Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.

22 Capítulo vinte e dois - Tudo o que eu preciso na vida


Notas iniciais
A poucos dias de se mudar para Blumenau, Benjamin tem que lidar não somente com as suas emoções, mas com as de todos a sua volta. O menino não sabe como lidar com a situação, além disso, outra coisa ainda mais perturbadora está lhe tirando o sono. Já Yuri continua irredutível a sua decisão de manter distância do melhor amigo. Até quando conseguirão esconder dos outros esse afastamento?

Benjamin Belucce Furlanetto acordou naquela quinta-feira depois das dez e meia da manhã. Dois dias já se passaram desde o velório e enterro do Pedro. O dia anterior foi marcado pelo ócio total, tanto para o rapaz quanto para os seus amigos, que não saíram de casa para nada.

Na noite passada, Ben conversou com a Bárbara ao telefone, e os dois marcaram de irem ao clube para nadar um pouco na tarde de hoje e depois de irem ao cinema para assistir à nova versão do Peter Pan. Mais tarde, o menino de olhos verdes conversou com Yumi através do WhatsApp.

A irmã do seu melhor amigo lamentou pela morte de Pedro. Ela mentiu desconhecer o motivo pelo qual Yuri estava tratando o menino com grosseria e lhe evitando ao extremo. Ben ligou para o japonês durante a quarta-feira inteira, porém o amigo desligou o celular depois da quinta chamada.

A japonesa quis saber por que eles tinham brigado desta vez, e ele contou parcialmente a verdade sobre ter perdido a cabeça e dado um soco na cara do rapaz. Yumi se fez de chocada e investigou mais, tentando ouvir a parte da história que Ben estava ocultando. Só que não adiantou, ele não abriu a boca sobre o que ela queria ouvir.

No final da ligação, a menina prometeu ao amigo que tentaria dar uma força para eles se encontrarem antes da sua mudança. Depois de conversarem por quase meia hora, os dois se despediram.

Outra coisa interessante que aconteceu ontem na vida de Benjamin foi a conversa que teve com seus pais. Eles estavam preocupados com a nova vida que o filho teria a partir do final de semana; a preocupação se intensificou após a morte do jovem de dezenove anos.

— Tu precisa ficar longe das pessoas que mexem com este tipo de porcaria. Drogas só acabam com os sonhos das famílias e dos jovens. O que aconteceu com o Pedro é só um pedacinho do que acontece todos os dias no Brasil. Mas, infelizmente, aconteceu com alguém que gostávamos muito.

A voz do seu pai estava firme e seus olhos altivos. Marisa estava de mãos dadas com o filho caçula e massageava-as com seus polegares.

— Pai, eu quero dizer que conheço bem os riscos de alguém que usa droga. Nunca aceitei experimentar e prometo que nunca aceitarei. Pode confiar na minha palavra.

— Se está nos prometendo, não vejo motivos para não confiar em ti, meu filho. Eu e o seu pai estávamos pensando se não seria legal fazermos um jantarzinho aqui no sábado à noite só para a gente e para os seus amigos. Acho que seria bacana poderem ficar um pouco juntos depois do que aconteceu.

Jantar com os meus amigos a um dia de me mudar? Humm... Legal, mas... isso significa também que teria que convidar todos os meus amigos. Inclusive, o japa, e na nossa atual circunstância, levaria um fora na frente de todos os outros. E como explicaria o motivo para ter batido no rosto dele? Não. Não posso aceitar a proposta.

— Mãe, pensando bem, é melhor não fazer isso agora. Um jantar de despedida enquanto todos ainda estão magoados pela morte do Pedro só arrasaria mais o nosso grupo. Prefiro um jantar a sós com a minha família.

— Caramba, tu tem toda a razão. Não tinha visto por este ponto, meu amor. Só que acho que o Yuri poderia ser convidado, o que acha? Afinal ele deve estar sozinho naquele apartamento.

