Segunda Chance

9 Treino dos Clubes Esportivos - Quinto Dia


KARIN POV

O..o.. que eu faço?

Espere, nada de pânico. Ainda tenho o moletom. Melhor do que roupa nenhuma. Fiz um teste primeiro. Me enxuguei com a toalha e vesti o agasalho colocando em seguida os óculos. Com o estojo nas mãos, mordi o lábio ao olhar para baixo. Droga... Mesmo sendo do meu irmão a bainha chegava a poucos centímetros abaixo da virilha. Se eu levantar os braços vão ver tudo.

Pra completar, sentia um friozinho lá embaixo a cada corrente de ar.

Aquele voyeur... Ele é o pior. Seja quem for é o pior! Vai me pagar com juros amanhã ou não me chamo Kurosaki Karin.

— Ficou sabendo? Amanhã teremos um jogo pela parte da tarde.

Enrijeci de susto. Perto do vestuário ficava a entrada e escutei passos se aproximando.

— Mesmo? Achei que os alunos da Karakura apenas ficariam treinando.

— Não sei ao certo, mas parece que é um amistoso ou algo assim com uma escola de outra cidade.

Um jogo? Não estou sabendo de nada disso. Me aproximei da entrada o máximo que podia sem ser descoberta.

— Qual a escola?

— Kyounan.

Pisquei impressionada. Eles sempre se destacam nos campeonatos.

— Sugoi. Eles ficaram entre os quatro melhores no interhight. Amanhã vou faltar o trabalho.

Comentando animados, os homens se afastaram mais das termas até que não pude ouvir mais nada. Interessante. Será que foi Arisawa-sensei que organizou esse jogo-treino? Mas ele não ligou avisando pra mim nesses últimos dias. Bem, de qualquer modo, pensaria nisso amanhã. Tinha um problema mais urgente. Guardando o estojo no bolso do moletom, calcei os chinelos na entrada e levantei a cortina cor – de – rosa dando uma boa olhada aqui fora.

Os prédios encobertos nas sombras, ninguém escondido nelas paquerando e no primeiro ginásio a mesma coisa. Ótimo. Era a minha chance. Saí dali apressada, espiando em volta ao subir os degraus da passarela de madeira. Aqui era perigoso, antes que alguém me visse corri atravessando-a, me arrepiando com o vento soprando mais forte. Era o que me faltava, só poderia chover agora pra completar minha sorte.

Ao chegar na entrada da pousada, prendi o folego. Ouvi vozes. De garotas! Rápido me escondi nas sombras, me agachando atrás nuns arbustos antes que as meninas irrompessem do corredor. Meu coração batia a mil.

— Fala sério. Acha mesmo que rolou?

— B..bom, eles chegaram atrasados e juntos...

— Não tem nada haver. E daí que dormiram no mesmo quarto?

Nani? Espiei quem eram apenas para ter certeza. Uma ruiva seguia adiante entrando na passarela de madeira, carregando numa vasilha produtos de higiene. Atrás dela estava uma de longos cabelos castanhos. Pela expressão tímida lembrei das confidentes do outro dia. A última era Miyura. A cabelo de alga afagava as costas da segunda num gesto de consolo.

— Yumi tem razão, Rena. Ontem ele nem deu bola pra Ayame. Você ainda tem chance.

— Viu? Estou certa. Aquela garota não é uma ameaça. Até porque, reta que nem uma tábua, Kurosaki não despertaria os instintos do Hitsugaya-kun nem que estivesse nua, bem na frente dele.

Me entalei com os risinhos. Essas cobras... Estremecendo de frio e de raiva assisti essas garotas sumirem ao cruzarem a passarela. Bem seguindo até a piscina termal. Bufei enfadada.

— Eu não sou reta, idiotas.

Mas também meu sutiã não era tamanho G. Amuada e irritada, não sei bem qual dos dois era o maior, levantei dos arbustos só quando tive certeza que não vinha ninguém e entrei no prédio. Agora teria que ser igual a um ninja. Rápida, silenciosa e invisível. No meio desse corredor ficava a passagem para as termas dos rapazes. Meu pulso acelerou.

