Seguindo em Frente
36 Amo Você
Notas iniciais
Hermione empurrou a pesada porta do Salão o mais silenciosamente possível e a sua tentativa de ser discreta acabou com o rangido – baixo, mas alcançou o raio de três pessoas que a olharam. Os olhos curiosos das crianças a deixaram mais envergonhada e após fechar a porta andou depressa, mas com a imagem calma, até a frente. Seus passos pelo corredor esquerdo, perto da mesa da Sonserina foi invisível assim que a atenção de todos se voltou a diretora da escola. Devolveu o aceno e se parou perto de Harry. O moreno, que a havia acompanhando com os olhos, inclinou a cabeça até ela e sorriu sacana.
— De novo? – murmurou. Hermione o olhou feio, esticando a mão para beliscar o braço dele.
— Cala a boca, Harry.
— Não te julgo, sabe – ele a ignorou. – Quando comecei a namorar a Gina também não conseguia tirar as mãos dela.
— Não quero saber sobre a sua vida íntima – Hermione sussurrou. – Muito menos com a Gina. E como tem tanta certeza sobre esse assunto?
— Não se faça de desentendida.
— Quer debater nossa vida sexual agora?
Harry quase gargalhou, abafando o riso em uma tosse idiota. Naquele momento, a porta do Salão se abriu de novo e o cabelo ruivo de Rony surgiu. A mesma reação aconteceu e o rosto de Hermione ficou da mesma cor que as orelhas do ruivo quando ele caminhou de encontro aos outros aurores de pé ao lado da mesa dos professores. Harry, que ria de cabeça baixa, olhou para eles.
— Do que ele está rindo?
Hermione se virou para Rony, chocada.
— Você me espanta.
— Então, Rony, onde foi dessa vez? – Harry indagou.
— Como assim?
— Vou arrancar fora sua língua, Potter – Hermione ergueu a mão outra vez. – E nem vai ser por magia.
— Ah, entendi – Rony assentiu.
Harry riu mais ainda.
Várias palmas irromperam pelo recinto e eles automaticamente as acompanharam.
Naquela manhã eles haviam sido chamados a escola para a seleção das crianças vítimas do sequestro, em uma ocasião bastante especial para os aurores responsáveis pelo salvamento . Mesmo que as dez crianças estivessem atrasadas no ano letivos os rostinhos infantis diziam o contrário: mesmo agrupados na frente de todos os outros alunos e diante dos olhos avaliativos dos professores eles pareciam felizes e empolgados. Hermione notou como eles não paravam um segundo de cochichar um com os outros, as bochechas vermelhinhas e os olhos curiosos. O nome de uma menina foi chamado e ela notou que a escolha das casas já havia começado. A menininha quicou até o banco e o chapéu seletor cobriu seus olhos – ela acompanhou o riso geral com o espanto muito fofo da menina. A mesa lufana gritou alto com a mais nova membro e Becca Miller tirou os cachos dos olhos, batendo a mão na de outra garota no ciclo de crianças e correndo para a mesa da Lufa-Lufa. Após sentar e suspirar ela notou Hermione e ergueu a mão, acenando alegremente. A auror gargalhou com o entusiasmo dela e acenou também. Suas bochechas já doíam de tanto sorrir e aquela sensação boa que fez seu corpo tremer a deixou alerta – olhando para o lado, esbarrou nos olhos azuis de Rony encarando-a. Ergueu as sobrancelhas para ele e querendo pular em seu pescoço quando ele lhe deu uma piscadela apenas fez bico e se concentrou no evento. Mordeu o lábio quando ele circulou a mão em sua cintura, pressionando um ponto que incendiou seu corpo e de repente a seção de amassos de antes pareceu rápida demais.
O sol daquela manhã estava forte e clareando o salão de uma forma linda. Os morros verdes e perfumados deixavam a vista maravilhosa e assim que chegaram à escola ela parou um minuto para apreciar a vivacidade. Diferente de outras vezes a seleção não ia acontecer a noite, quando as crianças chegavam. Já havia se passado mais uma semana e assim como todo cidadão bruxo, os outros alunos de Hogwarts já compreendiam os fatos que acompanhariam a vida daquelas dez crianças para sempre. Intimamente Hermione via ali um laço que nunca mais eles poderiam quebrar ou esquecer – era como um pacto de sangue, a mesma experiência ruim havia unido eles para qualquer situação futura. Ela esperava, assim como sua própria vida, que eles se apoiassem e não ficassem revoltados se alguém lembrassem deles como os sobreviventes de um sacrifício. Esperava que tomassem aquilo como uma garra maior para continuar em frente, levantando os outros quando ficasse difícil. Ela tinha fé nisso.