— Está errada, mãe. Os pais do japa já voltaram da Europa no último domingo à noite. Sei disso porque falei com a Yumi mais cedo. Parece que eles vão sair para jantar neste sábado.

— Ah, que bom! Então nós quatro podemos sair para jantar aqui mesmo pelo norte da ilha – afirmou Manuel.

Por ora conseguiu enrolar os pais, mas até quando conseguirá enrolar a todos sobre estar bem com o melhor amigo?

O complexo de piscinas aquecidas do clube de natação estava vazio. Bárbara Ronsoni e Benjamin já estavam dando suas braçadas dentro da água. Se a mãe da garota lhes visse, ficaria extremamente orgulhosa dos seus dois atletas.

Os dois amigos não trocaram muitas palavras desde que se encontraram na frente do clube há meia hora.

Ben veio de ônibus lá da sua casa, o seu carro ainda estava confiscado. Arthur prometeu encontrá-los no cinema depois da seis da tarde.

— Tu já fez as malas para se mudar, Ben? – perguntou ela, se sentando à beira da piscina para descansar.

— Ainda não consegui fazê-las. Pra não falar que tentei, depois de irmos embora na terça-feira, comecei a reunir as roupas que mais uso dentro das bolsas, mas não aguentei terminar aquilo.

Benjamin se sentou ao lado da amiga com os pés dentro da piscina e tirando os óculos de natação.

— O tempo voou, até parece que foi ontem que pegamos as tão sonhadas férias de julho. Confesso que será estranho recomeçar no cursinho, na próxima segunda-feira, sem te ter por perto. Porém é o máximo saber que conseguiste e que vais iniciar a tua faculdade no mesmo dia.

— Nossa, Báh, tem razão, parece mesmo que foi ontem. Gente, as três semanas de férias foram direto para o lixo. – Ben refletiu por um instante em tudo que pôde fazer nesse período. – Eu sei que conseguirão superar a minha ausência lá no cursinho, até porque tu prefere estudar sozinha na sala de estudo mesmo – disse, rindo.

A ruiva recostou sua cabeça no ombro do menino de olhos verdes, pondo uma mão no ombro livre dele por detrás das suas costas e a outra mão sobre o peito definido do guri.

— A gente briga muito, porém sabemos que nos amamos, né não? – Os olhos azuis da menina já estavam carregados de lágrimas. – Eu quero continuar próxima de você durante a sua faculdade, me entendeu?

Quiridá, quiridá, a nossa amizade seguirá sempre reto toda a vida— disse com o sotaque característico dos mais velhos da ilha. Aquela expressão: “siga reto toda vida” era algo muito comum entre os manezinhos de Florianópolis. Bárbara apertou os seus braços nos músculos do menino. – Quíquí foi mininá? Estaix, estaix toda alvoroçada... ô ixtepô, teu amigú aqui tí amá dímaix... podí contá com elí a todú momentú quí precisá.

A menina adorava quando seu amigo dava uma de açoriano e falava como um velho nativo de Florianópolis. O tom de voz do garoto se transformava em outro com tamanha naturalidade.

Bárbara não quis mais se fazer de forte e deixou as lágrimas rolarem em seu rosto magricelo.

— A nossa amizade seguirá sempre reto toda a vida – repetiu ela, beijando a bochecha do garoto. – Vamos mergulhar mais um pouquinho ou vamos ficar só tagarelando aos quatro ventos?

Benjamin a empurrou para dentro da piscina e se levantou para mergulhar de ponta. Ao fazer aquilo se lembrou de que Yuri era o melhor naquele estilo de entrada e sentiu um aperto dentro do peito. Não aguentava ficar tanto tempo sem falar com aquele oriental chato.

Passado mais vinte minutos, Benjamin já estava esgotado e saiu da piscina antes da ruiva. Ela saiu um pouco depois e se vangloriando por apresentar um melhor condicionamento físico.

