Segredos da 3ª guerra

1 O quão longe podemos ir?


Notas iniciais
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A primeira guerra mundial mostrou que o homem não é um ser completamente sociável. A segunda mostrou o quão longe podemos ir para estabelecer superioridade sobre os outros. A terceira veio para quebrar qualquer laço de empatia restante.

Não se sabe se foi por problemas econômicos, políticos ou pessoais. O fato é que os países dos continentes europeu e asiático atacaram os Estados Unidos, potência mundial daquele tempo. Uma única arma (na verdade, ainda um protótipo inacabado da usada atualmente) foi suficiente para dizimar um décimo da população do país.

Chamavam-no Autômato. De longe parecia um robô, de perto era um pesadelo. Uma reprodução metálica de um soldado. Imune à tecnologia militar da época. Sem fome, sem frio, sem sono, sem piedade. Ele destruía tudo em seu caminho. Outros países uniram esforços para destrui-lo. Assim nasceu a União de Países Revolucionários (UPR), formada pelos países das Américas, da África e da Oceania. E no sétimo dia ele morreu. “Morte” não é a palavra certa, ele simplesmente parou de funcionar. Houve dois dias de celebração, mas os militares sabiam que essa não seria a última besta que teriam que enfrentar...

***

— Agente Sonia — um conjunto de lasers varria cada centímetro do corpo dela.

— Identidade confirmada. Acesso à área de inteligência W permitida. — disse a voz mecânica vinda da porta automática.

As portas se abriram lateralmente e ela entrou na sala. Três outras pessoas estavam sentadas ao redor de uma mesa ouvindo atentamente o agente que estava de pé.

— De alguma maneira a União de Países Revolucionários conseguiram conter os avanços no sudoeste africano. — falou o agente Wilson, que era o encarregado pela central de inteligência W.

— Isso não é possível! Os Autômatos são virtualmente invencíveis. A tecnologia dos outros países não é párea contra eles. — interrompeu Martin.

— É isso que devemos descobrir, certo? — completou Lency.

— Sim. Nossa missão é infiltração na agência de pesquisa e desenvolvimento da UPR, localizada em Washington D.C., e descobrir o que eles estão usando contra os Autômatos. — Wilson manipulava o monitor holográfico fazendo-o mostrar os detalhes da missão. — Sonia, Martin e Normam ficam com o trabalho de campo. Lency e eu ficamos com a estratégia e informação e armazenamento de dados. Alguma pergunta?

Norman, que até agora não tinha falado uma só palavra, ergueu o braço.

— Como é que três Agentes da Aliança Euro-Asiática vão entrar no lugar mais protegido dos Estados Unidos?

— Isso, meu caro Norman, é o que nos torna a melhor parte do exército. — respondeu Wilson.

Cada um pegou uma pasta de cima da mesa e saiu.

***

Sonia estava no quarto analisando seus novos documentos para a missão. No momento em que pisasse em solo americano ela não seria mais a mesma. Ela seria Amber Knoffingam, pesquisadora assistente do Dr. Collins. Sonia era experiente, não era a primeira missão dela em que sua vida estaria diretamente ligada ao sucesso da missão. Ela já participou de tantas missões na UPR que teve que mudar completamente seu visual para não ser reconhecida. Seus longos cabelos loiros deram espaço para cachos curtos cor de caramelo. Ela também usaria lentes azuis para disfarçar seus olhos verdes.

Lency entrou no quarto dela. Elas não se consideravam amigas, mas eram a coisa mais próxima disso dentro da área de inteligência W.

— Porque você mudou também? Não era para você ficar na parte chata? — Sonia perguntou.

— Ser da equipe de apoio não é um trabalho chato. — ela limpou a lente de seus óculos na blusa. — E sim. Arranjaram-me até uma identidade falsa. Sério? Tinha que ser ruiva? Não posso nem escolher meu próprio disfarce?

— Isso ainda é por causa daquele ruivinho que você tinha uma queda e te deu um bolo?

— Sonia, eu tenho cara de quem fica sofrendo por trágicos romances do passado. — Lency encarou Sonia, que a encarou de volta. — Sim, é por causa do Noam mesmo.

As duas riram.

— Mas não é isso que eu vim falar com você, Sonia. — a expressão de Lency ficou assustadoramente séria. — Tem algo nessa missão que não se encaixa. Estou sentindo que tem mais coisas por trás disso do que podemos imaginar.

— Lá vem você com essa conversa de conspiração de novo?

— Pense comigo: Autômatos nunca apresentaram uma falha sequer. Mesmo com o desligamento em sete dias, eles são as armas mais perfeitas que poderíamos criar. Então como eles estão sendo parados? E porque existem tantas áreas de inteligência? O que tem nas áreas de A até V?

