadeira. Fiz o mesmo, suspirando brevemente e fechando meus olhos.

— Já comeu algo hoje? – Não precisei abrir os olhos para saber que ele sorrio triunfante de minha pergunta – É, cuido de você. Mas não se anime e nem precisa devolver tais ações. Só é normal pra mim, sou médica afinal.

— Apesar dessas olheiras e o cansaço expressivo em você impossível não notar o jaleco branco. O que lhe caiu muito bem, linda como sempre. — Apoiou os cotovelos em seus joelhos . – Fiz uma breve refeição de manhã. E você? Parece que quem deve ser repreendida hoje é a senhorita.

— Não consegui comer. Sem apetite. As aulas estão entediantes por causa do evento da próxima semana. Meus colegas de equipe me fazem ficar tão preocupada que comer não entra nas ações da semana.

— Evento? Onde desta vez- Abri os olhos e o fitei, acabaria adormecendo daquela forma.

— Substituiremos a equipe de apoio de uma banda em um show na próxima semana. Evento remunerado e possivelmente fixo para o curso. Fui escolhida como líder, mas só terei voz se for necessário. Como se fizesse diferença pra mim. – Ele deu risada e o encarei tentando entender.

— Preciso avisar alguém que não te ouvir não é uma escolha possível? – Tenho pena do futuro empresário desta criatura. Gastará horrores em aulas de atuação. – Vai dar tudo certo, relaxe. Dificilmente acontece algo nessas apresentações.

— Espero que sim. Realmente não quero ser responsável por fracassarmos.

— Vamos, vou levar você para comer algo. — Ele levantou e fez um movimento com a cabeça em direção a porta.

Fiquei parada o olhando, realmente iria acabar desabando estando tão sonolenta. Levantei saindo do laboratório junto com ele. Tiramos as mascaras e deixe meu jaleco na sala. Estávamos indo para fora do hospital. Tinha uma pequena lanchonete perto. Precisava somente tomar algo quente. Os dias estavam mais agradáveis porem ainda era frio para mim. Meu país tinha um clima completamente diferente. Nos sentamos com nossas bebidas quentes. Olhava o céu claro aproveitando o sol do dia.

— Prefiro assistir assim, seu rosto atormentado com lagrimas é quase um pecado. – Não o olhei, só suspirei. Sabia que me arrependeria da ideia de convida-lo para morarmos juntos.

— Foque em ser treinee, não em flertar. Suas energias devem ser gastas com treinos não em concentração para uma possível cantada.- Não olhava para ele, só para o céu azul.

— Sutil como esperado – Ele disse rindo.

Fechei meus olhos sentindo o breve calor que o sol trazia ao meu corpo. Então me recordei de algo feliz. Eu e ela em uma ideia louca de acampar no começo da primavera. Não levamos cobertores extras e acabamos passando muito frio durante a noite. Quando amanheceu nos embrulhamos no único cobertor e ficamos aproveitando o calor que o sol trazia. Christi acabou adormecendo em meu colo. Ficamos assim horas. Guardava comigo esses momentos. Não havia um dia que algo não me fizesse recordar dela.

—Sinto tanto sua falta. – Acabei dizendo em um pequeno suspiro abrindo os olhos. Chung me observava com o olhar curioso. Droga, esses relapsos precisam parar. Apoiei um braço nos joelhos e minha cabeça na mão.- Christine. Minha irmã.

— AH! Estando em outro país deve ser difícil de vocês se falarem. – Ele parecia aliviado. Fora meu professor ninguém mais sabia sobre ela aqui.

— Acho difícil nos falarmos nos falarmos de qualquer jeito físico existente. Ela morreu. – Assisti suas feições felizes sumirem. Ele não parecia conseguir formar nenhuma frase – Vai fazer dois anos. Éramos muito próximas.

Notas finais
Logo mais a vida de Kyra irá virar uma bagunça total .. Fiquem atentos