Segredos em Um Jardim Élfico
42 O Começo do Brilho
O retorno de Gil-galad a Lindon não teve o som de vitória nem o alívio esperado.
Havia silêncio.
Um silêncio errado, espesso, que se infiltrava nos corredores do palácio como neblina fria. Nenhuma música. Nenhum riso. Apenas passos apressados, olhares baixos e respirações contidas.
Então, como um golpe direto em seu peito, o grito ecoou.
Não era preciso perguntar.
Não era preciso anunciar.
O Alto-Rei já corria.
As longas passagens até as alas reservadas ao nascimento pareceram intermináveis. Cada batida de seu coração ressoava mais alto que seus próprios passos, e o sonho — aquele maldito sonho — agora se erguia inteiro diante dele, sem véus.
Ao entrar, o ar estava pesado de incensos, ervas e tensão.
Zara estava ali.
Pálida. Exausta. Os cabelos antes cuidadosamente presos agora colavam-se ao rosto úmido de suor. Seu corpo tremia em espasmos involuntários, e ainda assim, quando o viu, ela sorriu.
Um sorriso pequeno. Trêmulo. Triste.
— Você… voltou — murmurou, a voz fraca, mas carregada de algo profundo demais para ser descrito.
Gil-galad aproximou-se como se temesse que qualquer movimento brusco pudesse desfazê-la. Tomou-lhe a mão com cuidado, como se segurasse algo sagrado e frágil demais para este mundo.
— Estou aqui — disse, com a voz quebrada. — Não vou a lugar algum.
Ela fechou os olhos quando outra dor a atravessou, arqueando-se contra os lençóis. Um gemido escapou-lhe dos lábios, involuntário, cru.
Ao fundo, Elrond conversava em voz baixa com as amas e curandeiras. Gil-galad não precisava ouvir cada palavra para compreender o peso daquelas trocas de olhares.
Horas haviam se passado.
E o corpo de Zara… não cedia.
— O corpo está resistente demais — murmurou uma das curandeiras, com respeito e temor. — O parto não encontra passagem suficiente.
A frase pairou no ar como uma sentença não dita.
Zara abriu os olhos novamente e, ao perceber o olhar de Gil-galad — aflito, impotente, dilacerado — desviou o rosto.
— Ereinion… — chamou, com dificuldade. — Não fique. Não… não precisa me ver assim.
Ele franziu o cenho, como se aquelas palavras o ferissem mais do que qualquer lâmina.
— Não diga isso — respondeu, aproximando-se ainda mais. — Não existe lugar no mundo onde eu devesse estar além daqui.
Ela engoliu em seco, lágrimas silenciosas escorrendo pelos cantos dos olhos.
— Se algo der errado…
— Não. Tudo vai dar certo! — Ele cortou, firme, quase feroz. — Eu estou com você!
Gil-galad inclinou-se, tocando-lhe a testa com a própria, ignorando todo o decoro real, todo o peso da coroa.
— Você não está sozinha. Nunca esteve. — sua voz era baixa, mas carregada de uma força antiga. — Se este mundo exigir algo de você… exigirá de mim primeiro.
Após alguns instantes, outro grito rasgou o quarto.
Zara apertou a mão dele com força surpreendente, como se aquele fosse o único ponto que a mantinha ancorada à realidade.
— Prometa… — ela arfou. — Prometa que… se eu não conseguir…
— Eu prometo apenas uma coisa — disse ele, com os olhos marejados, mas firmes. — Que lutarei por você. Por vocês dois. Até o último sopro que os Valar me concederem.
Ela chorou então.
Não de medo.
Mas de amor.
E, do lado de fora, a Árvore Dourada pareceu pulsar mais intensamente, como se toda Lindon prendesse a respiração junto deles — aguardando o desfecho de um destino que já não podia mais ser adiado.
A madrugada avançava como um inimigo silencioso, roubando a força de Zara pouco a pouco.
