Selene • Spin-of
2 Capítulo 01 - O rapaz
Notas iniciais
Selene sentia o corpo a toda velocidade, a adrenalina de sair de uma prova exaustiva a tinha consumido. Precisava desesperadamente de café e bolo. Gostas de chuva salpicavam por toda a calça jeans escura e a morena agradeceu por não estar de short, bem que Fernanda havia lhe avisado sobre o tempo.
Mães tinham aquele tipo de poder estranho sobre o tempo e pela primeira vez Selene resolveu a ouvir. O fato de que o pai a interceptou no corredor com uma calça jeans e um guarda-chuva não tinha nada a ver com o fato de ela as ter decidido usar.
Selene entrou pousando o guarda-chuva cor-de-rosa no balde destinado a isso logo na entrada, o cheiro de pão fresco a invadiu e uma sensação de conforto a dominou por completo. Ela definitivamente não devia se sentir tão feliz entrando num local como aquele, passou a ter uma certa aversão por cafés, lanchonetes, restaurantes, bistrôs e padarias… depois de ter trabalhado em todos esses locais.
O que mais a incomodava era o quanto os trabalhadores nesses tipos de lugares suportavam para ganharem um mísero salário mínimo, seu cérebro a repreendeu na hora.
“As vezes nem isso”
O corpo pequeno de Selene se encolhia cada vez mais e mais dentro do casaco grosso de lã artificial, normalmente ela se sentia bem aquecida dentro deles, mas naquele dia a blusa fininha que usava por baixo deixava o ar invernal passar pelos furos da lã.
Uma brisa gelada a acompanhou quando abriu as portas de vidro do estabelecimento, algumas boas cabeças que desfrutavam do calor interno se viraram em sua direção. A dele não foi uma dessas. Parado estava e parado ficou quando ela se aproximou.
A touca cinza cheia de respingos de chuva e a coluna curvada eram o que mais chamavam atenção no rapaz. Selene o estudou pelos poucos segundos que demorou a chegar até o balcão. A roupa do rapaz estava quase que completamente tomada pela água, ele provavelmente havia pego a pior parte do temporal.
Selene percebeu, ao se sentar na banqueta ao lado do rapaz, que ele brincava com uma pequenina caixa azul. Pequena o suficiente para ser transportada no bolso de uma calça.
O pensamento cortou sua mente.
“Até caberia no meu, se essas calças skinns viessem com bolos”
Os olhos da morena quase reviraram, ela conteve o movimento. Poderia soar rude.
Uma pequena xícara azul estava pousada na frente do rapaz, a fumaça do líquido semi transparente subindo e formando uma nuvem quase densa em volta do rosto baixo do rapaz.
Selene ouviu quando o atendente pigarrou baixinho, uma forma sutil de fazê-la encará-lo. Ela conhecia o truque.
— O que gostaria? — Os olhos castanhos profundos do atendente transpareciam bondade e leveza. Ele não parecia alguém tão cansado de estar onde estava.
Um pequeno bloquinho com comandas descansava em uma de suas mãos, acompanhado de uma caneta bic azul na outra.
— Vocês trabalham com tortas? — Selene sorriu, tentando parecer o mais simpática que conseguisse. — Não consegui ler nos cartazes lá fora, a chuva está uma loucura.
Por alguns segundos Selene se perguntou se havia soado gentil o suficiente, já havia tido dias arruinados pela grosseria de um cliente, não gostaria de arruinar o dia de ninguém.
O garoto da touca cinza olhou de canto, as írises pareciam infinitas. A imensidão do preto quase tomando seu olhar por completo. Selene sentiu quando calafrios percorreram todo seu corpo, parecia que uma eletricidade estranha pulsava entre eles.
Seus pelos se arrepiaram por baixo da lã.
— Felizmente sim — o atendente piscou, as bochechas coradas por uma nova rajada de vento gelado —, mas receio que só temos dois tipo hoje.
O olhar parecia um pouco envergonhado.
— O chefe ainda está aprimorando as receitas — o rapaz sorriu novamente, dessa vez para alguém atrás de si. Uma olhadela rápida e o padeiro acenava por uma pequena janelinha.
Selene encarou a janela um pouco boquiaberta, era a primeira vez que via o padeiro a trabalhar. Ela sorriu.
— Quais os sabores… Victor — ela leu o crachá em seu uniforme e o viu sorrir. Provavelmente o primeiro pedido gentil que havia recebido naquele dia.
— Temos limão com raspas em cima e morango com geleia e gelatina — ele enumerou após se abaixar rapidamente para observar as tortas no mostruário.
— Eu adoraria um pedaço da de morango, por favor — Selene remexeu no bolso da calça atrás de dinheiro. — Um cappuccino pra acompanhar seria in-crí-vel!
— Claro.
O atendente acenou com a cabeça e puxou o apoio da torta do balcão, o cheiro de morango rapidamente inundou as narinas de Selene. O cheiro estava impossivelmente bom e a saliva começou a se acumular nos lábios da morena.
Um pouco segundo e com muita agilidade Selene já tinha um pequeno pirex com torta em cima. Assim que guardou a torta no mostruário novamente Victor se virou para a máquina de café. Aparentemente estava sozinho naquele setor da padaria, mas fora o rapaz de touca ao lado Selene não conseguia enxergar mais ninguém interessado em afogar as mágoas ou acalmar o coração em doce.
Em algum momento entre a primeira garfada o celular de Selene começou a vibrar no bolso de sua calça, ela revirou os olhos instintivamente. Sabia bem que estava ligando, mas não se sentia nenhum pouco compelida a atender o telefonema.
Quando Victor colocou o copo gigante de cappuccino na bancada, o celular continuava a tocar. Selene encarou o bolo, somente algumas garfadas comido e deu outra garfada generosa. A língua saboreando cada pedaço de morango e geleia e gelatina.
O celular continuava a tocar, o habitual e padrão toque ecoando por toda a padaria. Por alguns instantes Selene se perguntou se devia desligar, talvez estivesse incomodando as outras pessoas, mas não tinha certeza se queria ouvir o sermão sobre ter desligado.
Ela continuou a ignorar o chamado.
Quando o celular parou, o silêncio reinou, mas apenas alguns segundos depois foi roubado pelo toque, que parecia ainda mais insistente. Selene pousou o celular na bancada e apertou o botão de desligar a tela. O silêncio voltou.
E então ela percebeu que o rapaz ao seu lado a encarava, os olhos escuros rodeados por olheiras fundas e escuras. Havia a sombra de um rastro de lágrimas, deu para perceber quando ele virou o rosto, a iluminação parecia diferente por onde as lágrimas haviam corrido.
— Devia atender, pode ser importante — o rapaz falou, a voz mais grave do que Selene havia imaginado.
Ela piscou por algumas vezes seguidas, ainda incrédula com o fato de que inconscientemente havia imaginado como seria a voz do estranho ao seu lado. Ela piscou mais algumas vezes.
— Não é importante.
— Se liga eu creio que deva ser importante — ele direcionou o olhar a tela acesa que exibia a chamada.
Querido ♥ aparecia na tela, o emoji transformado em um coração vermelho.
— Não é importante.
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