Segredos Fatais
11 Capítulo 10
Notas iniciais
O jogo continuou nesse ping pong de provocações por um tempo. Descobri muito sobre Alexander. Sua cor favorita é azul anil, filme é Missão Impossível, seu livro preferido é A Arte da Guerra (que surpresa!) e ele tem um medo irracional de aviões (irônico pra alguém que tem seu próprio jato, mas eu não perguntei).
Mas é claro que ele também conseguiu alguns segredos de mim. Nada muito grave até agora, só coisas básicas como: eu sou uma nerd de primeira, as línguas que falo e as que eu estou aprendendo a falar, minha cor favorita (vermelho), e quando ele me perguntou qual o meu maior medo físico (sabe, sem contar coisas filosóficas, morte, solidão etc...) eu gelei. Poderia mentir, ou fazer uma piada, eu podia até mesmo responder o meu segundo maior medo, mas senti a vontade quase incontrolável de ser verdadeira quanto a essa questão (vai entender a consciência né?).
“Chicote” eu respondi desviando os meus olhos de seus orbes azuis inquisitivos e inconscientemente tocando a longa cicatriz perto do meu ombro por debaixo da camiseta do pijama. Ele não pareceu notar.
“Por quê?” ele perguntou e eu voltei meus olhos ao seu rosto vendo lá que ele não estava somente curioso, mas preocupado também.
Ele percebeu que esse não era um medo irracional, que eu tinha uma boa razão para temer tanto um chicote. E foi aí que decidi que não podia mentir nessa resposta. Não havia garantias que o meu rosto conseguiria conter a verdade se eu inventasse alguma desculpa ou algo assim então eu pus a minha cara de zombaria mais convincente e me esquivei da pergunta:
“Não, não Alexander. Se você quer saber espere até ganhar a próxima rodada. O que não vai acontecer, então eu sugiro que você espere sentado.” Eu ri e ele pareceu acreditar no meu desvio.
Minha próxima pergunta foi:
“Como você e o Matt se conhecem?” seus olhos se arregalaram em surpresa. Eu nunca irei me acostumaria com o sentimento de vitória que me invadia quando consigo pegá-lo fora de guarda.
“Nós estudamos na mesma Universidade e tínhamos algumas aulas juntos, mas nunca fomos muito próximos ate que eu comecei a chefiar uma parte maior da Monroe Enterprises e começamos a nos ver mais. Acho que ele se sentia tão perdido quanto eu. De repente também encarregado de uma parte tão grande da empresa de seu pai, mas ele estava sempre muito mais centrado que eu, sempre me ajudando a travar acordos internacionais. Foi aí que eu descobri que ele é realmente o amigo mais fiel que alguém pode ter.” respondeu e eu tentei pensar em alguma resposta afiada para iluminar nossa conversa, mas ao olhar em seus olhos eu percebi que não precisava.
Seu rosto tinha um tipo de serenidade que eu nunca tinha visto Alexander expressar. Exibia um sorriso leve e a calma em seus olhos me transmitiram uma mensagem clara. Ele estava sendo absolutamente sincero porque ele queria ser. Ele não estava simplesmente pagando uma rodada com um segredo, ele estava me presenteando com uma confissão.
E foi assim que eu soube que poderia começar a jogar as perguntas sérias na roda.
Infelizmente não consegui usar nenhuma das minhas muitas perguntas sobre o misterioso Alexander Monroe imediatamente, porque ele ganhou a rodada seguinte com um streit flush humilhando a minha trinca.
“Eu já percebi que você é uma entusiasta por música... e dança” ele começou zombando de mim. Pra variar. “Qual a música mais tocada no seu celular?”
Eu sorri, alcancei o meu celular, abri a pasta de mais tocadas e pus para tocar a que estava no topo da lista.
“I was left to my own devices
Many days fell away with nothing to show
And the walls kept tumbling down
In the city that we love
Great clouds roll over the hills
Bringing darkness from above”
Eu cantei a música enquanto tocava. Quem liga que eu provavelmente estava pagando um mico enorme? O cara já me viu dançar Spice Girls, nada mais deve surpreender ele.