As tochas ardiam baixas. O ar estava espesso, saturado de incenso e temor. O tempo deixara de ter forma — havia apenas dor, respirações curtas e o peso de horas intermináveis.
Zara tremia.
Seu corpo, outrora firme como aço forjado para a guerra, agora parecia lutar contra si mesmo. Cada contração era uma maré violenta que a arrancava do chão, e entre uma e outra vinha apenas o cansaço profundo, aquele que não se vence com coragem.
Ela abriu os olhos com dificuldade e encarou as amas ao redor.
Viu nos rostos delas aquilo que ninguém ousava dizer.
O corpo não cedia.
Um soluço seco escapou de seus lábios. A dor já não era apenas física — era algo que lhe consumia a alma.
— Não… não vai acontecer… — murmurou, mais para si do que para os outros.
Outra onda a atravessou, mais forte, mais cruel. Zara gritou, a voz rasgando o silêncio da madrugada, e quando o eco cessou, restou apenas o choro contido, desesperado.
Então, com um fio de voz, ela disse:
— Abram-me.
O mundo parou.
As amas se entreolharam, pálidas. Uma delas levou a mão ao peito, como se o próprio coração tivesse sido atingido. Aquilo era conhecido. Antigo. Arriscado demais. Um caminho que muitos não voltavam para contar.
Gil-galad ergueu a cabeça de súbito.
— Não! — a palavra saiu como um brado de guerra. —Não! Jamais.
Ele avançou até o leito, ajoelhando-se ao lado dela, segurando-lhe o rosto com mãos trêmulas.
— Não vou permitir isso — disse, a voz falhando. — Não à custa da sua vida.
Zara sorriu de forma quebrada, os olhos marejados, o rosto banhado em suor e lágrimas.
— Eu não… — ela arfou, lutando para respirar — eu não aguento mais…
Outra dor a fez se curvar, e ela apertou o braço dele com força, como se aquela âncora fosse a última coisa que a mantinha ali.
— Meu amor… — sussurrou, entre lágrimas. — Se esse for o custo… vale o preço.
Ele balançou a cabeça, negando, o desespero começando a despedaçá-lo por dentro.
— Não diga isso. Não ouse medir sua vida assim.
Mas ela continuou, a voz fraca, porém firme como nunca:
— Assim como foi em seu sonho… não será o fim.
As palavras o atravessaram como lâminas.
O sonho.
A profecia.
A voz antiga.
Gil-galad sentiu o chão lhe escapar.
Levantou-se abruptamente, incapaz de suportar mais aquela visão — a mulher que amava sendo consumida diante de seus olhos, enquanto ele, Alto-Rei, nada podia fazer.
Títulos. Honrarias. Aquilo naquele momento não lhe servia para nada!
Saiu da sala como um homem ferido, o manto arrastando-se pelo chão, os ombros curvados por um peso maior que qualquer coroa.
Do lado de fora, apoiou-se contra a pedra fria do corredor, o rosto escondido entre as mãos. O silêncio ali era cruel, quebrado apenas pelos ecos distantes dos gemidos de Zara.
Foi então que Elrond se aproximou.
O arauto pousou a mão no ombro do rei com firmeza serena, mas seus olhos também carregavam medo.
— Ela ainda respira — disse em tom baixo. — Ainda luta.
Gil-galad ergueu o olhar, devastado.
— Estou perdendo tudo — murmurou. — Se a perco… se os perco…
— Não — interrompeu Elrond, com suavidade, mas convicção. — Ainda não.
Ele inclinou-se levemente, como quem fala algo sagrado.
— Peça-lhe mais uma vez. Uma última vez. — respirou fundo. — Antes que o destino cobre um preço que nenhum de nós está pronto para pagar.
Gil-galad fechou os olhos, o peito em chamas.
Dentro da sala, Zara lutava.
Dentro dele, um rei se despedaçava.
E sobre Lindon, as estrelas pareciam observar em silêncio, aguardando para decidir se aquela madrugada seria lembrada como nascimento… ou luto.
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