Engolindo em seco, andei apressada sem fazer barulho segurando até mesmo o fôlego. Vigiava nervosa a passagem até cruzá-la e respirei de alivio. Estava alcançando a entrada para área de serviço – a rota mais próxima para os dormitórios – quando ouvi um barulho de passos. Entrei em pânico. Olhei ao redor, desesperada por uma saída até que vi uma porta. Corri até ela apavorada... me esquecendo dos chinelos.

Tropecei antes que alcançasse a porta caindo estabanada no piso de madeira. Foi um baque e tanto. Um dos chinelos saiu do pé, meu cabelo se soltou do coque improvisado e partes do meu corpo latejavam da queda. Por um milagre não quebrei os óculos.

— Itai...

Sentei ajeitando-o no rosto. Acho que bati feio o cotovelo. Foi quando me dei conta. A pessoa que vinha do corredor! Com o coração na boca, levantei ligeiro e alcancei a porta puxando afobada. Só abri uma fresta e me esgueirei por ela, quase arfando ao fecha-la depois. Segundos depois, ouvi os passos chegarem perto e pus a mão no peito. Meu coração parecia que sairia pra fora do peito.

Que perigo... Por pouco não me viram! Por um momento, tive um vislumbre da cena e morri de vergonha e horror. Jogada ali no chão, com o moletom fora de lugar mostrando tudo. Obrigada, Deus. Por não me fazer pagar tamanho ridículo. Atenta com os sons do lado de fora, fiquei pertinho da porta evitando até suspirar. Pelo conjunto de passos, era apenas uma pessoa. Não deixei uma brecha que seja quando entrei nesse armário – somente agora que olhei envolta. Esperei um tempinho, uns vinte minutos acho, para abrir bem devagar a porta.

Olhei a esquina do corredor temerosa e engoli em seco. Os rapazes deviam estar curtindo o banho termal, iam demorar. Tirei o chinelo que sobrou segurando-o na mão. Não correria esse risco de novo. Saí dali fechando a porta no máximo de cuidado e recuando cautelosa.

Yosh. Era a minha chance.

Dei meia volta pronta pra correr...

... Dando de cara com alguém!

Fiquei dura de susto, parada no meio do passo e entalada de pânico. Empalideci quando notei quem era a pessoa.

Com os cabelos molhados e uma toalha pequena envolta do pescoço, Toushirou segurava o outro par do meu chinelo. Parecia que prendia o fôlego me olhando boquiaberto. Quer dizer... Não exatamente pra mim. Seus olhos estavam grudados nas minhas pernas. De pálida fiquei vermelha igual à tomate, estremecendo ao sentir uma histeria subindo dentro de mim.

Não aguentei vê-lo ali, parado sem reação e ainda com um olhar estranho me arrepiando inteira. Segurando com a mão livre a bainha do moletom para baixo, atirei o chinelo morta de vergonha na sua cara.

— O que você tá olhando, baka?!

Foi como se o tirasse do transe. Toushirou piscou espantado e desviou, se esquivando pro lado. Que ódio. Com a força, o chinelo voou pra longe e ouvimos depois um gemido seguido de um baque. Olhei pra fonte do barulho junto com Toushirou e vi horrorizada um funcionário da pousada desmaiado no chão. O calçado estava bem do lado dele.

Só pode ser brincadeira. Como consegui nocautear um cara com um chinelo?!

— Ei, você ouviu isso?

— Pareceu a voz de uma garota.

Pulei de susto. Essa não, essa não, essa não!!! Olhei sobre o ombro apavorada, escutando passos se aproximando. O que vou fazer? Presa nesse pânico, me espantei quando agarraram meu pulso. Arquejei, voltando o rosto para frente em tempo de Toushirou me puxar arrastando para longe. Correndo comigo, ele dobrou uma esquina e na primeira porta que achou, abriu me puxando para dentro e fechou a mesma. Pra completar me encostou nela se debruçando em mim.

Meu coração só faltou sair pela boca. Perto demais, perto demais!

