KARIN POV

Assim que dei um último retoque, me afastei apertando os lábios segurando os risos. Todos estavam com os cílios alongados e pretos pelo rímel. Em Noitra que tinha uma pele pálida, cobri seu rosto com uma base cor de mel. Parecia que tinham coberto sua cara com pasta de argila e tingi bem suavemente sua boca de azul. Os lábios são bem sensíveis, ele bocejou um monte de vezes e pra completar usei uma sombra verde.

Nos dois mais bronzeados, no caso Digio e Rikuo, usei a base translucida. Ficou ridículo, além das caras brancas, pintei um coração nas bocas de cada um. Um no tom de beterraba e outro carmim, tipo um biquinho e isso que me provocava uma vontade tamanha de gargalhar, mas segurei firme. As sombras escolhi uma roxa e azul, mesclando e pintando falha nas pálpebras desses imbecis. Keita foi o sortudo. Deixei a maquiagem dele mais bonitinha e a única com que acertei o tom de pele. Nas bochechas salpiquei um pouco de purpurina misturando ao blush nos demais e quase ri.

Pensei em deixar um recadinho nas testas escrito com o delineador, mas seria desperdício. Então apenas fechei o estojo ajeitando os compartimentos – obrigada Yuzu! – e depois de guardar no bolso do moletom, tirei uma self minha de costas para as “dorminhocas”. Sorri fazendo um sinal de V de vitória com os dedos e em seguida, voltei para o meu lugar. Claro que guardei minhas coisas no máximo de cuidado.

Ao jogar a mala no compartimento tive que dar um impulso e no pulo, sem querer empurrei os seios na cara do Toushirou! Prendi o fôlego, como pode?! Me afastei de imediato com as bochechas rubras, enquanto seus olhos entreabriam sonolentos para mim. Fiquei completamente tensa, afinal ele acordou do cochilo com o choque macio no rosto.

— Kurosaki? O que você...?

— Shsss.

Rápido estiquei um dedo em frente aos meus lábios e franzindo as sobrancelhas, Toushirou me deu espaço quando me acomodei na poltrona. Procurei não pensar no acidente, muito menos na marca de calor impressa onde me choquei nele. Foi sem querer, só isso. Ele nem reparou o que era, a dupla camada de roupa não deixou. Eu não tinha que ficar me preocupando com isso. Não mesmo... Ainda que tenha me confundido e transado com Hinamori.

— O que estava fazendo?

Pestanejei de susto. Seu sussurro foi tão próximo e inesperado que aumentou meu rubor. Precisei de uns segundos para me acalmar e engolindo em seco, passei pra ele meu celular. O display visualizava a última foto que tirei e curioso, Toushirou pegou roçando os dedos nos meus. Meu estômago se agitou, me desorientando pelo toque simples e casual.

Era esse mesmo arrepio de surpresa, misturado ao sentimento de contentamento quando nossas peles se chocavam durante essa semana. Relembrei cada ocasião, imersa em pensamentos: quando me carregou nos braços pelo problema da minha perna; a massagem que fez para mim, as inúmeras vezes que segurou minha mão... Tivemos muito contado, afinal de contas. Foram atitudes dele que me mostraram a gentileza do menino que conheci. Menos retraído, mais jovial como naquele festival há cinco anos. Foram contatos entre amigos.

Porém, esse toque involuntário e fugaz agora me causou algo diferente. Além de me arrepiar inteira, minha respiração se alterava junto à uma onda cálida de prazer me banhando por dentro. Era pelo o que me disse. Os pensamentos que evitava desde ontem, não saíam da minha cabeça agora e me deixavam zonza além de sensível.

Que droga, até o calor do seu braço descansando no encosto ao lado do meu me perturbava.

— Nada mal.

Pisquei “acordando” e ouvi um riso abafado pertinho de mim. Espiei de soslaio encontrando Toushirou olhar divertido a foto que tirei. Mirei para ela e quase ri, me acalmando um pouco. Somos colegas, Karin. Colegas agora, esqueça um pouco a confissão indireta e pervertida que ele fez.

