Sem rumo.
17 Capítulo 17
Notas iniciais
BEATRICE PRIOR
– Pet? – eu pergunto receosa.
– Olá, Tris. – ele sorri. – Sabe, ele é um cara legal – aponta para Tobias e se aproxima. – Porém não sei se confio nele. Nós não costumávamos ter tantos segredos, lembra?
E como tão rápido apareceu, ele do mesmo jeito desaparece.
– Beatrice? – a voz rouca, embora incrivelmente sexy, me chama. – Gata, acorda. – sinto seus lábios quentes repetidas vezes em minha bochecha.
– Hmm – murmuro, enquanto abro um dos olhos. Tobias se levanta e abre as cortinas, permitindo que os raios solares atravessem as janelas. – Que horas são?
– Hora de partir. – ele me responde com um sorriso. Levanto o olhar para poder observá-lo melhor. Vejo que ele já está vestido, com um jeans escuro e uma camisa básica preta. O cabelo molhado comprova que ele saiu do banho há apenas alguns minutos. – Levanta, vai.
Eu bocejo e ele sorri, indo para sacada do quarto atender o telefone. Reviro os olhos, imaginando ser Zeke, com mais discussão e mistério. Cubro meu corpo com o lençol da cama e vou até o banheiro, fechando a porta e ligando o chuveiro no modo quente. Ponho o lençol no chão e entro debaixo do chuveiro, já que estou completamente nua.
Saímos de Miami há duas semanas e desde então estamos na estrada, a caminho de Indianapolis, visitar a mãe de Tobias. Ficamos na Flórida por quatro dias e logo vimos que era nossa hora de partir. Nada de ficar em algum lugar por muito tempo. O casamento de Chris está mais próximo e a visita à Evelyn tinha que acontecer o quanto antes, já que ela pretende sair em uma viagem.
Enquanto enxaguo meu corpo, penso no tempo em que estou com Tobias na estrada. Só passaram quase um mês e é como se eu estivesse viajando com ele por anos. Como pode alguém ter tanto efeito sobre mim? Efeito o suficiente para que eu não tivesse mais a noção do tempo. Talvez eu realmente esteja apaixonada por ele.
Escuto as batidas na porta e ouço ele me chamar, perguntando se estou morta. Solto uma risada ao perceber que não me dei conta de que já passei tempo demais debaixo do chuveiro. Deixo a água me lavar e pego duas toalhas, enrolando meu cabelo com uma e meu corpo com a outra. Escovo meus dentes e uso o secador do motel para acelerar o secar do cabelo. Quando termino tudo, saio.
– Caralho, você demorou bastante. – ele bufa, irritado. Uma coisa que tenho aprendido nesses dias de convivência com ele tem sido um fato importante: Tobias odeia esperar.
– Desculpa, amor. Tava pensando. – eu digo timidamente, me aproximando da mochila que está em cima do colchão e pegando um par de roupas.
– E custava pensar no carro, porra? – ele fala, enquanto joga todas as suas roupas na mochila.
– Foi mal, tá legal? – reviro os olhos, irritada e me viro de costas para vestir as roupas.
– Seguinte, gata, virando essa bunda pra mim você já conseguiu amenizar noventa por cento do meu mau humor. – ele ri, enquanto põe o case do violão nas costas e pega sua mochila. – Pronta?
– Quase lá. – digo, enquanto dobro as roupas e as coloco na mochila.
– Você tá fazendo de novo. – Tobias ri e se aproxima de mim. – O que eu falei sobre essa sua mania de organização, hein? Porra, só coloca e pronto. A gente tá atrasado. – ele me abraça por trás e me beija no pescoço.
– Ajudaria mais se você não me distraísse dessa forma. – falo, enquanto coloco desajeitadamente as roupas dentro da mochila, junto com todos os meus outros pertences que estão espalhados pela cama.
– Falei com Evelyn. Ela está nos esperando pra um jantar.
– Quanto tempo daqui até Indianapolis?
– Umas cinco horas. Mais, se pararmos pra comer na estrada.
– Hmm... Tá bom, então. Já pegou o carregador do celular que está na tomada do banheiro? – eu arqueio as sobrancelhas e ergo um sorriso convencido, sabendo que ele certamente o esqueceria.
– Bem lembrado. – ele aponta para cima e caminha até o banheiro, voltando com o carregador e as escovas de dente.
Quando estamos de malas prontas, descemos até o saguão e fechamos a conta do quarto. Tobias paga – como sempre tem feito – enquanto eu observo a recepcionista dar em cima dele. Não fico enciumada, afinal, confio nele, não confio? Pelo contrário, ao invés de sentir ciúmes, eu só consigo reprimir o riso.
