Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.
8 Capítulo oito - Por que tu me deixa tão assim?
Notas iniciais
– Já sei o que podemos fazer. Vamos jogar uma peladinha perto da piscina – sugeriu Benjamin, percebendo que aquilo havia soado um pouco estranho. – Quero dizer, vamos jogar futebol...
Yuri deu uma risada maliciosa e depois desviou os olhos para a janela, de onde dava para ver um pedaço da piscina.
– Não vim com roupas adequadas para uma peladinha.
– É só tirar sua camiseta e daí te empresto um calção qualquer. A não ser que vá sair depois daqui com sua namorada.
– De novo com esta história de namorada? Quem foi a boca aberta que lhe disse isso? Não me diga que foi um dos nossos amigos. Foi?
– Isso faz diferença? Queria esconder de mim por um acaso?
O japa franziu a testa e repousou sobre a mesa o pedaço de torta que estava se preparando para comer.
– Bem capaz, mas...
– Foi o Miguel que me contou. Na verdade, sua nova namorada é prima da Paula e já enviou uma foto de vocês juntos pra ela.
– Caralho, sério mesmo?
– Quem mais me contaria sobre isso. Você?
Yuri pareceu envergonhado e acabou por passar uma mão sobre a testa e os seus cabelos lisos.
– Ben... eu... eu não tô levando isso muito a sério. Ela me intimou na festa para ficarmos e aceitei. Depois na hora que fui atrás de você, ela me pediu em namoro... só que não aceitei, ou melhor, não respondi nada. Apenas lhe dei um selinho e caí fora da festa.
– Pelo jeito isso foi suficiente para ela entender que estão namorando e espalhar isso para todos. Pode crer que já deve ter atualizado seu perfil no Facebook e Instagram.
– Você viu alguma coisa?
– Mané, tu sabe que não tenho Face.
– Na real, nem eu, desativei o meu perfil para fugir da família da minha ex.
Benjamin se lembrou do caso e começou a rir. Seu amigo foi ameaçado de levar uma surra do pai e das irmãs da garota porque deu um fora nela durante a festa de Réveillon de 2015 na empresa do pai do japa.
– Rir das desgraças dos outros é muito bom, né, Ben? – O japa deu um chute por debaixo da mesa na coxa do outro, que por acidente escapuliu e acertou os testículos dele.
– Caralho! – gritou o de cabelo castanho, se jogando para trás na cadeira.
– Foi mal. Foi mal. Que droga. A gente não está com sorte hoje – suplicou Yuri, se levantando e indo socorrer o amigo. O outro estava pressionando suas bolas com a mão para tentar aliviar a dor enquanto o japa abraçava seu amigo pelo pescoço.
Benjamin sentiu sua orelha direita e seu rosto em contato com os gomos do abdômen do amigo, sentindo uma irresistível vontade de beijá-lo bem na região, mas como um impulso afastou a cabeça e ficou de pé.
– Pode ficar de boas, eu não vou partir dessa vez. – E riu.
Porra, eu não estou bem... estou sentindo tesão pelo meu amigo. Tesão por um HOMEM? Droga, eu acho que estou virando um viado. Meu caralho! Tô fodido! Beijar a barriga de um homem já é demais, seu filho da puta.
O dono da casa se afastou do amigo, tentando esconder o volume em destaque dentro do seu calção maleável. Benjamin olhou para a própria projeção do seu pau ali embaixo e abriu a geladeira para beber água gelada direto da jarra de vidro na esperança de que aquilo acalmasse seu amigão.
– Tudo bem com você, Ben? Já passou a dor no saco?
– Cala a boca seu puto! – xingou, dando risada. Não tirou seus olhos de cima do amigo, do outro lado do balcão central da cozinha. Percebeu que o japa também tentava esconder um volume em ascensão dentro das calças e novamente seu pênis voltou a pulsar. – Eu acho que...
– Acha o quê?
– Urgh! Hmmm... Que não estou muito legal nestes últimos dias. Acho que estou enlouquecendo, sei lá. Não sei nem explicar bem o motivo.
– Benjamin, tu está perfeitamente normal. Eu acho pelo menos. Tu não parece mal ou sei lá, enlouquecido.
