Sem rumo.

24 Capítulo 24


Notas iniciais
Olá, amores, quem é vivo sempre aparece ♥ Quero pedir desculpas pelo meu sumiço. Nas notas finais, vocês saberão o motivo, afinal, os devo uma explicação. Espero que ainda estejam aqui e que gostem do capítulo. Tentei juntar tudo em um só capítulo, por ser o último. Depois desse, apenas postarei o Epílogo e a darei como concluída. Obrigada por me acompanharem até aqui e realmente espero que possam me perdoar! Tentei escrever o capítulo da melhor maneira, mas como eu estava há muito tempo sem postar, não tive tempo para revisá-lo. Perdoem qualquer erro. Gostaria de dedicar cada palavra deste último capítulo para todas as pessoas que comentaram o capítulo anterior e me incentivaram. Eu nunca me senti tão feliz lendo. Vocês são importantes demais para mim. Obrigada por terem corrido atrás e por terem insistido em mim. Eu os amo muito. NOVIDADE: A FIC DO WILL E DA CHRIS JÁ FOI POSTADA!!! CORRE LÁ E DÁ UMA OLHADA!! http://fanfiction.com.br/historia/582921/Back_to_Home/ Beijos ♥ Até as notas finais! Twitter: @poxamalec

BEATRICE PRIOR

SEIS MESES DEPOIS

Depois de passar por tantas perdas você acaba se acostumando com a dor. É como se ela nunca tivesse ido embora. Na verdade, ela nunca foi. Ela apenas se acomodou no meu coração, e me alfinetava toda vez que eu recorria às lembranças. Quando perdi minha mãe, a dor foi insuportável. Havia sido minha primeira perda. Quando perdi Caleb, além da dor, descobri também o que achava ser vazio. Com Peter, eu fui destruída.

Mas com Tobias...

Sempre associei hospital à dor. Nunca gostei deles, porque nós só estamos nele quando algo realmente grave aconteceu. E em todos os casos são coisas ruins que aconteceram em nossas vidas; a menos que você seja um médico ou esteja aqui para o nascimento de alguém. Fora isso... Nós só os frequentamos quando algo de ruim acontece.

Hoje é diferente.

O sol está iluminando todo dia e não há sinal de nenhuma nuvem sequer. Caminho pela calçada que leva até o hospital, situada no meio do perfeito gramado verde, enquanto Caleb está sorrindo me esperando na entrada.

Estamos no Northwestern Memorial, o mesmo hospital onde Tobias entrou em coma. Entrar aqui ainda me dá calafrios e eu paro na entrada soltando um suspiro nervoso. Eu ainda não superei esse lugar. As lembranças e todo o pavor ameaçam voltar.

– Você consegue, Tris. O motivo dessa vez é diferente. – ouço Caleb e o sinto colocar a mão em meu ombro, de forma confortadora, quando ele percebe minha tensão.

– Por que tinha que ser nesse hospital? – eu pergunto, ainda encarando a porta de vidro à minha frente.

– Porque é aqui onde eu trabalho, porque este é o melhor hospital da cidade, porque é aqui que está o resultado dos exames... E várias outras razões. – ele suspira. – Por favor, Tris, vamos logo com isso.

– Você lembra o que o meu médico falou? Tenho que tomar cuidado com as emoções; elas podem... Elas podem me deixar daquele jeito... E, bem... Você sabe como eu fico. – tento dizer o que realmente quero dizer, mas não consigo, pois ainda sinto vergonha do que eu me tornei.

– Tris, você acha que eu a traria aqui se não soubesse que é seguro? – Caleb se vira para mim e eu o encaro. – Eu não vou deixar você cair. Nunca mais. Estamos juntos nessa.

– Tudo bem. – eu assinto.

Depois do que aconteceu com Tobias, eu me convenci de que precisava de ajuda. Quando eu quase me perdi novamente, entendi o porquê de todos quererem que eu tivesse um acompanhamento psicológico: não por achar que eu era louca, mas para prevenir que eu ficasse louca. Estou em acompanhamento há cinco meses e não há nenhum indício de recaída. O médico que me acompanha me incentiva e tenho pessoas que me amam ao meu lado para que todo o processo seja positivo e que o tratamento seja eficaz.

Quando damos um passo à frente, que a porta de vidro desliza para os lados e se abrem, eu estremeço pelo contato com o ar gélido do ar condicionado do hospital e também porque eu ainda consigo ver a cena de seis meses atrás.

– Tris? – Uriah se aproxima e me abraça.