— O...o que você t..tá fazendo?

— Shssss.

Kyah!!! O sibilo foi pertinho da minha orelha! Meu rosto rendeu tão quente nessa proximidade que quase não escutei. No instante seguinte, vozes irromperam no corredor junto com um tropel de passos. Pulei de susto, agarrando sem querer a camisa branca dele, dando uma espiada em volta. Agora entendi por que mesmo nesse escuro conseguia ver a cor da roupa dele. Tinha uma janela, do tamanho de uma vidraça na parede ao lado. Mesmo com as luzes apagadas dessa sala, as lâmpadas no corredor iluminavam brevemente aqui dentro. Se chegassem perto da janela iriam ver. Por isso ele se debruçou em mim, pra me esconder.

— Ei, alguém ajude aqui!

— O que aconteceu?!

— Arima está jogado no meio do corredor! Alguém bateu na sua cabeça com muita força!

Apertei os olhos, tremendo de vergonha. As pessoas, os funcionários da pousada pelo visto, foram correndo ajudar o coitado. Eu queria cavar um buraco e me enterrar. Como pode uma coisa dessas estar acontecendo comigo?! Era algum castigo?! O que foi que fiz pra merecer uma situação dessas? Com o cessar do barulho, Toushirou suspirou sossegado.

— Parece que já foram embora.

Preferi ficar calada. Se afastando um pouco de mim, ele me encarou estreitando os olhos de um jeito reprovador. Não gostei disso.

— Kurosaki, o que deu na sua cabeça?

Arquejei ofendida. Ele queria mesmo discutir comigo, cochichando?

— Olhe aqui. A culpa não é minha.

— Sua...

Ele ia me xingar?! Estreitei o olhar, mais nervosa ainda com seu tom.

— O que? Fala. Do que ia me chamar?

Toushirou se entalou. Agora vi. Eu que devia ficar ofendida aqui, caramba!

— Não comece, Kurosaki. A situação aqui não é essa.

— Ora não? Você estava a ponto de me chamar de um nome vulgar. Admite.

Apertei ainda mais os olhos, acusando-o. Toushirou suspirou derrotado estalando a língua.

— Você é arisca demais, kuso. Iria te chamar de idiota, burra talvez serviria. Não tinha me decidido, feliz?

Pisquei com esse seu ar irritado. Nunca vi esse lado dele antes. Se não visse coisas diria que estava ficando possesso.

— Qual é o seu problema?

— Eu que devia perguntar isso. O que tinha na cabeça para passear desse jeito no prédio? Está praticamente nua.

Como um banho gelado, tive consciência explosiva da minha situação e estremeci irritada retraindo o corpo.

— Eu não tive escolha, baka.

Piscando surpreso, Toushirou perdeu qualquer indicio de raiva. Sua postura ofensiva desarmou. Apoiando a outra mão na porta, perto da minha cabeça me encurralou sem motivo algum. Ao menos pra mim. Seus olhos tinham um ar aturdido, incrédulo.

— Do que me chamou?

O fitei mais confusa e injuriada. O que será que deu nele agora? Esse garoto realmente é esquisito.

— De baka, baka. Até parece que sairia assim de proposito, correndo risco de ser pega no flagra. – desviei o olhar, cheia de vergonha – Que foi exatamente isso que aconteceu. Droga.

Mordi o lábio, me retraindo ainda mais contra a porta. Me sentia tão humilhada e ridícula agora. Eu não precisava que me tratasse como uma criança. Toushirou permaneceu calado e contra vontade, minhas narinas arderam enquanto lágrimas se acumulavam nos meus olhos. Que droga... A conversa daquelas víboras me vinha, aumentando essa sensação patética.

“...Kurosaki não despertaria os instintos do Hitsugaya-kun nem que estivesse nua, bem na frente dele.”

A ironia era tão forte agora que me aumentou minha vontade de chorar. Mas não. Não vou fazer isso. Segurei as lágrimas teimosa, emburrando.

— Quando eu pegar aquele voyeur, ele vai se arrepender de ter nascido.

