Seguindo em Frente
19 Mente vs. Coração
Notas iniciais
Um uivo semelhante a de um lobo entrava por seus ouvidos fazendo-a tremer. Hermione caminhou entre as árvores com o coração aos pulos e não sabia dizer se era de medo, ansiedade ou qualquer outra coisa.
O lugar parecia ser enorme e os galhos compridos e de espinhos pontudos a fizeram dar meia volta e caminhar por outro caminho, não tendo a mínima ideia de onde estava ou para onde ia. Sentia suas mãos dormentes de frio e o vento forte fazia seus cabelos voarem. Estava descalça e se concentrou em não tropeçar quando um brilho forte atraiu sua atenção.
As luzes vermelhas a fezeram começar correr, ignorando as pedras até encontrar a entrada para uma clareira. Assim que conseguiu alcançá-la, estancou ao ver quem era o causador das luzes. Rony e Peter se fitavam mortalmente e, como na sala de treinamento, lançaram seus feitiços estuporantes, fazendo-os se chocarem. Mas, diferente do que Hermione se lembrava — e do que ela quase desejava que acontecesse com ela — os feitiços se chocaram e passaram direto para cada um.
Seu grito de horror se misturou e foi abafado pela estranha ventania. No mesmo estante, Rony e Peter caíram para trás, suas varinhas rodopiando para longe e, no meio de seus peitos, a abertura de um profundo corte os fazia perder sangue.
Sem saber o que fazer ou quem socorrer primeiro, Hermione concordou com seu coração e correu para Rony — discordando de sua mente que a mandava socorrer primeiro Peter -, o puxando para descansar a cabeça em seu colo. Com as mãos hesitantes, pressionou elas em cima do corte, que parecia, a todo custo, fazer jorrar mais e mais sangue.
— Por favor... — ela pediu, segurando e acariciando a bochecha do ruivo. Ele a olhou e sorriu, fechando os olhos. — Não... não dormi. Rony! Vamos, você não pode me deixar!
Hermione chorava quando escutou, estranhamente, a voz de outra pessoa... mas não era necessariamente outra pessoa. Desviando seus olhos do rosto de Rony, ela mirou a pessoa que tinha Peter no colo: exatamente como ela. Para o seu espanto, era ela. Parecia que olhava um espelho com seu reflexo e quando levou a mão a boca em choque, a outra Hermione fez o mesmo.
Ainda olhando para a outra, viu quando o braço trêmulo de Peter se ergueu para tocar o rosto da Hermione que o tinha nos braços e sobressaltou-se quando sentiu, em seu próprio rosto, a mão de Rony. Olhou de novo para ele e perdeu-se na imensidão que era seus olhos azuis. O ruivo suspirou uma última vez e Hermione o sacudiu.
Não era possível. Com as lágrimas escorrendo para o rosto dele, viu seu vestido branco encharcado de sangue.
Com os latidos distantes de um cachorro qualquer, Hermione acordou sobressaltada. Piscando um pouco, viu que estava em seu quarto. Sentou na cama e notou que suava, mesmo com o frio do lado de fora. O pesadelo ainda fazia seu coração bater forte contra seu peito e levantou, indecisa por uns segundo quando seus pés tocaram a frieza do chão.
Bufando para si mesma, lembrando que já tinha suportado coisa pior, caminhou para a cozinha. O sol começava a nascer e como era sábado, aproveitaria para ficar em casa o dia inteiro, comendo besteiras e adiantando um pouco o trabalho para segunda. Quando colocou a chaleira no fogo, voltou ao quarto para tomar um banho.
A água quente a relaxou rápido, mas Hermione não poderia fazer com que ela relaxasse também sua mente. Naquele momento, ser totalmente burra ou ter uma racionalidade normal seria uma boa para despistar o que sua inteligência insistia em relacionar o pesadelo com sua vida.
Era tão obvio que chegava a ser trágico o modo que seu subconsciente afirmava o que ela mesma negava — e morreria negando — o que sentia por Rony. Por vezes, Hermione perdia sua noite de sono imaginando e fantasiando se ela e o ruivo estariam namorando se ele não tivesse ido embora. Algumas circunstância, talvez, a morena listava, namorassem mesmo. Ou aquele sentimento nunca existira por parte do ruivo, afinal, não se abandona quem ama.
E abandonar duas vezes era muito mais que uma confirmação.
Os três anos em que aprendera a camuflar a dor, Hermione traía-se ao querer Rony ao seu lado, esquecendo de brigas, irritações e desentendimentos. Achava-se um masoquista por continuar lembrando do tempo em que eram amigos. Das inúmeras aventuras deles, junto com Harry, e em todas as ocasiões em que poderiam morrer.
Sentia falta da amizade que tinham. Nada poderia perfurar a bolha que aquele trio tinha e parecia que a tal bolha já estourara a tempos, deixando rastros enormes e dolorosos de destruição, fazendo o peito da morena latejar.
