Sem rumo.
5 Capítulo 5
Notas iniciais
BEATRICE PRIOR
É como se ele tivesse levado consigo a minha única parte feliz. Suspiro e tento afastar a tristeza que estou sentindo. Eu quero chorar. Quero que tudo isso saia de dentro de mim junto com as lágrimas, mas eu não consigo. Eu não consigo chorar desde que Peter morreu.
Respiro fundo e encaro as pessoas na estação. Me pergunto porquê elas podem ser feliz e eu não. A vida é tão injusta. Faltam apenas cinco minutos para o ônibus de São Francisco sair e eu já deveria estar dentro dele, mas não. Eu estou aqui parada, tentando entender o porquê de ter escolhido São Francisco. Ótimo. Eu viajei quase 3.000 km para nada. São Francisco é legal, mas o que diabos eu vou fazer lá quando eu chegar?
Suspiro impaciente e caminho. Quando chego à recepcionista, ela já está se levantando.
– Com licença... – eu começo.
– Nós já estamos fechando, senhorita. Sinto muito.
– Por favor, é importante. Eu estou indo visitar minha mãe que está doente. – minto e me sinto mal ao dizer isso. A recepcionista me encara e respira fundo, sentando-se novamente em sua cadeira. – Uma passagem para Flórida. Primeiro ônibus que sair. – eu digo decidida.
É loucura, eu sei disso. São mais 4.000 km de viagem dentro de uma lata de sardinha. Eu estou confusa e minha inquietude está deixando a recepcionista receosa. Ela me analisa de cima a baixo e seus olhos param em mim.
– Está me falando a verdade, não está? Você não está fugindo? – ela me pergunta com uma sombra de dúvida na expressão.
– Sim, senhora, eu não estou mentindo. E não, senhora, eu não estou fugindo. – digo. Mamãe sempre me falou que eu sou uma péssima mentirosa, mas a recepcionista pareceu acreditar. Respiro em alívio e torço para que ela não tenha notado.
Pego meu ticket e saio dali. Meu ônibus só parte amanhã, o que significa que passarei a noite aqui na estação. Para meu alívio, ela está movimentada. Olho em meu relógio e vejo que já são 21hrs. Caminho até o banheiro, a fim de tomar um banho.
Chego lá e o banheiro está completamente imundo. Há água no chão, em todos os cantos. Não vou conseguir tomar banho nessa sujeira. Entro pisando na ponta dos pés, desviando das enormes poças que há. Se não tomarei banho, ao menos irei passar algum hidratante e alguns papeis para tirar a oleosidade que já está me dando nos nervos.
Me aproximo da pia e me sinto aliviada ao ver que há uma parte seca. Coloco minha bolsa ali e retiro meu hidratante. Pego algumas folhas de papel e limpo meu pescoço, braços e rosto. O banheiro está vazio. Exceto por um homem que acaba de chegar. Consigo encarar seu corpo através do espelho.
– Aqui é o banheiro feminino. – eu digo e dou um sorriso torto para ele através do espelho.
– Sério? Acho que confundi. – ele dá um sorriso e me olha de baixo para cima. Seu olhar me causa calafrios e me deixa desconfortável. Começo a guardar meu hidratante, e discretamente eu procuro por algo que eu possa me defender. – Mas já que estamos aqui... – ele dá um passo. Consigo encontrar um canivete pequeno e aponto para ele, tentando impedir que o medo esteja estampado nos meus olhos e nas minhas mãos trêmulas.
– Não se aproxime de mim. – eu digo e minha voz sai trêmula.
– Calma, docinho. – ele ergue as mãos em sinal de rendição e dá mais um passo. – Eu posso pagar por isso. Você sai daqui 500 paus mais rica simplesmente se chupar meu pau. – ele sorri maliciosamente e eu recuo pisando em uma poça de água. Ele sorri mais ainda. – Vamos, venha.