Sem sucesso. Meu rosto dobrou de rubor ao pensar nisso.

— Onde arranjou a maquiagem?

Me devolvendo o celular, tive o cuidado de não encostar os dedos outra vez nos seus. Se Toushirou reparou não disse. Eu também fingiria não ter feito nada.

— Minha irmã colocou na minha mala.

— Sabe que no momento que acordarem vão saber que foi você.

Entendi a quem se referia. Não eram os quatro idiotas desmaiados e sim o resto do clube. Eu não tinha pensado nisso, mas agora estava feito... Dei os ombros com indiferença.

— Tem razão, mas não me importa. Apenas achei um uso prático pro estojo e também, duvido muito que tentem a sorte comigo.

Curvei os lábios maliciosa ao fitar o vazio e guardei o celular no bolso. Ser a bruxa da gerente tinha suas vantagens.

— É por isso que te chamam de bruxa, Kurosaki.

Pestanejei de susto e olhei para ele. Toushirou me observava de uma maneira risonha com um pouco de malícia. Por acaso ouvia os pensamentos das pessoas? Mal tinha pensando na palavra... Isso assustava, mas pelo seu ar convencido não se importava nem um pouco. Suspirei cansada.

— Até parece que os membros desse clube são uns amores comigo. Só estou igualando o jogo.

— Sei bem disso.

Curvando os lábios para mim, Toushirou voltou a se recostar na poltrona e fechou os olhos. Nem demorou muito e logo sua respiração se tornou lenta e compassada. Realmente estava cansado. Tirei essa oportunidade para observa-lo melhor. Já que todos dormiam como pedras, não corria risco de ser pega no flagra. Depois de uns minutos, sorri por dentro ao compara-lo com o garoto da minha memória.

Toushirou praticamente não mudou nada. Mas ainda assim sua aparência sofreu mudanças notáveis. Estava mais alto do que eu, talvez uns 1,70m já que minha cabeça ia até seu ombro no máximo. Com toda a certeza ficou mais atlético do que naquela época, sinal que não parou de jogar esses anos todos. O seu corte de cabelo está diferente. Mais curto, menos rebelde com umas mechas insistindo em cair nos seus olhos.

Essa foi a primeira mudança que percebi assim que o vi na cerimônia de abertura. Na época, já havia deixado minha mochila na minha sala com os demais colegas, esperando no meio daquela multidão de calouros o discurso do diretor do colégio. Na apresentação dos clubes extracurriculares vaguei meus olhos ao redor. Estava com tédio, só queria que acabasse para me candidatar à gerente do clube de futebol masculino. Suspirava observando envolta até vislumbrar mechas brancas.

Foi como um jorro gelado por dentro. A surpresa porque inconsciente reconheci aquele tom de cabelo e a euforia insegura, mas agradável da possibilidade. Estiquei o pescoço, tentando enxergar o rosto da pessoa e meu coração disparou atordoado ao confirmar.

Do outro lado do ginásio, na segunda coluna de cadeiras Toushirou estava sentado assistindo a apresentação dos clubes no palco. Eu não acreditei no que via, meu amigo de infância crescido e vestido numa calça e garugan cinzentos... O uniforme masculino do colégio que eu estimava combinando com o modelo feminino do meu... Quantas vezes me peguei imaginando nós dois indo para cá, como se nada daquilo tivesse acontecido?

A emoção por revê-lo superou momentaneamente qualquer ressentimento que tinha dele. Era bem agridoce, bem menos amarga do que imaginei e tive um pouquinho de esperança. Eu devo ter ficado encarando por um bom tempo, pois ele percebeu e procurou ao redor. Rápido virei o rosto, fingindo interesse no discurso de um outro presidente de clube, talvez fosse de teatro ou sei lá. Meu pensamento depois de gritar seu nome na própria cabeça foi: Ele mudou o corte de cabelo.

Que bobo.