– Como ele está?

Minha cabeça dói com a lembrança. Todos estão aqui. Evelyn está me olhando. Duas garotas estão me olhando. Christina está me olhando. Will está me olhando. Oh, meu Deus, Zeke...

– Ele não aceitou no começo por causa dela. Ele queria vê-la antes e saber o que ela achava. – Zeke se levanta e aponta para mim. – Ele esperou você voltar, mas você não voltou. Você o abandonou! – ele cospe as palavras e elas me atravessam como navalhas.

Eu o abandonei. Eu o abandonei quando ele mais precisou de mim. Ele nunca teria me deixado...

– Tris. – Caleb me chama.

Eu pisco e a cena se vai. Meu irmão está olhando atentamente para mim. Ele não está assustado ou com medo. Ele apenas olha com compreensão para mim, enquanto sua mão segura a minha num aperto acolhedor.

– Não foi tão difícil, foi?

– Você me ouviu? – eu junto as sobrancelhas quando me viro e olho para ele.

– Você conseguiu. Conseguiu passar por uma péssima lembrança sem ter um surto. Sabe o quanto estou orgulhoso de você?

– Você me acha covarde por tê-lo abandonado no momento em que ele mais precisou de mim?

– Cada um lida com a dor à sua maneira. – ele cita o que eu sempre digo, com um sorriso terno nos lábios. – Não é essa sua frase favorita? A única maneira que você encontrou foi fugir, e eu tenho certeza que Tobias jamais a culparia por isso.

– Ele precisava de mim. – eu digo, quando as lágrimas embaçam minha visa e minha voz treme, depois que sou forçada a engolir um nó da minha garganta.

Não posso chorar.

Não agora.

– E você voltou.

– No que adiantou?

– Não foi sua culpa. Não era algo que você podia evitar.

– Você não entende, Caleb.

– Eu entendo mais do que você imagina. – ele suspira pesadamente e tenho certeza de que isso tem algo a ver com a mamãe.

Por fim, para nos prevenir de mais dor e remoer o passado, eu decido que é melhor encerrar o assunto. Ainda não estou pronta para falar disso.

Ainda não estou pronta para falar dele.

Respiro fundo e seco os olhos levemente, enquanto Caleb aperta minha mão e nós seguimos pelo corredor.

– Ela está aqui para pegar o resultado dos exames. O doutor Robert está?

– Está à sua espera, doutor. – uma das recepcionistas diz.

– Obrigado, Lou. – Caleb sorri gentilmente pra ela e nós seguimos para uma sala.

– Susan sabe? – eu o provoco com um meio sorriso.

E é como se todo a tensão entre nós tivesse sumido e nossa relação volta a ficar leve novamente. Caleb e eu estamos, aos poucos, voltando a ser o que éramos antes.

O irmão e a irmã que se apoiam um no outro.

– De quê? – Caleb gira a maçaneta e eu reconheço sua sala. Estive aqui quase todos os dias durante quatro meses.

– Que a loira dá mole pra você. – eu sorrio, enquanto ele abre uma gaveta e retira um envelope branco.

– A Louisa? – ele me olha por um instante, com um sorriso travesso familiar, e depois volta a procurar por algo em sua mesa que está lotada de papéis. – Ah, não é em mim que ela está interessada, acredite. E mesmo se tivesse, eu sou louco por Susan. Não há espaço para mais ninguém além dela. – ele suspira e olha pela janela, parecendo perdido em pensamentos e não se dando conta de que eu ainda estou aqui. – Nem mesmo para Chris... – ele diz em um tom mais baixo e, em seguida pisca repetidas vezes, saindo do seu transe.

– O que você disse? – pergunto, arqueando uma sobrancelha. Caleb só acaba de confirmar algo do qual eu já desconfiava.

– Nada. – ele desconversa e volta a mexer nos papéis. – Aqui está! – ele pega uma folha branca com algo escrito e põe dentro do envelope branco. – Agora nós podemos ir. Venha, já atrasamos demais.

Nós nos dirigimos à outra sala, dessa vez com um aparelho de ultrassom e uma cama interligada à maquina. Sou conduzida por uma enfermeira até o banheiro, onde é me dado aquela roupa típica de hospital e um chinelo. Me troco, enquanto ouço o médico conversar com Caleb.

– O pai não vai acompanhar sua irmã? – Robert pergunta à Caleb.