— O que?

Fungando, voltei o olhar para Toushirou suspirando de raiva. Isso era bom, diminua essa vontade patética de chorar.

— Um pervertido invadiu o banho termal feminino e pegou minhas roupas. Na pressa deixou só meu moletom e os óculos.

— Chegou a ver quem é?

Seu olhar queimou indignado e meio que gostei. Talvez fosse um aliado quando eu der um troco nesse babaca.

— Não, mas ele deve ter um corte ou um machucado na cabeça. Não vai ser difícil encontrar.

Toushirou levantou a sobrancelha.

— Você ter contribuído pra isso, imagino.

— Humpf.

Virei a cara. Aquela pedrada foi é muito pouco. Rindo baixinho de mim, Toushirou suspirou tomando fôlego. Aquela tensão toda entre nós sumiu a essa altura.

— Muito bem, vou te ajudar. Mas primeiro temos que sair daqui.

Continuei calada. Tudo o que mais queria no momento era isso. Observando-o quieta, vi Toushirou desviar o olhar para a vidraça e parecendo relaxar, se afastou de mim.

— Não vem vindo ninguém, vamos.

Apenas assenti. Abrindo a porta, ele me deu passagem e ao fechá-la depois que saiu atrás de mim, segurou minha mão correndo outra vez comigo. O gesto me encabulou, me deixando corada e esperei internamente que não olhasse pra trás. Toushirou parecia que tinha um sexto sentido. Antes que cruzássemos com algum hóspede ou um dos funcionários, ele rapidamente nos escondia nas sombras e depois continuava.

Estávamos indo para os dormitórios pela área de serviço. Havia uma escada de madeira, que dava acesso aos andares onde ficavam os quartos, era um local praticamente deserto. Assim que alcançamos, Toushirou invés de soltar minha mão, me levou lances acima passando justamente do segundo andar. Já iria reclamar quando vi umas garotas saindo os quartos. Engoli em seco e deixei ele me levar até o andar dos garotos.

Quando ele me arrastou até o seu quarto não foi lá grande surpresa. Já imaginava e também era meio lógico. Aonde mais iria me levar? Assim que entramos, suspiramos de alivio e só assim ele largou minha mão. Fiquei um pouco desnorteada com isso. A olhei um pouquinho, pegando nela ainda sentindo o calor, o aperto suave. Toushirou enquanto isso foi até sua mala, abrindo e remexendo nela.

Enrubesci imaginando o porquê.

— Eu não tenho nada do seu tamanho. – Franzindo um pouco o cenho, ele procurou mais um pouco até encontrar – Isso. Aqui, vista por enquanto.

Ainda de costas, ele me jogou uma roupa azul marinho e peguei atrapalhada. Ao esticar na minha frente, se tratava de uma bermuda de tecido leve. Acho que algodão. Olhei para suas costas enquanto vestia ela. Ele fingia arrumar sua mala me dando privacidade. Sentia as bochechas quentes por isso. Baka.

Me dirigi até o futon estendido no meio do tatame, sentando e brincando com meus dedos. Percebendo, Toushirou veio até aqui e sentou do meu lado. Enxugava o cabelo com a toalha me fitando.

— Acho melhor esperar um pouco. Até todos voltarem das termas.

— Unhum. Não achei que as garotas também iriam usar.

— Pois é.

Silêncio. Tão incomodo e desconfortável. Me sentia estranha usando uma roupa dele. Mas foi preciso. Toushirou não ia deixar que continuasse daquele jeito indefinidamente. O silêncio se estendeu entre nós, até que ouvi um suspiro ao meu lado.

— Kurosaki.

— Hai.

Piscando um pouco confuso, ele parecia considerar se perguntaria algo ou não. Era nítido. Tirando a toalha do pescoço, tombou o rosto escondendo os olhos com as mechas do cabelo.

— Esse moletom que vive usando era de um garoto, certo?

Mal acabou de falar e me lançou uma olhada cautelosa através das mechas. Que pergunta esquisita, ainda mais nesse tom. Reservado.

