Sem rumo.
19 Capítulo 19
Notas iniciais
BEATRICE PRIOR
O dia está passando rápido. Nossa manhã fora repleta de conversas durante o café da manhã e apesar da tensão entre meu pai e Tobias, eles até que estão se dando bem. Ao menos aparentam isso. Tenho certeza de que demoraram lá em cima porque tiveram aquela famosa “conversa”. Sei disso porque conheço o pai que tenho. Eles estão conversando sobre esportes e também sobre o time de futebol americano favorito do meu pai que, por coincidência, é o de Tobias também.
Enquanto lavo a louça, sinto alguém se aproximar.
– Oi, quer ajuda? – me viro para ver uma garota, de mais ou menos uns 19 anos, me encarando com um sorriso gentil.
– Desculpe, quem é você? – eu lhe dou um sorriso nervoso. Essa é Edith? Ela tem idade pra ser minha irmã!
– Sou Susan, namorada do seu irmão. – ela sorri e se aproxima, se sentando no balcão da cozinha.
– Ah.
– Ele me falou muito de você. – ela confessa.
Eu deixo o copo cair dentro da pia.
– O que disse? – junto as sobrancelhas, numa expressão confusa.
– Que seu irmão me falou muito de você. – ela sorri, achando engraçado demais o fato de eu estar atrapalhada.
– Oh, isso é novo. – eu sorrio e termino de enxaguar a louça. – Então, o que ele falou de mim?
– Não posso contar. – ela dá um riso nervoso. – Ele me mataria se soubesse que falei demais.
– Tudo bem. – eu lhe dou um sorriso gentil, pego uma toalha pequena e enxugo minhas mãos. – Há quanto tempo vocês estão juntos?
– Quatro anos. – ela dá de ombros. – Mas ele só quis me trazer para conhecer vocês agora, já que pretendemos nos mudar assim que ele se formar.
– Quando é a formatura?
– Final desse mês. – ela diz. – Vocês não receberam os convites?
– Não. – eu deixo escapar e meu tom de voz sai mais triste que o normal. Suspiro e me recomponho. – Bom, papai deve ter recebido.
– Sinto muito por vocês, Tris. De verdade. – ela confessa. Eu concordo com a cabeça e lhe dou um sorriso torto.
– Tudo bem.
E então, quando ela está prestes a falar algo, Caleb entra na cozinha. Ele está mais alto desde a última vez que o vi. Também deixou o cabelo crescer mais e mudou a forma como cortava. Ele está mais forte também, mas ainda não tem os músculos definidos. Mas os olhos... Os olhos continuam sendo os mesmos que o dela. Os mesmos olhos da nossa mãe.
Ele me encara, mas não por muito tempo. Então, em fração de segundos, ele se vira para Susan e ignora minha presença, segurando sua mão e a levantando do balcão.
– Vamos, querida, precisamos comprar o presente de casamento. – ele sorri para ela. Meu coração dói enquanto o observo. Sinto tanto a falta dele.
– Sim, claro. – Susan sorri e beija a ponta do seu nariz, descendo do balcão e saindo abraçada com ele. Antes de sair, ela sussurra um “desculpa por isso” e eles somem de vista.
Suspiro e afasto a saudade que sinto do meu irmão. Me recomponho e caminho até a sala, onde meu pai se levanta e diz que está indo preparar a churrasqueira para nossa tarde. Me sento no sofá ao lado de Tobias, que passa o braço por cima do meu ombro e me abraça. Eu descanso minha cabeça em seu peito.
– Como foi com seu irmão? – ele me pergunta.
– Como sempre. Ele me ignora. – eu digo, mais sarcástica do que gostaria.
– Vocês precisam conversar, gata. Tô falando sério. – ele vira o rosto para mim e beija o topo da minha testa.
– Eu sei. Só que nenhum de nós faz alguma coisa. – suspiro.
– Talvez você devesse tomar a iniciativa. – ele aconselhe.
– Tudo bem. Vou tentar conversar com ele depois.
– Não enrola muito, gata. Homem não tem paciência.
– Você teve comigo. – eu semicerro os olhos e levanto um pouco a cabeça, fitando seus olhos que me encaram com certa diversão.
– Claro que tive. – ele sorri.
– Por quê?
– Porque você se encaixava. – ele parece intenso.