Ele queria poder explicar aquilo em alto e bom som, só que tinha prometido para si depois da festa de ontem que não deixaria mais nada ficar entre a amizade dos dois. E se abrisse a boca, não conseguiria expor de uma maneira sutil e clara o que lhe perturbava.
– Acho que estou sob muita pressão dos vestibulares e dos meus pais – mentiu, tentando se convencer daquilo.
– Não fica assim, mano. Passei por isso também e olha só como estou de boas agora. Sobrevivi ao meu primeiro semestre da faculdade. Quero poder te ajudar neste semestre final. Quero muito ser seu guia.
– Guia? – E riu daquilo. – Tu quer ser o meu guia igual ao mestre Yoda?
– Quem sabe um guia mais foda?
– Quem sabe mais humilde? – retrucou voltando a se aproximar do amigo. Seu pênis já voltara à posição normal. – Falar do mestre Yoda me deu uma vontade de assistir ao Star Wars. Tá a fim de vê-lo comigo?
– Bora lá!
Quando já era perto das 21:30, os dois sentiram fome e pausaram o segundo filme que já estavam assistindo, Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban, para pensar no que iriam comer.
– Que tal uma pizza?
– Não curto as pizzas daqui do norte – confessou Benjamin, encarando o amigo na penumbra parcial da sala. – E as pizzarias lá do centro não viriam tão longe só por causa de uma pizza.
– E se nós fossemos até lá para pegar a pizza?
– Andar quase 22 quilômetros só para pegar uma pizza e depois voltar para cá é muito empenho para a minha preguiça de fim de semana.
– Vamos pedir alguma comida destes restaurantes de frutos do mar.
– Não sei... Não tô a fim de comer comida.
– Porra, Ben, tu também não ajuda – disse aparentemente irritado e depois riu.
Benjamin parou por um instante e começou a olhar para o teto, pensando o que poderiam fazer para resolver aquilo.
– Eureca! Já sei o que podemos comer. – O outro franziu a testa, atento. Se perguntando de onde seu amigo retirou aquela expressão. – Só que isso exigirá um pouco de você... Na real, só exigirá esforço de você e meu apoio moral.
O japa quase pegou o ganho para fazer uma piadinha com conotação sexual, mas se refreou para evitar um climão chato depois.
– Pipoca. – Yuri só pôde rir. – Tu tá rindo por quê?
– Eu falando de um monte de coisas extravagantes aqui e tu me pede pipoca? – Ele voltou a rir, irritando o de cabelo castanho.
– Vai se foder então! Vamos passar fome juntos.
– Calma, Benzinho...
Depois que soltou aquilo, o japa percebeu que aquilo pegou muito mal. Benzinho? Que o dono da casa iria achar daquilo? Contudo Benjamin nem deu importância para o que ouviu.
– Tu me ajuda a fazer a pipoca?
– Japa, tu sabe que eu sou um desastre na cozinha. Pipoca boa é só a tua e a da minha avó. Mas fico aqui no sofá torcendo para não pôr fogo na cozinha da minha mãe e na casa do meu pai.
Os dois riram. Benjamin fez uma carinha de anjinho e ficou de joelhos no sofá, se virando na direção do amigo. Ben estava deitado junto a um dos braços do sofá enquanto Yuri se sentava do lado oposto com os pés apoiado na mesinha de centro.
– Beije meus pés e eu faço – brincou Yuri, se levantando no mesmo tempo em que Benjamin se preparava para fazer aquilo na zoeira. – Tô brincando, seu puto. Faço a pipoca, mas se queimar alguma panela, eu direi a sua mãe que foi as tuas loucuras.
Ele assentiu se lançando de costas no sofá enquanto Yuri se dirigia à cozinha. Do lugar onde Benjamin repousou a cabeça dava para ver perfeitamente a mesa em que comeram mais cedo e o fogão no balcão de centro. Yuri nem percebeu que os olhos verdes de seu amigo permaneceram o tempo todo em suas costas. O japa tinha tirado sua jaqueta de couro, agora sua camiseta delineava perfeitamente a sua cintura esculpida pela natação e malhação.