Mas depois daquilo minha alegria por vê-lo outra vez minguou e se tornou dor pela sua fria indiferença. A gente não se encontrava pelos corredores, apenas alguns vislumbres nos armários de sapatos na entrada do prédio principal ou no refeitório. Eu tinha muito receio em me aproximar, afinal foram cinco anos... No entanto, achei que na minha apresentação para o time no meio de um treino a tarde ele me reconheceria. Até imaginei sua surpresa, ensaiando mentalmente cada cenário sobre o reencontro e etc, mas, quando de fato aconteceu nada foi tudo o que tive.

Ele não falou comigo, sequer dava atenção. Além da vergonha que senti pela expectativa irreal da sua reação, me dei conta de um fato que ignorava. Esse cara foi e ainda era meu primeiro amor doloroso. Droga... Foram três meses sem contato direto, com minha mágoa dele aumentando e aumentando... Quem diria que justo nessa viagem a gente voltaria a conversar? Nem eu mesma teria adivinhado.

Sorrindo me encostei na poltrona e olhei a paisagem pela janela. Talvez seja um novo começo. É, podemos não retomar a amizade de onde parou, mas criamos outra agora. Eu sei que é covardia, mas não estou preparada para contar a verdade à ele. Está tão bom como agora. Sei que em alguma hora tenho de dizer e espero que não faça perguntas. Aquele dia foi horrível pra mim e não gosto de lembrar. Bom, talvez eu possa contar no festival esportivo em breve. Seria uma ocasião bem legal. Ele vai ficar chateado pelas mentiras, mas conheço o fraco de Toushirou por doces.

Está acertado. No evento esportivo em setembro vou contar quem eu sou.

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A viagem durou um dia inteiro. Sem paradas pra almoço ou banheiro, o que achei um absurdo e chegamos em Karakura a tardinha. À essa altura os garotos já haviam acordado e zoaram bastante a maquiagem que fiz nos quatro idiotas. Tiraram fotos, postaram e riam quando liam os comentários nas redes sociais. Zaraki já estressado com tudo isso mandou todo mundo calar a boca. Me encarando penetrantemente, ele deixou bem claro que sabia quem fez isso. Apenas fingi que não sabia de nada.

Não tinha prova alguma. Antes da gente sair da montanha, pedi desculpas para Yuzu internamente e joguei o estojo pela janela. Sabe como é, tinha que me livrar das evidências. Toushirou óbvio que ficou calado. Ele sabe fazer uma cara de paisagem melhor do que eu.

Pois bem, devido a pressa do técnico demônio chegamos bem adiantados. Era o único ônibus prateado no portão dos fundos. Saímos todos deixando Digio, Keita, Rikuo e Noitra roncando. Zaraki e Kiba não se indignaram em acorda-los.

— Ninguém perdeu ou esqueceu nada? Pois bem. Vamos para o campo secundário ter uma reunião, agora.

Mal Zaraki deu as costas e um coro de resmungos soou. Ele apenas olhou sobre o ombro de um jeito que me deu calafrios.

— Querem um treino de jogo, moleques?

Ninguém disse mais nada. Unohana-sensei foi na frente de nós assim que saímos para a calçada. Abriu o portão e todos foram resmungando. Toushirou não disse nada, apenas acompanhou Kiba e quanto a mim, atrasei o passo indo completar minha vingança contra os três. A viagem me deu tempo suficiente para pensar e não quis adiar de jeito de nenhum. Keita eu pouparia. Ele que pegou meus óculos de volta e por isso, seu castigo acabou. No caminho para o segundo campo, corri até o prédio de clubes que para a minha sorte não estava vazio.

Subi as escadas até o segundo andar e me dirigi ao grupo de cinco alunos conversando no meio da varanda. Os músculos saltados, as feições sérias e o ar imponente, marcas características do clube de rúgbi. Me aproximei deles e imediatamente me notaram. Seus olhos estreitaram desconfiados. Principalmente do mais atarracado, Oshiba Jin, o capitão do time.

— O que você quer Kurosaki?

Pisquei surpresa, mal havia chegado perto deles e me abordaram com toda essa tensão.

— Nossa, não imaginava que soubessem meu nome.

— Quem nesse colégio não te conhece?

Verdade. Aprontei consideravelmente antes das férias. Me aproximando mais um pouco, resolvi tratar logo dos negócios.

