Seleção Artificial.
2 Capítulo 2.
Enquanto todas aquelas luzes piscavam e me distraiam, eu nem percebi a enorme agulha se aproximando do meu pescoço. Tive que me segurar para não soltar um grito ou gemido de dor, já que aquela agulha era a maior que eu já havia visto na vida. Depois da agulhada ainda ficamos atrás do biombo por cerca de cinco minutos até que a enfermeira entregasse uma muda de roupa limpa para cada um dos dois. Eram roupas que todos costumavam usar nos hospitais quando ficávamos internados, tirando que eram de seda e provavelmente custavam os olhos da cara.
Quando Alisson terminou de ser examinada e estava apropriadamente vestida, as assistentes nos levaram para uma pequena sala no fim do corredor. Algumas outras pessoas estavam lá, acompanhadas de suas assistentes. Todos eram diferentes, mas todos tinham a mesma expressão assustada no rosto.
As leis sobre ter filhos são rígidas. Você pode ter até dois filhos, mas deve ter diferença de cinco anos ou mais entre o nascimento de cada uma das crianças, exceto se elas forem gêmeas. Se a diferença não for respeitada você deve pagar uma grande multa anual até que a criança complete 16 anos. O mesmo acontece para terceiros filhos não planejados. De certa forma eu fui comprado e meus pais ainda pagam as parcelas.
Assim que entramos na sala e nos sentamos nas confortáveis poltronas de couro o tempo parou. Os minutos que pareciam ser dias se arrastavam levemente no relógio digital que me foi dado junto com as roupas novas. Levei a mão até o bolso da calça verde piscina nova e peguei a moeda que havia sido presente de Genocide Fox, que por algum motivo eu não conseguia mais chamar de irmã.
– Foi ela, não foi? – Perguntei para Shannon que organizava todas as suas planilhas e anotações em um pequeno aparelho digital. – Genocide Fox arrancou o seu olho.
– Não diretamente. – Shannon respondeu séria e tão baixo que apenas eu podia ouvir. – Lutei na Ascenção das Raposas ao lado de Kitty. Eu era a líder dos Lagartos na época. Tanto as Raposas quanto os Lagartos são dois clãs que você não pode acreditar totalmente. Nós seriamos dizimados como os Leões, então eu dei o meu olho para sua irmã como forma de mostrar minha lealdade.
– Por que você fez isso? – Perguntei assustado com a história.
– Era o meu olho ou minha vida. – Ela disse séria.
Encarei a mulher que quando mais jovem devia ser muito mais bonita do que é hoje. Pensei como ela era quando tinha um par de olhos verdes e não um verde e outro cinzento com uma câmera por trás.
– Quer um conselho? – Ela perguntou ainda mantendo sua atenção no pequeno aparelho.
– Claro.
– Não diga que é irmão da Genocide Fox até ter certeza de que está perante a um líder das Raposas. – Ela comentou.
– Como eu acho um dos líderes das raposas?
– Você não os acha, eles te acham.
A porta se abriu e mais um grupo formado por duas garotas e um garoto surgiu na sala, mas não haviam três assistentes e sim quatro. Nenhum dos participantes ou assistentes se sentou. Uma das assistentes, a que estava sobrando, anunciou em alto e bom tom.
– Está na hora de vocês conhecerem o nosso centro de preparação. – Sua voz era doce e calma. – Eu sou Helena, sua guia de grupo. As assistentes estão liberadas por hora.
Helena era loira, seu cabelo estava preso em um coque, então não tinha como eu saber se ele era cortado tão certo como o de Shannon. As duas eram realmente muito parecidas, como se fossem irmãs. Helena parecia ser alguns anos mais velha que Shannon.
A guia do grupo fez sinal para que fossemos com ela novamente para dentro do elevador. Erámos treze no total, doze participantes e Helena. Ninguém arriscou dizer nenhuma palavra até chegarmos ao ultimo andar, onde uma enorme enfermaria ficava. Essa era dez vezes maior do que a primeira.
– Aqui vocês serão vacinados, lavados e submetidos a um teste para vermos como o seu chip está reagindo. – Helena anunciou. – Cada um de vocês terá uma equipe de preparação, já conhecem sua Assistente, agora vão conhecer a sua enfermeira e logo conhecerão seu tutor. Então quando eu chamar seu nome se dirija para a cabine correspondente ao seu número.
Fui o sétimo a ser chamado, logo me dirigi até a cabine que possuía um enorme e brilhante número 7 na porta. Bati duas vezes antes de entrar. A cabine era maior do que parecia, havia uma maca, alguns aparelhos e uma ducha moderna.