Quando ele estava voltando para a sala, Benjamin desviou os olhos para a direção contrária. Yuri jogou algumas pipocas no rosto do amigo para provocá-lo, assustando o menino.
– Dona Marisaaaaa! Olhe só o japa engordurando seu sofá – brincou Ben, mastigando os grãos que caíram em seu peito.
– Caralho, me esqueci disso. –Yuri riu em seguida. – Senta aí para comer, não quero ter que salvar ninguém de morrer engasgado.
– Um semestre na faculdade já te dá a capacidade de salvar vidas, mané?
– E quem precisa de faculdade para dar uma pancada bem dada no diafragma de alguém?
Benjamin se sentou, rindo, sem perceber que o amigo estava se achegando mais perto dele para dividirem a bacia com a pipoca. As suas coxas e quadris quase se beijaram, mas o dono da casa se afastou alguns dedos. Apertaram o play e voltaram a assistir ao filme.
– Já percebeu o quanto a Hermione ficou linda e gostosa enquanto crescia?
– Tu quer dizer a Emma Watson, certo, Ben? – O outro riu sarcasticamente, dando um soco no peito do amigo.
– Que seja. Tu me entendeu, japa do caralho.
– A tendência de uma criança é sempre ficar mais bonita enquanto cresce. Só que a Emma não faz o meu tipo.
– Não é bem assim não. O Frederico só ficou mais feio e cheio de espinhas na cara.
Os dois se olharam e voltaram a rir. Yuri se esqueceu de pôr a mão na boca e acabou sujando o braço do amigo com pipoca enquanto ria.
– Que nojo seu puto – berrou Benjamin, agarrando a barra da camiseta do amigo e usando o tecido para se limpar. Yuri instintivamente agarrou o braço do outro para refreá-lo, aquilo fez com que sentisse o mesmo impulso de agarrá-lo e beijá-lo, mas se controlou, mesmo assim, aproveitou para provocar Benjamin:
– Tu já trocou saliva comigo e não foi tão nojento assim.
Benjamin se soltou e recuou mais alguns centímetros, sentindo o coração acelerar. Tinha medo de que o japa lhe agarrasse e os dois compartilhassem novamente de um momento tão íntimo. Yuri observou a reação do amigo e emendou:
– E olha que trocamos bem mais do que dois segundos de saliva.
– A) foi a pior loucura que já fizemos juntos. B) tu não tinha comida mastigada dentro da boca.
– Isso não me impede de escovar...
O telefone do Yuri tocou naquele exato momento. O toque do seu telefone era Titanium, de David Guetta e Sia. Benjamin viu seu amigo se levantar e ir em direção ao píer da casa para atender o telefone. Perguntava-se o que Yuri ia dizer no segundo em que foi interrompido pela ligação.
Alô! (pausa) Tudo sim e tu? (pausa mais demorada) Não sei. Já tava indo para cama (mentiu, pausa mais curta) Vou outro dia contigo. Hoje não tô a fim mesmo. (pausa longuíssima) Quem mais vai? (pausa curta) Vou ver se meu amigo quer ir. (quase nem foi uma pausa) Aquele que está querendo entrar na UFSC. (pausa) Tá legal! Beijos. (E desligou).
Benjamin disfarçou, não queria que o amigo percebesse que tinha ouvido a conversa toda. Yuri se aproximou um pouco envergonhado e se sentou na poltrona, que ficava de lado para o sofá onde Benjamin estava.
– A Bruna me ligou e me convidou para ir com ela e com um pessoal da facul na Fields agora de noite. Tu quer ir junto?
– Por que tu continua a chamá-la de Bruna? Diga: minha namorada. E não, não tô a fim de sair hoje. Quero ficar de boas aqui com a minha ressaca da noite passada.
– Então vou ligar para ela e dizer que também não vou. – Yuri quis ser companheiro o bastante para não deixar o Ben, porém, no fundo queria curtir uma balada com a turma toda.
– Japa, tu tá louco? Sei que quer ir com eles, pode ir então. Não ficarei de cara contigo. É a tua namorada que está te chamando, eu posso entender. Vou pra cama mais cedo.
Yuri flexionou o tronco para frente, colocando os cotovelos sobre as coxas. Depois pegou o celular do bolso e começou a mexer na tela, procurando o número da morena.