— Vou ser rápida. O que vocês querem em troca de surrar três babacas?

Todos eles levantaram as sobrancelhas impressionados. Apenas cruzei os braços, esperando.

— Como foi que disse?

— O que você ouviu.

Não desviei o olhar em momento algum. Oshiba depois de me encarar por uns segundos, percebeu que estava falando sério e bufou enfadado.

— Perdeu o juízo. Ninguém aqui vai se encrencar por você.

— Nem se eu tiver entradas para os jogos Hosei esse ano?

Seus olhos cintilaram de interesse e mordi um sorriso.

— Como conseguiu isso?

— Meu irmão é universitário de lá. É fácil de conseguir.

Ele ficou calado e bem na minha frente se reuniram cochichando. Esperei paciente se decidirem até Oshiba se virar pra mim.

— Feito. Mas apenas sob uma condição.

— E qual é?

Sabia que não sairá tão de graça.

— Por que quer a surra desses caras?

Péssima pergunta. Trinquei os dentes, lembrando do que me fizeram essa semana inteira, por tudo o que passei até quase me afogarem. Uma surra é muito pouco, mas não posso exagerar senão ficarei pior que eles. Principalmente o Digio.

— Passei o dia de ontem inteiro numa enfermaria por causa deles. Quero que passem também e com juros.

Um loiro que se apoiava no gradil me olhava curioso.

— O que foi que fizeram?

Apenas o mirei possessa e estranhou meu olhar desse jeito. O capitão de time se agitou nervoso.

— Deixe ela, Eijiro. Não irrite essa garota.

O tal Eijiro se espantou olhando de mim para seu capitão e notando o quanto Oshiba estava tenso ficou incrédulo. Apenas o ignorei. Parecia ser um novato pelo visto. Se virando pra mim, o capitão do time de rúgbi assentiu e curvei os lábios satisfeita. Ele sorriu de um jeito esquisito por isso.

— Você é cruel, Kurosaki.

Bufei enfadada.

— Como disse à um amigo, apenas estou igualando o jogo. Os três idiotas estão com as caras maquiadas, logo chegaram aqui.

Dei meia volta, mas antes de ir embora olhei sobre o ombro.

— Só mais uma coisa. Não quebrem muito eles, de resto podem fazer o que quiserem.

Voltando ao meu caminho, cruzei a varanda e depois desci as escadas. Tinha uma razão especifica por que pedi isso justo ao clube de rúgbi. Digio roubou a namorada do capitão, sem contar que havia uma rivalidade entre os dois clubes. Me aproveitaria disso e só então teria um pouco de sossego. Aqueles três são fortes, principalmente o Digio, mas com cinco armários como aqueles ele não teria chance, muito menos seus amigos.

KARIN POF

Não soube quando realmente acordou. Apenas que o torpor foi cedendo e aos poucos despertou sentindo todos os músculos doerem. Xingou internamente, gemendo com resquícios de câimbras nas pernas. Quase perdeu arrependimento que sentia pela bruxa, quase... Digio foi se levantando da poltrona ainda um pouco grogue. Pelo ônibus vazio e parado já haviam chegado.

Menos mal. Precisava de uma massagem, talvez um dos seus contatos resolvesse esse problema pra ele. Porém... sentia um formigamento esquisito no rosto, incomodava. Ao pegar a mala no compartimento, roçou a bochecha na manga e se espantou com a mancha branca no tecido azul. Tocou receoso e desconfiado, esfregando os dedos no rosto e arregalou os olhos ao encarar a pasta branca neles.

Rápido, pegou o celular e pelo reflexo no display confirmou sua suspeita.

— Aquela maldita!!!

A bruxa da Kurosaki maquiou sua cara inteira!

— Argh! Que é que foi Digio?

Pelo grito, Rikuo tinha acordado e mirou para trás. Não foi só ele, feito bonecas aquela maldita bruxa maquiou todos eles. Uma raiva explodia dentro si. Tanta que perdeu o sentimento ruim de tê-la afogado sem querer. Rikuo mais desperto pulou na poltrona ao ver a pintura da bruxa nele.