— Bom, era sim.

— É bem velho.

Emburrei ofendida. Já esquecida da estranheza inicial.

— Nem tanto. O design do uniforme só mudou dois anos atrás.

— Então, o dono dele jogava no clube de futebol?

Sorri olhando para o agasalho cinzento com carinho. Era meu companheiro nas horas mais alegres e difíceis. Ainda lembro quando o ganhei.

— Unhum. O centroavante desconhecido que levou a equipe seis vezes ao nacional. Ele me deu como um presente. Significa muito pra mim.

— Eu vejo. Pertencia então ao cara que você gostava?

Me entalei. Levantei a cabeça, o flagrando me fitar tão sério, o olhar frio. Que diabos é isso? Meu rosto rendia tão quente pela pergunta sem cabimento que demorei um pouquinho pra me recompor.

— Q..que? Não é nada disso.

Seu olhar apenas ficou cético.

— Tem uma admiração indisfarçável ao olhar pra essa roupa, não negue.

Pisquei aturdida. Que tom foi esse? Ao mirar bem para seu jeito, percebi que estava incomodado. Bem incomodado para falar a verdade. Mas também tinha uma emoção submersa na forma como me encarava. Parecia... Raiva? Não, não é isso. Tinha um pouco de inveja misturado... Matte. Tive um estalo de compreensão e mesmo assim não acreditei.

Será que o Toushirou estava na verdade com ciúmes do antigo dono do meu moletom?!

Não. Isso é sonhar demais. Teoricamente, pelo ao menos pra ele, a gente se aproximou apenas nos últimos dias. Não tem como ele sentir algo por mim além de amizade. Acho que o papo que tivemos ontem martelava na sua cabeça o dia todo. É... devia ser isso.

Então dado às circunstâncias menti descaradamente.

— Bem, se eu gostasse dele, eu não te diria.

O olhei atravessada e vi que estreitou os olhos mais incomodado. Quis sorrir, mas segurei. Isso estava sendo muito divertido.

— Ele deve estar em alguma faculdade agora. Ainda nutre sentimentos mesmo depois de tanto tempo?

Opa. Pergunta pessoal demais. Pensando longe, comparei ao que sinto por ele mesmo depois de cinco anos e suspirei triste.

— O que posso fazer? Não tem como simplesmente apagar. É mais forte do que eu.

— Pensei que tivesse te magoado.

Quase ri. Ah, se ele soubesse de quem verdadeiramente estamos falando.

— E daí? Isso não significa que vou deixar de gostar dele.

O fitei singela encontrando seu olhar desarmado em surpresa. Realmente. Dizer isso para ele, me fez perceber a verdade nessas palavras. Tanto que sinto meus olhos brilharem. Se... Se nesse instante Toushirou pudesse ver... Enxergar quem eu sou de verdade, continuaria com essa mesma reação?

Sem horror, repulsa ou nenhuma sombra de irritação quando dissesse que ainda gosto dele depois de todo esse tempo. Mas... Desviei o olhar, lembrando do que disse naquele dia. Me feriu demais, principalmente por que as palavras estavam carregadas com todas essas emoções. Era só um sonho bobo.

— Acho que te entendo.

Prendi o fôlego, aturdida. O olhei assombrada e vi que Toushirou também mirava o vazio, pensando longe.

— Como assim?

Graças a Deus, consegui não gaguejar. Hesitando um pouco, ele quase riu com um ar sem graça.

— Deve ter ouvido sobre o que aconteceu entre mim e Hinamori.

Arregalei os olhos. Mas que...?! Eu não acredito nisso! Ele vai me narrar a sacanagem que fizeram naquela festa do Digio?! Eu não mereço isso. Não mereço mesmo.

— Só se falavam disso no primeiro dia.

Suspirando pensativo, Toushirou concentrou seu olhar num ponto ficando tenso. Isso estava me dando nos nervos. Trincava os dentes, respirando fundo, em tentativa vã de me acalmar. Era capaz de enche-lo de bofetadas. Sim... Bem provável que faça isso daqui a pouco.

