Sem saída

2 Eles não são bem vindos


Notas iniciais
Espero que gostem!

Fechei os olhos e soltei um grito abafado de dor. Sentei na neve da sacada e levantei minhas mãos vagarosamente. A dor subia pelos braços, parando nos cotovelos. Olhei para as mãos com receio. Tinha alguns cortes meio fundos, e várias linhas de sangue escorriam.

– Oh meu Deus Violet. — Quando me dei conta, Lúcia estava em pé na minha frente, um pouco antes dos cacos.

– Não venha para cá. Vai acabar se machucando também. — A repreendi quando percebi que ela tentava passar.

– Levante-se e entre, vou buscar alguns curativos e água para lavar esses cortes. — Lúcia não esperou eu responder e logo correu quarto a fora.

Apoiei minhas mãos na neve e soltei um gemido. A neve ficou manchada com alguns tons claros de vermelho. Sentia alguns cacos pequenos se aprofundando. Agora em pé, voltei a pegar impulso e pulei para dentro do quarto. Assim que entrei, fui de novo ao chão. Mas que droga, outro escorregão. Dessa vez cai sentada e minhas mãos tocaram o carpete, me fazendo fechar os olhos e respirar fundo.

– Violet minha pequena. Sempre desajeitada e desastrada. — Abri os olhos reconhecendo a voz imediatamente.

– Papai! Vocês chegaram! — Abri um sorriso ignorando a dor latejante.

– Venha minha querida, eu te ajudo. — Papai abaixou-se perto de mim e me puxou pela cintura. Logo virou minhas mãos cuidadosamente e com um olhar curioso voltou-se a mim — Me diga o que andou aprontando?

– Eu escorreguei e cai em cima dos cacos da janela que se despedaçou sozinha.

Papai afagou meu rosto e eu levantei os olhos para ele. Era um homem bonito e a pessoa que eu mais admirava. Estava começando a ficar grisalho, mas não perdia seu bom humor. Seus cabelos eram de um castanho diferente e seus olhos bem negros e nunca perdiam o brilho.

– Já vai se preparando, pois quando sua mãe souber... — Ele terminou a frase com um sorriso brincalhão.

– Eu sei papai, Lúcia já desceu para pegar alguns curativos. — Papai andou até a porta e olhou para fora, em direção as escadas.

– Violet, se prepare. — Papai voltou a encostar-se ao batente da porta e cruzou os braços contando silenciosamente. — Cinco, quatro, três, dois, um.

Mamãe entrou no quarto, afobada quase derrubando papai. Tentei sorri para acalmá-la.

– Violet Nicolle Valentine! Quer matar sua mãe do coração? — Ela puxou minhas mãos, que ainda sangravam. — Menina, o que andou fazendo na nossa ausência?

– Eu cair sobre os cacos de vidro da janela mamãe. Estou bem, se acalme.

Mamãe me deu um sorriso reconfortante e Lúcia entrou no quarto com alguns curativos, toalhas e uma pinça. Fez uma breve reverencia aos meus pais que assentiram e me puxou para a cama.

– Se vocês nos derem licença, vamos nos retirar. — Meu pai puxou mamãe pelos ombros já saindo.

Mamãe saiu protestando com ele e não pude deixar de sorrir. Mamãe era linda. Seus olhos eram bastante azuis. Minha mãe tinha o cabelo bem loiro e liso. Papai dizia que eu era uma mistura perfeita deles. Porém, havia herdado o cabelo bem avermelhado da avó do meu pai e os olhos bem verdes da minha avó parte de mãe.

Lúcia se ajoelhou na minha frente e puxou minhas mãos para si. A dor latejava pelos braços como se quisesse gritar. Ela começou a lavar os ferimentos com álcool, fazendo eu automaticamente puxar minhas mãos.

– Acalme-se, preciso limpar o sangue. — Ela tornou a pegar minhas mãos, agora pegando a pinça juntamente. — Pronta?

– Sim. — Respondi fria. Fui criada ao redor de garotos, meio que era acostumada a me machucar. Mas nunca me esqueci das conversas que tive com papai. Ele disse que em meio à dor, precisava demonstrar frieza. O motivo dessas conversas eram cartas de ameaças que chegavam quando ele começou a enriquecer.

Lúcia começou a retirar caco por caco. A dor estava começando a entorpecer meus braços. Ela jogava os cacos cheios de sangue em um balde que não havia notado que ela tinha trazido. Ela terminou depois de algum tempo e voltou a lavar com álcool. Com delicadeza, ela colocou pequenos curativos de pano e enrolou minhas mãos com faixas.

– Pronto senhorita Violet, agora vou colocar uma cortina mais grossa para que não sinta frio.

– Obrigada. — Dei um sorriso aliviado para ela.

Lúcia rapidamente saiu do quarto e voltou com uma pá e outro balde. Depois de ter limpado, ela saiu e na mesma rapidez, voltou com uma cortina enorme de um tecido bem pesado. Enquanto trocava as cortinas, levantei-me e fui ao quarto dos meus pais. Papai já estava deitado, lendo um livro grosso e mamãe estava sentada na penteadeira, terminando de soltar seus cabelos. Bati na porta e papai me convidou para entrar. Fui ao encontro dele e desejei boa noite, logo depois para mamãe. Eles me retribuíram com um enorme sorriso. Quando voltei para o quarto, Lúcia já havia trocado as cortinas e estava diminuindo o fogo da lareira. Fui para a cama e puxei as cobertas me enrolando. Lúcia veio ao meu encontro e me desejou uma boa noite, fazendo uma leve reverencia e apagou as velas, logo saindo do quarto.

A vasta luz da lareira caiu sobre o quarto. Dei as costas para a janela e fiquei olhando o fogo crepitar. Meus olhos novamente pesaram. Agora um pouco aquecida, não lutei contra o sono. A casa já estava em silencio, mas algo me fez abrir os olhos. Um zunido estranho e de repente o fogo se apagou. Sentei-me na cama, a cortina estava aberta e um vento forte entrava pela janela, alguns flocos de neve molhando o carpete. Levantei-me para fechar as cortinas, quando cheguei perto, outra rajada de vento foi impulsionada para dentro do quarto. Estremeci com o vento gélido. Minha visão já havia se acostumado com a escuridão e de repente uma sombra estava ao meu lado. Virei-me um pouco assustada, mas não havia ninguém. Olhei o quarto todo, mas parecia normal. Novamente de costas para a janela, algo frio se passou pela minha nuca, algo mais frio que o vento que entrara. Prendi o ar e me virei.

– Não pode ser. — Deixei escapar junto ao ar que estava preso.

– Nós não somos bem vindos? — Ele sorriu para mim. Seus caninos iguais aos do meu sonho, grandes e afiados.

– Não. — Nós? Mas ele era o único que estava ali. Seus olhos eram que mais me assombrava, mas não conseguia desviar os olhos.

Queria gritar, mas minha voz não saia. Será que era outro sonho? Dei um passo para trás. Mas com uma rapidez extrema, sua mão voou no meu braço. Seu sorriso se alargou, junto ao meu medo. Minhas pernas perderam a força e fechei os olhos, me aprofundando em uma escuridão.

Notas finais
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