— Que porra é essa?!

Arquejou possesso.

— Dá uma olhada na sua cara!

Girando no lugar, pegou de qualquer jeito pelas alças a mala e marcha para fora do ônibus. Apenas para confirmar verificou suas contas nas redes e estremeceu vendo sua foto com os três maquiados. Cada comentário... Era sobre como estavam lindas as “belas adormecidas”, perguntando se haviam saído do armário e ainda quem foi que fez isso.

Desligou o celular.

— Kurosaki, dessa vez você me paga.

Foi direto para o prédio dos clubes, apenas guardaria a bagagem e depois caçaria essa baixinha. Ela ainda estava no colégio, tinha certeza. Ignorando os risos ao redor, afinal a essa altura todos haviam chegado das viagens, esfregou o rosto indo até o prédio. Depois lavaria. Mal havia chegado perto, quando o agarraram pelo braço e o jogaram contra uma parede. Por reflexo, segurou a mão do sujeito e virou puxando para cima o jogando também.

— Arght. Peguem ele!

O que?

Atordoado, viu um loiro do clube de rúgbi estatelado no chão antes de um tropel de passos avançar pra cima dele. Virou em tempo de um punho se chocar no seu queixo o derrubando. O gosto de sangue encheu sua boca e levantou o olhar. Arquejando se levantou, encarando por um segundo outro sujeito atarracado e se jogou nele o derrubando no chão. Mal o segurou pelo ombro, pronto pra devolver o soco quando o agarraram por trás e o arrastaram para detrás do prédio dos clubes.

— Me larguem! Que diabos estão fazendo, merda?

Sem resposta, só o atiraram no chão de cascalho e pelos gemidos, olhou para trás vendo chocado Rikuo apanhar de dois armários. Rindo abafado, o capitão do time de rúgbi se aproximou e o mirou em tempo de Oshiba Jin estalar o pescoço... Se aquecendo.

— Não é nada pessoal, cara. Apenas estou fazendo um favor.

Mal acreditou no que ouviu. Deu uma espiada nos outros dois e estremeceu nervoso. Não estava com medo, mas será que dava conta de derrubar esses três? Cuspindo sangue no chão, quase riu pra disfarçar seu estado de nervos.

— Nada pessoal? Conta outra. Está se divertindo por dentro.

O sorriso se alargou em Oshiba quando preparou os punhos. Que merda!

— Verdade. Agora vamos ao que interessa.

Mal teve tempo de se esquivar. Antes que o atacasse, o seguraram por trás imobilizando.

Dois dias depois

KARIN POV

Segunda-feira.

Detesto esse dia por um simples motivo. Eu sou a responsável por abrir a sala do clube hoje. Então, cheia de preguiça levantei da cama e fui tomar meu banho as seis da matina. Fiz minha higiene sossegada, me aprontei para o colégio vestindo o uniforme de verão. Uma camisa branca de mangas curtas, acompanhada do laço vermelho na gola e uma saia drapeada cinzenta três dedos acima do joelho. Pus um shortinho preto e colado por debaixo da saia e calcei as meias também pretas 3/4.

Meu moletom o amarrei na cintura como sempre faço durante o período de aula. Nos treinos de tarde eu tirava o casaco cinzento e guardava na mochila em meu armário do vestiário. Perto daquele bando de garotos me sentia exposta demais e colocava meu moletom nos treinos. Antes de arrumar meus cabelos, porém, me olhei no espelho de corpo inteiro. Até que eu estava bonita assim. Sem querer pensei em Toushirou e meu coração saltou aquela familiar batida.

Ansiosa mexi na caixinha da Yuzu e peguei dois prendedores de elástico em forma de laços. Penteei meu cabelo do mesmo jeito, mas dessa vez usei essas prendedores e ajeitei bem rente a nuca as marias chiquinhas. A franja afofei colocando de lado. Só faltou os óculos e suspirei com o resultado. Eu até tinha ficado bonita, mas os óculos... Estragou o complemento. Fazer o que? Não posso deixar de usa-los.