Reflito na pergunta. Estou prestes a descobrir se estou realmente grávida e Tobias não está comigo. Eu nunca imaginei isso. É estranho ele não estar aqui. Quase nunca imaginei isso, e em todas as poucas vezes que eu imaginei, ele estava ao meu lado. Eu gostaria que ele estivesse aqui. Porém, eu preciso ter certeza antes...

– Está pronta, Tris? – a voz de Caleb me tira dos pensamentos.

– Sim. – abro a porta e saio, caminhando até a cama e me deitando lá, enquanto a enfermeira desliza um gel sobre minha barriga e massageia.

Vejo Robert se aproximar de mim.

– Como está se sentindo? – ele pergunta sorridente, enquanto liga a máquina e se aproxima da minha barriga, conduzindo um equipamento sobre ela e passando por cima do gel.

– Normal. – digo, sentindo-o pressionar sobre minha bexiga.

Por favor, não faça isso! Estou prestes a fazer xixi nas calças!

– Um pouco ansiosa. – conserto minha frase com um sorriso nervoso.

– Olha só o que temos aqui! – ele diz, olhando para o monitor.

Eu ainda não tive coragem de olhá-lo.

– Você está grávida! – ele sorri. – É oficial. Dois meses de muita saúde.

Ok. Eu preciso olhar...

Viro um pouco meu rosto e observo quando Robert gira o monitor para mim. Não consigo ver nada, apenas uma mancha pequena no meio de tudo. Robert acena confirmando a minha dúvida e dá de ombros.

– Não dá pra ver muita coisa... Ele ainda é novo, porém os batimentos estão todos em ordem e ele parece uma criança saudável... – eu paro de ouvir o que ele fala, porque não consigo parar de olhar o monitor.

Eu estou esperando uma criança dele.

Eu não enlouqueci.

Tudo isso é real.

Eu não consigo evitar a lágrima que escorre do meu olho até minha bochecha. Não movo um músculo sequer para limpá-la e não me importo se o médico tenha presenciado isso.

Eu estou grávida.

Essa é a melhor notícia que eu já recebi em meses.

– XXX –

Depois de me trocar e ouvir atentamente todas as instruções do médico, eu saio do hospital e caminho pelo estacionamento até o carro, acompanhada por Caleb.

– Por que você saiu da sala quando começamos a fazer a ultrassom? – pergunto, acionando as travas do carro do meu irmão.

– Porque era um momento de família; seu e do seu filho. Eu não queria estragar nada. – ele diz, enfiando as mãos nos bolsos do jaleco branco.

– Caleb, você é a minha família.

– Não mereço que diga isso. Não depois da forma como agi. – ele abaixa a cabeça.

Caleb ainda se culpa pelo modo como me tratou nos últimos anos, mesmo eu já tendo o perdoado. Antes eu ficava confusa do seu ódio e desprezo por mim, mas depois eu compreendi tudo: ele estava lidando com a dor, da maneira que ele achou melhor. Eu não posso culpa-lo por isso. Eu não sou melhor que ele. Ao menos ele não se perdeu e se viciou em algo no qual não lhe fazia bem. Ele apenas...

– Foi minha culpa. – ele solta e eu me desfaço dos meus pensamentos. Seu tom de voz está coberto de dor, atraindo toda minha atenção. Ele ainda está de cabeça baixa e acho que nunca vi meu irmão tão abatido por alguma coisa, desde a morte da mamãe. – Naquele dia... No dia do acidente – ele suspira. – Foi minha culpa.

– O quê? – eu pergunto, tentando entender o que ele está dizendo. Nada faz sentido.

– Eu matei nossa mãe, Tris. – ele confessa e a menção da palavra “mãe” misturado à confissão de Caleb faz meus olhos lacrimejarem.

– O que você tá falando? Não! Não foi sua culpa! Pare com isso... – digo, enquanto puxo meu irmão para um abraço, onde ele retribui.

Eu convivi com o sentimento de culpa por muito tempo. Não quero que Caleb passe por isso.

– Se eu não tivesse provocado você, nós não teríamos discutido, e ela... – ele funga em meu ombro. – Ela ainda estaria aqui com a gente. Ela teria te acompanhado hoje.

– Caleb...

– Eu não consegui lidar com isso desde aquele maldito dia, por isso joguei a culpa em você. Pensei que, me convencendo de que era por sua causa, eu me sentiria melhor. Eu não conseguia encarar você, Tris. Você se parece tanto com ela... – eu não concordo com ele, já que Caleb é uma cópia da nossa mãe, mas eu temo que se eu interrompê-lo, eu possa me quebrar, e nesse momento, ele quem está quebrado. – O mesmo sorriso, a mesma determinação, a mesma bondade...