— Não sei, e sinceramente não me interessa. Deixa de paranoia, Lency. Amanhã a missão começa e algumas de suas respostas podem ser respondidas.

— Sonia, eu queria ser tão ignorante e despreocupada quanto você.

— Quê?

— Eu disse: Boa noite, Sonia. — Lency saiu do quarto sorrindo.

Não era a primeira vez que Lency enchia a cabeça de Sonia de teorias estranhas (e incrivelmente bem fundamentadas), mas isso nunca tirou o sono de Sonia. Até hoje. Pesadelos abstratos inundaram a mente dela até que a manhã viesse despertá-la.

No refeitório, ela encontrou seus companheiros de missão (os únicos habitantes daquela área além de outros três cientistas) exceto o agente Wilson, o que não era estranho, ele quase nunca saia da base de operações. Parece que todo mundo teve que mudar de identidade. Martin raspara toda a cabeça e estava com um curto cavanhaque. Normam usava óculos de lentes menores do que era acostumado e espetou o cabelo escuro para cima, quem o visse agora duvidaria que ele fosse um nerd viciado em jogos eletrônicos e parafernálias tecnológicas.

Todos tomaram seu café da manhã em silêncio. Apesar de passarem anos trabalhando juntos, eles não tinham nenhum laço de união. Isso era incentivado pelo programa de treinamento. Não poderiam arriscar a missão tentando salvar um agente que era seu amigo.

Às onze horas estavam prontos para partir. Três mini submarinos foram preparados para Sonia, Martin e Normam, quer dizer, Amber, Ronald e Bernard. Nenhum deles sabia, mas essa missão mudaria definitivamente o rumo da guerra.

***

Os submarinos tinham um avançado sistema de camuflagem dos sensores de detecção. Os três desembarcaram na margem dos Estados Unidos, pelo estreito de Long Island. De lá seguiram para Washington D.C..

Na agência de pesquisa e desenvolvimento da UPR eles se separaram. Tinham que encontrar as informações o mais rápido possível. Quando Amber entrou na sala do Dr. Collins ela usou programas de hacker para descobrir arquivos que a ajudassem na missão.

— Hã? Quem é você e o que pensa que está fazendo no meu computador pessoal? — disse o homem que a surpreendera abrindo a porta.

— Ah, me desculpe Dr. Collins. Eu sou a sua nova assistente. Meu nome é Amber Knoffingam. — mesmo de costas seus dedos percorriam o teclado. Ela não podia ser pega, pelo menos não agora.

— Certo, mas você não respondeu a minha pergunta. O que está fazendo mexendo no meu computador? — ele afastou Amber da bancada com uma mão.

A tela do computador mostrava algumas tabelas e cálculos.

— Bem, eu comecei meu trabalho revisando seus artigos sobre o desenvolvimento do córtex humano fora do crânio. As equações do senhor tinham a margem de erro de quinze por cento, eu diminuí a taxa de atividade sináptica considerando que o cérebro não exerceria mais as funções habituais.

O Dr. Collins ajustava seus óculos analisando cuidadosamente os dados que Amber adicionara no seu artigo, como se não acreditasse em seus próprios olhos. As fórmulas diminuíram a margem de erro para quatro por cento. Silenciosamente, Amber agradeceu as aulas que Lency lhe dera antes da missão. Sonia era péssima em anatomia humana, mas sua nova identidade tinha que ser especialista nesse ramo. A parte difícil não foi digitar de costas, e sim lembrar-se de todas as explicações de Lency

— Bom, muito bom. Onde aprendeu isso? Minhas últimas assistentes eram realmente umas antas no assunto.

— Meus pais eram cientistas dessa área. Acabei acompanhando o trabalho deles. — mentiu Amber. — Sem querer se intrometida, mas já sendo, no que o senhor está trabalhando?

— Oh, isso não é intromissão. Acho até que pode me ajudar nisso. — ele se aproximou e apertou a mão dela. — Bem vinda à equipe de pesquisa do funcionamento dos Autômatos e combate a expansão do controle da Aliança Euro-Asiática.

***

Amber não podia acreditar que tinha acertado em cheio. O Dr. Collins acabara de lhe dar a chave do segredo mais bem guardado de toda a UPR. A missão iria acabar mais rápido do que ela esperava.

Ela o seguiu pelo corredor até uma sala com uma parede de vidro. Nela cerca de doze cientistas andavam desordenadamente carregando pastas e pranchetas. Vários computadores disputavam espaço com uma versão reduzida de um laboratório de química. Do outro lado do vidro estava “ele”. Ela nunca tinha visto um de tão perto, mas tinha certeza de que sabia o que era.

O Autômato estava deitado sobre uma mesa e duas pessoas com trajes tentavam abri-lo com motosserras. Faíscas voavam para todo o lado e o som dos dentes das motosserras se quebrando na estrutura do Autômato era estridente demais.