– O que disse? – pergunto confusa.
– Venham, crianças! Está tudo pronto. – meu pai grita por nós do jardim traseiro.
– Essa conversa fica pra uma outra hora. – Tobias diz, com um sorriso travesso no rosto. Ele se levanta e estende a mão para mim. Eu aceito e ele me puxa gentilmente.
– Você e meu pai estão se dando muito bem. Confesso que tô bastante surpresa. – eu digo, enquanto caminhamos para o jardim.
– Sim. – ele dá de ombros, com um sorriso cafajeste nos lábios. – Ele é um cara legal, apesar da postura de machão. Estamos nos entendendo. Já conversamos bastante e ele ameaçou cortar minhas bolas se eu machucasse você. Foi bastante assustador.
– Ele não faria isso. – ponho a mão na boca, reprimindo uma risada.
– Eu sei que ele faria.
Nós rimos e chegamos ao jardim, na área revestida do piso de madeira e a churrasqueira. Meu pai está de costas para nós e prepara a carne, apesar de saber que eu não gosto de comer. Tobias se senta à mesa de madeira e eu abraço meu pai por trás. Ele põe a mão em cima da minha e sorri.
– Olá, linda flor. Você quer pegar cervejas pra gente? Tá no congelador. – ele diz.
– Pode deixar. – eu beijo sua bochecha.
Solto meu pai e passo por Tobias, que tem a atenção no celular, enquanto digita uma mensagem de texto. Sorrio e vou até o congelador, na cozinha, e pego três coronas. Tobias não gosta muito de Corona, mas é a que temos aqui e sei que ele não vai recusar.
Volto para o jardim e papai e Tobias conversam casualmente, discutindo ainda sobre o jogo de futebol americano. Vejo que é algo que os dois realmente adoram. Me aproximo e me sento ao lado de Tobias, deslizando a cerveja do meu pai pela mesa até ele. Ele sorri e agradece com um aceno de cabeça.
– Então, vocês dois... Como se conheceram exatamente? – Andrew pergunta, enquanto toma um gole de cerveja.
E lá vamos nós para o mesmo interrogatório. Às vezes me pergunto qual o problema dos pais com relacionamentos amorosos.
– No ônibus aqui em Chicago. – Tobias responde e se inclina, dando um beijo em meu pescoço.
– Não façam isso na minha frente. Quero ter a ideia de que minha filha ainda não transa. – meu pai revela.
– Pai! – exclamo, envergonhada.
– Foi mal. – ele levanta as mãos em sinal de rendição, mas com um sorriso divertido nos lábios. – Desde quando você cresceu tanto? Toma cervejas e namora moleques tatuados?
– Ele não tem tatuagens. – eu minto, com um sorriso ridículo.
– Seu pai sabe mais sobre mim do que você imagina, Beatrice. – Tobias revela.
– Isso não é bom. – eu confesso, enquanto semicerro os olhos na direção do meu pai. – E eu não tomo cerveja.
– Não tomava. – meu pai corrige. – Agora, eu já não sei bem, não é? – ele aponta para minha Corona, que está aberta.
Tobias me incentiva com um aceno de cabeça e eu sorrio, dando o primeiro gole e reprimindo uma careta.
– Boa garota. – ele me elogia e beija minha bochecha. – Posso ser uma má influência quando quero, senhor. No seu lugar, jamais deixaria que minha filha namorasse alguém como eu.
– Considerarei sua opinião. – meu pai sorri para Tobias e depois se volta para mim. – Onde está seu irmão?
– Saiu com Susan enquanto estávamos na cozinha.
– Você a conheceu? – ele pergunta. Eu assinto e ele sorri. – Gostou dela?
– Sim. Ela é simpática. – eu concordo.
– Sem dúvidas. E está pondo seu irmão nos eixos. – ele sorri. – Espero que vocês se acertem.
– Tomara. – eu torço.
Seguimos nosso churrasco conversando e comendo. Meu pai me preparou uma salada que, embora não seja a melhor salada, é mais saborosa que a carne que eles estão comendo. Vejo que a relação dos dois flui levemente e ambos trocam opiniões em assuntos, enquanto eu só assisto e concordo. Gosto de observá-los juntos. Há respeito no olhar de Tobias para meu pai. E há admiração no olhar do meu pai para Tobias.