– Caleb... – eu soluço, abraçada ao meu irmão, enquanto seu corpo se agita colado ao meu e ele alisa meus cabelos.

– Ela estaria tão feliz por você... Me perdoa por ter te tirado isso... Me perdoa, Tris...

– Caleb, está tudo bem. Não foi sua culpa. Nem minha. Nunca adivinharíamos que uma discussão pequena fosse causar aquele acidente. Nós éramos apenas crianças. Eu não quero que você se culpe. Por favor...

– Você me perdoa? – ele se afasta o suficiente para que seus olhos fitem os meus. O avermelhado deles só me prova o quanto Caleb está frágil.

– Eu já te perdoei, Caleb. Você é meu irmão. Eu te amo. – digo, enxugando uma última lágrima que escorre até a sua bochecha.

– Obrigado. – ele me dá um abraço apertado e em seguida se afasta novamente. – Eu precisava disso. É um enorme peso sendo retirado das minhas costas.

– É bom saber que se sente melhor. – eu sorrio e limpo meus olhos. – Preciso voltar. Como te devolvo o carro?

– Susan vai vir me buscar, não se preocupe. Tenho plantão o dia todo e só saio daqui a noite. Diga ao papai que eu jantarei lá hoje.

– Ok.

– Eu te amo, mana. – ele sorri. – Obrigado por ter acreditado em mim.

– Eu também te amo. – sorrio. – Te vejo no jantar.

Ele acena para mim, enquanto eu entro no carro e dou a partida.

Quando ligo o rádio do carro e começa a tocar Scorpions – Still Loving You, é quase impossível não lembrar de Tobias. Me pego sorrindo ao ouvir a música. O rock sempre fora uma paixão dele. Também lembro da estrada. Lembro vagamente de ter ouvido essa música em algum momento da nossa viagem.

Sinto um aperto no peito.

É tanta saudade...

Estaciono o carro em frente à casa do papai e desço. Aciono as travas do carro e me viro para caminhar até a porta de madeira branca, mas então eu o vejo.

Tobias está parado de braços cruzados, encostado lateralmente no batente da porta. Quando meus olhos fitam os dele, ele sorri e pisca um olho para mim. E nesse momento, eu perco a famosa batida perdida do coração.

E nesse momento, eu me apaixono por ele novamente.

Caminho até ele e ele me abraça. Eu encosto minha cabeça em seu peito, enquanto ele beija minha testa.

Quando Tobias entrou em coma, tudo o que ainda restava de mim estava em coma junto com ele. Eu poderia tentar descrever a maneira como eu me senti, mas isso seria impossível. Ninguém entendeu como eu me senti.

Foi tudo tão sombrio...

– Você saiu cedo. Pra onde foi? – ele levanta meu queixo e beija meu nariz.

Ainda não é o momento.

– Saí com Caleb. Ele me pediu pra deixá-lo no trabalho e me deixou ficar com o carro.

– Você pode usar o meu. – ele franze a testa em confusão.

– É demais pra mim. – digo, me referindo ao modelo do carro. Ele sorri. – Tenho até medo de girar as chaves.

– Você vai ter que se acostumar... – ele diz, não para mim, pois parece estar distante. Vejo o brilho nos seus olhos e sei que ele está pensando em algo. – Vem, entra. Hoje nosso dia vai ser bastante agitado.

– Ah, é? – eu levanto uma sobrancelha sugestivamente. – Por quê?

– O time do Hec está aqui na cidade participando do campeonato e nós vamos pra assistir. Depois eu tenho planos para nós dois. – ele levanta uma sobrancelha, e vejo um sorriso safado passar nos seus lábios, enquanto ele se curva e beija o meu pescoço, me fazendo fechar os olhos e suspirar. – Eu quero tanto você...

– Por favor... – eu digo, quando ele mordisca minha orelha e eu aperto seus bíceps.

– Vamos lá pra dentro.

Quando entramos, nós olhamos o relógio que está centrado na parede da sala, e Tobias dá um soco na parede. Ele não está zangado.

Ele está sorrindo.

– Porra, eu adoraria ter um tempo com você, mas não podemos fazer isso. O jogo do Hec começa em vinte minutos e Zeke cortará minhas bolas se eu não chegar na hora.

– Nós poderíamos tomar banho juntos... – digo, enquanto abraço sua cintura.

– Sim, poderíamos... – ele sorri, olha para mim e põe uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. – Mas nós dois sabemos que isso atrasaria ainda mais, gata. Por favor, não complique as coisas.