Saímos do hotel e entramos no carro, pegando a estrada logo em seguida. Seguimos conversando sobre nossos planos futuros para depois do casamento de Chris.
– Então nós só ficaremos até o casamento, certo? E depois partiremos? – pergunto, tentando entender tudo que ele acaba de me passar.
– Exatamente. Pensei em planejar os lugares, fazer os roteiros e todas aquelas porras, mas decidi que nossa viagem não será nada planejada. A gente vai pra onde achar que deve ir e vamos passar o tempo lá, até cansarmos e partiremos para outra cidade. As coisas funcionam quando a gente não planeja nada. Tem sido assim conosco desde aquele ônibus, Beatrice. – ele diz, enquanto segura o volante e mantém a atenção na rodovia.
– Tá, tá. Você decide. – reviro os olhos, sorrindo, enquanto pego o celular e confiro as mensagens.
Meu pai me mandou inúmeras delas. Talvez ele esteja ficando paranoico. Aperto na agenda eletrônica e paro em seu nome, fazendo a ligação no minuto seguinte. Espero pacientemente o toque, enquanto vejo Tobias balançar a cabeça e bater no volante suavemente, acompanhando o ritmo da música que toca no rádio.
Meu pai atende no terceiro toque.
– Graças aos Céus, Beatrice. Eu estava quase indo atrás de você de tanta preocupação. – ouço o estalar de beijos do outro lado da linha e torço para que não seja o que eu estou pensando.
– Não seja tão dramático, pai. E não precisa se preocupar, acho que já passamos dessa conversa, não acha?
– Como quiser, Beatrice. Estou com saudades. Como você... – ele solta um gemido: – hm... – recupera o fôlego e continua a frase – está? – isso é o suficiente para que eu comece a sentir ânsia de vômito.
– Estou bem. Preciso desligar, você parece ocupado demais. – reviro os olhos e engulo o nó na garganta.
– Não, Beatrice. Espera um segundo. – fico muda na linha, enquanto ouço ele murmurar “espere uns minutos, Edith” e logo depois um suspiro longo de frustração. – Filha? Ainda está aí?
– Sim, pai.
– Bem, onde nós estávamos mesmo? – ele pergunta e volta a falar antes que eu tenha a chance de responder. – Ah, sim. Eu também estou bem, querida. Obrigado pela pergunta não feita. – ele diz em tom irônico e volta a ser o pai brincalhão que eu conheço.
– Desculpa, pai. – sinto o sorriso se formando em meus lábios. – Estou indo com Tobias. Chegamos aí amanhã, eu acho.
– Onde vocês estão dessa vez?
– Indianapolis. Vou conhecer a mãe dele.
– Tris, eu não sei se confio nesse garoto. – ele solta um longo suspiro. – Não acha que essa sua loucura já foi longe demais? Eu sou seu pai e vou te apoiar em tudo que você quiser, mas como seu amigo eu te digo: não acho que essa viagem tenha sido uma boa ideia. Você está diferente.
– Eu sei. E foi exatamente por isso que eu decidir sair. Eu quis me encontrar de verdade. – olho de relance para Tobias e percebo que ele abaixou o volume do som, mantendo a atenção na minha conversa. – E eu não quero falar sobre isso.
– Tudo bem. – ele suspira. – Caleb mandou lembranças e está ansioso para vê-la. – ele tenta soar convincente e consigo imaginar o sorriso nervoso que ele dá.
– Pai, nós dois sabemos que você está mentindo, mas admiro que você ainda tenha esperança para nós dois.
– Ainda quero ver as lindas crianças que eu eduquei juntas. O irmão protetor e a irmã doce.
– Aquelas crianças morreram junto com a mamãe. – falo a primeira coisa em que me vem à mente e a linha fica em silêncio. – Desculpe, pai. Eu não pensei antes de falar. Sinto muito.
– Eu sei, Beatrice. – ele solta mais um longo suspiro. – Bom, eu avisei na mensagem que tinha algo para lhe falar, mas vou esperar até vocês chegarem. Quero conhecer esse cara com quem você tá.
– Pai, você é bizarro. – reprimo um riso. – Mas não se preocupe, você vai gostar dele.
– Isso é o que você acha.
– Preciso desligar. Te ligo depois, tá?
– Como quiser, Beatrice. Tome cuidado e não deixe de dar notícias. Seu velho aqui não suportaria que algo acontecesse à princesinha dele.
– Tá, tá, pai. Eu ligo assim que chegar. – digo, enquanto ouço novamente o estalar de beijos e encerro a chamada sem esperar que ele me responda.
Coloco o celular dentro da bolsa e espero que Tobias fale algo, porque sei que ele está louco para falar. Ele está tentando disfarçar, mantendo total atenção na estrada, enquanto tenta reprimir um sorriso. Eu solto uma gargalhada.