Enquanto eles conversam, eu troco mensagens de texto com Christina, que está animada ao extremo para hoje a noite. Talvez eu esteja um pouco também. Ela está histérica e muito ansiosa para conhecer Tobias e isso vai ser no mínimo um tanto interessante. Quero vê-la. Estou com tanta saudade.
– Tris? – meu pai me chama.
– Sim? – respondo, voltando dos devaneios.
– Tobias e eu vamos dar uma volta agora a tarde, enquanto você prepara a janta. Se importa?
Eu abro um sorriso.
– Claro que não. Quero muito que vocês passem algum tempo juntos.
– Ótimo. Eu vou pro banho e logo sairemos. – meu pai afirma, enquanto bebe o último gole de cerveja, apaga a brasa e volta para casa.
– Se não quiser ficar sozinha eu posso ficar com você, gata. – Tobias me puxa para seu colo.
– Sem problemas, amor. Vai ser legal que vocês dois saiam juntos. – eu sorrio, seguro seu rosto com as duas mãos e o beijo suavemente.
– O problema é que eu não quero passar um tempo com seu pai. – ele brinca. – Ele me assusta na maioria das vezes.
– Você ainda não viu nada. – eu sorrio mais uma vez e o beijo novamente, dessa vez mais lento, longo e sensual. Tobias respira fundo.
– Você tem gosto de álcool na boca. – ele diz entre meus lábios. – Porra, isso é tão sexy. Quero comer você aqui mesmo nesse jardim.
– Isso não vai acontecer. – eu solto um riso.
– Eu posso fantasiar. – ele sorri.
– Claro que pode. – eu concordo, beijando docemente seus lábios, enquanto ouço um pigarreio.
Susan está de pé no canto da entrada, com um sorriso tímido nos lábios e os braços cruzados acima do peito. Seus olhos são plena doçura e, apesar de não ter conversado o suficiente com ela, tenho certeza de que é uma ótima pessoa.
– Vou te ajudar com a janta, se não se importar. Teremos bastante gente hoje. – ela me dá um sorriso gentil.
– Claro. Já estou indo. – a asseguro. Ela assente e deixa a sacada. Me volto para Tobias e ele me olha, estendendo sua mão e retirando uma mecha do meu cabelo e a pondo atrás da orelha. Ele me olha por um bom tempo, com uma admiração tênue e mais alguma coisa que não consigo identificar. – Está tudo bem.
Ele sorri.
– Sim.
– Por que tá me olhando desse jeito?
– Porque quero me lembrar de você. – ele passa o polegar por minha bochecha. – Você é linda pra caralho, amor. Tem noção disso?
– Você me lembra todos os dias. – eu sorrio e beijo o nó dos seus dedos.
– Eu nunca vou cansar.
– Preciso voltar pra lá e você deve trocar de roupa. Meu pai daqui a pouco te chama. Nos vemos no jantar?
– Mal posso esperar. – ele sorri e beija meus lábios.
– Tris! — ouço Susan gritar meu nome.
– Estou indo! – grito em resposta e saio do colo de Tobias, que murmura um palavrão, mas ainda com um sorriso divertido nos lábios. – Divirta-se!
– Você também. – ele sorri.
Então eu volto para a cozinha, onde Susan já separou alguns ingredientes e os colocou em cima do balcão. Ela sorri ao me ver e me dá uma colher de madeira e a batedeira. Pego o achocolatado e tudo que vou precisar para fazer o bolo.
Quando estou preparando o bolo, penso no que Tobias me disse e realmente preciso tomar a iniciativa em relação a Caleb. Por isso, minha primeira ideia é começar pelo bolo de chocolate. Sempre foi o preferido dele. Quando minha mãe ensinou a receita, eu sempre fazia para nós dois, mesmo sendo pequena. Ele nunca questionou e sempre me agradecia de várias formas.
– Por favor, que dê certo dessa vez. – eu torço internamente.
Susan conversa comigo na maior parte do tempo, enquanto preparamos de tudo para nosso jantar. Ela está feliz por me conhecer e disse que estava ansiosa. Percebo que, apesar da postura tímida, Susan costuma falar muito e em alguma das vezes eu apenas balanço a cabeça, concordando com tudo que ela diz, pois me perco nos assuntos.