Animada peguei a mochila e desci as escadas vendo mamãe terminar de por o café da manhã a mesa.

— Ohayo, mãe.

Me anunciei me aproximando dela e se virando pra mim, ela sorriu surpresa da minha aparência.

— Nossa, filha. Ficou linda no uniforme.

Minhas bochechas renderam quentes quando me sentei à mesa.

— Que isso, mãe. Não é pra tanto.

— Mas é claro que é. Com certeza aconteceu algo bom na viagem, por que não me diz logo?

Segurei um sorriso e peguei com os hashi as salsichas fritas no meu prato.

— Já disse. Foi bem normal.

Sentando comigo, ela me deu aquela olhada cheia de subentendidos.

— Você não me engana, Kurosaki Karin. Nunca te vi tão feliz nesses anos. Aposto que tem haver com um garoto.

Pronto, me engasguei com o arroz e tossi agitada ouvindo minha mãe rir. A olhei quando me recuperei e vi um sorriso afável nela. Era nítido o quanto estava feliz por mim.

— Não é nada disso, mãe. Apenas fiz um amigo.

Ela estreitou os olhos curvando os lábios.

— Amigo... Tem certeza?

Quase ri dela.

— Claro. Ele é bem legal, diferente daquele bando de moleques.

Lembrei azeda de Digio e sua horda de babacas, mas só por um segundo. No dia que voltamos da viagem, ouvi os gemidos e pedidos de misericórdia ao me dirigir pro ginásio junto com Toushirou. Ele me olhou descrente, logo desconfiado da minha falsa calma, mas apenas disse que explicava depois. O prédio ficava perto do de clubes esportivos e óbvio que ouvimos. Confesso que senti um pouco de pena, mas amorteci lembrando quando me jogaram na piscina.

Foi demais, então eles mereciam a surra.

— Qual o nome dele?

Pisquei voltando a mim e mirei minha mãe. Ela parecia super empolgada comigo. Foi quando olhei pro celular e percebi o horário.

— Depois eu falo. Jya nee, mãe.

— Mas Karin?!

— Juro que conto depois. Tenho que ir.

Levantei dando a volta pela mesa e dei um abraço nela ganhando outro. Meneando a cabeça, ela me soltou e fui até a porta calçando meus sapatos. Meu ônibus logo apareceu na esquina assim que saí da viela onde morávamos e demorei apenas uns vinte minutos até chegar. A parada ficava à uma quadra de distância e andei escutando uma música no celular.

No caminho lembrei que tinha de preparar a papelada dos atestados de Digio, Rikuo e Noitra. Eles apareceram na enfermaria da escola cobertos de terra e hematomas. Kiba foi correndo me avisar nervoso no ginásio e Toushirou ao ouvir disfarçou muito bem que sabia o porquê até Kiba ir embora. Estávamos procurando o quadro tático do clube de basquete. Era enorme e Zaraki queria para explicar suas ideias para os próximos jogos com a nova formação do time.

Eu apenas disse para ele que os babacas ficariam bem, era tudo que precisava saber. Mal pôde me retrucar e um garoto do clube de basquete me chamou. Estavam me procurando e quando fui ver quem era me deparei com a Yuzu. Ela berrou meu nome me dando um mini infarto. Graças a Deus que tinha um coro de conversas dentro do ginásio e a voz dela foi abafada. Por pouco ela não estraga minha surpresa. Prendi um sorriso, mal podia esperar por isso.

Bem, ela me procurava já fazia um tempo e sem me despedir de Toushirou fui embora pra casa. Espero que não tenha ficado irritado. Quando percebi já estava em frente ao colégio e entrei pelo portão. Um vigia acenou para mim e devolvi bem humorada. Fui direto até o prédio dos clubes e cheguei à terceira sala do primeiro andar, a maior do prédio e depois abri com o molho de chaves a porta. Uma era da sala do clube, as outras das entradas dos campos e do depósito de equipamentos. Uma grande responsabilidade e estava bem em minhas mãos. Desventuras de ser a gerente.

