“Deus, por favor, olhe por todos nós. Você nos amaldiçoou?”

Eu não sei se é dia ou noite. Se está calor ou frio... Mas eu estou aqui de novo, no quartinho escuro ao lado da cozinha. Posso ouvir meu pai, ou o que um dia foi um, gritando palavras sem sentido e minha mãe... minha mãe chorava novamente. Ele havia a agredido mais uma vez. Isso vem acontecendo a um bom tempo. Mesmo quando minha mãe engravidou do meu irmãozinho ele não se conteve. Ele continuou pelos nove meses de gravidez da minha mãe e por causa disso quando ela voltou do hospital sem nenhum bebê a situação piorou muito, tanto pra ela quanto pra mim. Foi o começo do fim.

Ela correu novamente para o andar de cima, mais especificamente pro quarto do meio pintado no azul mais claro e bonito que podia existir. Foi sempre depois dessa atitude que meu “inferno particular” começava.

Os passos pesados e cambaleantes dele se aproximavam e mesmo ele ainda estando longe da porta eu podia sentir o cheiro de álcool que ele exalava. Eu me encolhi em um canto, como se eu pudesse me proteger. A porta se abriu clareando meus olhos mais uma vez.

“Então a vadiazinha está aqui?”. Eu queria chorar como uma garotinha, o que eu realmente sou, mas eu não podia dar esse gostinho para ele. Não mais.

Ele me ergueu pelo rosto e beijou meu pescoço insanamente, de uma maneira que eu já sabia o que iria acontecer. Mais uma vez eu sentia o seu hálito quente e seus dentes em minha pele. Segurando todas as minhas lágrimas no momento, não darei o gosto da minha humilhação a ele.

“Tire a roupa”, ele ordenou com sua voz falhada e se afastou um pouco. E eu... Eu continuei parada, estagnada no lugar. Ele sabia que não adiantaria eu gritar pela minha mãe. Eu sabia. Ela não viria. Abri minha boca. Essa seria a chance, mas antes que eu pudesse gritar por socorro sua enorme mão tomou conta de meu pequeno e frágil rosto. Um dor latejante tomou conta de minha cabeça quando ela entrou em contato com a parede do pequeno cômodo, mas eu não gritei. Nem derramei uma lágrima. Escorreguei pela parede até ficar sentada no chão. Não havia mais dor, não havia mais mundo. Pude, mesmo com tudo rodando e confuso, ouvir a porta dos fundos bater. Ele havia partido e eu rezo, rezo pra que seja pra sempre.

Rastejei silenciosamente pelo chão em busca de um sinal dele. O silêncio reinara mostrando que ele realmente tinha ido. As lágrimas, então, caíram silenciosamente. Por que tudo, no fim, se resumiria a isso? O que nós havíamos feito pra passar por tudo isso?

Juntei forças e levantei, chorar não resolveria a situação. Subi as escadas e parei na porta do quarto que seria do meu irmãozinho. Lá estava a minha mãe, na cadeira de balanço segurando um boneco. Ela sussurrava freneticamente “Vai ficar tudo bem” pra ele. Ele a havia enlouquecido. Minha vontade é de abraçá-la, mas eu sei que não faria diferença. Fiquei ali um bom tempo, observando ela. Tudo ficou tão diferente, tão vazio, tão... frio. Rumei pra ao meu quarto a fim de ter uma idéia que pudesse dar um fim nessa infelicidade. Em poucos minutos ela veio como um relâmpago clareando o céu escuro. Seria o fim de tudo. Passei pelo quarto e pude ouvir a doce melodia de uma caixinha de música. Entrei e vi minha mãe cantarolando junto com a caixinha.

“Ele é tão bonitinho dormindo. Venha vê-lo”, Ela sorria docemente. Meu coração apertou, dando mais certeza a minha idéia.

“Mãe... É um boneco”, disse olhando pro berço. “É só um boneco idiota”, sussurrei correndo pra cozinha.

***

Meu coração sairia pela boca a qualquer momento diante daquilo tudo. As lagrimas ainda caiam. Minha mãe estava lá sentada no chão, chorando.

“Mãe...”, eu a chamei a fazendo olhar pra mim. “Era só um boneco”

“Eu quero o meu bebê. Eu quero...”. Ela chorava muito, muito.

“Mãe... Eu sei como... Eu sei como”

Ela olhou pra mim implorando uma resposta. A resposta que seria dada. Apertei o cabo da faca e segui o meu objetivo... Eu terminaria hoje o sofrimento dela.


Pressionei a lâmina em seu pescoço. Ela olhou pra mim e sorriu. Era a liberdade. Sangue. E lá estava ela no chão com o seu “colar vermelho” vertendo, brilhando.

Voltei para o meu “esconderijo”, o quartinho escuro. Sentei no chão e olhei a lâmina ensangüentada... Era tudo culpa dele. Ele matou o meu irmãozinho. Ele matou a minha mãe e ele me matou também. Estiquei meus braços e mirei a ponta da arma o mais preciso que eu poderia mirar e então-

“A vida é apenas um fardo, carregue o seu...”

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