– Não estou. – levanto uma sobrancelha.

– Vamos lá, Tris... – ele fecha os olhos e solta um suspiro. – Por favor.

– Tudo bem. Eu uso o banheiro do papai e você o social.

– Bem... – Tobias coça a cabeça e reprime um sorriso.

– Falando em papai, onde está ele? – eu olho em volta. Não tive sinal dele desde que cheguei.

– Se eu fosse você, não entraria no quarto. A Edith está lá. E eles estão fazendo o que eu queria fazer com você.

Reprimo uma careta.

– Como você sabe?

– Ela é barulhenta.

– Que nojo. – respondo, mesmo que pareça infantil.

Já consegui aceitar o fato do papai se casar com a Edith, mas ainda é estranho pensar nele transando com alguém que não seja a mamãe. Aliás, é estranho pensar nele transando.

Mas o que diabos eu estou fazendo? Eu acabei de pensar!

– Anda, amor. Não temos muito tempo.

– Tá bem.

– Não demora! Eu vou só pôr uma roupa e te espero aqui em baixo.

– Ok.

Subo as escadas e sigo para o banheiro, tomando um banho e vestindo uma roupa. Escolho um vestido verde claro, justo até a minha cintura e saia solta. Calço uma sapatilha branca e pego uma bolsa do mesmo tom. Vou até o espelho do quarto e prendo meu cabelo em um rabo de cavalo. Quando vejo meu reflexo, minha mão instantaneamente vai até minha barriga e eu acaricio levemente.

Oh meu Deus... Eu estou esperando uma criança!

Me pego sorrindo e quando ouço Tobias me chamar, desço e o acompanho até o carro. Ele dá a partida e não fala uma palavra sequer durante todo o percurso. Ele sabe que eu tenho algo para falar, mas eu acho que ainda não é o momento certo.

E se essa criança não tiver vindo no momento certo? Tobias queria muito viajar... E não posso dizer que não sinto falta de nós dois juntos na estrada. Como poderemos viajar, se nossa vida está prestes a mudar completamente? Nós teremos um bebê para cuidar agora!

E, bem, nada poderia me deixar mais feliz.

– Gata, no que cê tá pensando? – Tobias finalmente fala, enquanto segura minha mão e engata a primeira na marcha.

– Em nós. – digo, porque eu realmente estava. Em nós e no nosso filho. – E você, no que está pensando?

– Na estrada. – ele solta um suspiro e vira sua cabeça para que possa olhar pra mim, tirando um pouco a atenção do transito. – Você não sente falta? Quando viemos pra cá, não pretendíamos passar tanto tempo.

– Imprevistos. – eu respondo com um meio sorriso.

– Ou um tumor. – ele retruca, fazendo brincadeira.

Meu sorriso se desfaz tão rápido quanto veio.

– Isso não tem graça.

Falar do tumor como se fosse algo normal e do qual não devêssemos nos preocupar não faz com que eu me sinta bem. Apesar de terem operado, o médico nos informou que as chances dele voltar são grandes e, mesmo com todos os tratamentos, não há muita coisa a ser feito para acabar com ele de vez. Eu tenho frequentado todo o processo de cura e todas as tomografias com Tobias, mas ainda assim, eu tenho medo de que possa voltar.

E eu sei que ele também tem.

– Chegamos. – ele diz, quando estaciona e desliga o carro.

Nós descemos e caminhamos até o local das arquibancadas. Vejo Hector procurar por nós do campo de futebol e assim que ele nos encontra, Tobias acena para ele, que retribui animadamente.

Foco no olhar que Tobias dirige para Hector e meu coração se aperta. Acho que só o vi com esse brilho quando eu cantei com ele pela primeira vez em público, no casamento de Christina, onde ele ficou orgulhoso.

É, ele será um ótimo pai...

O tumor...

O tumor pode voltar...

– Você tá distante, Tris. É por quê citei o tumor? Foi uma brincadeira, amor. – Tobias diz, enquanto nos sentamos em duas cadeiras na terceira fileira da arquibancada.

– Não... Está tudo bem. Não se preocupe. – respondo, tentando fazer com que minha voz não soe trêmula.

– Tris, eu tô aqui agora. – ele me olha bem no fundo dos olhos. – A gente consegue encarar isso, tá bem? – eu desvio o olhar. – Olha pra mim, amor. Estamos sobrevivendo com isso já tem meses. Nós vamos conseguir. Confie em mim.