Agora eu o reconheço. Ele estava no mesmo ônibus desde Chicago. E quando ele dá mais um passo, uma figura se joga em cima dele. Os dois homens caem no chão, e a única coisa que eu consigo ouvir é um estalar de ossos. Sangue jorra do nariz do homem, enquanto Quatro o soca sem parar. Ele dá vários chutes e só para quando o homem está inconsciente no chão. Eu encaro tudo aquilo parada. Estou em choque.
Quatro se levanta e vejo que ele molhou parte da sua calça e camisa quando caiu no chão. Há respingos de sangue por toda sua roupa e os nós dos seus dedos estão vermelhos. Fora isso, ele parece bem. Ele se aproxima de mim e segura meu queixo, me forçando a olhar para ele.
– Você está bem? – ele me analisa procurando machucados. – Esse merda fez algo com você?
Balanço a cabeça negativamente e o abraço. Eu sou baixa, então meus braços estão envoltos na sua cintura. Ele beija meus cabelos e me aperta contra ele. Posso sentir seu perfume entrando nos meus pulmões e eu gosto disso. Ele pega minha bolsa e nós caminhamos para fora do banheiro abraçados.
Quatro me coloca em um banco e pega seu celular. Pelo que posso ouvir, ele está falando com a polícia. Ele presta a queixa e desliga. Se aproxima de mim e se agacha, mantendo a mesma altura entre nós. Estou sentada e ele segura a minha mão.
– Eles já estão vindo. A polícia já está a caminho. – ele aperta minha mão e eu assinto.
Suspiro e Quatro se levanta. Ele começa a andar de um lado para o outro, passando as mãos nos cabelos e depois alisando sua barba que ainda está por fazer. Ele está pensando em algo. Tento associar as últimas horas. Quatro se despediu de mim. Eu comprei uma passagem para Flórida. Eu quase fui estuprada. E depois, salva por Quatro, a mesma pessoa que eu havia me despedido.
Isso é tão confuso.
A polícia chega e Quatro conversa com os eles. Ele gesticula e aponta para mim, ganhando a compreensão dos policiais. Quatro segura minha mão e nós vamos até o banheiro. O cretino fugiu. Não há sinal dele e ele pode ter saído quando estávamos distraídos. A polícia diz que investirá nas buscas e elogia a atitude de Quatro. Ele diz apenas que fez a coisa certa. Eles vão embora e ficamos a sós. A estação não está como antes. Conforme as horas foram passando, a quantidade de pessoas diminuiu, restando quase ninguém.
Nós paramos caminhar e Quatro se vira para mim. Ele cruza os braços e sua expressão é séria.
– Tenho uma proposta a você. Você me deixa te levar até São Francisco ou onde quer que você esteja indo, – ele aponta para o ticket da minha mão – eu sei que você mentiu para mim. – ele aponta e eu me encolho um pouco. – Ou então eu te compro uma passagem de avião de volta para Chicago e você embarca nem que seja forçada.
– Por que isso? – eu pergunto indignada.
– Não vou deixar que mais um maníaco te ataque. – ele suspira. — É perigoso, Tris, e você sabe disso. – posso enxergar a preocupação em seus olhos.
Não posso negar que ele está certo. Isso quase aconteceu. Eu não saberia o que seria de mim se Quatro não tivesse chegado a tempo.
– Não posso ir com você. – eu me afasto um pouco dele. – Você é um completo estranho. O que comprova pra mim que você também não é um maníaco estuprador? – eu semicerro os olhos e aponto para ele. Ele gargalha.
– Sempre há essa possibilidade. – ele aponta o dedo indicador para cima. – Mas... eu acabei de te salvar de um, então acho que ganho alguns créditos com isso. – ele pisca para mim e não consigo segurar o sorriso. É automático desde que conversei com ele.
– Tudo bem. Eu volto com você hoje e amanhã eu decido. – eu digo.