– Tudo bem, pode perguntar o que você quiser. – eu digo.
– Ótimo. Qual nome do seu pai?
– Andrew. Andrew Prior.
– Por que você estava tão irritada com ele?
– Foi estranho conversar com ele enquanto tinha a certeza de que uma mulher mordiscava sua orelha. Estou torcendo para que ele não tenha falado comigo enquanto estava por cima de Edith. – reviro os olhos. – E, aliás, ele não gosta muito de você. Acho que não confia o suficiente.
– Por quê? – Tobias tenta parecer ofendido com seu tom de voz e sua expressão, mas noto que ele tenta novamente esconder um sorriso. – Por que eu comi a filha dele?
Dou um soco em seu braço, boquiaberta com a facilidade dessas palavras saírem de sua boca. Ele finge que doeu, mas logo abre um sorrisão, destacando as covinhas que eu adoro.
– Não. Ele nunca ligou tanto para isso. Ele só está tentando dar uma de protetor, já que era isso que minha mãe fazia. Ele está tentando mudar desde a morte dela, tanto para ser um pai bom para mim, quanto para Caleb. Não sei se ele consegue recuperar tanto tempo. Todos nós mudamos depois do acidente, mas ele já está forçando demais.
– Você também mudou? – ele desvia o olhar para mim alguns segundos, antes de se concentrar em uma ultrapassagem.
– Sim. Depois da minha mãe eu mudei um pouco, mas com Peter foi totalmente de imediato.
Ele concorda com a cabeça.
– E como você era? – ele pergunta, voltando seus olhos azuis curiosos para mim.
– Eu era divertida, extrovertida e... – um sorriso se forma no canto da minha boca quando as lembranças me atacam. – e bem, eu costumava pular pelada num lago gelado todo inverno.
Vejo um sorriso completo tomar conta do rosto de Tobias e novamente ele me olha com curiosidade. Me analisa de baixo para cima e arqueia as sobrancelhas.
– Uau... – ele volta a atenção para estrada. – Tô até imaginando. Mas você não tem medo de morrer afogada?
– Aí é que tá. – eu respondo sorrindo. – Adquiri esse medo no último inverno em que fiz isso. É quase como um trauma.
– É interessante, mas por que porra você fazia isso?
– Era um evento beneficente pro hospital de Chicago. – explico. – Eles faziam todo ano.
– Pelada? – ele aparenta estar totalmente confuso, porém seu sorriso curioso agora se transformou em um sorriso repleto de malícia, e tenho certeza que as engrenagens dele estão maquinando um pensamento pornográfico.
– Bem, não era totalmente pelada, sabe. Mas top e shortinho naquela água malditamente gelada era como estar sem roupa.
– Caralho, preciso começar a participar de eventos beneficentes. Não sabia o que eu estava perdendo. – ele controla o riso e então olha para mim novamente. – Por que não faz mais isso?
– Eu costumava fazer com Peter. – a lembrança triste me atormenta e sinto minha voz vacilar um pouco. – Mas aí ele morreu e...
– Não precisa continuar, amor. Eu entendi. – ele repousa a mão em cima da minha.
– E você? – pergunto, virando meu corpo para lhe dar total atenção, como sempre faço. – Que tipo de loucura você já fez?
Tobias franze os lábios, pensativo, e mantém a atenção na estrada quando ultrapassamos uma carreta. O trânsito tem estado diminuindo a medida que estamos nos afastando da cidade.
– Surfei em cima do capô de um carro. – ele faz uma careta. – Mas isso não foi loucura, foi idiotice.
– É, muita idiotice. – eu concordo reprimindo os lábios.
– Caí daquela porra e abri um corte no pulso sei lá como. – ele tira a mão direita do volante e vira, para que eu possa observar a cicatriz. É pequena em forma de vertical. – Rolei na estrada. Rachei a cabeça também. O cabelo esconde a cicatriz dessa. Levei dezenove pontos.
– Caramba, imagino que esteja cheio de cicatrizes. – eu brinco.
– Nem tantas. Só essas duas e passam despercebidas. Ah, e tem também as do meu pai nas costas, mas aquelas dali não passam despercebidas nem fodendo. Ele fez um belo estrago. – ele sorri, mas há tristeza nos seus olhos.
– Tobias... – eu o repreendo com uma voz suave.
– O quê? Ele tá morto mesmo. – ele aperta o volante e olha fixamente para frente.
– Isso não tem graça, amor.
Ele solta um suspiro.
– Eu sei que não. – diz por fim e aumenta o volume do som, dando por encerrada nossa conversa.
Encosto a cabeça na janela e tento me concentrar na letra da música que toca no som. Deve ser algum rock clássico. Não sou fã, mas durante essas semanas que passei com ele eu aprendi muita coisa e uma delas é tolerar algo barulhento como o rock. E eu até que estou gostando.