Os dois foram para o vestiário tomar uma ducha. Depois, foram no carro da menina para o Shopping Iguatemi, ao lado da UFSC. A menina não se considerava uma boa motorista, e nem tampouco seus amigos a consideravam. A cada três quadras rodadas, a ruiva deixava o carro morrer.

O que falar da tentativa desastrosa da Bárbara em fazer a baliza do seu automóvel no estacionamento do shopping?

— Um dia, eu pego o jeito da coisa, tu vai ver – garantiu a menina. – A verdade é que ando mais de carona com o Arthur e com os meus pais.

— Ah, claro... é por isso.

Arthur estava próximo de uma fonte de água quando os dois o encontraram. O menino estava há mais de meia hora sentado ali e impaciente, diga-se de passagem.

Depois que o filme começou, Ben se sentiu deslocado por ter ido ao cinema com um casal de namorados. Enquanto seus amigos se beijavam entre uma cena e outra, ele se afundava na poltrona.

Quando o filme acabou, o menino de olhos verdes agradeceu pela sessão tortura ter acabado. Não, ele não se referia ao filme, simplesmente o adorou. Mas em alguns momentos os seus pensamentos se divagaram para a mudança que se aproximava e para o que sentia dentro do peito pelo Yuri.

O pior de tudo era saber que estava indo embora e que os dois melhores amigos não estavam se falando. Ben estava cogitando a ideia de enganar o amigo, ligando para ele do celular da Báh ou do Arthur. Ou ainda ir pessoalmente à casa do rapaz, porém com o início do semestre, seria difícil encontrá-lo por lá.

— Benjamin, por que tu tá tão calado? – perguntou Arthur. Eles estavam esperando por seus lanches na praça de alimentação. – Está chateado por estar chegando o dia de ir embora?

— Orra, Thur, hoje não acordei tão animado...

— Como não? A gente estava se divertindo lá no clube. Ficou assim depois que chegamos aqui.

— Já sei. Eu sou o culpado – brincou ele.

O menino apenas riu.

— Ei, pera aí, aqueles ali não são o Yuri e o Joshua? – Quando a ruiva disse aquilo, o coração do menino de olhos verdes quase saiu pela boca.

Os dois universitários estavam caminhando pelo corredor do shopping sem notar a presença dos três na praça. Arthur acenou com os braços, mas não foi notado. Então Bárbara se levantou depressa e saiu correndo por entre as mesas da praça em direção aos amigos.

— Caramba, esta Báh não tem jeito mesmo – comentou Arthur. – Ben, eu vou dar a ela um anel de compromisso no fim de semana.

— Sério, Thur? Eu fico feliz que tenham dado certo. No começo, pensava que ela poderia se apaixonar por ti e tu não corresponder da mesma forma.

— Me lembro disso – replicou entre risos. – Eu quase apanhei lá no Energia de um amigo protetor.

Eles riram.

Yuri e Joshua foram surpreendidos quando a ruiva pulou em seus ombros sem se anunciar. Depois que ela mostrou onde estavam Ben e Arthur, o japa quis desaparecer. E quando ela convidou-lhes para se juntarem a eles, o menino quis sair correndo.

— Já estávamos indo embora, Báh – mentiu Yuri.

— Estávamos? Cara, a gente chegou não faz nem quinze minutos – confessou Josh. Yuri não sabia onde enfiar a cara depois daquela bola fora.

— Porra, Yuri... Tu tá dando um de ligeiro pra cima da gente?

Bárbara não mediu as palavras. Como não teve escapatórias, o oriental se dirigiu à mesa dos amigos. Benjamin arregalou os olhos quando viu certo alguém cumprimentá-los à distância.

— O que fazem perambulando por aí? – perguntou Arthur.

— A gente veio comprar uma caixa de luvas cirúrgicas pra anatomia – respondeu Joshua.

— Porra, tu nem contou para gente como está sendo a primeira semana na faculdade, calourinho – confessou Báh.

Yuri olhou para Joshua e riu maliciosamente. Benjamin não sabia para quem olhar.