Quando está quase no fim da tarde, nós colocamos o filé no forno e esperamos que ele fique pronto. É uma receita de Susan. Ela diz que é a melhor carne preparada. Como não tenho muita experiência na cozinha, eu apenas faço tudo que ela me pede.
Ouço o apito do forno indicando que o filé está pronto e o retiro, pondo-o em cima da mesa. Vejo que as horas se passaram muito rápido e que já escureceu. Com um sorriso, eu me despeço de Susan e subo as escadas, indo pro meu quarto. As coisas de Tobias estão espalhadas por todo lugar e eu não consigo impedir o sorriso que se forme em meus lábios.
Tão desorganizado.
Pacientemente, eu começo a dobrar todas as roupas e a juntar todas as suas tralhas. Coloco o violão com cuidado em cima da cama e caminho até a cômoda que fica próximo a cama e vejo as letras que ele tem escrito. A maioria delas está incompleta. Começo a folhear o caderno, sempre revisando a poesia. Ele escreve tão bem que meu peito logo se enche de orgulho. As músicas variam. Algumas falam sobre amor; outras tenho certeza de que foram inspiradas em alguma pessoa; outras falam sobre a vida, de como o caminho é longo. As que mais me chamam a atenção são as que falam sobre um vazio que nós deixamos quando partimos da vida de cada pessoa.
Então, meus olhos pausam na letra em que ele escreveu para Marcus. É incrível. A poesia é relacionada à dor que ele sentiu ao ver o pai tão acabado. As dores que ele sentiu ao levar as chicotadas. As dores que ele sentiu ao ver que não havia mais ninguém por lutar por ele. Mas sinto um nó na garganta quando é mencionado a parte dele nunca se sentir amado por sua família. Por se esforçar para ser uma boa pessoa e não ser reconhecido. Por ser abandonado por sua mãe e se sentir sozinho.
Por fim, a letra é finalizada com a frase:
Mas ainda assim, todos nós merecemos o perdão.
Sinto um embrulho no estômago e respiro fundo, antes de passar adiante com as folhas. Vejo que é uma música recente a que ele compôs para Marcus. A tinta está quase fresca e o papel é quase novo. Me dói tanto saber que ele ainda sofre com isso e me dói ainda mais saber que não posso fazer nada para amenizar.
A próxima música é o nosso dueto. A que ele sugeriu que cantássemos no casamento de Chris, como um presente de casamento. Vejo que há um trecho novo nela, que provavelmente ele teria escrito hoje. Sorrio ao pensar que ele não desiste fácil. Começo a cantar baixinho a letra.
Creio que está acabada. É linda. Fecho os olhos e sorrio ao saber que foi inspirada em mim. Com uma sensação de realizada, eu fecho o caderno e o recolho de cima da cômoda, colocando no bolso do case do violão. Vejo que um envelope caiu do caderno. Junto minhas sobrancelhas e o apanho, vendo que há meu nome escrito nele.
Uma sensação de pânico já me invade. A última vez que Tobias me escreveu um carta, era uma despedida. Será que ele está desistindo de nós mais uma vez? O que o impede? Meu coração está palpitando tão alto que creio que todas as pessoas possam ouvi-lo. Minhas mãos tremem enquanto seguro o envelope rosa-escuro.
Quando estou prestes a abrir, ouço a porta sendo aberta e Tobias entra sorrindo e então olha para as minhas mãos e o seu sorriso logo some. Isso só me deixa ainda mais apavorada e com medo.
Ele se aproxima de mim, mas eu dou um passo para trás e o encaro, com lágrimas ameaçando a cair.
– Beatrice, está tudo bem?
– Que porra é essa, Tobias?! – grito, levantando o envelope com a mão na altura do meu rosto para que ele possa vê-lo melhor.
– Amor, me escuta... – ele começa e dá mais um passo para frente, mas eu dou outro passo para trás e continuo mantendo distância.
– Da última vez que me escreveu a droga de uma carta você estava se despedindo. Está pensando em ir embora outra vez?! – minha voz sai trêmula. – O que droga você está pensando? Isso é uma...
– Tris, para. – ele faz um sinal com a mão para que eu me cale. – Isso não é meu.
– Claro que não é! – respondo dando uma risada seca. – Tem meu nome escrito.
– Eu quis dizer que não fui eu que escrevi. – ele suspira.
