Semântica
17 Sarpar
Notas iniciais
— Não — seus fios de cabelo bagunçavam-se mais a cada balanço de cabeça. — Eu NÃO acredito.
— A vida não é justa, meu bem. — apesar da voz embargada pela bebida amarga, meu sorriso traía a minha falsa cena de desgosto. Você também virava o líquido garganta abaixo, ainda olhando-me incrédulo.
E por alguns longos segundos, o barulho do ventilador pareceu ser a única coisa que podíamos registrar, além um do outro.
Olhei para meu celular, desligado, por um momento, ponderando se valia a pena ligá-lo novamente. Ser inundada pelas mensagens sem resposta e as ligações perdidas. Estaria eu pronta pra encarar o mundo real, de novo?
— Mas você nunca quis fazer ou-
— É óbvio que eu quis. Muitas vezes. — deitado sobre o carpete macio, você me fitava por entre seus dedos — que tampavam a luz fria do apartamento da melhor forma que podiam. — Mas querer não é poder.
E eu pude ouvir você exalar ar pelo nariz, numa risada descrente.
— Você sempre faz isso. — seus olhos sobre mim eram suaves, apesar da repreensão.
Observando o navio sarpar ao longe, eu suspirei e religuei o aparelho.
— Você deveria experimentar fazer coisas que você quer, para variar.
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