— Eu nunca bebi tanto como naquele dia. Não estava pensando direito.

— Sei.

Idiota insensível. Cego, cego, cego! Se eu acertasse aquela mesinha na sua cabeça talvez se lembraria de mim? Acho que sim.

— Tive uma briga feia com meu padrinho. Ele me disse umas coisas que realmente me irritaram e... me lembraram dela.

Pisquei confusa.

— Dela?

Respirando fundo, Toushirou me olhou de um jeito cheio de nostalgia. Mas não era de mim. Era dessa pessoa.

— É uma garota. Uma pessoa que conheci faz algum tempo.

Um arrepio me varreu inteira. Encarando meu silêncio como um “continue”, Toushirou retomou a conversa que só agora entendi. Era um desabafo. Ele estava confiando em mim pra dizer isso.

— Eu não sei em que ponto realmente mudou, mas... Quando Hinamori me levou para aquele quarto, eu não lembro de mais nada. No caminho pra cá, descobri que confundi Hinamori com essa garota e fiz o que fiz.

Soltando um longo suspiro, seu tom foi sem humor ao sacudir os cabelos.

— Isso está me deixando louco.

Meu coração martelou sem motivo.

— Como assim? Eu não entendi aonde quer chegar.

Suspirando fundo – percebi que fez muito nos últimos minutos -, Toushirou jogou a cabeça pra trás fechando os olhos.

— Do começo ao fim não parei de dizer o nome dela. “Karin”, “Karin”. E o boato se espalhou de uma maneira que ouvi Ruka e Hikifune comentando, me expondo daquele jeito lá ônibus.

Na..ni?!

Meu pulso cardíaco disparou. Num martelar tão forte que achei que arrebentaria meu peito.

— K..karin?

Abaixando a cabeça, Toushirou fitou o vazio num ar nostálgico.

— Sim. É o nome da minha amiga de infância.

Me encarando, ele gemeu com meu ar chocado interpretando do jeito errado.

— Não me olhe com essa cara, Kurosaki. Não é como se fosse um tipo de fantasia minha ou algo assim.

— E..eu não disse nada, idiota. Quer saber? Se ela soubesse de uma coisa dessas nunca mais olharia na sua cara.

Piscando desolado, ele fitou o vazio.

— Verdade. Tem razão.

Levantei do futon, hiperventilando desnorteada ao me dirigir até a porta.

— Vou dormir. Boa noite.

— Matte, Kurosaki.

O ignorei, abri o shoji e depois fechei nervosa. Cobri a boca com o dorso da mão, praticamente corri cruzando o corredor e depois descendo os lances de escadas. Até o caminho do meu quarto com Unohana-sensei, sentia meu coração martelar forte dentro do meu peito, tirando meu ar. Meu rosto e o pescoço ardiam tão forte em calor, com certeza estava corada igual a uma rosa.

Qual o significado disso? Por que ele...? Sacudi a cabeça. Ah... Droga. E agora? Como vou olhar pra ele depois do que me disse? Eu ainda não acredito nisso. Ele transou com a Hinamori pensando em mim?

O que isso significa? Essa duvida cruel me atormentava dando dor de cabeça.

KARIN POF

No dia seguinte

HITSUGAYA POV

O jogo-treino foi cancelado. Foi a noticia que recebemos durante o almoço após um treino maçante debaixo da chuva. Kiba havia providenciado travas suficientes para todos, evitando que apenas escorregássemos na grama, porem... Sem esse amistoso, não saberia com certeza se estou bom o suficiente para voltar a jogar como um meia-armador. Confesso, quando vi meu número no quadro tático que Kurosaki me mostrou noutro dia, tive aquela mesma desconfiança dela com o acréscimo da irritação.

Era um motivo pessoal. Desde o fundamental, quando fiz meu time perder vergonhosamente, desisti em jogar no meio de campo. Não foi uma boa época pra mim e desde então passei a atuar mais no ataque. Kurosaki realmente me surpreendeu com sua analise do treino naquele dia. Eu nunca vi uma garota saber tanto sobre futebol. E confesso que acho isso atraente nela.