– Olá, eu sou Naomi e serei a sua enfermeira. – Uma mulher disse.
Ela usava o mesmo uniforme preto que os guardas, diferente da enfermeira Ceceli, então era impossível ver seu rosto ou qualquer parte do corpo. Por muitas vezes me perguntei se os guardas eram realmente humanos.
– Dorian. – Me apresentei.
Assim que me deitei na maca Naomi ligou dois transmissores em minhas têmporas. Ela não disse nada, apenas pegou algumas seringas contendo líquidos de diferentes cores em uma gaveta refrigerada.
– Antes de aplicar as vacinas tenho que ver se o seu chip está funcionado direito. – Ela disse verificando as seringas. – Isso pode ser incomodo.
Eu não tive tempo de dizer nada. A sensação que podia ser incomoda com toda certeza era incomoda. Meu coração estava acelerado, minhas mãos suavam e minha cabeça girava. Isso sem falar na náusea. Não sei por quanto tempo aquilo durou, mas parecia ser uma eternidade.
– Seu chip está ativado e funcionando perfeitamente. – A voz de Naomi estava distorcida e eu quase não consegui entender o que ela disse, mas consegui sentir um estranho formigamento no braço mais de uma vez. – E suas vacinas já foram aplicadas, seu braço esquerdo pode ficar um pouco dolorido, mas não é nada grave. Agora tome um banho, você vai encontrar roupas nos armários inferiores.
Resolvi fazer o que Naomi mandou, tomei a ducha mais rápida da minha vida e fui em busca de roupas nos pequenos armários da cabine. Dezenas de calças jeans e jaquetas camufladas estavam empilhadas separando por tamanho e sexo. Achei pares de tênis que caíram perfeitamente em meus pés. Peguei a moeda de Genocide Fox no bolso da calça verde piscina que a enfermeira Ceceli me deu.
***
– Muito bem, muito bem. – Helena tentou reunir todos sentados na enorme sala de multimídia do andar inferior. – Vocês vão assistir a um pequeno vídeo e depois eu vou dar as instruções e responder suas perguntas.
O vídeo foi uma longa apresentação do programa, provavelmente a mesma propaganda que eles passavam no décimo quinto ano, um ano antes de o Programa ter seu inicio. Em meio às várias frases de impacto que eles usavam várias vezes o Chanceler L dizia sobre “Apenas os fortes prevalecem” ou “Isso é a nossa Seleção Natural para o melhor do futuro da nação”. Enquanto o Chanceler L. continuava suas frases que com o passar dos anos se tornaram clichês, várias imagens da guerra passavam.
– Cada um dos testes é um grande desafio para qualquer um. — A imagem do Chanceler L. apareceu. — O primeiro dos testes acontecerá na sua cidade equivalente do Antigo Mundo. A maioria dessas cidades fica no subsolo e vocês terão que enfrentar seus próprios desafios como falta de luz natural, comida e água escassa, o desafio de viver em uma sociedade sem líder fixo e é claro, uns aos outros.
O vídeo acabou e as luzes foram acesas novamente.
– Alguma dúvida? – Helena perguntou.
– Por que ele não falou dos clãs? – Alguém perguntou.
– Porque os clãs foram criados pelos primeiros participantes do programa. – Helena explicou. – Os clãs já geraram muitas mortes, não foi o nosso planejamento, tudo seria feito individualmente, mas acabou que uma sociedade surgiu.
– Como conseguiremos não morrer de fome?
– De duas em duas semanas um carregamento com coisas básicas é entregue. – Helena disse sorrindo. – Mas cuidado, pois muitas vezes é um grande banho de sangue, já que nem todos conseguem pegar algo. Geralmente as facções levam tudo e os menos capazes ficam sem nada.
Depois de responder mais alguma pergunta sem muita importância, Helena passou as explicações finais.
– Amanhã, quando o sol aqui em cima nascer vocês estarão lá em baixo. – Ela disse. – A partir do momento em que os portões se abrirem vocês definitivamente estão no programa. Vou dar uma dica, como ex-participante. Corram o mais rápido que vocês puderem para longe dos portões, algumas pessoas que já vão estar loucas da fome vão tentar roubar seus kits de primeiras semanas, ou até mesmo comer vocês, já tivemos um ou dois casos de canibalismo.
Essa ultima informação acabou me deixando ainda mais assustado e pela primeira vez com vontade de chorar.
– Tenham um ótimo resto de tarde, se alimentem direito e descansem. – A voz de Helena estava um pouco mais animada do que devia. – Vocês serão enviados para o elevador principal às cinco.
Fale com o autor