Eu junto minhas sobrancelhas e dessa vez minha voz sai mais calma, embriagada de alívio e dúvida.
– Não foi? – pergunto.
– Não. – ele sorri torto. – É da minha mãe. Ela me pediu para te entregar, mas eu provavelmente acabei esquecendo.
– O que tem escrito nele?
– Eu não sei. Eu não li. – ele responde e se aproxima e dessa vez eu deixo.
– Eu posso ler? – eu o encaro, enquanto ele fica frente a frente comigo.
– Claro. Foi escrito pra você. – ele pega uma mecha do meu cabelo e a põe atrás da orelha. – Mas vai ler agora? Sua amiga chega daqui a uns cinco minutos.
– Ok, fica pra uma outra hora. – eu digo. – Desculpa por gritar com você, acho que perdi o controle.
Ele sorri e segura meu rosto com uma mão, enquanto seu polegar acaricia minha bochecha.
– Você tá ficando paranoica. – ele beija minha testa. – Está tudo bem. Eu fui um filho da puta por quase deixa-la daquele jeito. Acho que isso causou um trauma em você. – ele brinca.
– Nem imagina o quanto.
– Agora vá tomar banho. Eu vou logo depois de você. – ele diz.
– Não quer tomar banho comigo? – arqueio as sobrancelhas.
– Não vou fazer nada com seu pai aqui. É desconfortável pra caralho.
– Eu realmente duvido que consiga passar mais de uma semana sem sexo.
– Você está certa. Eu não consigo. Sou um puto do caralho viciado em você e quero foder em todos os lugares, mas com o seu pai aqui não dá. Vamos curtir somente quando ele viajar.
– Viajar? – minhas sobrancelhas se juntam novamente.
– Sim, mas ele vai explicar isso pra você quando estivermos jantando. Vai contar a Caleb também. Porra, ele vai me matar se souber que eu deixei escapar então não fode as coisas pra mim, amor. Tome logo o banho antes que eu fale mais alguma merda. – ele sorri.
Eu sorrio também e dou um beijo em sua bochecha, antes de caminhar até a porta. Me viro e antes que eu saia, eu digo:
– Você é tão mandão.
Ele solta uma gargalhada e eu fecho a porta, entrando no banheiro e tomando um banho demorado. Lavo meu cabelo e todo meu corpo, depois me enrolo na toalha e escovo meus dentes. Passo o secador nos meus cabelos e faço a trança lateral por cima do ombro que Tobias adora.
Saio enrolada na toalha e vou até o quarto, onde ele está deitado na cama com os braços cruzados atrás da cabeça assistindo televisão. Ele sorri para mim e eu retribuo, indo depois até o closet e escolhendo uma roupa. Como é apenas um jantar simples entre amigos, eu opto por um vestido solto amarelo que vai até os meus joelhos e da cintura para baixo tem a saia rodada. Coloco minhas sandálias rasteirinha e passo um pouco de rímel, decidindo não passar mais maquiagem. Quando estou pronta, coloco um pouco de perfume e pego o envelope da carta, botando-o dentro do único bolso do vestido.
Desço e vou até a cozinha, ajudando a Susan a colocar a mesa. Meu pai conversa com Caleb na sala e vejo que ele continua com o mesmo tratamento divertido com ele. Ele mudou apenas comigo. Isso me machuca.
Quando termino de pôr a mesa, a campainha toca. Rapidamente me lembro de que Christina estaria quase chegando e antes que meu pai grite dizendo que iria atender, eu corro para a porta. Estou com tanta saudades dela.
Quando abro a porta, meu entusiasmo se transforma em confusão. Ao invés dos cabelos e pele negra de Christina, eu encontro uma mulher branca de cabelos castanhos até o ombro, com um sorriso simpático. Ela deve estar na faixa dos quarenta, mas se não fossem as poucas rugas na testa e bochechas, eu jamais desconfiaria. Ela tem um corpo cuidado e se eu não fosse tão observadora, eu a daria no máximo trinta anos.
– Pois não? – eu pergunto, quando minhas sobrancelhas automaticamente se juntam.
– Você deve ser a Tris, não é? – ela responde, entusiasmada.
– Sim, como você sabe? – eu refresco minha memória, tentando me lembrar se era alguma vizinha ou amigas que tínhamos.
