Sem rumo.
1 Capítulo 1
Notas iniciais
BEATRICE PRIOR
Observo minha pequena mochila em cima da cama. Suspiro. Começo a andar de um lado para o outro pelo quarto. Estou nervosa. Talvez isso não seja o certo. Talvez eu esteja me precipitando. E se der errado? E se for loucura? E se eu estiver caminhando para um precipício? Nada tem me incomodado tanto quanto essas perguntas.
Não me importo.Penso. É isso que eu quero fazer? Então eu farei. Minha mãe sempre me ensinou sobre determinação. Coragem. Olho para a foto que tenho com ela e a aperto contra mim. Gostaria que ela estivesse aqui. Assim como Peter, ela também morreu.
Peter. O nome ainda me dá calafrios. Já fazem dois anos que ele morreu. Sinto as lágrimas nos meus olhos e engulo o nó que se forma em minha garganta. Tenho repetido para mim mesma que devo superar. Eu tento superar. Mas ainda dói. O sentimento de perda me correu por dentro e hoje sou vazia. Me sinto vazia.
Caminho até o banheiro e lavo meu resto. Prendo meu cabelo e encaro meu reflexo. Não consigo me enxergar. Eu não sou mais a mesma desde a morte da minha mãe e do meu ex-namorado. Acho que nunca mais conseguirei ser. Não há mais o brilho, nem a vontade de viver em meus olhos. Suspiro mais uma vez e volto para o quarto. Pego minha mochila e esfrego as mãos no meu jeans. Estou pronta.
Eu moro em Chicago. Cresci e nasci aqui. Fui criada por meus pais, junto com meu irmão Caleb, que ganhou bolsa e entrou para faculdade de Medicina. Desde então, tem sido apenas meu pai e eu.
Andrew Prior está sentado no sofá da sala, lendo o jornal da cidade com uma xícara de café. Ele abaixa o jornal ao sentir minha presença. Seus olhos são gentis e ele sorri ao me ver.
– Bom dia, filha. — ele me cumprimenta.
Dou um sorriso torto para ele e ele faz um gesto para que eu me aproxime. Não foi fácil convencer meu pai a me deixar fazer isso. Eu sempre tive vontade de viajar sem destino e pretendia realizar com Peter, pouco tempo depois da sua morte. Quando ele morreu, eu senti que todas as minhas forças, desejos e sonhos morreram com ele. Minha vontade de viver se foi junto com sua vida.
Me aproximo do meu pai e ele se levanta para me abraçar. Tanto eu quanto meu pai ainda sofremos com a morte da minha mãe. Não tem sido fácil para ele educar dois filhos sem a ajuda dela e eu me orgulho ao saber que ele cumpriu a tarefa tão bem. Ele me acolhe em seus braços e suspira.
– Você vai voltar, não vai? — ele pergunta com o queixo em minha cabeça.
– Sim, pai. — eu sorrio de leve. Sei que ele está chorando. — Não é como se não fosse me ver nunca mais.
– Vai tomar cuidado, Beatrice? — ele agora me afasta para poder olhar nos meus olhos.
– Sim. Prometo tomar cuidado. — eu repito suas palavras.
– Vou sentir saudades. — ele me abraça novamente.
– Eu também. — digo o abraçando.
– Eu te amo. — ele luta com as lágrimas.
– Eu também te amo. — suspiro.
Ele me guia até a porta e me deixa ir. Sinto que ele se esforçou muito para deixar que tudo isso acontecesse. Foram meses de conversas e ele só permitiu porque Christina — minha amiga de infância — o aconselhou. Ela insiste em dizer que sofro com depressão desde a morte da minha mãe, e isso piorou quando Peter também morreu. Talvez ela esteja certa. Talvez eu seja mesmo depressiva.
Caminho até a estação de ônibus mais próxima. Christina ficará furiosa ao saber que saí sem me despedir, mas eu sei que me perdoará por isso. Acordei sabendo que havia chegado o dia. Algo dentro de mim despertou disposição e sinto como se hoje fosse o dia ideal.
Quando estou caminhando, sinto os pingos de chuva sobre minha pele. Conforme eu vou chegando, a chuva começa a ficar forte e chego até a estação completamente encharcada. Meu cabelo gruda e minhas roupas grudam em meu corpo de maneira incomodante. Suspiro e me arrependo por ter saído hoje. Me dirijo até o balcão, onde a recepcionista me fala com voz monótoma:
– Bom dia. Qual seu destino?
Hesito. Eu havia pensado em tudo, exceto no destino. Suspiro e a senhora me encara impacientemente. Olho para o lado e vejo um senhor de meia idade sentado num banco. Me volto para a recepcionista e digo a primeira coisa que me vem a mente.
– São Francisco. — minha voz sai rápida.
Ela me olha sem expressão e eu entrego o dinheiro. Ela me dá o ticket e eu saio apressada dali. Meu ônibus sai em meia hora. Tenho um tempo ainda.
Vou até o banheiro da estação e ele é imundo. Desvio das poças de água que há no chão e vou até a parte mais seca. Me olho no espelho e pego alguns papéis. Muitos papéis. Enxugo as partes molhadas do meu corpo — o máximo que consigo — e tranço meu cabelo. Saio dali e me sento em um banco.
Quinze minutos.
Suspiro e fico encarando o relógio. Os segundos parecem nunca se passar. Desvio os olhos e observo as pessoas. Algumas caminham apressada, outras se abraçam ao encontrar outras que acabaram de desembarcar. Muitos estão sorrindo e parecem felizes de verdade. Me pergunto se um dia eu agirei assim também.
O primeiro toque para nos dirigirmos ao ônibus é dado e eu caminho ansiosa. Sinto que estou sendo observada, mas não dou importância. Subo no ônibus e escolho meu lugar. Está praticamente vazio. Me dirijo ao meio e sento-me no par de cadeiras esquerdo. Fico observando a chuva cair pela janela e me distraio, até que o ônibus dá a partida.
Começamos a nos locomover, mas ele pára. O motorista abre a porta e vejo um jovem entrar. Ele é alto, forte e de pele morena. Seu cabelo é castanho e curto. Sua barba está mal feita, o que só o deixa mais atraente. O analiso discretamente enquanto ele caminha pelo corredor. Seus olhos são azuis, o que se destaca em meio a sua pele. Ele é bonito. Muito bonito.
Enquanto ele se aproxima, eu ponho minha mochila no assento ao lado do meu, evitando que ele escolha esse de propósito. Não estou nessa viagem com o propósito de conhecer alguém. Não quero me aproximar de ninguém.
Ele passa do meu lugar e senta-se atrás de mim. Suspiro de alívio e o ônibus dá a partida. A chuva está forte, mas ainda assim consigo enxergar a paisagem. A medida que vamos nos distanciando, sinto como se eu estivesse fugindo. E talvez eu esteja.
Mas de qualquer forma, eu não me importo.
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