– Assim tão fácil? Beatrice, você está me decepcionando. – ele faz uma expressão triste e o sorriso não sai dos meus lábios. Nem dos dele.
Apenas dou de ombros e caminhamos em direção a saída. Quando estamos no estacionamento, Quatro aperta o botão das chaves que destrava as portas do Dodge Viper vermelho. Eu arqueio as sobrancelhas e cruzo os braços.
– O quê? – ele me pergunta e depois olha para o carro. – É emprestado. Venha. – ele acena para que eu entre dentro do carro. Continuo parada.
– Não vamos de carro. – eu digo convicta. – Nós vamos de táxi.
De braços cruzados, eu o encaro. Quatro me olha e depois de uns segundos, ele sorri. Aciona as travas do carro e com um sorriso no rosto, ele passa o braço por cima do meu ombro. Nós caminhamos em direção a um ponto de táxi.
– Inteligente. – ele diz. – Seria estupidez sair com um desconhecido em seu carro na primeira noite em que passarão juntos.
– Eu não vou dormir com você! – eu digo dando um pulo de surpresa.
– Eu não disse isso. – ele aponta para mim dando gargalhadas.
Quatro acena para um táxi que está vindo e nós entramos nele. Ele dá as coordenadas ao motorista e o carro dá a partida. Estamos sentados no banco de trás, em silêncio. Estou curiosa para saber o porquê dele ter voltado e vou descobrir isso agora. Será que ele nunca saiu da estação? Será que ele também mentiu sobre seu destino?
– Você não saiu da estação? – eu pergunto me virando de lado para poder encará-lo.
– Claro que saí. – ele diz se virando também. – Mas não tive paz desde que subi no ônibus e vi aquele cara te comendo com os olhos. Eu o observei a viagem toda e como vi que ele desceu em Los Angeles, eu deixei passar. Pude ir embora sabendo que você ficaria segura. Mas então, quando cheguei em casa, eu não consegui parar de pensar se você estaria bem. E eu senti como se tivesse que voltar. Então eu peguei o carro e voltei. Fiquei observando cada passo seu de longe e não ficaria satisfeito até quando você voltasse para o ônibus. Mas você não voltou. – ele agora arqueia as sobrancelhas. – O que significa que você mentiu e mudou de ideia. Então você comprou uma nova passagem e caminhou até o banheiro. E aí o cretino apareceu e minhas suspeitas estavam certas. – ele suspira. – Eu não queria que você tivesse presenciado tudo aquilo e conhecido meu lado agressivo, mas eu não tive escolha.
Espera, ele está se desculpando?
– Não, Quatro. Você me defendeu e eu serei eternamente grata. – eu lhe dou um sorriso gentil e ele me retribui.
Não demora muito até chegarmos a um bairro nobre. Através da janela, consigo observar as mansões. É tudo lindo e refinado. Muito diferente de onde eu moro em Chicago. Nós não somos pobres, claro, somos classe média baixa. Suspiro e o táxi para. Quatro desce e se dispõe a segurar minha mochila. Desço do táxi e ele paga. Estamos parados em frente a uma linda mansão cor de pêssego claro.
– Você não me disse que era rico. – eu digo arqueando as sobrancelhas, tirando os olhos da mansão para encontrar um belo par de olhos azuis me encarando.
– É do meu pai. – ele dá de ombros. Vejo que falar do seu pai o deixa desconfortável.
– Ele está? – pergunto.
– Não. – ele suspira. – Ele está no hospital. – não consigo conter a surpresa e a preocupação.
– O quê? – eu digo um pouco alto demais. – Ele está bem?! Está precisando de algo?! – estou tendo um ataque nervoso de preocupação. – Como ele está, Quatro?
– Está morrendo. – é só o que me diz. Ele respira fundo e começa a andar para abrir a porta da mansão. Demoro alguns segundos para entender sua resposta e caminho até ele.