– Bem, eu sou Edith. A noiva do seu pai.
Um soco imaginário me atinge no estômago e eu quase fico sem fôlego ao ouvir a palavra “noiva” ser mencionada. Quando fico sem fala, uma pessoa aparece atrás de mim.
– Olá, amor, vejo que já conheceu a Tris. – meu pai fala atrás de mim. Eu me afasto um pouco da passagem da porta, indo mais para o lado.
– Ela é adorável, Andrew. Mas ela não se parece nada com você. – Edith sorri.
– Sou a cara da minha mãe. – a palavra “mãe” sai mais dura do que eu queria.
Ouço meu pai suspirar e ignorar meu mau comportamento. Ele estende a mão para Edith e a convida para entrar, dizendo que está frio e me lançando um olhar repreendedor quando ela nos dá as costas. Eu encolho meus ombros e fecho a porta, os seguindo até a sala e me sentando no sofá. Tobias está lá também e logo passa o braço por cima do meu ombro e me puxa para junto de si.
Nós conversamos alguma coisa, até a campainha tocar novamente. Meu entusiasmo e ansiedade logo estão de volta e eu saio do sofá em um pulo e corro até a porta novamente. Meu coração está batendo muito rápido e quando abro a porta, um corpo se joga contra o meu e me abraça tão apertado que sinto dificuldades em respirar, mas ainda assim retribuo, pois reconheceria esse abraço em qualquer lugar.
– Eu senti tanto a sua falta. – eu digo, enquanto acaricio os cabelos de Christina e tenho um sorriso de orelha a orelha. Ela me dá vários beijos no rosto.
– Sentiu porra nenhuma . – ela brinca, enquanto me abraça ainda mais. – Você tava ocupada demais pra pensar numa vaca como eu.
– Em relação ao vaca eu concordo. – ela me aperta propositalmente. – Chris, não consigo respirar. – eu digo, ou ao menos tento.
Ela gargalha e me solta.
– Meu Deus, você tá diferente! – ela arregala os olhos e vejo que sorri como se tivesse ganho toda a loteria. – Você tá tão gostosa.
– Chris, cale a boca. – uma risada escapa dos meus lábios.
– Por que estou sendo deixado de fora dessa merda toda? – Will comenta surgindo atrás de Chris.
– Will! – eu me atiro em seus braços e ele me levanta do chão, rodopiando comigo. Sinto sua risada no abdômen e não consigo evitar sorri também.
– É impressão minha ou você tá mais baixa?
– Vá se foder. – eu solto e cubro a boca com a mão, fazendo com que os dois soltem uma risada.
– Ora ora, você não é a nossa Tris. – Chris fala.
– Onde está nossa garotinha? – Will declara e me coloca no chão, sorrindo divertido.
– Não se gosto de você a chamando de sua, cara. – escuto a voz rouca de Tobias e me viro para encara-lo. Ele está atrás de Chris, na entrada da porta. Will arregala um pouco os olhos, mas não há tensão ou medo neles. – Não vai me apresentar aos seus amigos, Beatrice?
– Desculpe. – eu sorrio envergonhada. – Gente, esse é meu namorado Tobias.
Chris se vira e finalmente encara Tobias. Ela é ótima em disfarçar suas emoções, mas dessa vez ela não consegue evitar a surpresa que sente ao vê-lo. Eu reprimo uma risada e a vejo estender a mão para ele.
– Sou Christina. – ele balança sua mão gentilmente – Tenho certeza de que essa vaca já lhe falou um monte de merdas sobre mim. – ela diz, enquanto semicerra os olhos para mim. Eu dou de ombros.
– Com certeza ela falou. – Tobias dá um sorriso. Um sorriso que tenho certeza de que amoleceu as pernas de Chris. Ele solta a mão dela e se volta para Will. – E você, quem é? – sua voz é um pouco ameaçadora.
– Sou Will, noivo da mulher que você acabou de jogar charme.
– Não foi essa a intenção, cara. Sou bem comprometido. – ele pisca para mim, enquanto aperta a mão de Will e a balança em cumprimento.
– Eu espero. – Will arqueia as sobrancelhas e eles se encaram por alguns segundos.
Christina e eu nos entreolhamos, enquanto um silêncio se estende entre nós.
– Bem... Acho melhor entrarmos ou nossa janta vai esfriar. – eu digo, tentando aliviar a tensão.