— Foi um tesão... tipo eu tava com muito medo no começo da semana, só que agora já me sinto parceiro dos veteranos e do pessoal da minha sala.

— Qual foi o apelido que ele recebeu, Yuri? – perguntou Ben, para poder trocar algumas palavras com o oriental.

O japonês não acreditava que teria que responder. Respirou fundo e contou até três, e disse com um pouco de impaciência:

— Como o apelido de Precoce já era bem manjado, o pessoal escolheu Dente de Leite.

— Caralho, não posso crer! – berrou Báh, pondo as mãos na boca para rir, e Arthur batendo na superfície da mesa.

Benjamin sorriu para Yuri, que baixou a cabeça com indiferença.

— Guris, estão chamando a nossa senha. Ben deixa que eu e o Thur pegamos o seu lanche pra você. E os dois não vão querer comer nada?

— Ah, eu quero – respondeu Joshua, pegando seu cartão de crédito dentro da bolsa. – Estou morrendo de fome depois de uma tarde estudando embriologia. Tu não vem, Yuri, pedir alguma coisa para comer?

— Não, Josh. Eu comi um sandubão na lanchonete do HU.

Benjamin e Yuri ficaram a sós na mesa, enquanto os outros se distanciaram. O japa sentia um nó se formar na sua garganta, tamanho o nervosismo. Para ele era difícil continuar afastado do outro, só que desta vez, não se tornaria redutível de forma alguma.

— Yuri, eu sei que deve estar furioso comigo pelo o que fiz, mas será que podemos ser adultos o suficiente e marcarmos um encontro a sós para conversarmos em outro lugar?

— Cara, não tenho nada para conversar contigo. Já te disse naquele dia que não quero mais ser o seu amigo e nem chegar perto de você.

Benjamin segurou na mão do amigo por cima da mesa, que com violência refutou aquele gesto, afastando suas mãos.

O menino de olhos verdes deixou o queixo cair. Não queria acreditar que Yuri estava se comportando como um completo idiota.

— Yuri, por favor... por favor, me perdoe. Eu sou a mesma pessoa de sempre. Aquele que cresceu ao teu lado e que sempre fez todas as coisas contigo. Acho que mereço apenas uma chance para conversarmos.

— Para que, Ben? Para termos a mesma conversa das outras vezes? Já me cansei disso tudo e me cansei de você.

A conversa dos dois foi interrompida quando Arthur e Bárbara voltaram à mesa.

— Benzinho, o seu lanche parece estar uma delícia – comentou a ruiva.

— Pode ficar com ele, eu perdi a fome.

Affs, Benjamin. Trate de comer isso agora mesmo. Até agora pouco estava com muita água na boca – vociferou a menina, olhando com raiva para os dois meninos, havia sacado que novamente estavam brigados.

Para a infelicidade do Yuri, Joshua, que estava de carona com ele e que morava no norte da ilha, uma praia para lá donde Benjamin morava, convidou o menino de olhos verdes para se juntar a eles no carro e evitar que a Báh ou o Arthur se movesse até lá para levá-lo.

Ben aceitou sem pensar duas vezes.

Durante o trajeto, parecia que apenas Joshua e Yuri eram velhos amigos, enquanto o menino de olhos verdes, um completo estranho.

— É amanhã por um acaso, japa, que a tua turma não terá aulas nas duas primeiras grades? – indagou Joshua quando o carro estava perto do condomínio do Ben.

— Sim, é amanhã. Só que acho que vou ir à BU para estudar fisiologia, já que teremos uma prova na segunda e outra na quarta dessa mesma merda.

— Deixa de ser tão nerd, cara. Terá o fim de semana inteiro para estudar. Durma até mais tarde e depois almoce com a galera no RU.

Benjamin agradeceu a carona e entrou no condomínio. Os seus pais já estavam dormindo, exceto Miguel, que assistia à televisão.

— E aí, seu mané... tava puteando com o japonês?