– Eu sinto muito. – eu digo e realmente sinto. – Você já foi visita-lo?
– Não sinta. – ele me dá um olhar frio e abre a porta. – E não, eu não fui visita-lo. E nem vou. – ele completa.
Eu entro em sua casa e olho ao redor. É muito maior do que eu pensei.
– Por que não? – eu pergunto perplexa. Não posso acreditar que o homem que me salvou tem um pai morrendo e não está ligando para isso.
– Tris, eu não quero falar sobre isso. – ele começa a subir as escadas e eu o sigo.
– Você não pode abandona-lo! – eu digo indignada. – Ele é seu pai! – praticamente grito as últimas palavras.
Quatro apenas respira fundo e entra em um quarto. Ele é grande e há várias guitarras pregadas na parede. São lindas e edição de colecionador. A paixão dele por música é algo totalmente encantador. Quatro põe minha mochila sobre a cama e com um aceno de cabeça pede para que eu me aproxime.
– Eu quero te mostrar algo. – ele diz calmamente.
Eu me aproximo dele e ele fica de costas para mim. Estou tensa porque não sei o que ele vai fazer agora. Em questão de segundos, Quatro puxa sua camisa, não tirando-a por completo, apenas o suficiente para que eu possa ver suas costas nuas. Ele é extremamente forte e definido. Absurdamente lindo. Sua tatuagem é linda, com chamas nas laterais e cinco símbolos gravados. De início, não consigo entender. Mas então eu olho mais de perto e consigo ver as cicatrizes na sua pele. Passo meus dedos levemente sobre elas, sentindo sua textura. Suas costas estão repletas delas.
– Consegue ver? – ouço a voz rouca de Quatro por cima de seu ombro. – Ele não foi o melhor pai. Ele me batia todos os dias, dizendo que era para meu próprio bem. Eu chegava a levar três surras em questão de horas. – posso sentir a dor na sua voz ao se lembrar. – Eu nunca entendi o porquê disso, Beatrice. Ele me batia apenas por prazer, pois eu sempre fui um bom filho. – ele veste a camisa e se senta na cama. Eu me sento ao seu lado e mantenho meus olhos nos dele. – Minha mãe me abandonou quando eu ainda era pequeno. Ele batia nela também, então ela fugiu. Mas ela não levou com ela, Beatrice. Ela não me levou com ela. – ele suspira mais uma vez. – Eu sei que era difícil pra ela, mas ela me deixou nas mãos dele até meus 16 anos. Depois disso, eu saí de casa e procurei um emprego. Hana, mãe do meu melhor amigo, me acolheu como se eu fosse filho dela, e só depois de alguns meses que Evelyn, minha mãe, veio atrás de mim.
Quatro para de falar e fica apenas me observando. Ele está sendo sincero e me contando toda sua vida. Eu não sei como reagir a isso. Quero abraça-lo e protege-lo de qualquer perigo, mas ao mesmo tempo me sinto incapaz de fazer ou falar qualquer coisa.
– Quando eu fiz 19, Marcus descobriu que tinha um tumor em seu cérebro. Ele não quis operar. Disse que ninguém abriria sua cabeça. Então, ele apenas concordou em ficar internado. Ele está lá já faz um ano. Nesse tempo, Marcus tentou entrar em contato comigo. Eu não quis vê-lo, mas Evelyn me obrigou a falar com ele, nem que fosse ao telefone. Então ele me ligou e me pediu perdão por tudo que me fez. Eu devia sentir algo com isso, não deveria? – ele pergunta para mim, não exigindo uma resposta. – Mas eu não senti nada. Absolutamente nada, Tris. E eu me sinto o pior filho do mundo com tudo isso. Eu não consigo perdoa-lo e não quero vê-lo. Não quero vê-lo em um hospital e sentir compaixão por ele, porque ele não merece. – ele suspira mais uma vez e sinto como se ele tivesse tirado um peso de suas costas. – Ele não merece, Beatrice.
