Sem Querer
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Para Mione
28 de Outubro de 2019
Universidade de Hogwarts
Mione,
Eu nunca fui muito bom com palavras e você, mais do que ninguém, sabe disso porque é você quem corrige nossos textos, aliás, muito obrigada. Mas não é por isso que eu estou escrevendo...
Tô escrevendo essa carta (???) durante sua apresentação de Fonética e Fonologia, o momento em que eu percebi o quão insuportável a vida vem se tornando sem que eu possa dizer como eu me sinto. E eu sinto muito, sinto tanto que às vezes sufoca e sufoca mais ainda ter que esconder de tudo e de todos, de guardar a sete chaves todos os sentimentos bons que eu tenho por você.
Eu queria ter coragem de dizer, de olhar nos seus olhos cor de mel e dizer sem medo que eu te amo... Amo não apenas como amigos e acho que te amo desde o primeiro momento em que nos vimos e brigamos, quando discordei da sua resposta logo durante nossa primeiríssima aula na universidade. Nunca tínhamos nos visto, mas saiba Mione que eu te vi e te vejo todos os dias, desde então até hoje, sem suportar a ideia de continuar apenas te vendo. Sem poder te tocar da forma que eu queria e demonstrar verdadeiramente tudo o que eu sinto. É... eu tô apaixonado por você e você nunca nem assistiu Senhor dos Anéis.
Por isso resolvi escrever essa carta Mione, tem sido difícil ser somente seu amigo, eu precisava desabafar. Talvez eu devesse apenas me afastar, talvez seja melhor...
Com amor,
Ronald.
Minhas mãos tremem em meio a minha tentativa vã de manter a compostura. Foi preciso reler aquela carta no mínimo mais cinco vezes antes de aceitar que meu amigo, meu melhor amigo, Ronald Weasley a havia escrito. Não porque duvido de suas capacidades, só havia tanta emoção naquelas palavras e Ron sempre foi uma pessoa que relutava em demonstrar seus sentimentos, assim como uma colher de chá. Nós estávamos constantemente brigando sobre isso (e tantas outras coisas), eu não tinha medo de dizer que amava meus amigos e ele... bem, apenas tinha outras formas de demonstrar carinho.
Suspiro enquanto limpo algumas lágrimas que teimavam em escorrer de meus olhos. De repente a biblioteca da universidade parece pequena demais para o turbilhão dentro de mim.
Será que é verdade?
Ron possui um histórico de pregar peças nos amigos e... ele nunca fez nada realmente contra mim, sabe muito bem que eu não gosto muito, mas ainda... parece uma grande pegadinha. Ele também sabe muito bem que eu corrijo seus textos e alguns exercícios, sempre teve muita confiança em me entregar seus pertences... então por que ele escreveria isso no caderno sabendo que eu tenho livre acesso ao objeto??
Ele não faria isso se não quisesse que eu olhasse, não é? A não ser que tivesse esquecido, é claro, algo bem possível.
E a data... 2019, um pouco mais de um ano atrás... Minha mente não para de matutar. Incrivelmente me lembro do dia em questão, mais do que eu gostaria de admitir. Ele não estava prestando atenção a minha apresentação e sim ocupado escrevendo algo no caderno, situação que eu não deixei de notar. Mais tarde me pediu um resumo para ajudar na prova, justamente sobre a matéria que eu apresentara mais cedo, me deixando profundamente chateada. Não nos falamos por alguns dias, mais precisamente até Ron ceder e se desculpar.
Acho que agora eu sei o que ele tanto escrevia...
Mais lágrimas caem se unindo às primeiras, enquanto eu respiro fundo e tomo uma decisão. De minha mochila pego meu próprio caderno e começo a escrever.
Os minutos correm formando uma hora completa, quase perco a noção do tempo perdida em meus pensamentos, pois há tanto a se dizer, tanto entalado em minha garganta através dos anos que as palavras parecem não ser suficientes para me expressar.
Mas era isso, não era? Alguém tinha que dar esse primeiro passo, um grande salto para o desconhecido, para longe de minha zona de conforto.
Além do mais, eu jamais seria capaz de sustentar seu olhar outra vez sem dizer que eu sabia.
Jogo meu material de qualquer jeito na mochila sabendo que me arrependerei mais tarde e ando apressada pelos corredores da universidade, esbarrando em alguns conhecidos, acenando para outros sem realmente saber quem são. Mas tudo bem.
Chego ao jardim central e ele já está lá, na mesma árvore em que passamos os últimos anos nos reunindo com os amigos que fizemos. Ron abre um largo sorriso ao me ver e então me pergunto: como não percebi antes?
— Oi, Mione! – ele abre os braços pronto para me receber com seu típico abraço ao qual eu hesito e mantenho distância.
— Oi, Ron. Aqui seu caderno. – eu entrego o objeto ainda mantendo distância e de repente me sinto insegura, único sentimento que me impede de abrir a torneira de sentimentos e despejar tudo em suas costas.
— Tá tudo bem? – ele se aproxima cuidadosamente e eu permito. — Você esteve chorando? Alguém te fez chorar?
Eu nego.