“Então... Como que de Pompeii do The Bastille você acaba dançando Spice Girls na cozinha?” ele zombou.
“Eu sou uma pessoa eclética” dei de ombros e ele sorriu seu sorriso despreocupado para mim de novo. Era tão raro que um desses aparecesse que eu senti o impulso de tirar uma foto e postar de capa no mural do meu facebook.
Foi surpreendentemente bom vê-lo feliz então, quando ganhei a próxima rodada, quase desisti de fazer a pergunta que sabia que estragaria seu humor. Eu estava prestes a perguntar algo bobo como: quantas vezes você desejou que as portas do seu escritório não fossem de vidro? Quando eu olhei em seus olhos novamente e percebi que não poderia fazer isso.
Ele ainda tinha o sorriso lindamente raro digno do meu mural, mas este não mais alcançava seus olhos. Era como se ele tentasse se distrair de algum sentimento, alguma memória que ameaçava tomar conta de sua mente. Eu podia ver a angústia impressa em suas íris azuis de uma forma que duvido que outras pessoas veriam, mas eu não sou como a maioria das pessoas. Aquela angústia já esteve impressa em meus olhos e eu já escondi de muitos da mesma forma que ele tentava fazer comigo agora. Eu sabia que se ele não lidasse com suas lembranças elas o comeriam vivo e essa não seria uma visão agradável. Diante disso eu respirei fundo e perguntei o que estava rodeando meus pensamentos desde que ele me flagrou na cozinha:
“Tem algo te incomodando desde que você chegou hoje.” Os meus olhos fitando o fundo dos seus.
Eu assisti os mares ferverem, esfriarem e tornarem-se impenetráveis icebergs diante dos meus olhos. Eu pude sentir a tensão que subiu de repente no quarto e ouvi seu coração pular uma batida. Senti medo que ele não me respondesse, que mentisse pra mim, que me demitisse e, acima de tudo, que me ignorasse. No entanto, não desviei meu olhar do fundo dos seus olhos. Tentei enxergar através da raiva na linha fina que seus lábios se tornaram e ver o desespero na sua alma, me concentrar nele para que não desistisse. E foi assim que eu vi quando ele substituiu toda essa tempestade emocional com uma máscara calma antes de afirmar:
“Essa não é uma pergunta” seu rosto transmitia serenidade, mas sua voz o traiu derramando frieza.
“Quando eu mencionei um bar e uma peguete de uma noite só, pareceu como se eu realmente tivesse atingido um nervo, e depois, a cada segundo que nós não estamos fazendo piada ou conversando parece que você está prestes a gritar em desespero. Qual é, Alexander, nós dois sabemos que não é tão fácil assim te dar nos nervos e uma piadinha inútil minha nunca te atingiu tão fundo. O que houve?” eu disse em um fôlego só, com medo que até uma pausa para respirar fosse levar embora minha coragem.
Ele levantou o olhar e pude ver a tempestade de neve se tornar um furacão. E foi como um furacão que ele marchou para fora do meu quarto, rápido e destrutivo, jogando todas as cartas no ar e batendo a minha porta com força.
Fiquei em choque parada na mesma posição por um tempo. Como se tivesse congelado no tempo eu revivi aqueles últimos momentos de nosso perigoso jogo e tentei imaginar o que no mundo teria feito com que ele reagisse daquela maneira.
Os cursos de ação que eu poderia tomar agora seriam:
Ignorar as últimas horas que se passaram, ir dormir (ou fingir dormir de qualquer forma) e esperar que essa explosão de Alexander seja esquecida até segunda de manhã.
Ir atrás dele, arriscar meu emprego, a nossa “amizade” (se é que poderíamos chamar assim) tentando puxá-lo daquele abismo de dor.
