Sem clichê, por favor.
1 Capítulo 1- Vestidos amarelos são clichês.
Capítulo 1- Vestidos amarelos são clichês.
Morto. Posso assim dizer.
Estou completamente morto.
O que custa respirar, se não há vida?! Isso! É uma perda de tempo respirar e não viver. Respiro, mas não vivo, não saio para curti, não gosto de conhecer novas pessoas. As únicas coisas que gosto é meu café amargo- totalmente sem açúcar-, meu cachorro e escrever.
Apesar de gostar de escrever, odeio o que escrevo. Irrito-me com que escrevo, mas as pessoas- uma ou duas- gostam, compram e pedem autógrafos. Não sei como isso acontece. Sempre espero que não surja uma única pessoa para poder comprar as minhas obras.
E a culpa é de quem?
Minha. A culpa é toda minha.
Estou nessa situação frustrante porque aos 16 anos- ótima idade, por sinal- decidi parar com estudos, não agüentava mais o Ensino Médio. Depois que parei de estudar, virei o que as pessoas chamam de vagabundo. Dormir e comer, dormir e comer, dormir e comer. Obviamente, meus pais ficaram raivosos a me ver daquela forma. Burro, sem estudos e sem uma única perspectiva de vida- mas o meu irmão, para eles, é e sempre foi o filho perfeito, formado em Psicologia e anda apenas com roupas de grife, além de ser muito bonito. E quanto a mim?! Sou o filho mais velho que não deveria existir.
Bem, como já estava cansado de ser só "comer e dormir"- o que é irônico, já que ninguém se cansa por comer e dormir- Decidi fazer um blog para poder me distrair um pouco. Como sempre gostava de escrever, sempre escrevia as minhas histórias. Passaram-se exatamente dois anos, quando recebi uma ligação de uma Editora a qual se mostrou interessada no meu insignificante trabalho e queria publicá-lo.
Imediatamente, aceitei. Afinal eu já tinha 18 anos e era um vagabundo que continuava morando na casa dos meus pais- além disso, não suportava mais minha mãe me comparando com meu irmão, falando o quão ele era brilhante.
Nessa aceitação, o meu primeiro livro foi publicado. Eu estava feliz — tinha até mesmo, raspado a minha barba. Ganhei dinheiro e foi o suficiente para mudar-me para um kitnet alugado. E estou nele até hoje, porém não estou mais feliz.
Felicidade...
Faz tempo que não sinto isso.
Atualmente, sou um cara ranzinza e solitário. As pessoas não gostam muito de mim, afinal como elas dizem: “Esse cara é mal-encarado!”. Bem, o que elas querem?! Querem que eu saía pela rua com todo essas coisas acontecendo no mundo, sorrindo como se nada estivesse acontecendo?! Além disso, não sorrio a tanto tempo que me esqueci como se faz. Ah... E minha clássica ironia, as pessoas a odeiam.
Meus pais têm apenas olhos para meu irmão, dês que mudei não os vejo. E meu irmão... Bem, acho que ele é a única pessoa que me ama verdadeiramente. Mesmo depois de tudo, todos os dias, ele vem me visitar para saber se ainda não cometi um suicídio. Não o culpo por ser tão perfeitinho. A minha vida é uma merda, porque fiz com que ela fosse assim.
E quanto aos amores?! E quanto às paixões?!
Bom, nunca amei ninguém. Tive paixões, mas não foram duradouras. Fora que, as mulheres acabam por desistir de mim alegando que sou antipático e insensível. Não as culpo. Se eu fosse uma mulher e namorasse um cara com eu, terminaria imediatamente qualquer relacionamento que tivesse e viajaria para longe.
Inclusive, isso aconteceu comigo. Minha ex viajou para Europa e nunca mais ouvir falar dela. Deve estar com um europeu rico, bonito, romântico e sensível. Coisas que não sou.
Não sou rico, nem tão bonito e nem um pouco romântico ou sensível.
O fato é que ser desse modo é clichê. E odeio clichês.
Sempre a mesma coisa.
Apaixonam-se, casam, tem filhos e vivem em harmonia até o resto de suas vidas. Muito perfeitinho. Muito clichê.
E a vida não é assim. Não é isto.
Se a vida fosse dessa forma, viveria. E eu não vivo, apenas respiro.
Ding Dong
Vou mudar o som desta campainha, está começando a ficar repetitiva demais.
Levantei-me preguiçosamente do sofá. Com certeza, é meu irmão. Não existe outra pessoa no mundo que venha me visitar.
Abri a porta- sem, ao menos, olhar pelo olho mágico- e me deparei com uma mulher. O que me surpreendeu.
-Tem açúcar?
Ok, essa mulher recebeu uma péssima educação. Afinal, ela poderia- ao menos- falar um “por favor?!”
-Não.
Se a educação dela é ruim, a minha é pior.
Ela olhou-me duvidosa e- inesperadamente -me empurrou e adentrou a meu kitnet.
Ótimo. Uma louca.
-Argh... Existe uma coisa chamada “higiene”. Você deveria tê-la!
Falou olhando ao redor com uma cara de nojo. Bufei.
-Ah... Mrs. Intrometida, existe uma coisa chamada “educação”. Você, com certeza, deveria tê-la.
-Muito engraçadinho! Onde está o açúcar?
-No supermercado.
Falei rispidamente e ela encarou-me com uma grande carranca.
-É assim que recebe os novos vizinhos?
-É assim que se pede açúcar?
-Não me responda com outra pergunta!
-Droga... Pedir açúcar é tão clichê. E suas roupas são tão clichês!
-O que diabo tem de errado com minhas roupas?! – questionou ofendida:
-Vestidinho amarelo... Clichê demais.
-Ora, seu...
-Rô?
Vi meu irmão na porta, olhando extremamente confuso, pois havia uma mulher dentro da minha “casa” e ela estava com uma carranca de quem iria matar alguém.
-Humpf... Idiota!
A morena saiu a passos pesados e longos, empurrando meu irmão e saindo pelo corredor.
É... Ela gosta de empurrar.
-Quem era?
Perguntou meu irmão.
-Ninguém. Apenas uma louca.
Ele riu pelo nariz e entrou.
Passamos o resto da tarde conversando sobre nossas vidas. Ele, obviamente, contando mais sobre a dele. E eu apenas, o escutando.
***
Continua...
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