Segredos em Um Jardim Élfico
37 Outro Sonho
O primeiro sinal, ainda que mais claro, foi pequeno demais para causar alarme.
Zara estava nos jardins ao fim da manhã, caminhando lentamente entre as roseiras élficas, quando o mundo pareceu inclinar-se. Não foi dor. Não foi medo.
Foi vazio.
O ar rareou, as cores perderam o contorno, e antes que pudesse chamar alguém, seus joelhos cederam.
O som foi seco.
Um corpo contra a relva.
— Minha Rainha!
Quando abriu os olhos, havia mãos demais. Vozes baixas demais. E o céu acima girava como se não a quisesse ali.
Gil-galad chegou antes que qualquer curandeiro ousasse tocá-la.
Ajoelhou-se ao lado dela, ignorando títulos, ignorando olhares.
— Zara. — chamou, a voz contida demais para quem estava à beira do pânico. — Olhe para mim.
Ela respirou fundo, confusa.
— Foi só… uma tontura. — murmurou, tentando sentar-se. — Eu estou bem.
Ele não respondeu.
A mão dele permaneceu firme em suas costas, como se temesse que ela desaparecesse se a soltasse.
Os olhares começaram ali.
Depois vieram os enjôos repentinos.
Não apenas ao amanhecer — como ela tentava justificar — mas no meio de reuniões, durante refeições, ao sentir o cheiro de ervas que antes apreciava.
Zara passou a comer de forma estranha.
Dias em que mal tocava o pão.
Outros em que pedia mais, e mais, e mais — frutas vermelhas, caldos quentes, coisas simples, quase humanas demais para o gosto élfico.
As amas cochichavam.
Os curandeiros trocavam olhares longos demais.
E o Conselho…
O Conselho já não disfarçava.
— A Rainha parece… fragilizada. — comentou um deles, durante uma reunião vespertina. — Mudanças assim exigem prudência.
— Prudência? — Elrond respondeu, com frieza polida. — Ou julgamento prematuro?
O silêncio que se seguiu foi resposta suficiente.
Naquela noite, Zara sentou-se sozinha diante do espelho.
Observava o próprio reflexo como se fosse de outra pessoa.
As mãos, quase involuntárias, repousaram novamente sobre o ventre.
Não havia confirmação oficial.
Nenhuma palavra dita.
Mas o mundo já havia decidido por ela.
Ela se levantou e caminhou até a janela.
Lindon brilhava.
Linda.
Hostil.
— Eles não vão me deixar esquecer. — murmurou. — Nem deixar essa criança existir em paz.
Quando Gil-galad entrou, encontrou-a de costas, os ombros rígidos.
— Você está pensando em partir. — disse ele, não como pergunta.
Zara não se virou.
— Estou pensando em proteger. — respondeu. — E aqui… eu não sei se consigo.
Ele se aproximou devagar.
— Você não precisa decidir agora.
Ela riu, amargamente.
— O Conselho já decidiu por mim, Erenion. Eles só esperam que o corpo fale mais alto.
Virou-se então, os olhos firmes, apesar do cansaço.
— Se isso for verdade… — a voz falhou por um instante. — Eu não quero que meu filho cresça sob olhares que o tratem como erro. Ou ameaça. Ou curiosidade política.
Gil-galad sentiu o chão se mover sob os pés.
— Você está falando em deixar Lindon.
— Estou falando em deixar o mundo élfico. — disse ela. — Se for preciso.
O silêncio caiu como uma lâmina.
— E eu? — perguntou ele, finalmente.
Zara aproximou-se, tocando-lhe o rosto com ternura dolorosa.
— Você… é a única razão pela qual ainda não parti.
Ela encostou a testa no peito dele.
— Mas amor não basta quando o mundo decide ser cruel.
Gil-galad fechou os braços ao redor dela, como se pudesse esconder não apenas Zara — mas o futuro — dentro de si.
E naquela noite, enquanto Lindon sussurrava rumores que já não se importavam em ser discretos,
Zara Dulórien começou a entender que o maior perigo não vinha das sombras externas, mas de um reino que temia aquilo que não podia controlar.
Gil-galad caminhava.