Como eu não tenho noção alguma de autopreservação e já sou experiente em tortura eu decidi pela segunda opção, reuni toda a minha coragem e saí pela porta.
P.O.V Alexander
“Eu sabia que devia tê-la demitido, eu sabia, eu sabia, eu sabia...” repeti para mim mesmo enquanto voltava ao meu quarto.
A capacidade que Vanessa tinha de me tirar do sério era digna de prêmios. Ela conseguia ver através todas as minhas máscaras. Seus olhos castanhos não perdiam nada e mesmo sendo ela tão baixinha, o poder e a sabedoria que emanavam de suas palavras a faziam parecer imponente e autoritária.
Eu não podia ter alguém assim ao meu redor. Trabalhando comigo dia-a-dia, percebendo meus padrões, conhecendo minha rotina. Nem meu próprio pai sabia quem eu era e o que me motivava a essa altura do campeonato e eu não podia me dar ao luxo que ela descobrisse.
No entanto, assim que meus olhos cruzaram os dela eu estava intrigado. Eu sabia que a garota de cabelo ondulado cor-de-chocolate seria problema no momento em que me desafiou durante todo um jantar, respondendo a minhas perguntas silenciosas com seu olhar enquanto fazia com que meu pai se apaixonasse por ela com suas palavras.
E ainda assim eu não pude me forçar a deixá-la ir. Vanessa me trazia vida, me desafiava e me mantinha nos trilhos de uma forma que ninguém tem sido capaz de fazer em anos. Ela é capaz de desmascarar todas as minhas mentiras, enxergar todas as minhas inseguranças e driblar todas as minhas desculpas. Eu sou um completo imbecil ao redor dela. Tanto que, me permiti ser pego a espiando de longe enquanto ela dançava despreocupadamente pela casa. E não parei por aí, segui-a até o quarto, aceitei seu convite para um filme e um jogo de poker valendo SEGREDOS! Desde quando eu sou tão burro?
Tentei fugir da minha miséria sentimental e enterrar meus sentimentos me distraindo com sua companhia, mas não considerei que ela perceberia que havia algo errado. Deixei que sua insinuação sobre a forma com que passo minhas noites de sábado despertasse uma reação real em mim e ela viu o quanto me incomodou, armou a armadilha perfeita para me perguntar qual a razão do problema e eu nem vi o ataque chegando.
E sabe qual é a pior parte? Ela não fez tudo isso por maldade! Ela realmente se importa comigo, com o que me preocupa, e nós nem mesmo somos amigos. Dividimos alguns momentos intrigantes, como quando ela me ensinou o significado da palavra saudade e incomodamos um ao outro com piadas sempre que podemos, mas ela não me conhece realmente e eu tampouco a ela. Nós não somos amigos e ainda assim ela saiu dos seus planos de fim de semana para estar comigo em um momento, que ela de alguma forma sabia, era de angústia.
Vanessa não se importou com a possibilidade bem real de ser demitida, ela não pediu desculpas por ser quem é, fazer o que faz e perguntar o que quer porque ela colocou o meu bem estar, meu direito de desabafar, acima da estabilidade dela.
E é por isso que meus pensamentos estavam uma bagunça tão grande agora. Eu queria contar a ela, eu precisava contar para alguém e eu não sabia como. Ir a um psicólogo estava fora de questão, seria como admitir a fraqueza. Meus lábios eram simplesmente incapazes de articular as palavras que precisavam sair: Eu estou de luto.
Revoltado comigo mesmo, liguei a lareira elétrica (mesmo no meio do verão) e assisti as chamas dançarem diante de meus olhos iluminando o quarto com uma tênue luz amarelada. Dirigi-me a mesa de bebidas e enchi um copo de Whisky pensando que talvez isso acalmaria o redemoinho de pensamentos que ameaçava me enlouquecer. Tentando controlar meus batimentos cardíacos, apoiei-me nas pedras cinza que formavam a lareira assistindo ao fogo e desfrutando de minha bebida enquanto aguardava que a noite de insônia acabasse logo.