Ambos dão de ombros e todos seguimos para a sala de jantar, onde meu pai já está sentado em uma ponta e Edith na outra. Sinto uma pontada de dor ao vê-la ocupando o lugar da minha mãe, mas tento esquecer e a afasto por um momento. Conversarei com meu pai sobre isso depois.
Nos sentamos em cada lugar separado na mesa. Eu estou sentada entre Tobias e Christina do lado esquerdo da mesa, enquanto Susan, Caleb e Will estão sentados no lado direito, respectivamente. Apesar de estar na minha frente, Caleb evita a todo custo que seu olhar cruze com o meu.
O nosso jantar segue com conversas e mais conversas. Chris e Will estão animados para o casamento, que acontece daqui a duas semanas. Meu pai anunciou que não estará presente no dia, porque estará em um cruzeiro com Edith e pede desculpas ao casal. Anoto isso na lista imaginária das coisas que temos para conversar.
Quando apreciamos a refeição, eu me levanto e Susan me ajuda a pôr os pratos da sobremesa. Eu retiro o bolo da cozinha e o levo para a mesa de jantar, onde todos estão conversando sobre Caleb e sua formatura. Eu penso em tentar me encaixar na conversa, mas o clima entre Caleb e eu está pesado demais. Posso sentir isso, então eu apenas decido servir o bolo.
Minhas mãos tremem quando estou prestes a servir Caleb.
– Você aceita? – eu pergunto, olhando para qualquer lugar, exceto para ele.
– Não. – ele diz duro e um silêncio se forma.
– Filho, é o seu favorito. Tris fez principalmente pra você. – meu pai lhe dá um sorriso nervoso, temendo que ele se descontrole.
– Não tô afim. – ele diz e me olha. Quando seus olhos fitam os meus, vejo a mágoa neles. Isso me atinge. – Não quero nada de você. Você já fez demais.
– Caleb... – meu pai começa, mas a fúria de Caleb já foi despertada.
– O quê? Só tô falando a verdade. Beatrice já fez demais por todo mundo aqui, não é? – seu tom de voz é irônico. Eu permaneço quieta.
– Caleb, cale a porra da sua boca. – Christina diz, sem se importar com os modos.
Ele a ignora e se volta para meu pai.
– Então, pai, quanto tempo vai passar no cruzeiro? – ele desconversa.
Vejo o alívio passar pelos olhos do meu pai.
– Não sei, talvez duas ou três semanas...
– Tempo demais. – Caleb interrompe meu pai. – Não sei se consigo ficar aqui sozinho com ela. Se ela tentar não matar ninguém dessa vez, acho que consigo aguentar.
– Já chega! – meu pai grita.
As lágrimas se acumulam em meus olhos e eu deixo que um soluço escape. Todos estão em silêncio. Ponho o bolo no centro da mesa e vejo que a postura de Tobias tornou-se rígida. Me recomponho e olho para todos.
– Vocês me dão licença? – minha voz está embriaga pelo choro.
Mais um soluço escapa e antes que eu saia dali, vejo Tobias se atirar em cima de Caleb e meu pai se levantar, mas continuar parado no mesmo lugar. Christina grita alguma coisa, mas não consigo ouvir. Estou correndo para o único lugar onde sei que estarei segura.
Saio de casa e começo a caminhar. Minha visão está embaçada pelas lágrimas que ameaçam cair. Eu engulo o nó da garganta e começo a correr em direção ao parque abandonado de diversões da cidade. Caleb e eu costumávamos ir lá e brincar quando éramos crianças.
Mais soluços escapam quando as lembranças me atacam. Minha mãe nos levando ao carrossel. Caleb beijando meus joelhos ralados quando me machuquei na primeira vez que eu vim. Nossa família reunida, papai comigo nas costas e Caleb abraçado a minha mãe. Ele sempre fora mais apegado a ela.
A culpa me atinge. Seria mesmo a minha culpa? Todo aquele acidente... Se eu não a tivesse tirado sua atenção, ela ainda estaria viva? Eu deixo o choro escapar, enquanto me sento próximo a roda gigante e abraço meus joelhos.
Depois de muito chorar, eu espero pacientemente que meu corpo pare de se agitar e suspiro. Olho para o céu e torço para que minha mãe dê algum jeito de que tudo ficará bem.