Ele baixa a cabeça e eu o abraço. Coloco minha mão atrás de sua nuca e a encosto em meu ombro. Ele não parece chorar, apenas está relaxando. Tenho a certeza de que ele tirou um fardo que estava carregando por muito tempo e fico aliviada ao saber que fui a pessoa quem o ajudou a isso.
– Quatro, escute. – eu peço. Ele levanta a cabeça e me olha. – Ele pode ter feito coisas ruins. Muito ruins e eu entendo você. Entendo o quanto você está magoado e ferido por isso e até te dou razão. Mas ele continua sendo seu pai, Quatro. Ele ainda é seu pai. Você não pode simplesmente abandona-lo. – ele bufa. Penso em alguma coisa e sorrio internamente. – Eu viajo com você, – digo de repente e ele me olha receoso. – mas com uma condição.
– Qual seria? – ele me pergunta.
– Você deve visita-lo. – ele me encara perplexo e eu ignoro. – Se você for amanhã ao hospital eu prometo que deixo você me levar até a Flórida.
– FLÓRIDA?! – ele grita incrédulo. – O que diabos você tem na cabeça, Beatrice? São 4.000km de distância! Você enlouqueceu. — ele começa a andar de um lado para o outro.
– Eu ainda posso ir de ônibus. – cruzo os braços e arqueio uma sobrancelha.
– Não seja estúpida. – ele me olha sério.
– Essa é a minha condição, Quatro, e eu não vou mudar de ideia. – suspiro impaciente.
– Argh. – ele bufa e passa a mão nos cabelos. – Tudo bem. Você venceu. – ele diz e eu sorrio. – Mas irei amanhã cedo e você terá que vir comigo. Sairemos do hospital e partiremos para Flórida.
Assinto com a cabeça e ele entra no banheiro. Ele fecha a porta e eu me deito sobre sua cama. Escuto o chuveiro e sei que ele está tomando banho. Suspiro e mal posso esperar para finalmente poder tomar o meu. Fecho meus olhos e os sinto pesados. A cama de Quatro é extremamente macia e confortável. Quando estou quase caindo no sono, escuto o som da porta do banheiro se abrindo. Abro os olhos e Tobias sai, apenas com uma toalha enrolada na cintura. Seu corpo ainda está um pouco molhado. Seu cabelo totalmente despenteado. O cheiro dele invade meus pulmões. Seus músculos ressaltados e seu abdômen completamente definido. Desvio os olhos, com medo das sensações que ele já provoca em mim.
Ele fica de costas e vai até seu armário. Retira apenas uma calça de um pijama. Arqueio as sobrancelhas, me perguntando se ele vai dormir apenas com aquilo. Ele se vira para mim e sorri. Aponta com a cabeça para o banheiro e diz:
– É todo seu.
Sorrio para ele, tentando tirar os olhos do seu corpo. Por que ele tem que ser absurdamente lindo? É tentador vê-lo assim. Me viro e pego meu pijama e peças íntimas. Retiro também meus produtos de higiene pessoal e levo até o banheiro. Fecho a porta e entro no chuveiro. O contato da água morna com meu corpo me faz soltar um longo suspiro. Deixo que a água me lave até eu me cansar, então lavo meu cabelo e meu corpo. Sei que estou demorando, mas eu esperei muito por esse banho. Tomo a oportunidade e depilo meu corpo. Eu detesto pelos. Principalmente os das pernas.
Quando acabo, pego uma toalha e enrolo no meu cabelo. Com a outra eu enxugo meu corpo e me visto. Meu pijama é um pouco curto e me sinto envergonhada ao saber que Quatro me observará desse jeito, mas não tenho escolha. Preciso poupar minhas roupas para viagem.