“Fugir sem dizer adeus é falta de educação” eu ouvi a doce voz dela atrás de mim e meu peito se aqueceu involuntariamente. “Você vai me contar o que está acontecendo ou eu vou ter que adivinhar?” ela voltou a dizer, engrossando levemente o tom de sua voz.
“Vá embora Vanessa” foi tudo que eu consegui dizer, mas não fui nem um pouco convincente. Minha voz foi baixa e insegura, uma vergonha para qualquer mentiroso de carteirinha como eu.
“Assim que você me contar o que te incomoda tanto, eu prometo que vou” ela respondeu simplesmente, exalando sua vivacidade característica.
“Porque você quer tanto saber?” atrasei o inevitável. Minhas defesas psicológicas naturais tentavam desesperadamente impedir que isso acontecesse, mas é claro que eu ia contar a ela, meu subconsciente já sabia disso muito antes que eu mesmo que eu decidisse fazê-lo.
Ela riu baixinho e eu pude ouvir o sorriso ainda em sua voz quando disse:
“Bom, vejamos...” me virei em direção a ela e encarei seu sorriso oculto. “Você reagiu exageradamente a uma piada estúpida, aceitou assistir a uma comédia romântica que, vamos combinar, não faz o seu estilo, e aceitou apostar segredos.” Ela enumerou suas razões nos dedos. “Sinto muito colega, mas esses são claros sinais de desespero na escala Alexander Monroe.”
Andei lentamente, me distanciando da lareira e focando em seus olhos intensamente. Ela não vacilou nem por um segundo, me encarando de volta com aquele sorriso de sabe-tudo. Parei a centímetros de seu rosto e vi a determinação queimando nos seus olhos cor de chocolate e não aguentei sustentar seu olhar por mais que alguns segundos. Virei-me com violência em direção a lareira novamente e dei alguns passos em direção a ela.
Droga, eu não podia contar a ela! Então porque eu queria tanto? Olhei para o líquido restante no meu copo e para o fogo novamente. A fúria me dominou tão rápido que nem tive tempo de entender o que estava acontecendo. Quem era ela para surgir e balançar o meu mundo daquele jeito? Que direito ela tinha sobre os meus pensamentos? Que tipo de magnetismo era aquele que me compelia a confiar nela, mesmo mal a conhecendo, sendo que eu não confiava nem em mim mesmo? Não com esse segredo, não com essa dor... O conflito se tornou insuportável dentro de mim e, externando a guerra travada internamente, arremessei o copo meio cheio em direção ao fogo e vi a chama crescer perigosamente alta para fora da lareira quase alcançando as cortinas dos lados da lareira.
“MAS QUE INFERNO VANESSA! SERÁ QUE VOCÊ NÃO PERCEBE QUE EU NÃO QUERO TE CONTAR?” Vanessa se sobressaltou com um gritinho abafado e eu esperei que ela fosse embora enquanto andava até a parede, apoiando minhas costas nela deslizando até o chão no mesmo ritmo que as lágrimas deslizavam pelo meu rosto através dos meus olhos fechados.
Ouvi passos decididos vindo até mim e parando à minha frente. Vanessa se agachou, colocou suas mãos mornas sobre as minhas que envolviam meus joelhos e disse em sua voz marcante e acolhedora:
“Você quer me contar Alexander, você estava pedindo que eu pergunte desde que entrou naquela cozinha e, queira ou não, você precisa me contar.”
Olhei para seu rosto e vi meu anjo da guarda estampado nele. A paz e bondade que ela exalava naquele momento me convenceram a narrar minha história e foi assim, que pela primeira vez em 3 anos, eu contei à alguém o fato eu definiu quem hoje eu sou.