Penso em Tobias. É quase inevitável não pensar nele em qualquer momento. Penso no modo como ele avançou contra Caleb e no que eu poderia ter evitado, se tivesse pedido para ele não fazer aquilo. Mas não, dessa vez eu deixaria meu irmão lidar com os próprios problemas. Ele não me queria por perto, então ele não me teria mais.
Sinto algo na parte da minha barriga e a ponta do envelope aparece um pouco quando abraço as pernas. Suspiro e penso que esse é o melhor momento para ler o que Evelyn escreveu para mim. Provavelmente não é nenhum sinal da minha mãe, mas qualquer coisa servirá para me distrair.
Abro o envelope rosa e retiro um pedaço de papel. O desdobro cuidadosamente e começo a ler.
Querida Tris,
Eu mal a conheço, mas eu sei que você deve ser muito especial. Pelo pouco de conversa que tive com você, consegui enxergar a pessoa maravilhosa que você é. Há algumas coisas que eu queria te dizer, mas não tivemos oportunidade, então decidi escrever tudo. Eu espero que não se importe.
Em primeiro lugar, obrigada por amar o meu filho. Acredito que vocês ainda não admitiram isso um para o outro, afinal, são muito jovens e estão com medo. Eu já tive sua idade, minha querida, sei o quanto você está assustada. Ainda mais com o modo de como as coisas aconteceram com vocês.
Meu filho é o que tem o coração mais terno. É também o mais forte. Ele vai amá-la de todo o coração enquanto você permitir.
Tobias teve uma infância e adolescência muito conturbada. Sofreu com o pai durão que teve e com meu abandono. Ele cresceu sem sua mãe por perto, então ele é uma criatura muito curiosa. Tobias é parecido com seu pai; ele é um profundo oceano de fragilidade protegido por uma espessa muralha de palavrões e indiferença dissimulada. Um garoto Eaton leva você completamente ao limite, mas, se você for com ele, ele vai segui-la para qualquer lugar.
Você deve estar se perguntando o porquê de eu estar te escrevendo tudo isso. A resposta é simples: eu quero que você o conheça completamente. Sei o quanto você está curiosa em relação a ele e sei que para ele também não é nada fácil. Acredite, Tris, ele jamais se abriu para uma pessoa tanto quanto se abriu para você. Eu jamais a escreveria se não tivesse a certeza do que ele sente por você. Ele a ama muito. E, quando um Eaton se apaixona, é para sempre.
Espero que você cuide bem dele. Nossa relação nunca voltará a ser a mesma, mas acredito que você tomará conta dele por mim. Sei que seu coração é gigante tanto quanto o dele. É por isso que vocês se combinam tanto.
Tragédias na vida às vezes nos mudam, mas algumas coisas nunca mudam. Independente do que aconteça, os sentimentos do meu filho em relação a você nunca mudarão. Tenha a certeza disso. Meu desejo para vocês é que a maior briga que tenham seja em relação a qual dos dois é mais capaz de perdoar.
O perdoe. Ele não errará por mal. Acredite nisso. Em breve você entenderá.
Espero vê-la logo.
Com amor,
Evelyn.
Embora a carta tenha sido confusa no final, as lágrimas de emoção não conseguem parar de rolar dos meus olhos. Mais um soluço se escapa dos meus lábios e eu sequer sei o motivo pelo qual estou chorando agora. Dobro o papel e o coloco de volta no envelope, levando-o depois até meu bolso e o guardando.
Depois de observar o deserto do parque, eu começo a olhar as estrelas. Esse local, apesar das lembranças, me passa tranquilidade. Eu sempre me sinto bem ao vir aqui. Quando me levanto e estou prestes a escalar a roda gigante, ouço alguém me chamar.
– Tris? – a voz rouca está carregada de preocupação.
Tobias nunca me chama pelo apelido. Ele deve estar muito preocupado. Eu suspiro e me viro para encara-lo.
– Oi, amor. – eu digo.
– Por Deus, eu fiquei maluco pensando se tava tudo bem. – ele logo me abraça e eu aninho minha cabeça em seu peito, me sentindo minúscula por ser envolvida por ele.
E é nesse momento que a confirmação do que eu temia finalmente chega.
Eu o amo. Muito.
Fale com o autor