— Rá... rá... rá... tão engraçado! Que está fazendo acordado as quinze pras onze da noite? Não tem aula amanhã?

Miguel se sentou perto do ombro do sofá, acendendo o abajur na mesinha do seu lado, como se esperasse a chegada do irmão para conversarem.

— Ter eu até tenho, mas estou sem cabeça alguma para ir à UFSC amanhã cedo. Quero te contar uma coisa, mas preciso que guarde segredo de todo mundo, principalmente dos nossos pais. Ok? Posso confiar em tu?

Ben arregalou os olhos, nunca viu o seu irmão querendo se abrir com ele. Só que o menino se aproximou quando Miguel começou a chorar inesperadamente.

— Benjamin, a Paula está grávida...

— Quê?

— É isso mesmo, eu serei pai com vinte e três anos. Estou fodido demais e nem estamos mais tão juntos assim depois desse baque.

O menino de olhos verdes levou as suas mãos até a boca, atônito, e sem saber como lidar direito com a situação.

— Por isso que vocês estavam discutindo naquele dia que cheguei de repente?

— Exatamente naquele dia, ela estava me contando que sua menstruação estava atrasada há dias. Contudo a Paula fez um exame de sangue na segunda-feira e o resultado saiu hoje à tarde, confirmando a nossa suspeita de gravidez.

Benjamin abraçou o irmão, afagando sua nuca. Sabia que a doutora Marisa não aceitaria aquilo de uma maneira tão simples. O seu pai provavelmente iria dar uns tapas na sua testa e abraçá-lo em seguida.

— Alguém mais já sabe?

— Não. Só ela, eu e, agora, tu.

— E vocês vão fazer o pré-natal com a nossa mãe? – Benjamin não aguentou e começou a se matar de rir.

— Vá se foder. Ela não pode saber disso – comentou o irmão.

— Pode contar com o meu sigilo, mas só que não adianta querer esconder por muito tempo. Os nossos pais vão ficar sabendo de um jeito ou de outro. A nossa mãe odeia segredos, tu sabe bem disso.

— Eles vão querer me matar!

— Eu sei – concordou ele para afogar o seu irmão de uma vez na preocupação.

Yuri não acreditava que estava saindo da cama para atender a campainha às oito e meia da manhã de uma sexta-feira. Isso seria normal se não fosse justamente numa manhã livre da faculdade. Para o seu ódio ser completo, a empregada não trabalhava mais nas sextas e nem nos finais de semanas desde o começo do ano.

— Já vai... – gritou ele do seu quarto como se alguém pudesse ouvi-lo dali. Estava lavando o rosto e tentando escovar rapidamente os dentes, não ia atender alguém com remela nos olhos e com o bafo matinal.

Ele achou que devia ser o eletricista, que viria naquela manhã ou na próxima para consertar o lustre da cozinha. Desceu mesmo vestindo sua camiseta velha de dormir e um calção desgastado de futebol.

Ao olhar através do olho mágico não viu ninguém, pensou que a pessoa já devia ter desistido e ido embora. Então abriu a porta depressa para não ser fuzilado por seus pais quando fosse perguntado se o eletricista apareceu para atender o chamado dos Takashis.

— Tu aqui? – perguntou quando viu o menino de olhos verdes com seu tronco encostado na parede do lado da porta e com as mãos para trás.

Mas é claro, o porteiro nunca deixaria o eletricista, sendo um desconhecido, subir ao apartamento sem pedir autorização aos moradores dali. Já um velho conhecido do porteiro, como o meu melhor amigo, é claro que teria acesso irrestrito ao prédio. Como pude ser tão idiota de abrir a porta?

Benjamin usava um moletom preto da Adidas, uma calça moletom cinza de um tom escuro e um tênis de corrida. O menino saiu tão cedo de casa dizendo aos pais que iria correr alguns quilômetros na praia, mas só correu dois e meio ao longo do calçadão. Não resistiu ao impulso do seu coração e embarcou no primeiro táxi livre que encontrou e foi em direção àquela casa.