Flashback On
O despertador tocou balançando o meu quarto de hotel e, com ele, a minha visão. Nada mais cruel do que o irritante som de uma sirene quando se está de ressaca. Rolei na cama, alcancei meu celular e desativei o alarme. Quando estava pronto para dormir novamente ouvi batidas incessantes na porta e eu sabia quem estava do outro lado. Nem adiantava ignorar. Levantei-me e cambaleei até a porta para abri-la. Minha irritante irmã mais nova, Amber estava do outro lado.
“Você está com uma cara horrível!” ela disse me empurrando para o lado e entrando pela porta.
“Oi pra você também...” eu retruquei. Minha voz ainda se arrastando um pouco. Talvez eu ainda estivesse meio bêbado, quero dizer só fazia umas... Olhei no relógio, 7:00 da manhã... Três horas que eu havia ido dormir. “Sério Amber? 7 da manha? Você dorme com um galo no seu quarto pra te acordar tão cedo assim?” me indignei.
“A culpa não é minha se você fica até as 4 da matina festejando com vadiazinhas sem sentido. Papai tem brunch de negócios as 10 e pediu que eu o deixasse apresentável até lá!” ela respondeu levantando levemente o tom de voz.
“Shhhhh” eu reclamei esfregando minhas têmporas. “A vadiazinha sem sentido ainda está dormindo!” eu apontei para a porta entreaberta que dividia a suíte em quarto e sala antes de desmoronar no sofá e fechar os olhos.
Eu esperei que Amber me passasse um sermão, ou fosse lá acordar... Qual era o nome dela mesmo? Mas tudo que eu ouvi foram passos silenciosos e esperei que ela fosse embora, mas logo senti a luz invadir o quarto, acompanhada do som de cortinas sendo violentamente abertas.
Eis a vantagem de morar em Chicago: esse truque não funcionaria porque, mesmo no verão, a cidade é predominantemente coberta por uma multidão de nuvens, não importa qual a estação. As melhores amigas de todo festeiro. Mas, como estávamos em Washington, o sol me incomodou intensamente mesmo através de minhas pálpebras seladas e eu soltei um gemido.
“Às vezes eu acho que você se diverte me assistindo sofrer” reclamei quando senti o sofá afundar ao meu lado.
“Bom, se você ainda está achando, eu com certeza estou fazendo algo errado!” o sorriso sarcástico dela me fez dar uma leve gargalhada e logo depois resmungar quando pontos de luz surgiram em meu campo de visão.
“Vamos, você tem que tomar um banho, uma aspirina e ir encontrar-se com mamãe e papai. Eles querem falar com você” ela me deu um empurrãozinho no ombro e eu abri os olhos.
“E eu aqui achando que os seus dias de correr para contar tudo pra mamãe tinham passado...” resmunguei.
“Enquanto você agir como criança, Alex, eu vou te tratar como criança...” Ela sussurrou antes de beijar minha bochecha e ir à busca de algumas aspirinas.
Eu poderia dizer que ela estava errada e discutir que estava simplesmente curtindo a minha juventude, afinal eu tinha apenas 22 anos, se havia algum momento na vida para festejar irresponsavelmente a hora era agora! Mas, honestamente, ela estava certa. Eu estava com medo de ter que assumir uma parte grande na Monroe Enterprises logo. Eu já tinha o diploma em administração, entretanto saber das coisas na teoria e na prática são opostos que não se atraem.
Eu não queria fugir por falta de interesse pela empresa. Se eu realmente quisesse, tenho certeza que meu pai me deixaria escolher qualquer outra profissão, mas eu não queria mais nada. Eu sabia muito bem qual era o meu talento e entendia que só seria feliz e realizado se fizesse o que nasci pra fazer, mas a certeza não impede a falha. E o meu maior medo, era o medo de falhar, então eu fiz o que a maioria faz, me escondi nas festas, mulheres, bebidas e tudo que vem no pacote da vida noturna. É de se esperar que a minha família não tenha ficado feliz com essas decisões.