Ela não fingi saber quando discutia algo importante com Kiba ou o técnico. Realmente sabia sobre o esporte e ter uma garota por perto, que não vinha com segundas intenções ao comentar sobre isso era um grande alivio. Falando nisso... Eu não a vejo desde o almoço. Por causa da chuva torrencial e sem previsão, o treino à tarde foi cancelado. Uma grande folga. Zaraki ainda estava estressado pelo “time” ter enchido o quarto de Kurosaki de ratos. Atrapalhar seus momentos com a namorada sempre o deixavam de mau humor. Bem, ao menos ele não teria como nos massacrar agora.

Deitado num banco perto do segundo ginásio, jogava uma bola de fisioterapia contra a quina de uma parede. O quique fazia a bola ir para o chão, depois para a coluna de concreto que sustentava essa varanda e de volta para a minha mão. Fazia isso já tinha um tempo, pensando em ontem. Mais precisamente, na paixão unilateral que Kurosaki sentia pelo tal dono do moletom. Estreitei o olhar, enfadado.

Esse cara fez alguma coisa com ela, afinal, a própria o chamou de canalha naquele dia e ela ainda usa aquela roupa como lembrança. Não vou negar, causava uma sensação de frustração incômoda. Ela ainda nutria um sentimento muito forte por esse cara... E, mesmo querendo não posso interferir. Não somos tão íntimos assim, embora... Bem, nesses últimos dias tenha me passado a impressão que não é preciso.

Apesar das enrascadas em que ela se envolve, não era nada mal bancar o herói. Não faço de proposito, longe disso. Se vejo que precisa de mim, simplesmente a ajudo sem ao menos pensar. Por isso, fiquei irritado e indignado ontem a noite. Ela nua e só com aquele moletom... Foi uma crueldade. A vida social dela estaria acabada se mais alguém a visse daquele jeito, por isso discuti com ela. Eu nem acreditei quando a vi saindo daquele armário, toda cautelosa. Confesso que a ver daquele maneira, mexeu um pouco comigo. Nunca a tinha visto com os cabelos soltos, eram tão compridos. E ainda as pernas dela...

Sacudi a cabeça, voltando a jogar a bola na parede. Se ela soubesse que me imaginei por uns segundos correndo as mãos por elas, Kurosaki me espancaria. Tive certeza quando me atirou aquele chinelo. Ela tem um bocado de força naquele braço delicado.

— Matte, maldito!

O que?

Franzi o cenho, vendo Keita passar por mim como se sua vida dependesse disso e depois Kurosaki atrás dele. Pisquei confuso, indeciso se ria ou não. Brandindo um bastão de beisebol, ela perseguia-o com um ar possesso. Demorei só uns segundos pra entender, vendo os dois entrando nesse ginásio. Keita foi o ladrão. Ele estava em apuros e resolvi fingir que não vi nada. Ela não vai realmente o espancar até a morte.

Ou será que vai?

Grunhi, pegando a bola mais uma vez e me levantei do banco. Kurosaki estava com uma raiva homicida, ela vai mesmo cumprir o que prometeu ontem. Corri até o ginásio, entrando em tempo de ver uma cena que a principio, não entendi direito. Digio, Rikuo e Noitra sorriam. Uma ruiva também participava dessa piada e Hinamori fingia os recriminar mal disfarçando o sorriso.

Não havia sinal de Kurosaki. O bastão estava nas mãos de Rikuo inclusive que fazia piadas de Keita. Sentado ali no chão com o nariz sangrando. Tinha uma coisa muito errada nisso. Foi ao olhar para a piscina, as ondas se espalhando fracas que o choque me golpeou violento. No fundo dela... tinha uma pessoa.

— Eu te disse. Você é um molenga.

— Queria ver se fossem vocês! Nunca que Kurosaki-san agiu assim comigo.

— Ué, depois do que fez ontem... Hitsugaya, o que está fazendo?

Foi a ultima coisa que ouvi antes de arrancar os sapatos e me jogar na piscina.