Seguimos em silêncio durante umas quatro horas de viagem, apenas com diálogos curtos. Ele mudou sua postura desde que falamos do seu pai e imagino que esteja sofrendo com isso mais do que ele demonstra. Isso me deixa triste. Pensar na forma como seu pai morreu e como ele lidou com tudo isso me deixa com muita compaixão e afeto por ele. Ele tá sofrendo. Muito. E me sinto muito impotente no quesito de ajuda-lo.
Quando estamos a mais ou menos uma hora de Indianapolis, ele estaciona o carro em um café da estrada. Estamos viajando por horas e eu estou faminta. Quando ele desliga o motor, ele desce do carro e eu junto minhas coisas na bolsa, enquanto ele dá volta e abre a porta para mim, como sempre tem feito.
– Aqui tem salada? – pergunto.
– Porra de salada, Beatrice. Você não come outra coisa além disso não? – ele sorri, enquanto segura minha mão e caminhamos para dentro do café.
Escolhemos uma mesa para dois, no fundo dele. O local é de paredes cremes, com mesas redondas escuras e cadeiras da mesma cor. O cheiro de café é forte por aqui.
– Claro que como, mas eu quero comer uma salada. – cruzo os braços sobre o peito.
– Você sempre quer comer salada. – ele revira os olhos, enquanto bate as pontas dos dedos na mesa.
– Você sempre me diz o que fazer e eu nunca rebato.
– Isso porque você gosta de ser dominada. – ele diz com um sorriso malicioso se formando nos lábios. – Estou errado? – eu fico em silêncio, abaixando a cabeça e ignorando minhas bochechas esquentarem. – Viu só?
– Me fala sobre sua mãe. – eu desvio o assunto, levantando a cabeça para que eu possa encara-lo novamente. Ele está com um sorriso divertido no rosto.
– Não tem muito o que falar. Eu não me lembro muito de quem ela é agora. Antes de sair de casa, ela costumava ser o exemplo de mulher que eu queria na minha vida. Era forte e dedicada, apesar do temperamento do meu pai. Ela era doce comigo. Eu gostava de tê-la como mãe. – ele parece pensativo, eu permaneço em silêncio, esperando que ele me conte todos os detalhes. – Ela não mudou muito agora, eu acho. Continuamos nos falando por telefone. Ela é inofensiva, se é isso que quer saber. – ele abre um sorrisão. – O único problema é que a idade não a favoreceu. Ela continua achando que é uma jovem solteira de 20 anos. Não se preocupe, ela vai gostar de você.
– Como pode ter tanta certeza? – pergunto, curiosa.
– Bem, você é a primeira mulher que eu levo pra conhecê-la. Acho que vai ganhar algum crédito por isso. – ele me dá uma piscadela.
– E quanto a Nita? – eu junto minhas sobrancelhas. – Digo, vocês ficaram juntos por dois anos. É muito tempo, amor.
– Eu sei, gata. – ele sorri. – Mas com ela não parecia certo fazer isso, entende?
– Eu acho que sim. – Ok. Eu sou a primeira mulher que a mãe dele vai conhecer. Isso só dificulta ainda mais as coisas. – Comigo parece certo?
– Tudo parece certo quando é contigo. – ele responde sincero e volta seu olhar para garçonete, que apareceu para fazer nosso pedido.
Ele pede alguma coisa do cardápio que não consigo prestar atenção e quando estou prestes a pedir uma salada, vejo-o balançar a cabeça e despachar a garçonete.
– Eles têm filé aqui. Pedi uma porção para dois.
– Sou vegetariana. – minto, revirando os olhos.
– Eu sei que não é. – ele sorri para mim. – E quanto ao hambúrguer que eu te fiz naquele dia? Era vegetal?
– Poderíamos comer hambúrguer! – eu digo, um sorriso tomando conta dos meus lábios. Certamente, o hambúrguer que ele me fez em Los Angeles foi o melhor que eu já comi em toda minha vida.
– Não, Beatrice. Nenhum hambúrguer é tão bom quanto o meu, então só comeremos quando estivermos em Chicago.
– Interessante. – eu concordo. – E você também poderá provar o melhor bolo de chocolate. – dou um sorriso vitorioso. – Feito especialmente por mim.
– Hm... Então você cozinha? – ele parece pensativo.
– Claro que sim. – digo, um tanto ofendida. – Tive que me virar depois que minha mãe morreu. Não conseguiria sobreviver à base de macarrão instantâneo. E a comida do meu pai também não é boa. O único com dons culinários da família é o Caleb, mas bem, ele não mora mais conosco.
– Sente falta dele?
Muita.
– Um pouco. – minto, dando um sorriso triste.