— Tudo bem? – alguém sussurrou bem perto de sua orelha e ela virou-se, notando o rosto preocupado de Rony. Desligada a pouco tempo, não notou quando o lugar vazio no centro de todos ficou sem ninguém. As crianças já haviam sido escolhidas.
— Sim – murmurou. McGonagal falava, agora, as regras da escola, acenando com a mão a exatidão de suas palavras.
— Como figura maior de Hogwarts e voz de todo os membros – ela varreu os olhos rapidamente pelos professores. – Gostaria de um agradecimento especial para a equipe de aurores que foi responsável pela presença das dez crianças presentes hoje. Foi um trabalho árduo e sem uma garantia certa, porém estamos todos aqui para provar o contrário.
Mais palmas, agora todos os olhos direcionados a eles, de pé ao lado da diretora.
Como tantos anos, as mesas estavam repletas de todo os tipos de comidas para o café da manhã. Uma segunda área para os ourores foi colocada próxima a eles e após um tempo os assuntos paralelos foi a música que abafou qualquer tipo de pensamentos.
Rony estava concentrado em contar uma aventura qualquer para Harry e os dois riam. Neville, Peter e mais dois aurores debatiam os prós e contra de um intercâmbio pelas outras escolas e Ministérios bruxos – afinal, um deles daquela roda era estrangeiro e o sotaque forte era muito lindo. Sobrou para Hermione tentar acompanhar tudo enquanto provava o pedaço de torta em seu prato – o queijo escapava pelos lados sempre que cortava um pedaço com o garfo. Foi quando sentiu algo cutucando seu ombro.
Lisa Stark estava atrás dela, as mãos juntas como se estivesse nervosa.
— Oi, Srta. Granger.
Hermione sorriu, observando a postura de Lisa.
— Oi, Lisa. Tudo bem com você?
Ela anuiu. Pareceu não saber mais o que dizer e olhou para trás, mordendo o lábio a procura de alguém. Hermione girou o corpo e mesmo com o salão cheio de pessoas o braço erguido e insistente de outra menina do outro lado não passou despercebido. Lisa deu um passo a frente, agarrando a mão outra vez; agora fazendo uma careta. A morena abaixou o olhar e viu a proteção com gaze envolta do punho dela.
— Eu sei que já deve ter ouvido de várias pessoas isso, mas queria agradecer por ter me tirado daquele lugar horrível – murmurou, a voz falha. Seus olhos se arregalaram e ela apertou as mãos nas vestes. – Quer dizer, ter tirados todos nós de lá. Não sou egoísta nem nada. Eu agradeço por todos nós, é isso.
— Alguém já te disse que você é muito fofa?
Lisa inflou as bochechas, corada.
— Fofura é um termo muito forte para mim. Não sou criança para ser associada a ela.
— Você não tem onze anos?
— Certamente.
— Foi o que eu pensei – Hermione anuiu, esticando a mão e colocando o cabelo da garota para trás da orelha. O rosto redondo, o nariz arrebitado e expressão determinada a fez sorrir ternamente. – Você me lembra uma pessoa.
A marra abandonou o corpo da menina.
— Sério? Quem?
Hermione se afastou no banco e deu batidinhas no espaço. Com a garota ao seu lado a morena encheu um prato de comida para ela e um copo de suco. Algo durante todo o processo atraiu a tenção dela que olhava fixamente para o braço da mais velha. A cicatriz em relevo em sua pele alva não revelou nada de imediato.
— É igual a minha.
Então ela entendeu. A lembrança da bruxa urrando o quanto fora prazeroso deixar aquela marca na garota encheu os pensamentos da auror e ela arfou, a compreensão cavando em seu peito uma dor nova. Sua cicatriz brilhou em um novo ângulo quando a ergueu na altura dos olhos e seu estômago revirou quando a mão fria de Lisa a puxou. Ela tinha tirado o pano e aproximou seu braço no de Hermione. Como a marca fora feito com uma faca o processo de cura era mais lento, mas era bastante claro – sangue ruim. O xingamento tinha as bordas ainda vermelhas e irritadas e enquanto a mulher tentava falar alguma coisa o líquido vermelho brotou e escorreu pelo pulso da menina.