Não sabia quando havia adormecido, nem em que momento deixara o peso da vigília para trás. Sabia apenas que seus pés tocavam os caminhos antigos dos jardins de Lindon — aqueles que levavam à Árvore Dourada, onde o tempo parecia dobrar-se sobre si mesmo.
A luz não vinha do céu.
Era suave, leitosa, como memória.
As folhas sussurravam, mas não com o vento.
Sussurravam nomes.
Ele ouviu vozes.
Primeiro, distantes — ecos do passado:
— Erenion…
— Filho de Fingon…
— Última esperança dos Noldor…
Depois, mais próximas:
— Estabilidade.
— Linhagem.
— O futuro do reino exige prudência.
E então, misturadas, outras vozes — algumas amigas, outras duras como lâminas:
— Rei sem herdeiro.
— Escolha mal feita.
— Amor não governa reinos.
Gil-galad levou a mão ao peito, sentindo o peso das eras comprimindo-lhe o coração.
— Basta… — murmurou.
Mas os sussurros se intensificaram.
Até que, por entre eles, algo diferente se fez ouvir.
Um som frágil.
Quase imperceptível.
Um choro baixo.
Ele parou.
O mundo silenciou.
À frente, sob a Árvore Dourada, os galhos haviam se curvado de forma impossível, formando uma espécie de abrigo natural — uma manjedoura viva, feita de folhas douradas, ramos entrelaçados e tecidos claros que pareciam tecidos pelo próprio ar.
Ali, envolto em panos simples, jazia um bebê.
Um menino.
Pequeno demais para aquele mundo antigo.
Gil-galad sentiu o fôlego escapar.
Não havia dúvida.
Não precisava de palavras.
Ele sabia.
— Meu filho… — sussurrou, a voz quebrando.
Zara não estava ali.
Nenhum outro ser caminhava pelos jardins.
Apenas ele… e aquela vida recém-chegada ao tecido do destino.
O bebê tremia levemente.
O frio da noite tocava-lhe a pele.
Gil-galad aproximou-se com receio — não do menino, mas do peso do gesto.
— Eu… não sei se sou digno. — murmurou, ajoelhando-se. — Não sei se sei protegê-lo.
Ainda assim, estendeu os braços.
Quando o aninhou junto ao peito, algo mudou.
O choro cessou.
O calor se espalhou.
O coração do rei bateu em um ritmo diferente — mais lento, mais profundo, mais humano do que jamais fora.
Sem perceber, Gil-galad começou a cantar.
Uma canção antiga.
Tão antiga quanto suas primeiras lembranças.
Era a mesma que ouvira quando criança, nas noites frias, quando o mundo ainda não exigia dele mais do que existir.
A melodia fluiu suave, como água sobre pedra:
— Nai hiruvalyë melmë… Que o amor te encontre…
O bebê suspirou, os dedos pequenos fechando-se no tecido de sua túnica.
Gil-galad sentiu as lágrimas escorrerem sem resistência.
Então, a luz mudou.
As folhas da Árvore Dourada estremeceram.
E uma voz ecoou — não como som, mas como verdade:
“Não abdique daquilo que o destino te concede, Alto-Rei.”
Gil-galad ergueu o olhar.
A voz continuou, firme e antiga:
“Teu filho sempre foi o propósito de todas as tuas eras.
Cada perda te moldou.
Cada espera te preparou.
Cada amor te conduziu até aqui.”
O rei apertou o menino contra o peito.
— E Zara? — perguntou, com medo. — Onde está ela?
A resposta veio como brisa quente:
“Ela é o início.
Tu és o caminho.
Ele… é o amanhã.”
O jardim começou a se dissolver em luz.
O choro não voltou.
A canção permaneceu.
Gil-galad despertou com o som da própria respiração irregular.
O quarto estava em silêncio.
Mas seus braços ainda sentiam o peso.
O calor.
A certeza.
Ele levou a mão ao rosto, trêmulo.
— Eu não vou abdicar… — murmurou para a escuridão. — Nem de você… nem do que está por vir.
E em algum lugar entre o sonho e a vigília,
o futuro havia sido tocado.
Não imposto.
Reconhecido.
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