E ainda assim eles não desistiam de mim. Sempre me colocando na linha, sempre me corrigindo, mas nunca me julgando, no fundo eu acho que eles viam o medo que eu tentava tanto esconder e sabiam que eu tinha que criar coragem, sozinho desta vez. Por isso que quando eu encontrei mamãe em frente ao restaurante pouco depois ela simplesmente sorriu amavelmente e ajeitou e a gola de minha camisa antes de entrarmos.
“Sara, você está linda” meu pai disse quando o encontramos perto da mesa. 30 anos de casamento e ele ainda parecia um bebê babão quando olhava pra ela. Era lindo e estranho, pelo menos pra mim, não que eu não gostasse que o casamento deles fosse sólido, mas é esquisito para um filho assistir seus pais se olhando como se fosse a primeira vez. Ele a beijou no rosto e puxou a cadeira para que ela sentasse.
“E então, quem vai ser o empresário entediante que vamos ter que agradar hoje?” indagou Amber com um tom cansado enquanto mirava as tortilhas de morango na mesa do Buffet.
“Seu nome é Serguei Belikov, ele é um dos investidores colaborando com a instalação da nossa filial na Rússia e é um dos que atenderá à festa na embaixada russa esta noite.” Meu pai respondeu simplesmente enquanto fazia sinal para que o garçom viesse até nossa mesa.
“Aposto que é um velho enrugado” minha irmã bufou e pegou um pãozinho da cesta no centro da mesa. “Nunca um estrangeiro bonitinho pra eu conhecer, isso simplesmente não é justo!” reclamou. Todos nós rimos e ela aprofundou sua carranca brincalhona. “É fácil pra vocês ficarem rindo de mim.” Ela disse e apontou para nossos pais acusadoramente. “Vocês dois já são casados há tanto tempo que as alianças foram feitas pelo mesmo cara que forjou a espada de Napoleão, e você... quebra tantos corações por metro quadrado que eu tenho certeza que escravizou o cupido!” ela terminou apontando pra mim acusadoramente.
Rimos em uníssono e minha cabeça latejou me lembrando das doses de vodka da noite passada. Com aquele comentário eu me lembrei da pobre moça desiludida que havia deixado meu quarto de hotel com uma promessa de uma ligação minha em breve. Ligação esta que nunca iria acontecer. Pontos de luz devidos da enxaqueca, que havia sido meramente minimizada pelas aspirinas, surgiram no meu campo de visão me castigando pelo meu ato detestável, mas eu não tive tempo de terminar minha festinha de autopunição porque Amber questionou algo que me interessava:
“De qualquer forma, porque temos que entreter o tal velho enrugado mesmo? Se terá uma festa hoje à noite vocês não poderiam falar sobre os negócios lá?”
Meu pai sorriu amavelmente antes de responder: “Não, eu e o Sr. Belikov ainda temos assuntos para resolver e temos que inteirar Alexander nas negociações. Além do mais, essa é a forma correta de se tratar um convidado.”
Amber bufou e minha mãe dirigiu a ela um olhar de simpatia, as duas eram mulheres fortes e independentes (vamos combinar que elas cuidavam de mim e do meu pai sozinhas não é?) que geralmente eram resumidas a adornos de braço devido à profissão do meu pai e a que seria a minha em breve.
“Parece que o nosso ilustre convidado vem vindo” disse minha amada mãe carregando sua voz baixa e gentil de sarcasmo quando pronunciou a palavra ilustre. Eu sempre me assustava quando ela fazia isso, era como se as palavras fossem muito mais cortantes camufladas em seu tom carinhoso. Definitivamente Sara Monroe era mestre na arte da ofensa passivo-agressiva.