— Sempre acontece isso – ela sussurrou, usando a gaze antiga para enxugar. Hermione acordou do choque e segurou a mão dela.
— Não – decretou. – Pode piorar a ferida.
Ergueu sua varinha e conjurou alo rápido para ajudá-las, uma faixa e gases temporários para a ocasião. O sangue estancou e ela voltou a enfaixar o pulso da garota.
— Eu sinto muito por isso. Eu sei o quanto deve ter doido.
Lisa não respondeu.
— Uma bruxa sem escrúpulos fez isso em mim também. Mas você é uma criança e não merecia passar por isso... ninguém merece.
— Eu não sabia o que significava. Ficava olhando pro meu braço sem saber o que estava marcado e isso meio que virou a minha motivação pra poder sair viva daquele lugar – ela fez uma careta, batendo o dedo no local. – Só não sabia que era algo tão ruim assim.
— Não é algo ruim porque não é verdade, Lisa. O antigo preconceito bruxo taxa os nascidos trouxas como ladrões de magia, mas você precisa entender que não tem culpa por ter um dom tão maravilhoso.
— Ah, eu sei. Li isso em um livro que o papai comprou pra mim. Tinha uma nota no final que esclareceu tudo. O nome do livro é...
— Hogwarts, uma história.
As duas sorriram, dizendo o mesmo juntas. Hermione sentiu uma quentura gostosa, orgulhosa daquela garotinha tão curiosa. Voltaram a comer, conversando baixinho e aprendendo coisas novas uma com a outra.
***
Hermione se mexeu inquieta na cama. O quarto escuro e estranhamente silencioso foi um dos fatores por tê-la acordado e o espaço vazio na cama a fez gemer e agarrar o travesseio de Rony. O cheiro de menta bateu em seu rosto forte, as lembranças da noite anterior percorrendo como fogo seu corpo. Diferente do seu namoro com Peter – que de falso tinha apenas o título que todos conheciam e o sentimento dela para ele, era explosivo e coisa de momentos. Peter era legal o problema era Hermione. Ficar com ele era gostoso até certo ponto, e tal ponto quase todas as vezes começava e terminava na cama e o sentimento de usar e abusar do auror magoava ela de tal forma que ignorá-lo era a única maneira. Com Rony não. Com ele era totalmente diferente.
Primeiro que o sentimento estava ali a muito tempo. A tempo demais e mais do que seria certo, tinha que confessar a si mesma. Ele invadia seus pensamentos a qualquer hora do dia, qualquer toque despertava sua atenção e na última missão que fora convocado ela não aguentou e permaneceu na Toca até que ele voltasse, um dia depois do esperado. Mesmo que imprevistos fossem certos na profissão ela não pode deixar que os olhos enchessem de lágrimas quando o viu cambalear para casa, o sorriso sacana brincando em seus lábios.
Ela o amava. Acima de tudo e ignorando as coisas racionais de muita importância em sua vida... mas ela o amava. Agarrou mais o travesseiro, rindo de como o namoro deles não tinha avançado mais do que o apropriado. Mesmo que as mãos já tivessem tocado tudo quanto era parte, a decisão final de não querer unir o corpo ao dele fora dela. Isso era um assunto que Rony queria deixar claro – a decisão era dela e ele esperaria quanto tempo fosse, porque já tinha sua alma e coração junto a dele para sempre; prazeres carnais não chegavam perto dos sentimentos que agarravam Hermione a vida dele até seu último suspiro. Lembrar das palavras dele era como um vitalizador e ela sorriu. O som de algo se quebrando a fez levantar a cabeça do seu cheiro preferido e o xingamento baixo de Rony a fez ter certeza que já era hora de levantar.
Puxou o cabelo em um coque, lavou o rosto e escovou os dentes com uma escova extra. Dirigiu-se pelo corredor até a sala e viu Rony de costas, xingando baixinho enquanto lavava algo na pia. Caminhou até ele, abraçando-o por trás e apertando o rosto nas costas largas de auror.
— Bom dia.
— Bom dia – respondeu. – O que ouve?
— Nada demais – ele apontou com a cabeça a xícara quebrada no chão. – Tentei juntar e acabei me machucando.