Passo hidratante por todo meu corpo. Escovo meus dentes e meus cabelos, que ainda estão molhados. Deixo que os seque naturalmente e saio quando acabo. Tobias está deitado na cama, de barriga para cima, com a cabeça sobre um braço e o outro repousado na cama. Ele está assistindo a TV, mas sua atenção volta para mim quando ele sente que já estou no quarto. Ele me olha de baixo para cima de forma lenta, sem se preocupar em ser pego. Quando seus olhos param nos meus, ele sorri e diz:
– Você fica melhor ao natural. – ele diz sem malícia. Sinto minhas bochechas corarem e tento ignorar isso.
– Onde vou dormir? – eu pergunto tentando desviar o assunto.
– Aqui. – ele bate de leve no colchão.
– E onde você vai dormir? – eu o encaro e semicerro os olhos.
– Não se preocupe, não vou tarar você. – ele solta um riso. Os cantos da minha boca se curvam para cima. – Vou estar no quarto ao lado, se você precisar de mim. – ele se levanta e tenho que me manter muito concentrada para não me perder em seu corpo.
– Ótimo. – eu digo.
Ele desliga a TV e ajeita os travesseiros na cama para mim. Essa cama nos caberia sem dúvidas, mas não. Não quero me envolver com ninguém e acredito que ele também não. Somos bons amigos e não seremos estúpidos o bastante para estragar isso.
Quatro se aproxima de mim e segura meus braços delicadamente. Ele beija minha testa e olha em meus olhos.
– Boa noite, Beatrice. – ele diz.
– Boa noite, Quatro. – eu digo e sorrio.
Ele sorri pra mim e sai do quarto. Está tudo silencioso por aqui, e se eu não soubesse que ele está no quarto ao lado, eu entraria em pânico. Me deito sobre a cama de forma bem esticada e procuro a melhor maneira de dormir. Qualquer posição aqui eu dormiria como um anjo. A mágica deve estar no colchão. Fecho os meus olhos e em questão de segundos o cansaço me domina.
Ele está sorrindo maliciosamente para mim. Estou deitada na cama e sorrio para ele. Peter tira seu jeans e se deita sobre mim, beijando meu pescoço desesperadamente. Ele encontra meus lábios e aperta minhas coxas. Ele coloca a mão por dentro da saia e tenta arrancar minha calcinha. O afasto ao ver que as coisas estão ficando sérias, mas ele não quer me largar. Então eu o empurro, mas ele é mais forte. Ele está por cima de mim e aperta todo meu corpo. Aperta tanto que não sinto prazer, apenas dor.
– Peter, não! – eu grito. – Não! Peter! – eu sinto as lágrimas nos meus olhos.
Eu o encaro e seus olhos não são mais castanhos. Ele está todo preto. Não apenas sua íris, mas seu olho todo. Quando vejo o vazio neles eu grito. Grito e choro.
– Tris, acorde. – escuto uma voz rouca familiar.
Acordo ofegante. Respiro apressadamente, até me dar conta de que fora apenas um pesadelo. Passo a mão em meus cabelos, que estão grudados em meu corpo. Estou suada. O sonho parecia tão real. Olho ao redor e Quatro está sentado na cama, com uma expressão cansada e preocupada. Ele coloca uma mecha do meu cabelo atrás da orelha e me olha.
– Você está bem? – apenas assinto. Quero falar, mas minha voz não sai. – Está tudo bem. Eu estou aqui. – ele acaricia minha bochecha.
Ele me deita na cama e se deita ao meu lado. Quero abraça-lo, mas não sei se posso ou devo. Ele parece ler meus pensamentos, então me puxa cuidadosamente, encostando minha cabeça em seu peito. Estou deitada de bruços e ele de barriga para cima. Sinto seu peito subir e descer levemente. Ele passa a mão nos meus cabelos e os alisa. Ficamos em silêncio até que eu me acalme. Então eu sinto meus olhos se fecharem novamente e consigo dormir.
Dessa vez, sem pesadelos.
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