Segredos em Um Jardim Élfico

9 O Combate Nem Sempre É o Fim


O sol já começava a declinar quando Zara resolveu sair do quarto.

A cama quente e fofa não era páreo para sua inquietação.

Aquela sensação de estar sendo observada… de estar presa em cortinas douradas… a sufocava.

Precisava de ar.

De espaço.

De algo que não brilhasse sem motivo.

As amas correram atrás dela assim que a viram atravessando o corredor.

— Senhora Dulórien, talvez devesse descansar…

— Há jardins tranquilos onde poderia meditar…

— O treinamento militar não é permitido a…

Zara ergueu uma mão.

— Amas. Eu sei andar. Eu sei respirar. E sei lutar. Não preciso de proteção nem supervisão.

Elas se entreolharam, aflitas, mas não ousaram contradizê-la abertamente.

A meio-elfa seguiu pelas passarelas de pedra clara, deixando o mar ao fundo cantar sua melodia suave. Até que ouviu o som que mais reconhecia no mundo:

Espadas.

Treinos.

Choques de metal.

Vozes de comando.

Seu corpo inteiro reagiu como se tivesse reencontrado o lar.

— Aí sim — murmurou, sorrindo de lado, como uma criança travessa que encontra algo precioso demais.


A clareira de treino ficava cercada por árvores altas e banners élficos.

Soldados jovens, a maioria talvez sem mais do que cinquenta ou sessenta anos, praticavam golpes coordenados sob as orientações de um elfo alto, de armadura leve e cabelos presos em um rabo de cavalo.

O capitão.

Quando Zara se aproximou, o treino parou.

Olhares curiosos, desconfiados, alguns francamente receosos.

Um jovem elfo sussurrou para outro:

— É ela… a Dulórien… a que derrotou a besta no campo…

Zara fingiu não ouvir.

Mas ouviu tudo.

O capitão se aproximou.

— Visitante de Eredhîr? — perguntou, com formalidade calculada. — Esta área é reservada aos treinamentos dos oficiais do exército do Alto-Rei.

Zara deu um passo adiante, abrindo um sorriso de desafio.

— Eu treino. Vocês treinam. Serve.

Alguns elfos engasgaram com o ar.

O capitão ergueu uma sobrancelha — e sorriu de lado.

— Tem confiança, meio-elfa.

— Tenho habilidade — respondeu ela, sem piscar. — Quer ver?

O murmúrio que se seguiu parecia vento passando entre folhas tensas.

O capitão pegou duas lâminas de treino.

Estendeu uma para ela.

— Está desafiando a guarda de Lindon?

— Estou aceitando a provocação — corrigiu Zara, pegando a espada com maestria.


Eles ficaram de frente um para o outro.

Os jovens soldados se aproximaram, animados, formando um círculo.

As ama-elfas, expectadores ao fundo, estavam prestes a desmaiar.

— Preparado? — ela perguntou.

— Sempre.

O golpe inicial veio rápido.

Zara desviou antes mesmo de pensar.

Defendeu com o antebraço, girou, recuou um passo e atacou pela lateral.

O capitão abriu os olhos em admiração.

— Veloz.

Ela sorriu — selvagem.

— Ainda não viu nada.

O combate se intensificou.

Os elfos observavam como se assistissem a uma dança sagrada.

Zara era pura agilidade, pura precisão.

Se esquivava como se conhecesse cada movimento antes de acontecer.

Girava o corpo de forma fluida, quase felina.

O capitão tentava acompanhá-la — era bom, muito bom — mas ela era melhor.

E quando ele cometeu um único, minúsculo erro — peso demais no pé direito — Zara entrou por baixo da guarda dele, tocou o peito com a lâmina de treino e murmurou:

— Morto.

Silêncio total.

Então…

explosão de vozes, exclamações, risos, palmas.

— Impressionante!

— Ela o venceu!

— Nunca vi alguém se mover assim!

— A Dulórien é tão habilidosa…

O capitão riu, ofegante, tocando o local onde ela o acertara.

— Que golpe foi esse?

— Um que aprendi com trevos — respondeu ela. — Eles não perdoam erro nenhum. Eu também não.

Os elfos entreolharam-se, em êxtase.

Ela tentou não sorrir.

Mas era impossível ignorar a adrenalina pura correndo nas veias.

Aquela sim era sua zona segura.

Sua casa.


Ao anoitecer, Zara apareceu no grande salão.

Exausta.

Cabelos um pouco desalinhados.

Roupas com marcas de treino.

Passo pesado.

E ao contrário da explosão que fora mais cedo, agora estava… estranhamente silenciosa.

Gil-galad já estava sentado à cabeceira, Elrond ao lado.

O Alto-Rei ergueu os olhos quando ela entrou.