Hermione alcançou sua varinha em cima da mesa de jantar e com um movimento os pedacinhos de porcelana foram para o lixo sem qualquer rastro. O ruivo estancou o sangramento do dedo na água corrente e se virou para a namorada. Hermione estava lindamente vestida apenas com uma das suas camisas que ficavam parecendo um vestido em seu corpo esguio, as pernas brancas levando-a de um lado para o outro enquanto tirava da geladeira tudo o que queria comer. Assim como todos os fins de semana, no sábado ao fim do expediente de trabalho eles iam juntos para o seu apartamento e ela dormia com ele – dormir de dormir, com direito a cafuné, beijos e palavras sussurradas. Ela costumar dedilhar os dedos em suas costas em uma massagem tranquila tarde da noite, após um jantarem pizza e quando o cansaço vencia os dois eles dormiam abraçados, Rony sempre agarrando-a por trás.
Era uma rotina imposta em silêncio e ela parecia não ter objeções. Durante a semana trabalhavam e ficavam algumas horas juntos, cada qual em seu canto. Assim, quando o fim de semana chagava parecia que a expectativa da véspera deixava tudo ainda melhor. Um beijo molhado em sua bochecha o acordou.
— Ainda dormindo, Ronald? – ela riu. Rony a puxou, enlaçando sua cintura e ela respondeu ficando na ponta dos pés e puxando pelo pescoço. Ele gostava de momentos assim, simples, em que não era preciso pensar em muita coisa. Fixar em apenas ela, esse era o seu melhor trabalho. Estava tão concentrado em beijá-la que não notou quando a colou sentada no balcão e olhando aquele mar de chocolate, coçou a boca na dela, o coração socando seu peito e fazendo seu corpo latejar de amor. Era isso, não era? Estar apaixonado a ponto de peito doer.
Tomara que seja infarto, pensou.
— Amo você – sussurrou, abraçando sua cintura.
Acima do arrepio que varria toda a sua extensão muscular, Hermione ouviu aquelas duas palavras como um golpe. Amo você. Amo você, ele disse. Abriu os olhos e o seu céu particular a olhava com paixão.
— O que disse?
— Que eu amo você – ele engoliu com dificuldade, agora ficando nervoso.
Responda, Hermione. Mas o quê? Ela queria gritar. O obvio, pensou em seguida. Porque adiar mais? Porque esperar mais três anos e fingir que não senti nada quando senti tudo?
— Eu espero que isso não seja um sonho – sussurrou, tocando o nariz com o dele, abraçando-o como se sua vida dependesse disso. — Por que se for mentira, eu não sei se vou aguentar.
— Eu sei que a ainda não tenho sua confiança. Mas vou lutar a cada dia pra isso.
Hermione se afastou, olhando para ele um pouco nervosa. Naquele momento, com o corpo o mais perto o possível, as dúvidas começaram a evaporar.
— Eu não tive um sonho muito bom essa noite – murmurou. – De alguma forma agente não se entendia mais e eu ia embora. Entrava dentro de um avião e ia embora... e você me deixava ir.
Rony sacudiu a cabeça, tomando o rosto dela entre a mãos.
— Escuta – implorou, mantendo a voz branda. – Eu não sei o que fazer na maioria das vezes e acho que isso é um mal horrível... mas eu sei, e isso é uma certeza absoluta: eu amo você e ir embora a três anos foi idiotice, mas necessário pra mim na época. Mas eu estou aqui e não há nada nesse mundo que me faça sair de perto de você. Apenas você. Se você não me quiser, eu vou embora e não vou atrapalhar a sua vida.
— E me deixar sem meu problema favorito? – ela riu, inclinando o corpo pra frente. – Não seja mal.
— Só você pode me afastar – ele sussurrou.
— Não vou soltar por aí o homem que eu amo, Rony.
O ruivo sorriu, ainda meio bobo.
— Você pode repetir, por favor?
A morena alcançou sua orelha e sorrindo, sussurrou: — Eu te amo.
A gargalhada que ele soltou foi contagiante. Hermione chocou sua boca na dele e os beijos sôfregos que ele deixou em seu pescoço foram deliciosos. O barulho de lábios e a pele logo abaixo de sua orelha a fez surpirar, fechar os olhos e gemer. Puxou o corpo dele para mais perto.
— Não gema assim.
— Então não me torture – rebateu, arranhando sua nuca.
Os olhares de desafio foi a última coisa que fizeram antes de continuar se beijando.
Fale com o autor