– Já tentou conversar com ele sobre isso? Já contou pra ele como você se sente?
– Não. – eu desvio o olhar. – Caleb preferiu que fosse assim, então eu devo respeita-lo. Não posso mudar as coisas desse jeito, Tobias.
– Quem disse que não? – ele junta as sobrancelhas. – Gata, você é quem decide o que você quer fazer. Não deixa esses merdas te controlarem. Você é tão melhor que isso.
– A questão, Tobias, é que não depende de mim. Foi uma decisão dele.
– Eu entendo isso. – ele suspira. – Mas vocês deviam conversar. Talvez quando ele te ouvir ele possa voltar a ser o irmão mais velho de antes.
– Talvez. – dou de ombros e encerro nossa conversa.
A garçonete chega com nosso filé e nós comemos em silêncio. Tobias está estranho. Apesar do jeito brincalhão, ele não está sendo totalmente ele. Continua sendo misterioso e me impedindo de atravessar as muralhas ao seu redor. Ele também está inquieto, como se quisesse me dizer algo.
Depois de comermos e pagarmos nossa conta, voltamos para o carro e pegamos a rodovia que dá acesso a Indianapolis.
– Você está bem? – eu pergunto, virando o rosto para encara-lo.
– Estou. Só tô pensando. – ele diz e estende a mão, entrelaçando os dedos da mão direita nos da minha esquerda.
– Em quê? – falo, um tanto curiosa.
– Bem, nós não usamos camisinhas em todas as vezes que transamos, certo? – ele pergunta, um sorrisão dominando os seus lábios. – Não tá com medo de estar esperando uma criança minha aí dentro?
Eu solto uma gargalhada.
– Eu tomo remédios. – ele arqueia as sobrancelhas. – É pra menstruação.
– Porra, porque nunca me disse antes? – seu sorriso se alarga ainda mais. – Meu psicológico tava fodendo comigo. Tive um puta medo de você estar grávida.
– Não quer ter filhos? – junto as sobrancelhas.
– Não agora. – ele pisca. – Quem sabe daqui a uns três, quatro anos. Quando a gente tiver visitado uma porrada de lugares e tiver cansado.
Ele pensa em ter filhos comigo? Um sorriso tímido se forma em meu rosto.
– Estamos quase chegando. Tá cansada? – ele desvia o assunto quando percebe que fiquei em silêncio por muito tempo.
– Não. – eu sorrio gentilmente. – Quero conhecer sua mãe.
– Sério? – ele desvia a atenção da estrada e olha para mim, levantando as duas sobrancelhas. – Achei que estivesse nervosa.
– E estou. – eu solto uma espécie de gargalhada nervosa. – Muito, aliás. Mas quero conhece-la. Vou adorar conhece-la.
Ouço-o murmurar alguma coisa, mas não consigo entender e seu celular toca. Ele revira os olhos e ignora a chamada, aumentando o volume do som e trazendo de volta o Tobias misterioso e inquieto de hoje de manhã. Me pergunto o porquê de tantos segredos; tantos mistérios. Será que ele não confia em mim o suficiente?
Nós não costumávamos ter tantos segredos, lembra? A voz de Peter do sonho ecoa na minha mente e martela essa terrível dúvida na minha cabeça. Não sei o que estou fazendo. Ele confia em mim, não confia? Se não confiasse, jamais teria se oferecido para me levar até a Flórida naquele dia em Los Angeles.
Fico pensando em todas as coisas que já aconteceram conosco desde que nos conhecemos no ônibus, enquanto o som do rock clássico atravessa meus ouvidos. Não é tão ruim quanto eu achava que fosse. Acho que me acostumei. Envolta nos pensamentos, repassando todas as nossas conversas, percebo que desde aquele ônibus, eu sou a única que tem falado o suficiente a respeito de si. Sempre quando eu fazia alguma pergunta a fim de conhecê-lo, ele sempre tinha um jeito de fazê-la voltar para mim.
Isso é estranho. Tenho quase certeza de que ele me esconde algo muito sério.
Sou tirada dos pensamentos quando a voz de Tobias avisa que chegamos. Estamos em um bairro de classe média-alta. As casas aqui não são nada comparadas a mansão do pai dele em Los Angeles, mas percebo que custaram um bom dinheiro.
Ele estaciona o carro em frente a uma das casas e suspira fundo, antes de dar a volta e abrir a porta para mim.
– Tá pronta? – ele diz, enquanto empurra a porta e segura a minha mão, acionando as travas do carro com a outra quando aperta as chaves e me guia até a entrada da casa.
– Tô nervosa. – eu aperto sua mão. – E se ela não gostar de mim? – isso o faz soltar uma risada incrivelmente doce.
– Quem não gosta de você? – ele esboça um sorriso para mim e aperta a campainha.