— Ainda não descobrimos o que tem dentro. Armadura deles é bem resistente. — disse Collins notando a cara de surpresa de Amber.

— E-e-eu não acredito. Como conseguiram capturar um?

— Eles se autodestroem quando se passa sete dias, mas esse aqui parece ter dado algum defeito antes desse tempo. Encontramo-lo muito longe da linha de frente dos outros Autômatos. Desde então usamos ele para testes. Não temos nada confirmado, mas desenvolvi algumas teorias que estão nos ajudando a controlar a invasão de Autômatos.

Essa tal Dr. Collins foi quem descobriu o segredo para parar o avanço das tropas da AEA. Amber planejava os próximos passos. Ela teria que dar um jeito de apagar todas as pesquisas dele e consequentemente matá-lo, além de destruir o Autômato capturado. Infinitas possibilidades passavam por sua mente, mas ela ainda tinha que descobri o que eles sabiam.

— Dr. Collins, o que descobriu sobre ele? — disse Amber, tentando mostrar casualidade e desinteresse.

— É apenas uma teoria, mas é embasada em alguns testes anteriores. — ele deu uma breve pausa. — Realmente não quero acreditar que é apenas uma teoria. Tem que haver uma explicação melhor. Eles não devem ser tão cruéis para chegar a esse ponto.

— O que é que é tão ruim assim? —Dr. Collins parecia realmente furioso.

— Transformar pessoas naquilo, Amber. — ele disse a segurando pelos ombros.

Mesmo sem entender direito o que ele acabara de dizer, Amber ficou chocada. Collins a soltou e se afastou. Ele deu um suspiro e retirou os óculos para secar as lágrimas na manga do jaleco.

— Me desculpe. Eu acabo me descontrolando quando penso que minha hipótese pode estar certa. Sei que é seu primeiro dia, mas acho que tem que está preparada para o que está acontecendo aqui, Amber.

— Eu nem entendi o que o senhor acabou de dizer. Como assim, pessoas?

O Dr. Collins a conduziu até um dos computadores.

— O que vê aqui, Amber? — ele mostrou alguns vídeos e imagens semelhantes a imagens de encefalogramas.

— Isso parece um cérebro em funcionamento. Esse cérebro demonstra atividade completa quase o tempo todo, o que é impossível já que não usados algumas áreas simultaneamente.

— Está certa. Nenhuma pessoa normal poderia fazer isso. Entretanto essa “coisa” consegue fazer isso.

— O que? Está dizendo que os Autômatos tem um cérebro. Não é possível. Se não conseguiram retirar a armadura, como conseguiram fazer esse encefalograma nele?

— Eu criei um dispositivo experimental que recolhe traços de atividade cerebral. Esse dispositivo detecta ondas sinápticas emitidas pelo cérebro quando pensamos e registra nesse computador. Isso é um cérebro. Um cérebro dentro de uma máquina.

Cada palavra do Dr. Collins confundia mais a cabeça de Amber. Ela entendia tudo que ele falava, mas suas explicações pareciam totalmente surreais para ela. E se fosse verdade? E se a Aliança Euro-Asiática estivesse, de alguma forma, produzindo máquinas com cérebros humanos? Amber estaria do lado errado nessa guerra?

— Tenho que ir, Dr. Collins. Tchau. — disse Amber.

— Espera, para onde você vai. Ainda não terminamos o trabalho. — as palavras dele se perderam, pois Amber já tinha saído da sala.

Ela corria desesperadamente pelo corredor.

— Lancy, você ouviu isso? — Amber perguntou ao seu ponto eletrônico.

— Sim, mas não sei se isso é possível. Todos os registros sobre ao Autômatos falam sobre armas robóticas.

— E se eles estiverem mesmo fazendo isso? Isso não é certo. Não posso continuar com essa dúvida. Tenho que ver por mim mesma.

— O que você vai fazer?

— Eu vou para a área de inteligência A. — Amber pegava um carro na garagem da agência de pesquisa e, conectando dois fios, o ligou.

— Cuidado, Amber.

— Pare de me chamar por esse codinome! Enquanto eu não descobrir a verdade eu não faço mais parte da central. — ela tirou o ponto eletrônico do ouvido e o esmagou.

***

— Agente Sonia — o sistema de lazers era similar ao da central em que ela trabalhava.

— Identidade confirmada. Acesso à área de inteligência A permitida. — disse a voz mecânica vinda da porta automática.

Sonia estava nervosa. Tecnicamente não era proibido, mas nenhum agente nunca entrou em outra área de inteligência que não fosse a sua. Ela não sabia exatamente oque estrava procurando, nem sabia se tinha algo aqui que lhe desse uma resposta, mas seu instinto era uma coisa que ela não costumava ignorar.