Todos nos levantamos da mesa para receber o tal Serguei. Quando me virei na direção da porta pude entender a razão do sarcasmo na voz de minha mãe. A figura se dirigindo até nós podia muito bem ter saído de um filme de máfia mal feito dos anos 80. Era um homem por volta de seus 40 e muitos anos, tão alto quanto eu, pele branca, uma careca mal coberta pelos cabelos restantes dos lados de sua cabeça e uma barriga de cachaça bem característica. A sua roupa gritava gângster aposentado. Uma jaqueta de couro preta cortada em forma de paletó sobre uma camisa social vermelho sangue com a gola bem aberta sobre o colarionh da jaqueta e calças jeans escuras. Olhando para ele eu podia jurar que a única coisa que faltava era um dente de ouro, mas mesmo que ele não tivesse isso, a corrente grossa dourada em seu pescoço já estourava a cota de metais preciosos que uma pessoa pode usar sem ter que andar acompanhado de um guarda costas.
“Muito obrigado por se juntar a nós Sr. Belikov” eu introduzi apertando sua mão depois de uma olhada incisiva de meu pai. A colônia quase tóxica que o homem exalava não ajudou em nada com a minha inseparável enxaqueca.
“O prazer é todo meu Monroe júnior” disse Serguei com um sotaque russo carregado tornando a zombaria em sua voz quase imperceptível, mas ambos, meu pai e eu, percebemos e quando estava prestes a responder com algum comentário mordaz meu amado pai interrompeu.
“É ótimo reencontrá-lo Sr. Belikov. Permita-me apresentar minha esposa Sara e minha filha Amber” ele gesticulou para as mulheres da minha família que pareciam estar tendo algum tipo de conversa silenciosa. Senti uma vontade imensa de dar risada nesse momento. Se essas duas estavam tramando contra Belikov, o pobre mafioso não tinha nenhuma chance.
“Estava ansioso para encontrá-lo Alexander. Eu e seu pai estamos tendo algumas diferenças de opinião e eu gostaria de ter a oportunidade de saber o que você acha.” Disse o a figura ao meu lado.
Lancei um olhar de reconhecimento em direção ao meu pai em busca de algum tipo de orientação a respeito do que quer que fosse que ele e Serguei estavam discordando. E foi bom que eu o fiz, porque entenda, meu pai e eu temos divergência de opinião em inúmeras coisas com relação a negócios e acordos e, se eu não o tivesse fitado naquela hora, corria o risco de envergonhar a Monroe Enterprises fazendo-nos parecer desunidos. No entanto toda e qualquer chance de que isso pudesse acontecer foi erradicada quando nos olhos de meu pai eu vi algo extremamente raro para ele: raiva. Não qualquer tipo de raiva, mas fúria em sua mais pura forma. Nem mesmo eu já tinha conseguido extrair esse tipo de emoção do famosamente calmo Wiliam Monroe.
Sendo assim, preferi não jogar lenha na fogueira e calmamente respondi enquanto olhava o menu de bebidas:
“Eu tenho certeza que os termos que meu pai infringiu ao contrato são justos e não precisam de revisão minha Sr. Belikov. Especialmente porque eu acabo de entrar ativamente na empresa, sou ainda muito jovem.” Ok, isso não era verdade, eu sabia muito bem o que estava fazendo na maior parte do tempo. Pelo menos bem o suficiente para dar conselhos, mas pelo bem da paz...
O resto do brunch ocorreu razoavelmente bem. Amber e minha mãe permaneceram caladas ou em suas próprias conversas enquanto eu aprendia sobre o acordo que meu pai estava criando com o tal Serguei.
É de conhecimento comum que, mesmo depois do fim da guerra fria, é muito difícil instalar multinacionais na Rússia, isso porque o governo é muito corrupto. O que acontece é que os governantes deixam que as multinacionais entrem para manter a fachada de país capitalista e liberal, mas os mafiosos infiltrados em cada partezinha do governo e da sociedade dão um jeito de sabotar as empresas, não adquirindo seus produtos, causando “acidentes” inesperados, subindo o preço dos impostos alfandegários entre outras coisas. Se as empresas falem, elas saem do país sem que a Rússia seja acusada de comunismo.