– Só não quero perder você de novo. – eu aperto meus olhos. À essa altura, nenhum de nós presta atenção no jogo.

– Você nunca me perdeu. Eu sempre estive com você, nem que fosse no pensamento. – ele me braça de lado e eu encosto minha cabeça em seu ombro. – Não vamos pensar nisso, tá? Não é o momento.

– Ok.

– Já falei o quanto você tá gata nessa roupa? – ele sussurra ao pé do meu ouvido. – E pelo que eu tô vendo, ela vai ser fácil de tirar...

– Tobias, olha pro Hector. Ele não tá se concentrando no jogo porque você não presta atenção. É importante pra ele, amor. – respondo, quando começo a perceber que Hector não para de nos olhar.

– Eu sei que é. Esse garoto é um dos maiores orgulhos que já senti na vida. – ele fala, olhando para Hector enquanto ele joga.

– É lindo o modo como você olha pra ele.

– Me falam que tem o mesmo brilho quando olho pra você. – ele vira a cabeça para mim e sorri.

Sinto minhas bochechas queimarem.

– Você ainda fica vermelha com essas coisas. Quando vai se acostumar? – ele ainda não tirou o sorriso bobo dos lábios.

– Tudo no seu tempo. – eu pisco para ele e nós voltamos a atenção para o jogo.

Tudo segue como o esperado. Hector conseguiu fazer dois gols e Tobias vibrou mais que qualquer pessoa da torcida. Zeke e a namorada dele Shauna se sentaram conosco logo após o término do primeiro tempo. O jogo foi seguido de risadas, comidas, gritos e muita alegria. Todos os pensamentos ruins de manhã foram embora tão rápido quanto vieram. Aprendi que eu só continuo a me sentir mal se eu quiser, porque com tanta gente ao meu redor que me faz feliz, não há nada que possa estragar isso.

Quando voltamos para casa, já está de noite. Estávamos em um restaurante assim que o jogo terminou e Hector estava morto de fome. Ele nos contou sobre todas as suas estratégias e o quanto foi horrível a tensão nos últimos minutos, quando seu time quase perderia. Mas a virada foi incrível e Tobias chorou quando Hector saiu do campo e pulou em seus braços. Acho que eu também chorei. Quando o vejo agir dessa forma, eu só consigo pensar no nosso filho...

– Eu tenho uma surpresa pra você. Você topa ficar vendada por alguns minutos? – Tobias me pergunta quando estaciona o carro em frente à casa do papai.

– Depende. Essa surpresa envolve a venda para fins sexuais? – eu sei que não é nada disso, mas gosto de provoca-lo.

Tobias sorri.

– Não. Eu não tinha pensado nisso, mas é uma ótima ideia. – ele levanta a sobrancelha sugestivamente.

Droga.

– Amor, eu estava brincando. – digo, porque penso que ele levou a sério.

– Eu também. – ele pisca para mim e pega a venda, pondo-a em meus olhos, de modo que eu não consiga enxergar nada. – Prometo que você vai gostar.

– Sei que vou.

E ele dá a partida no carro. Não consigo ver para onde está me levando e não tenho sequer noção de qual rua estamos seguindo, mas confio nele. Tobias nunca decepciona. Tento levantar um pouco a venda para espiar alguma coisa, mas acabo levando um tapa de leve na mão seguido por uma risada e uma advertência. Tobias falou numa risada, porém ele estava falando sério. E se ele preparou algo e eu tenho que seguir regras, eu não me importo. Só quero colaborar para que tudo saia como ele planejou.

Tobias para o carro e quando ponho as mãos nos olhos, ele fala.

– Ainda não. Nós chegamos, mas você ainda não pode tirar a venda. Vou guiar você. – ouço o fechar da porta dele e logo sinto sua mão pegando a minha e me puxando gentilmente para fora do carro.

E então ele me guia durante todo o pequeno percurso que fazemos a pé. O cheiro e a calmaria desse lugar me são familiar, mas ainda não enxergo nada. E como está a noite, tudo só piora. Somente quando paramos, quando Tobias retira a venda de mim, que noto onde ele me trouxe.

Estamos no Parque de Chicago. O parque que está abandonado, mas permanece intacto, exceto pela ferrugem dos ferros.

– Por que me trouxe aqui? – eu me viro pra ele e o encontro sorrindo, olhando para frente.

– Veja mais fundo. Tem um jantar em forma de piquenique esperando por nós dois. – ele aponta com a cabeça.