Repasso tudo o que tenho que falar e sinto meu coração palpitar mais forte a medida que escuto passos se aproximando. Tobias me olha de lado e sorri, enquanto uma mulher loira nos abre a porta. Ela se atira nos braços dele e ele solta minha mão para poder abraça-la. Estou me perguntando se essa é a mãe dele. Eles não se parecem. E além do mais, ela parece ser jovem ainda.
– Você deve ser a Beatrice, certo? – ela diz me lançando um sorriso e me dando um abraço gentil.
– Só Tris. – eu respondo gentilmente, enquanto retribuo seu abraço.
– Eu sou Evelyn. Tobias tem me falado muito sobre você, eu estava ansiosa para conhecê-la. – ela se desfaz do abraço.
– Obrigada. – eu lhe dou um sorriso tímido, enquanto sinto minhas bochechas esquentarem.
– Entrem, o jantar está servido. – ela abre um sorriso, dando-nos passagem para entrar na casa.
Tobias repousa sua mão em minhas costas e me guia até a sala de jantar. A casa de Evelyn é bonita. É decorada com cores suaves, alternando em tons de marrons. Há quadros por toda parte da casa, a maioria deles são paisagens de alguns lugares que não consigo identifica-los. O que mais me chama atenção é um onde há uma casa na árvore fotografada em preto e branco. A madeira está velha e o local parece abandonado. Não há nada ao redor daquela árvore, nem mesmo grama. O local parece antigo, mas ainda assim é bonito. Acho que o quadro mais bonito que a casa tem.
– Você gosta desse? – Evelyn pergunta, me tirando dos pensamentos, e só então eu percebo que fiquei parada observando esse quadro, enquanto Tobias saiu de vista.
– Sim. É muito bonito. – eu concordo.
– Ele quem tirou a foto. – Evelyn esboça um sorriso triste. – É a preferida dele também. A casa tem um significado especial. Tobias adorava esse lugar.
– É um tanto sombrio. – eu digo, enquanto analiso o quadro.
– Não costumava ser. – ela olha fixamente para o quadro e parece se perder nas lembranças. – Era no jardim da nossa primeira casa. Ele queria ter uma casinha na árvore, como em todos os filmes, e eu construí essa pra ele, já que Marcus se referiu como uma “coisa de menina”. Foi um tipo de refúgio para ele durante muito tempo. – ela pisca e se volta para mim. – Venha, ele está nos esperando. – ela sorri.
Eu a acompanho até a mesa de jantar, onde Tobias está pondo os pratos na mesa. Vejo uma ternura dócil tomar conta do olhar de Evelyn quando seus olhos param no filho. Com certeza ela sente orgulho dele. Eu também sinto. Ainda estou incomodada com a reflexão sobre a fotografia, mas acho que esse não é melhor assunto para se falar em um jantar familiar. Sinto que devo estar o invadindo demais. Em uma outra ocasião, eu posso pergunta-lo. Talvez ele me responda.
Ou talvez não. Ultimamente ele tem me ocultado tanta coisa que já não sei mais o que esperar.
– Beatrice? – Tobias me chama e vejo que ele e Evelyn já estão sentados, olhando fixamente para mim.
Me sento ao lado dele, na mesa de seis cadeiras, enquanto Evelyn começa a se servir. Tobias já está se servindo também. Vejo que ele pôs vinho nas três taças. Eu dou um gole e então analiso o que comerei. Há peixe, carne e frango. Muita comida para apenas três pessoas. Há pratos diferentes também, mas o que me chama a atenção é uma salada extremamente tentadora e de aparência suculenta.
– Tobias me falou que você ama salada, então fiz especialmente pra você. Espero que goste. – Evelyn põe um pouco no meu prato. Eu a agradeço e bebo mais um gole de vinho, pegando o garfo e cravando na salada, depois levando-a até minha boca e dando a primeira mastigada. Está incrivelmente gostoso.
– Isso está maravilhoso. – eu digo, enquanto solto um gemido de satisfação e continuo a comer. – A senhora é ótima cozinhando.
– Senhora não, por favor. – ela sorri. – Você faz me sentir velha.
– Evelyn, você é velha. – Tobias diz, enquanto enfia um pedaço de filé na boca e mastiga.
– Tobias! – eu o repreendo, tanto pelo fato dele a tê-la chamado de velha, quanto ter se referido pelo seu primeiro nome.
– Tudo bem, querida, ele age assim. – Evelyn alarga um sorriso, embora eu consiga flagrar um rastro de tristeza passar por seus olhos.
– Bem, eu não a acho velha. – eu digo, sincera. – Você tem um rosto muito jovem.
– Exceto pelas rugas. – Tobias adverte, reprimindo uma risada.