— Posso entrar?

Yuri permitiu a sua entrada mesmo a contragosto e fechou a porta.

— Que tu veio fazer aqui em casa?

— Não podia adiar novamente esta conversa, japa. Podemos ir ao seu quarto para conversarmos sem interrupções?

O oriental ficou parado por alguns segundos sem respondê-lo, até que Ben se atreveu subir as escadas. Yuri foi logo atrás, tentando desviar os seus olhos dos glúteos arredondados do amigo, tão bem delineados na calça moletom.

Yuri se sentiu dentro de qualquer quarto, menos do seu. Afinal Benjamin tomou conta do lugar, permaneceu na porta, indicando para onde o japa devia seguir e, em seguida, trancando-os no quarto.

— Só devolverei a chave quando terminarmos de conversar – explicou Ben, guardando a chave dentro do bolso do moletom. – Preciso saber por que não pode me perdoar, se eu também já fiz muita merda antes do que aconteceu aqui e recebi o seu perdão.

O japonês se sentou na ponta da cama, sentindo-se no topo do mundo pela atitude que o amigo tomou para poderem conversar. Aquilo nunca passaria por sua cabeça, conhecendo tão bem o menino de olhos verdes.

— Eu estava confuso, Yuri. Eu não queria aceitar que estou... – ele começou a chorar. – É difícil poder explicar as minhas razões, nada justifica o soco que eu te dei na cara. Me perdoe, japa. Perdoe mais uma vez o seu infeliz amigo que está implorando a sua atenção e o seu perdão. Não estou nem aí se pareço um fracote por insistir.

Benjamin se ajoelhou perto das coxas grossas do amigo, pondo suas mãos sobre os joelhos do outro. Yuri sentiu um tremor abalar o esqueleto dos seus membros superiores. Nunca havia visto seu amigo implorar qualquer coisa de joelhos.

— Não foi aquilo que me magoou mais, Benjamin. Mas, sim, ir a sua casa na segunda-feira e dar de cara com as portas fechadas enquanto implorava para que me atendesse. Só que tu preferiu me ignorar. Eu fiquei arrasado com aquilo e não vou mentir.

— Que absurdo está dizendo? Eu fiquei fora de casa durante aquele dia inteiro. Fui com a minha mãe alugar um apartamento que meu pai conseguiu lá em Blumenau. Cheguei na minha casa só depois das oito da noite, quando recebi o telefonema da Báh avisando sobre a morte do Pedro.

Yuri sentiu uma flecha dolorosa acertar o seu peito. Quer dizer então que havia tomado uma atitude tão precipitada?

— Cara, mas eu te liguei várias vezes no seu celular, e tu também não me atendeu desde o domingo.

— Pode perguntar para a minha mãe, o meu celular ficou perdido dentro do meu carro até esta última quarta-feira. A Bárbara também não conseguiu falar comigo por ele. Nunca iria te ignorar se tivesse ido a minha casa comigo lá dentro. Que tipo de amigo eu seria?

O silêncio pairou por um breve momento no recinto. O ar que entrava na via respiratória do japonês parecia queimá-lo.

— Eu vi a luz do corredor acessa no primeiro andar, Benjamin...

— Na minha casa tem aquele sistema de quando deixamos a luz acessa, ela se apaga depois de poucas horas sem o sensor registrar alguma pessoa no recinto. – A voz do menino de olhos verdes não titubeou. – O manezão do Miguel deve ter ido pra faculdade mais tarde e deixado às luzes acessas.

Yuri não estava acreditando que tomou uma atitude tão enérgica só com base naquilo. Só que qualquer um em seu lugar acreditaria que o Benjamin não queria recebê-lo, afinal até o seu carro estava na garagem. Como poderia presumir que ele teria saído junto com sua mãe?