E, embora mantivesse a postura impecável…algo em sua expressão deixou claro: ele já sabia.

Ela se aproximou, inclinando-se suavemente e retomando o mesmo lugar ao qual se acomodou anteriormente mais cedo.

— Ouvi dizer — começou Elrond, em tom casual, mas com sorriso evidente — que os jovens soldados tiveram um treino… significativo hoje.

Zara engoliu seco e encolheu os ombros.

— O capitão me provocou. Eu só respondi.

O canto dos lábios de Gil-galad se curvou — discretamente, perigosamente — em um quase sorriso.

— Dizem que o capitão caiu duas vezes — comentou ele, frio como uma superfície de prata.

— Uma — corrigiu ela rapidamente. — A segunda ele tropeçou tentando me acertar. Não foi minha culpa.

Elrond tossiu para esconder o riso.

Observou os elfos à mesa, os sussurros, a disciplina, a elegância.

Tudo tão… leve.

Tudo tão… diferente do peso que carregava na alma.

Ela comeu em silêncio.

Não olhou para Gil-galad.

Mas sentia — intensamente — o olhar dele repousando sobre ela.

O rei também tentou se concentrar na refeição.

Mas a notícia de sua habilidade, de sua força, de sua destreza…somava-se às lembranças do sonho.

À voz doce que o chamara por outro nome.

E ele tentava, com toda a força das eras, não desejar se aproximar mais do necessário.


A lua alta iluminava Lindon quando Gil-galad deixou seus aposentos — incapaz de dormir.

As visões, os pensamentos, a sensação de déjà vu queimavam dentro dele.

Foi então que a viu.

Caminhando pelos jardins silenciosos.

Sozinha.

Com o rosto suavizado pela luz prateada.

Com uma túnica leve branca e cabelos soltos.

Zara movia-se devagar, como se o mundo tivesse parado só para ela.

Olhos atentos às flores noturnas, às árvores altas, ao canto distante do mar.

Havia algo quase sagrado nela naquele momento.

Algo que fez o coração do rei vacilar.

Ele desceu os degraus com cuidado.

Ela se virou ao ouvir passos — instintiva, defensiva.

Mas relaxou ao vê-lo.

— Alto-Rei — saudou ela, numa inclinação mínima, cansada demais para formalidades.

— Zara — disse ele, em voz baixa, quase íntima.

Ela observou como ele parecia mais… acessível ali. Ele ainda usava trajes dourados e o manto mas aquilo que de dia o destacava e o exibia notoriamente como o líder do povo Noldor, naquela noite eram apenas acessórios que destacavam a beleza daquele elfo.

Zara observava os olhos, escuros e profundos, os cabelos “excessivamente divinos”, a expressão calma com um quê de inquisitiva. O nariz perfilado, como se esculpido pelos deuses. A boca tão bem desenhada, tão convidativa…

Zara, pare de pensar isso…

Eles ficaram alguns segundos se estudando sob a lua. Ele tentando desvendá-la e ela lutando contra pensamentos nada apropriados.

Então ele deu um passo mais perto.

— Não consegue dormir? — perguntou ele.

Ela respirou fundo, recobrando a consciência no presente e desviando o olhar para o jardim ao redor.

— Esse lugar é tão… bonito que irrita. — Ela riu fraco. — Não estou acostumada com tanta paz. Me deixa inquieta.

— Paz pode ser estranha — respondeu Gil-galad suavemente. — Especialmente para quem viveu tanto na sombra da guerra.

Ela olhou para ele por um segundo longo demais.

— Você fala como alguém que entende.

— Entendo — disse ele, com sinceridade desarmante.

Zara desviou o olhar para as árvores.

— É difícil acreditar que um lugar como este exista — murmurou. — Tudo aqui parece leve. E eu… não consigo ser isso.

Gil-galad deu mais um passo.

Estava próximo o bastante para que a luz da lua refletisse nos olhos dela.

E para que ele sentisse algo profundo, antigo e inexplicável despertando dentro dele.

— Zara — disse ele, com calma — a luz de Lindon não pede que ninguém seja leve. Apenas que seja… verdadeiro.

Ela ergueu os olhos.

E pela primeira vez, não havia desconfiança, nem ironia.

Havia vulnerabilidade.

E algo mais.

— Verdade pode ser perigosa — murmurou ela.

— Às vezes — respondeu o rei — é o único caminho.

Ficaram ali, diante um do outro, enquanto a lua começava a descer.

E quando o vento soprou entre as árvores — suave, quase como uma canção — Gil-galad sentiu algo.

Aquela era a primeira conversa verdadeira deles.

A primeira conexão real.

E ele soube, no fundo de sua alma imortal: aquela mulher mudaria tudo.