Eu sorrio e vou até a toalha personalizada xadrez vermelho e preto e me sento nela. Tobias foi cuidadoso o bastante para não pôr as velas que iluminam aqui perto da toalha e nem da grama. Ele não fez muita coisa. Há sanduíches e morangos com chocolate. O suficiente para duas pessoas. Também há cerveja para bebermos.

Ok. Isso não é bom para o bebê.

– Por que tudo isso? – pergunto, quando estamos sentados lado a lado.

– Tenho algo pra te falar. – ele começa e eu penso ‘legal, porque eu também tenho’. – Bom, desde o começo, nosso plano nunca foi permanecer aqui. Só passamos para visitar o seu pai, mas então veio o problema do tumor... E você sabe essa parte. Mas então eu tenho falado com meu médico há um tempo e ele me disse que não haveria problema.

– Problema? – junto as sobrancelhas.

– Tá tudo planejado. Já conversei com seu pai, Chris me aconselhou, Caleb me apoiou, seu psicólogo me incentivou... Todo mundo concorda que será bom pra você e nós dois sentimos falta disso. Nosso lugar nunca foi permanecer aqui por muito tempo. Temos o mundo todo para conhecer e apenas uma vida e não podemos desperdiçar nenhum minuto. Eu organizei tudo, Tris. – ele põe a mão na cesta de piquenique e retira papéis, panfletos com propagandas de hotéis, guias turísticos... E então eu começo a entender tudo. Meu coração para. Por favor, agora não. – Já fiz nossas reservas nos melhores hotéis, mas podemos mudar se você quiser um menos luxuoso. Sei que você não é fã dessas coisas, só que não sei o que fazer com tanto dinheiro que meu pai deixou. Quero te dar tudo do melhor e também queria fazer uma surpresa. Seguiremos pelo litoral, mas podemos mudar e fazer o velho lance do chapéu, pondo os nomes dos lugares que queremos conhecer e indo para o que tirarmos primeiro. Você decide, Tris. Sabe que vivo por você. – ele toma folego e sorri para mim. – Nós sairemos amanhã, gata.

Eu não sei o que falar. De repente, tudo que eu poderia dizer me foi tirado. Eu só consigo olhar para os papéis nas mãos dele e o todo seu entusiasmo em seus olhos. Nosso bebê muda tudo isso e não sei como ele vai reagir. Tobias é novo para ser pai. Poderemos viajar, só não agora. Temos tanto para organizar... Acompanhamento médico, aluguel de uma casa... Nós ainda nem nos casamos! Por Deus, eu não sei ao menos se ele quer casar comigo! Ele nunca falou nada de casamento.

Estou tendo um ataque. Tem como eu piorar as coisas?

– Tris? Por que você tá tão pálida? – O tom de preocupação de sua voz me tira dos pensamentos.

– Eu... Eu preciso te falar algo. – suspiro. Por favor, que ele não surte. – Algo que vai mudar todos os seus planos. – ele arqueia as sobrancelhas.

– Amor?

Eu estou respirando aceleradamente, me levanto e o encaro. Tobias me olha sério e me encara também.

– Eu não queria estragar seus planos. – digo, quando meu coração dói ao pensar que ele pode me deixar.

Por que não fui cuidadosa o suficiente?

– Beatrice, você tá me assustando.

– Estou grávida, Tobias.

As palavras saem da minha boca antes que eu possa contê-las. Vejo seus olhos se arregalarem, enquanto Tobias permanece paralisado.

Sabia que ele não esperava por isso.

Nenhum de nós.

O que eu fiz?

Quando me dou conta, já estou correndo para longe dele.

– Tris! Espere! — o ouço atrás de mim e continuo correndo, sabendo que será inútil e ele logo me alcançará.

– Me desculpa, Tobias. Eu devo ter esquecido de tomar o anteconcepcional alguma vez... – digo ainda sem o encarar, parando aos poucos e respirando ofegante. Meu peito queima, implorando por ar.

– Mas o que porra você tá fazendo, Beatrice? Tá se desculpando por estar grávida?! Essa é a melhor notícia que eu já recebi em toda minha vida. – eu viro meu rosto para ele, certificando-me que ele está falando a verdade. Seus olhos brilham com lágrimas. Eu estou prestes a chorar também. Ele respira fundo e vejo que suas mãos tremem. Por que ele está tão nervoso? – Eu ia esperar para fazer isso, amor. Queria pedir somente quando você se sentisse segura o suficiente. Planejava fazer em algum momento da nossa viagem, mas não posso esperar. Tem que ser agora. – eu junto as sobrancelhas, tentando entender o que realmente ele quer dizer.