Fechei a porta e segui até o meu armário guardando minha mochila. De lá tirei meu caderno, a caneta e peguei um cronômetro. Estava o pondo no pescoço quando abriram a porta. Olhei na direção e curvei os lábios quando vi quem era.

— Oi, Toushirou. Bom dia.

Ele parou um pouco assim que me viu, seus olhos de repente perdendo a sonolência. Pensei que diria algo, mas suspirou desviando o olhar ao se dirigir até o próprio armário.

— Bom dia.

Que tom morno foi esse? O jeito como me encarou foi meio estranho, focado... Será que tá chateado por sexta-feira? Mordi o lábio suspirando. Droga, deve ser por isso.

— Desculpa por ter ido embora sem te avisar na sexta.

— Tudo bem. Zaraki não fez tanta questão quando não apareceu na reunião.

O armário dele ficava na outra fileira e ouvi com exatidão ele não apenas guardar sua mochila como também trocar de roupa. Me surpreendi um pouco, com a respiração agitada ouvindo-o tirar o agasalho e dobrar. Não pude deixar de imaginar a cena e agitei a cabeça. Droga, Karin. Pare com isso. Toushirou não estava fazendo nada demais. Tinha uma fileira de armários de aço entre nós, caramba! Claro que ele não trocaria totalmente de roupa comigo aqui.

Como se para zombar ouvi mais farfalhar de tecido e quase enterrei o rosto no meu armário de tanta vergonha. Engolindo um gritinho interno, lembrei da sua falta de modéstia na viagem de treino. Verdade, Toushirou não se importa...

Me concentrei com todas as forças baixar meu rubor. Eu não posso deixar que me veja assim.

— O que você fez com Digio e os outros?

Pestanejei de susto e procurei respirar me recompondo. Um pouco mais sossegada fechei meu armário ouvindo em seguida outra batida de metal. Graças a Deus, Toushirou tinha acabado de se trocar.

— Apenas subornei uns caras do clube de rúgbi para darem uma lição neles.

Esperei ele se agitar, afinal, peguei bem pesado, mas Toushirou apenas suspirou e dando a volta até essa fileira seguiu direto para os fundos da sala pegando as chuteiras na estante de ferro. Estranhei de novo esse comportamento, estava bem esquisito.

— Eles fazem parte da equipe titular, os treinos vão atrasar com os machucados.

Abri e fechei a boca, mal consegui segurar a vontade de reclamar. Mas que...? E daí? Ninguém quebrou um osso ou rompeu os músculos. Vão ficar bem em uma semana. Encarei suas costas injuriada.

— Falando desse jeito parece que tá defendendo eles.

Virando o rosto um pouco, achei que me julgaria olhando sobre o ombro, mas apenas pegou as caneleiras e se sentou num banco ao se aprontar.

— Estou falando como o capitão do time. Sem o centroavante e os dois meias de campo principais, o novo esquema vai demorar pra se ajustar. Devia ter pensado direito sobre isso.

Me entalei. Mas que coisa! O que será que deu nele? Seu tom de voz foi levemente ácido e distante, parecia irritado comigo. Caramba, achei que ficaria do meu lado. Ele viu o que me fizeram durante a semana inteira da viagem. Por que se incomodar se descontei? Quer saber? Não entendo os garotos. Principalmente o Toushirou quando agia assim.

— Ok, capitão. Vou levar em conta da próxima vez que me perturbarem.

Dei meia volta indo até a porta. Eu que não ficaria perto dele enquanto estiver com esse mal humor.

— Karin.

— O que foi?

Respondi por reflexo, parando ao girar na sua direção já no meio do caminho até a porta quando me dei conta. Toushirou... Toushirou disse... E eu respondi... Um jorro frio e repentino me varreu inteira por dentro, tirando meu ar. Trêmula, assisti ele terminar de calçar as chuteiras e então erguer seus olhos sérios e penetrantes para mim.

Meu coração martelou forte, me sufocando e oprimindo enquanto me arrepiava inteira com esse olhar. Isso não era nada bom. Minhas mãos não paravam de tremer.

Se levantando do banco Toushirou se aproximou me amortecendo a cada passo.

— Por que não me disse a verdade?