– Que tu tá fazendo, japa? Não liga pra ela, sério. Pode ir à Fields, porra! Não precisa ficar preso a mim ou à ressaca do seu amigo. Vá se divertir. O nosso programa está muito chato mesmo. Pra que ficar em casa vendo filmes se pode sair e pegar uma gata como a tua morena?
– Não disse que estava chato. Estávamos de boas até agora e tu já tá ficando arisco, pô.
Benjamin desviou os olhos para o filme, que continuava passando no Blu-ray. O japa se levantou e deu alguns passos na direção do amigo e estendeu sua mão para um aperto de mãos.
– Tem certeza que tu não quer vir com a gente? – Yuri insistiu outra vez, sem querer ser chato.
– Sim, porra. Tu vai ir direto daqui? – Benjamin quis se mostrar menos chateado do que realmente ficou com a troca.
– Não, vou pra casa, quero tomar outro banho e trocar de roupa. Essa aqui já deve estar cheirando suor e gordura. Então vou indo nessa, Ben. Não queria te deixar sozinho aqui, mas...
– Mas já disse que vou dormir. Vá logo antes que a tua namorada te ligue de volta. Não é bom começar um namoro já brigando, e ela tem cara de muito ciumenta.
O japa sorriu sem graça, colocando o balde com o resto da pipoca sobre a mesinha de centro antes que o amigo acabasse derrubando-o no sofá branco da mãe.
– Tá a fim de fazer alguma coisa amanhã de tarde? Quem sabe uma praia com os nossos amigos de sempre? – perguntou Benjamin, levantando para acompanhar o outro até a garagem.
Yuri pareceu pensar antes de responder. Benjamin estava na porta e o amigo no primeiro degrau a caminho do lugar onde os carros estavam estacionados.
– Acho que pode ser... mas precisa ser depois do almoço porque a minha tia de Londrina vai almoçar lá em casa com o novo marido dela.
– De boas, então, japa. Veja que coma de uma vez esta sua namorada para ver se vale o investimento. – Benjamin riu com uma cara de safado, daquelas que o outro adorava ver.
– Pode crer, Ben. Te amo malandro – afirmou, abraçando o amigo em seguida. Pensava que Benjamin iria fugir a qualquer momento, só que ao invés disso, prolongou o contato.
– Te amo japa. Te cuida.
Benjamin viu o carro do amigo subir a rua interna do condomínio e depois desaparecer ao sair pelo portão. Ficou chateado por ter sido trocado, só que como não quis ir junto não poderia reclamar. Fechou a porta, desligou a televisão e subiu para o quarto. Ficou se encarando no espelho do banheiro e explicando para si mesmo que os amigos também sentem ciúmes uns dos outros. Não havia motivos para se martirizar só porque estava sentindo ciúmes do Yuri com sua nova namorada.
É isso, vou arrumar uma namorada. Preciso amadurecer e assumir um relacionamento sério. Acho que podia viajar para a casa da minha avó em Joinville nestas férias e sair com gente bonita de lá.
Depois de urinar, apagou a luz do quarto e se deitou na cama. Antes de cair no sono, decidiu se masturbar vendo vídeos pornôs de algumas garotas lésbicas. Sentiu um tesão do caralho em ver as duas se lambuzando com a língua e depois uma delas usando um supositório para estimular a vagina da outra.
Ele não era destes garotos de ficar vendo pornô para se aliviar, mas precisa constatar que ainda sentia atrações por vaginas frente a tudo que vinha acontecendo entre ele e seu amigo de infância. Benjamin teve outra ideia, escreveu no Google: pornô gay, e apertou o enter em seguida.
Ficou apavorado com a lista de sites que surgiu diante dos seus olhos e quase chutou o notebook quando viu o primeiro vídeo de penetração de um homem com o outro.
Caralho, eu tenho certeza que não curto essa porra não, graças aos céus. Nunca mais vou procurar uma merda dessas na internet.
Saiu imediatamente do site e apagou o histórico do navegador. Foi até o banheiro para se limpar da gozada que deu assistindo ao vídeo lésbico e depois foi dormir. Sentindo asco por ter chegado ao ponto de fazer aquela pesquisa na internet.
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