Inesperadamente essa não parece a melhor ideia que eu já tive, mas como eu poderia fingir que nada tinha acontecido. Então me ocorre que havia uma vida antes e depois de eu ler aquela carta, não tinha volta.
— Você mentiria para mim, Ron? – pergunto e ele franze a testa confuso. — Mentiria para me magoar?
— Não, claro que não. – ele responde rápido demais. — Eu gosto de você, nós somos amigos.
Eu assinto em concordância, mas não deixo de notar que ele hesita ao dizer que somos amigos.
— Por que todas essas perguntas hoje?
Respiro fundo e tomo mais uma decisão. É agora ou nunca.
— Abre a primeira página do seu caderno.
Ele franze a testa mais uma vez e seus olhos azuis se estreitam ao ver o papel dobrado que há pouco pertencia ao meu próprio caderno.
— O que é isso?
— Leia.
E assim ele o faz.
Para Ronald
15 de dezembro de 2020
Universidade de Hogwarts
Ronald,
Eu acho que é uma grande mentira quando você me diz que não é bom com as palavras, pois você costumar diz a coisa certa nos momentos certos e isso é algo que eu admiro em você, embora não diga com muita frequência. Também acho que a questão não é ser bom ou ruim com as palavras e sim conseguir expressá-las e utilizá-las. Por exemplo, fiquei encarando essa folha durante um tempinho até decidir o que escrever e cheguei à conclusão de que não há outra forma de dizer isso senão simples e diretamente: eu também te amo e eu sei que já te disse isso várias vezes porque não tenho problemas em dizê-lo, mas desta vez eu confesso outro sentimento que demorei mais tempo que você para perceber. Te amo desde a primeira vez que você me fez rir, semanas após nossa primeiríssima aula na universidade, durante uma aula de Oficina de Texto.
Acho que agora entendo um pouco mais tudo o que passamos, entendo porque você se irritava mais do que eu com algumas situações em festas, porque você não entendia quando eu não queria nada com caras que se aproximavam de mim e entendo principalmente sua antipatia por Viktor. Entendo porque é assim que eu me sentia com alguns dos seus interesses amorosos, pra não dizer outra coisa – não vamos falar novamente sobre Lavender Brown, por favor.
A verdade é que eu não queria nenhum deles porque nenhum deles era você. Eu queria você e na minha cabeça eu tinha certeza de que você jamais me quis além de uma boa amizade – e ajuda de graça com os trabalhos, claro.
Eu queria ter tido coragem e houve tantas oportunidades, mas nenhuma delas parecia certa. Te escrevo esta carta (???) na esperança de que não seja muito tarde para, quem sabe, tentar algo.
Com amor,
Mione
P.S.: Espero que isso não seja uma pegadinha Ronald Bilius Weasley, e caso não seja eu estou disposta a assistir Senhor dos Anéis contigo... pelo menos o primeiro filme, amanhã depois da prova de Italiano 3, que tal?
Acompanhei com os olhos todas as mudanças de expressão de Ron, da surpresa e incredulidade ao riso e às lágrimas, assim como eu. Meus olhos estavam certamente ensopados, mas resisti bravamente.
Nunca quis tanto saber o que se passava dentro daquela cabecinha!!!
Ron levantou os olhos da carta e parecia incerto sobre o que deveria fazer.
— Há quanto tempo você sabe? – sua voz era apenas um fiozinho.
— Eu achei hoje, sem querer, a carta que você escreveu. – o encarei seriamente nos olhos, tentando decifrar o que ele estava sentindo. – Juro que foi sem querer, mas também achei uma feliz coincidência e agora você está me olhando desse jeito, o que me faz questionar, mais uma vez, se isso foi ou não uma boa ideia.
Ron encara o chão e balança e cabeça, o silêncio nos abraça, embora muitos estudantes estejam andando e conversando ao nosso redor.
— Eu esqueci que isso estava nesse caderno.
— Percebi, foi um dos meus palpites. – sorrio fracamente tentando encorajá-lo e a mim mesma, de certa forma.
— Não era pra você ter lido, não desse jeito pelo menos.
— Mas eu li...
— Mas você leu. – ele volta a me encarar. — E... eu não sei nem o que te dizer.
Eu nunca tinha o visto assim, tão vulnerável, às bochechas vermelhas como um pimentão. Na hora pareceu tão certo agir desta forma, uma carta resposta era óbvia. Só que agora, em frente a Ron, eu não tenho mais tanta certeza.
Quem sabe ele até já superou...
Mas eu precisava tentar, dizer que eu sentia o mesmo. Seria impossível viver guardando isso após o que eu li.
— Faz assim, responde a minha proposta e depois você pensa no que dizer. – eu aponto para a carta.
Ron tornou a ler o trecho que escrevi às pressas enquanto um sorriso de lado brindou seu rosto, um dos muitos que eu adorava e alívio percorre o meu corpo.
Talvez tenha sido uma boa ideia, afinal.
— Eu vou pensar no seu caso. – ele debocha, outro riso, dessa vez um de convencimento, nasce em seus lábios.
— Ridículo. – soco seu braço levemente, da mesma forma que faço desde que nos conhecemos.
Ofereço minha mão a qual ele aceita de bom grado.
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P.S.: Depois da prova de Italiano 3 eu dormi nos primeiros trinta minutos de filme.
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