– Eu não tenho rugas! – Evelyn exclama, claramente chocada e pega a colher mais próxima para observar seu reflexo, procurando rugas.
– Ela é um tanto histérica em relação à aparência. – Tobias sussurra ao pé do meu ouvido. E então eu percebo que ele está apenas divertindo sua mãe e comprimo os lábios, negando-me a soltar uma gargalhada.
Tomo mais um gole de vinho.
– Então, – Evelyn repousa a colher ao lado do prato e seus olhos vão entre mim e Tobias. – há quanto tempo meu filho come você? – e então é como se todo vinho não descesse mais pela garganta e eu me engasgo um pouco.
– Mãe! – Tobias adverte e pega o guardanapo de pano mais próximo e limpa minha boca, reprimindo um riso. Ele parece divertido. – Você está bem?
– Sim. – eu respondo e imagino que minhas bochechas devam estar da cor de pimenta.
– Como se conheceram? – Evelyn esboça um sorriso, também claramente divertida com tudo isso.
– No terminal de Ônibus, em Chicago. – eu respondo, enfiando mais um pouco de salada na boca e comendo.
– Por que você pegou um Ônibus em Chicago, filho? – ela dirige o olhar a Tobias.
– Tive que pegar um ônibus até lá e de lá pegar outro até Los Angeles, já que não tinha nenhum que fosse direto.
– Entendo. – ela concorda, lançando um olhar a ele que não consigo identificar e se voltando para mim. – Você foi ver seu pai?
– Mãe, esse não é o momento. – Tobias lhe lança um olhar de repreensão e seu tom de voz, embora seja inalterável, é duro.
– Tudo bem. – ela diz, um tanto derrotada e se volta para mim. – Você faz faculdade?
– Sim. – eu abro um sorriso. – Bom, eu fazia. – eu digo um tanto constrangida.
– Por quê? – ela está curiosa.
E então uma onda de medo me atravessa e eu não sei o que falar. O que direi a ela? Posso falar a verdade, dizendo que tranquei a faculdade porque não me vejo como as outras pessoas, estando apenas fixa em um emprego e fazendo aquilo até o resto de suas vidas. Posso dizer que saí nessa viagem sem rumo algum e sem planos para retornar minha casa. Posso dizer que quero conhecer todos os lugares possíveis e que seria impossível terminar uma faculdade assim. Mas se eu contasse a verdade, ela certamente me acharia uma louca. E ela precisa gostar de mim. Eu quero que ela goste de mim.
Então, eu volto a falar, contando a primeira mentira que contei para seu filho, no ônibus em Chicago, no início da nossa viagem.
– Eu tive que trancar quando estava indo visitar minha mãe, em São Francisco. – eu dou meu melhor sorriso convincente e sinto uma pontada de culpa por ter mentindo para ela.
– Hm... – ela murmura, enquanto põe um pedaço de frango em sua boca. – Você mora com seu pai?
– Sim.
– Eles se separaram há quanto tempo? – ela pergunta e noto a inquietação de Tobias sobre o assunto, mas quando ele está prestes a repreende-la, eu seguro sua mão por baixo da mesa e lhe dou um olhar doce.
– Quando eu fiz 14. Não foi tão ruim quanto todo mundo dizia que seria. – eu mais uma vez lhe dou um sorriso, tentando disfarçar o tremor nas minhas mãos e o acelerar do meu coração.
– Você tem irmão?
– Apenas um. Caleb, ele é mais velho. Está se formando em Medicina no final desse semestre.
– Que maravilha! Vocês se dão bem?
– Mãe... – Tobias insiste e dessa vez eu deixo, porque realmente não quero falar sobre Caleb. Eu poderia mentir sobre tudo, exceto sobre ele.
– Desculpe, estou falando demais, não estou? – Evelyn ruboriza e encolhe os ombros, claramente envergonhada.
– Tudo bem, nós só estamos em uma fase complicada. – eu digo sorrindo, embora haja um aperto em meu coração e eu saiba que isso seja uma mentira.
– Espero que fiquem bem. – ela diz e antes que possamos falar alguma coisa, ela se levanta da mesa e nos informa que vai pegar a sobremesa.
Quando ela sai, Tobias pega minhas mãos e beija as duas, de forma delicada e suave. Seus olhos fitam os meus cheios de compaixão e ternura.
– Sei que é um assunto delicado pra você. Desculpe por ela. – ele diz, sincero. Eu apenas assinto, sentindo um aperto no coração. Falar da minha mãe e de Caleb não é algo que tem sido fácil.
– Tudo bem, ela não fez por mal. – eu lhe lanço um sorriso triste.
– Prometo que vou conversar com ela depois sobre isso.
– Não precisa. Eu já disse, ela não fez por mal. E eu gostei dela. – um sorriso se abre nos meus lábios.