Então Tobias se ajoelha em um joelho diante de mim e eu sinto meu coração vacilar. Perdi uma batida. Perdi duas batidas. Perdi todas as batidas possíveis. Não consigo piscar ou respirar. Como estou vivendo?

– Eu sempre soube que era você, Tris. Nenhum homem jamais amou uma mulher tanto quanto eu te amo. Eu amo o chão que você pisa. Eu amo a maneira como você sorri e amo o jeito como você é altruísta. Eu nunca tive certeza de nada na minha vida, Tris, mas tenho certeza de que quero passar o resto da minha vida com você. Não consigo imaginar a porra deste mundo sem você. – ele retira uma caixinha preta de veludo do bolso, e então a abre. Eu não consigo me mover. Ele respira com dificuldade e suas mãos estão prestes a derrubar a caixinha de tanto que tremem. – Você aceita ser minha esposa, Beatrice Prior?

Ficou ainda mais difícil respirar quando ele pronunciou a palavra "esposa". Todas as lágrimas que eu tentei segurar rolam pelos meus olhos com extrema facilidade. Eu não me preocupo em limpá-las. Minha cabeça está a mil. Estou pronta para isso? Sim. Quero passar o resto da minha vida com ele? Nunca quis tanto uma coisa como quero isso.

– Sim. – consigo responder com um sussurro, porém alto o suficiente para que ele possa ouvir.

Tobias retira o anel e desliza pelo meu dedo anelar direito, dando em seguida um beijo suave. Ele se levanta e me ergue em seus braços, me abraçando tão forte o quanto pode.

– Graças a Deus, Tris. – ele murmura para mim. Sinto seus ombros relaxarem e ele se livrar da tensão. Como ele achou que eu pudesse dizer "não"?

– Desculpe por atrapalhar seus planos. – digo, quando ele me põe no chão.

– Se você se desculpar por isso mais uma vez eu juro que ponho seu traseiro naquela maldita roda gigante e a deixo presa lá.

– Duvido que consiga subir.

– Posso me esforçar. – ele sorri e encolhe os ombros.

– Tem certeza que quer isso, Tobias? Não precisa fazer pelo bebê. Nós podemos dar um outro jeito. Eu posso...

– Cale a boca, Beatrice. – ele me interrompe. Não está bravo, apenas chateado. – Não posso viver sabendo que não acordarei com você todos os dias ao meu lado. Precisava fazer isso. Eu vinha querendo fazer isso. Eu te amo tanto que dói.

Suspiro. Preciso que ele saiba.

Eu o abraço e enterro minha cabeça em seu peito.

– Eu te amo, Tobias. – digo, com tanta suavidade e facilidade que me surpreendo.

Ele se cala por alguns segundos, que parecem horas.

– Você pode repetir? – sua voz soa insegura, quase certo de que não ouviu direito.

– Eu te amo. Como nunca amei ninguém. – respondo com a mesma facilidade. Não acredito que guardei isso para mim por tanto tempo. Me sinto livre.

Eu o amo.

É real.

Ele segura meu queixo e o ergue para cima. Me encara no fundo dos olhos. Ele tem um olhar tão profundo que consigo enxergar sua alma. Ele me ama também.

– Finalmente, querida. – ele sorri e me beija.

E eu nunca me senti tão feliz em toda minha vida.

Notas finais
E então, amores, vocês gostaram? Vocês curtiram? Eu morri de saudades ♥ É uma pena quem Sem Rumo tenha chegado ao fim tão rápido. Ela é meu xodózinho. Espero que vocês não me abandonem e possam continuar comigo nos próximos trabalhos. Cada um aqui conquistou um lugar no meu coração. Eu sumi porque tive problemas de saúde. Muita pressão, problemas familiares, problemas de auto-estima que quase pensei em desistir de tudo. Mas agora estou melhor e nova em folha, pronta para estar aqui com vocês. Desculpem a demora. Espero que entendam. Estou pensando em criar um blog, para lhes manterem informados e postar novidades sobre histórias e sobre quando postarei. O que vocês acham?! Vimos que nesse capítulo o Caleb deixou no ar alguma coisa sobre a Chris... Que tal acompanhar Back to Home para poder entender? Aguardo vocês lá! ♥ Logo sairá o epílogo! Até mais. ACOMPANHE A FIC DO WILL E DA CHRIS! http://fanfiction.com.br/historia/582921/Back_to_Home/