Quando sentiu o choro querer vir, ela desligou o chuveiro e enrolou-se numa toalha, vestindo uma calça de moletom e uma camiseta. A chaleira apitava e rapidamente preparou um pouco de chá. Ao se encolher no sofá, estranhamente achou aquele apartamento grande demais, como se as paredes a qualquer hora fossem se juntar e esmagá-la. Ridículo, pensou. Uma boa parte de sua vida tinha sido apenas ela e os pais e agora estava sentindo falta de mais gente?
Antes que pudesse começar uma discussão sozinha, a campainha tocou com um silvo alto. Como o porteiro não interfonara avisando que alguém subia, alcançou sua varinha em cima da TV e a escondeu atrás das costas, abrindo a porta devagar.
— Bom dia! — a voz entusiasmada de Peter encheu seu corpo de alívio.
Ele nem esperou que Hermione o chamasse para entrar quando irrompeu pelo apartamento carregando duas sacolas. A morena fechou a porta, colocou a varinha de novo no lugar e se virou para o moreno.
— Bom dia, Peter — ela cruzou os braços. — O que está fazendo aqui?
Peter pareceu envergonhado por um segundo.
— Bom, como hoje é sábado — ele coçava a nuca. — Pensei que poderíamos passar o dia juntos... sabe... para nos conhecermos melhor.
Hermione o fitou, indecisa do que responder. Queria ficar sozinha e a companhia dele não seria a das melhores. Mas ele é seu namorado!. Erguendo os cantos da boca em um sorriso, a morena assentiu e apontou para as sacolas em cima do balcão.
— O que tem ai dentro?
Peter se animou mais.
— Trouxe algumas coisas da padaria perto do meu apartamento... o croissant de chocolate deles é fantástico.
— E o que estamos esperando? — Hermione caminhou até o armário, retirando dois pratos. — Vamos comer essa delícia.
O sorriso do moreno fez o coração da castanha falhar um batida. Será que não estava dando falsas esperanças? O fato de aceitá-lo ali — em pleno sábado! — não deveria deixá-lo tão feliz. Mas, em uma parte da razão de Hermione sabia que Peter era um cara fantástico e que o deveria dar uma chance e, acima de tudo, se dar uma chance. Sua juventude não duraria para sempre e ficar presa aos acontecimentos do passado não mudaria em nada.
Ficava irritada com ela mesma quando sentia, lá no fundo, uma chama — que mais parecia uma vulcão preste a entrar em erupção — de amor a Rony. Ele não merecia e faria de tudo para exterminar aquele sentimento.
Olhou para Peter de novo.
— Uau! — falou, enquanto comia o último pedaço de croissant encharcado de chocolate. — Isso é bom mesmo!
— É quase impossível resistir a isso quando o cheirinho inunda a frente da padaria — Peter riu, depois franziu a testa.
— O que foi? — Hermione estranhou, largando a caneca de chá em cima da mesa.
— Aqui — ele apontou para o canto de sua boca. — Está sujo de chocolate.
A morena levou a mão para limpar, mas o que conseguiu foi apenas espalhar mais o chocolate.
— Limpou?
— Não — Peter se inclinou para mais perto dela e Hermione pode sentir o cheiro de hortelã e de espuma para barbear. O moreno tocou o canto de sua boca com os polegares e depois, estando próximos o bastante, seus narizes se tocaram. A respiração quente dele fez os pelos do rosto de Hermione se arrepiassem e, quando os lábios de Peter encontraram os seus, não resistiu.
Ele a beijava com urgência e quando sua língua pediu passagem, um rangido na janela assustou a castanha.
Retirou as mãos da nuca dele e se separou, o empurrando pelo peito. Vermelha o bastante para dizer alguma coisa, ela viu a coruja de Harry bater na janela e correu para deixá-la entrar. A carta era curta e nela, Harry insistia para que Hermione fosse jantar com ele e Gina. Torceu a boca... tinha algo por trás daquele convite, mas achava que sua mente estava cogitando besteiras de mais, justamente depois de Peter a beijar.
— Algum problema?
Ela ergueu o rosto e o moreno tinha o rosto preocupado. Sorriu.
— Nosso dia juntos acabou de melhorar — a ideia marota surgiu do nada. Peter continuava sem entender. — O que acha de um jantar na casa do Harry?
— Nada mal... mas não é uma boa.
O sorriso da castanha sumiu.
— Por que não?
— Potter não gosta de mim pela recente rivalidade que tenho com o Weasley — ele respondeu com frieza, voltando para a mesa e tirando os pratos. — Não seria uma boa ideia eu aparecer por lá sem ser convidado.
— Nem se fosse eu que pedisse? — Hermione foi até ele, puxando sua mão. — Peter, você iria comigo?
Ele a olhou por um segundo e ainda de cenho franzido respondeu: — Tudo bem, eu vou. Mas é porque você está pedindo.
A castanha lhe sorriu e foi puxada para mais um beijo, mas com um "quê" de pose.
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