– Gostou?
– Muito.
– Isso é bom. Sairemos cedo amanhã, está bem?
– Sem problemas. Passaremos a noite aqui?
– Sim. O quarto não tem o mesmo luxo que o hotel, mas acredito que você se sentirá mais em casa. Ao menos apenas por essa noite.
– Com certeza irei. – eu lhe dou um beijo rápido nos lábios e vejo Evelyn retornar para mesa.
Nosso jantar segue dentro dos padrões e, embora Evelyn tendo feito perguntas tão pessoais antes, o clima agora está muito mais leve, até que Zeke é mencionado em nossa conversa e a postura de Tobias torna-se rígida, e mais uma vez ele se comunicam a base de olhares. Eu tento disfarçar a curiosidade, comendo mais um pouco da sobremesa até eles voltarem a atenção para mim. O diálogo não dura mais que cinco minutos depois disso.
– Tobias, você quer me ajudar a retirar a mesa? – Evelyn diz e entendo que isso não apenas uma pergunta. – Tris, querida, você pode nos esperar na sala de estar. Prometo que não demoraremos. Há alguns álbuns de fotografias de Tobias quando ele era um bebê na mesinha de centro. Você pode olha-los, se quiser. – ela sugere e eu assinto, sorrindo e caminhando até a sala de estar.
Me sento no sofá marrom em forma de L e pego um álbum médio que está posto em cima do vidro. Tento me concentrar nas fotografias, mas não consigo quando sei que há algo errado e que eles estão me escondendo. Talvez tenha alguma ligação com o que ele esconde com Zeke de mim. Talvez eu esteja ficando paranoica. Sim, prefiro acreditar nessa última opção, mas minha ilusão vai por água a baixo quando ouço suas vozes se elevarem e ouço trechos da conversa, como “você devia contar a ela” ou “isso não é problema seu, mãe” ou até mesmo “só faça o que eu estou lhe pedindo e por favor, pare de chorar”. Consigo pegar algumas palavras no ar, mas nada do que eu junto faz sentido. Quando as vozes cessam e os passos se tornam o único som, eu volto minha atenção para as fotos.
Evelyn retorna com nariz e os olhos vermelhos, ainda lacrimejados. Tobias está indecifrável, apesar de que consigo notar um tanto de culpa e tristeza em seu olhar.
– Está tudo bem? – eu tento soar calma, embora a curiosidade esteja me corroendo.
– Sim, querida. Eu só recebi uma notícia sobre um parente, nada com o qual você deva se preocupar. – ela me dá um sorriso nada convincente e fico feliz em saber que ela mente tão mal quanto eu. – Bem, de qualquer forma, eu estou exausta. Estou indo me deitar e deixarei vocês dois sozinhos. Foi um prazer conhece-la, Tris.
– Obrigada, Evelyn. Foi um prazer conhece-la também. – ela me dá um abraço apertado e me beija na bochecha, subindo as escadas logo em seguida e sumindo de vista.
Eu e Tobias ficamos em silêncio. Eu fecho o álbum de fotografias e encaro minhas mãos, esperando que ele me fale algo.
– Você não acreditou nessa história, não é? – ele pergunta e eu o encaro, seus olhos fitando os meus.
– Você sabe que não. – eu respondo. – E você provavelmente não irá me contar o verdadeiro motivo, não é?
– Você sabe que não. – ele rebate, me dando um sorriso seco.
– Eu imaginei. – suspiro e me levanto, caminhando até a escada, quando o sinto segurar meu braço e eu o olho novamente.
– Me desculpe, gata, mas eu não posso.
– Tudo bem. Eu conto tudo a você, mas você não confia o bastante em mim para me contar seus segredos.
– Não é questão de confiança, amor. – ele junta as sobrancelhas e meu coração amolece com a suavidade que ele pronuncia meu nome, mas ainda assim eu não cedo.
– Não? Então é questão de quê?
– Eu só não posso.
– Tá. – eu reviro os olhos e começo a subir as escadas.
– Onde você tá indo?
– Dormir. Eu tô cansada e sairemos cedo. Você quer falar alguma coisa? — eu arrisco uma última vez.
– Não. – ele responde com um tom derrotado.
– Ótimo. Boa noite.
E ignoro, subindo para o quarto mais próximo e por sorte eu acerto em ser o de visita. Me agarro ao travesseiro e tento chorar, mas a única coisa que sai de mim são apenas soluços incontroláveis. Tobias não entra no quarto e eu agradeço mentalmente por ele não dormir comigo essa noite. Preciso de tempo para pensar. Como um relacionamento sobrevive a base de desconfiança? De segredos? De tanto mistério?
Será que ficar com ele é realmente a coisa certa a fazer?
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