— Mas isso não importa... O que importa é o que tomei coragem para vir fazer aqui nesta manhã.

— E o que veio fazer aqui? – perguntou Yuri, desejando chorar, tamanho a felicidade que irrompia em seu peito.

O menino de olhos verdes continuava a chorar.

— Eu vim aqui para dizer que não consigo mais viver sem você. Descobri durante a segunda-feira, aquilo que já sabia dentro do meu íntimo e que tinha medo de externar para ti ou para mim mesmo. Eu te amo, Yuri Takashi... Mas não amo apenas como um bom amigo ama o outro. Eu o amo assim como Romeu amava a Julieta. Eu preciso que me ame da mesma forma, porque, caso contrário, não suportaria tanta dor dentro do meu peito. Se dizer que me ama da mesma forma, podemos enfrentar as consequências do nosso amor proibido pela sociedade.

Yuri levantou o rosto do amigo e lhe deu um beijo para silenciar aquelas palavras doces. Os dois ficaram de pé e de frente um para o outro. Os braços do Ben estavam dobrados nas costas do amigo, e uma das mãos do japa estava em contato com os cabelos castanhos do outro e a segunda, pressionava fortemente o quadril magricelo dele contra o seu.

Os dois se beijavam e choravam ao mesmo tempo. O calor começou a tomar conta das suas peles em contato. Os seus lábios se tocavam lentamente, reduzindo o atrito entre eles. Quando pararam de se beijar, permaneceram abraçados na mesma posição e trocando as mesmas carícias com as mãos.

— Eu te amo, Benjamin Belucce. Não sabe o quanto eu te amo... Preciso de ti tanto quanto precisa de mim. Não quero me afastar do seu amor jamais. Por você eu seria capaz de largar tudo, tudo mesmo, só para podermos ser felizes juntos.

— Por que isso teve que acontecer conosco? Por que nunca sequer imaginamos que nos amaríamos desta maneira tão forte?

— Não sei, Ben... Só sei que eu tive a sorte de me apaixonar pelo meu melhor amigo de todos, porque tu és uma pessoa incrível e admirável. Agora, eu não tenho mais medo de aceitar o que sinto por ti.

Benjamin sorriu, repousando sua cabeça sobre o ombro de Yuri. Ele estava feliz por estar ali e por estar ouvindo cada uma das palavras do japonês. Ben tinha medo do que seria deles dali por diante, porém desejava aquilo mais do que tudo.

— Tenho tanto medo de que volte atrás tão de repente...

Pare de pensar nisso! Eu fui um completo idiota naquele dia que acordamos juntos aqui. Me odeio todos os dias por ter dado um soco no seu rosto e fugido tão depressa. Eu simplesmente adorei a noite anterior. Tudo foi tão perfeito. Tu foi muito perfeito.

Yuri estreitou ainda mais o abraço carinhoso.

— Naquele dia quando o Joshua te perguntou sobre a Sabrina, tu respondeu a ele que seu coração pertencia a outra pessoa. É realmente verdade aquilo?

O menino de olhos verdes riu alto, encarando o rosto tão próximo do oriental, depois, roçou seus lábios na pele do maxilar do amigo.

— Não era só verdade como ainda é. E não te disse o melhor: o dono do meu coração é você...

Yuri começou a beijá-lo novamente. Não era um beijo forte como um selvagem, era mais para um beijo de amor tão desejado e reprimido há tanto tempo por duas pessoas que se amam demais.

— E mais uma coisa, Yuri Takashi, eu não vou mais me arrepender e nem vou mais fugir de ti ou do nosso amor. Eu realmente me cansei de fingir que não te amo e que não te desejo a todo momento. Sei bem que é disso que preciso; estar perto da pessoa que eu amo.

Os dois novamente se apertaram em um forte abraço.

Notas finais
E aí, o que achou do desabafo do nosso menino de olhos verdes? *---* Eles são muito lindos mesmo. Tomara que de agora por diante possam assumir o amor de forma verdadeira.