Depois de três tentativas frustradas ela encontrou a porta certa. O laboratório era dividido em duas partes separadas por uma parede de vidro, mas diferente da agencia de pesquisa nos Estados unidos, aqui não tinha apenas um Autômato, tinha milhares. E o outro lado do laboratório não tinha apenas máquinas, havia o mesmo número de homens deitados em macas, do lado dos Autômatos. O estômago de Sonia revirou-se. Era a cena mais assustadora que ela vira na vida (e ela já tinha visto muita coisa). Braços robóticos presos ao teto estavam mexendo na cabeça dos homens que pareciam anestesiados. Pequenas serras e bisturis abriam a cabeça deles e cuidadosamente retirava seus cérebros e os implantava no topo do que seria a cabeça dos Autômatos.

— Lamento que tenha visto isso, Sonia. — disse uma voz masculina atrás dela. — Você era uma boa agente, mas não podemos deixar o segredo vazar.

Sonia virou-se rapidamente em direção à voz.

— Wilson?! O que você está fazendo aqui?

— Vim lhe impedir de estragar nossos planos.

— Nossos planos?

— Sim, o que você acha que os países da AEA vão pensar que estamos transformando os seus soldados nas mais perfeitas máquinas de guerra. Eles são muitos estúpidos para perceber que a vitória exige certos sacrifícios. — Wilson disse com desdém.

—Isso é... Desumano! Você está os matando. Sete dias é o máximo que conseguiram de vida para eles?

— infelizmente sim, mas nesse tempo eles se tornam imbatíveis. Essas pessoas são a nossa vitória. Nenhum exército é páreo para eles.

— Eles não são mais pessoas! — gritou Sonia. — Não se pode ganhar quando há tantas perdas assim!

— Perdas? A Ásia tem produzido a maioria de nossas cobaias, mesmo sem perceberem. Pegamos criminosa sentenciados à morte e transplantamos seus cérebros. Com um chip de comando podemos controlar a capacidade mental de um humano e a resistência de uma máquina. Também resolvemos o superpovoamento de algumas áreas. Não importa do ponto de vista, sempre há ganhos. E é claro que eu, sendo responsável pelas áreas de inteligência, acabo recebendo uma grande recompensa.

— Eu não vou deixar você continuar com isso. Você não pode decidir quem vive e quem morre. VOCÊ NÃO É DEUS!

Wilson apenas riu.

— Deus não existe! O que existe é o dinheiro e o poder que ele pode trazer.

— Mesmo se você me matar a Lency vai descobrir tudo. Ela é esperta, você não vai manter esse segredo para sempre...

— Lency está morta. Não existe mais nenhum resquício de que um dia existiu a área de inteligência W, ou melhor, quase nenhum. — ele tirou uma arma da cintura e apontou na direção dela.

Ela podia sentir que eram seus últimos segundos de vida. Uma vida que foi apenas desperdiçada. Seu último receio foi não ter uma chance de se redimir. O que aconteceu com aquelas pessoas que acabaram virando monstros não foi culpa dela, mas ela sentia o peso de ter ajudado Wilson, mesmo que indiretamente.

— Adeus, Sonia! — disse Wilson.

Ela fechou seus olhos e acabou perdendo o que aconteceu no segundo seguinte. O agente Wilson fora atingido nas costas por um extintor de incêndio e desmaiou. Ela mantinha os olhos fechados até alguém pegar em sua mão e ajuda-la a levantar.

— Vamos, temos que sair daqui agora. Tem uma bomba vindo para cá nesse instante. — Normam a puxava pelo corredor apressadamente.

— O que você está fazendo aqui? Eu pensei que Wilson tinha matado você. — Sonia disse, ainda um pouco desorientada.

— Eu sou um agente duplo. A UPR também tem seus espiões, Sonia. Lency me contou o que você estava planejando antes que Wilson... Bem, não temos tempo de conversar. Você me ajudou a descobrindo o segredo dos Autômatos.

***

Com as informações que Normam e Sonia deram a UPR foi capaz de derrotar definitivamente a AEA. Todos os lugares onde eram fabricados os Autômatos foram destruídos, assim como todos os arquivos relacionados a eles. Aos poucos a guerra foi virando apenas mais uma nos livros de História. Os humanos voltaram a ter uma pseudo-paz novamente. Quem sabe quanto tempo isso irá durar, afinal PAZ é um substantivo abstrato.

Notas finais
O que acharam? Estou em uma vibe de escrver one-shoots de ficção, se você tiver alguma sugestão de tema que gostaria de ler, pode dizer.Você acha que isso poderia realmente acontecer? Ou acha que a 3ª guerra mundial será de outra forma? E não se esqueça: #DeixeUmAutorFeliz
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!