Sendo assim, todo empresário que decide abrir uma filial na Rússia tenta agradar, não somente os diplomatas e governadores do país, mas também os seus... Menos legítimos administradores, como meu pai gosta de colocar. Estes estipulam condições e preços para que a entrada da empresa seja permitida. Meu pai não me disse nada sobre Serguei ser um desses chefões russos, mas estava bem claro, depois que eu ouvi o tipo de taxas que eles estavam pedindo, que ele era provavelmente um dos mais influentes.
Ao final da refeição, quando Amber e minha mãe já estavam longe da mesa, Belikov baixou a voz para um tom vagamente assustador e disse:
“E sobre aquele outro assunto...”
“Eu já disse que é inegociável Sr. Belikov” meu pai respondeu com firmeza.
“E eu disse que nós não temos um acordo a não ser que esse meu pequeno pedido seja aquiescido Sr. Monroe” respondeu Serguei com um falso tom de ética profissional contradito pelo seu sorriso esnobe.
“Pai, quem sabe se nós ouvirmos...”
“Não Alexander! Não!” ele me cortou rapidamente, antes de respirar fundo e apontar para onde o resto da minha família e encontrava. “Vá esperar pelo carro com sua mãe e irmã, eu e o Sr. Belikov resolvemos isso” ele me fez sentir como uma criança malcriada.
Sério mesmo? Eu passei o encontro todo calmamente ouvindo e realmente me envolvendo e quando as coisas realmente ficam sérias ele me manda embora como se eu fosse descartável? Eu não estou aqui tentando ser melhor? Não seria esse o exato momento aonde eu aprenderia mais?
Os pensamentos rodopiavam pela minha cabeça enquanto eu marchava para o lado de fora. Tenho a vaga lembrança de minha mãe tentando me acalmar na viagem de volta para o hotel, mas tudo que está realmente claro é a raiva e rejeição que eu sentia quando olhava pra meu pai no banco do motorista (ele se recusava a ter um motorista particular).
Quando finalmente chegamos ao lobby do luxuoso hotel meu pai queimou o que restou da minha paciência com a seguinte frase:
“Conto com a sua ajuda na festa hoje às 7 horas filho.”
“Ah é sério? Conta mesmo? Porque pelo que me parece eu ainda sou um garoto de fraternidade estúpido na sua cabeça!” eu explodi e todos os que estavam no salão pararam para olhar para mim.
“Não fale do que você não entende filho” ele respondeu calmamente o que só serviu para inflamar ainda mais a minha ira.
“Do que eu não entendo? Eu tenho ouvido você falar de acordos assim a minha vida interia pai. Tenho assistido o fechamento de muitos deles desde que saí da faculdade. Eu SEI como lidar com situações assim! Como você espera que eu tome responsabilidade nessa empresa se você nunca confia em mim?” gritei ainda mais. A face de meu pai mostrava um misto de emoções que se assemelhavam a culpa.
No entanto antes que ele tivesse chance de retrucar Amber se pronunciou: “Talvez porque você não tem mostrado nada alem de infantilidade desde que saiu da faculdade. Eu já te disse Alex, se você quer parar de ser tradado como criança, pare de agir como uma!”
Antes que eu tivesse a chance de responder a isso minha mãe, em sua baixa voz recheada de autoridade, ordenou: “Parem!”
Lembra que eu disse que ela era uma mestra? Somente uma palavra foi o suficiente para parar o todo mundo naquele momento. Meu pai, Amber e eu congelamos no lugar e minha família se entreolhou durante um longo segundo. A raiva ainda estava lá em nossos olhares, mas a autoridade no rosto da minha mãe ganhou de todos nós. E foi por isso que subimos até o nosso andar no mais fúnebre silencio.
Amber e meu pai pareciam ter se acalmado um pouco e, embora externamente eu também, dentro de mim a raiva borbulhava loucamente, quase me causando azia. Entrei no meu quarto furioso, batendo portas e imediatamente enchendo um copo de conhaque para tentar me acalmar. Enquanto isso não funcionou, comecei a olhar pelo quarto em busca do controle da TV para ver se isso seria calmante, mas antes que eu o encontrasse deitei os olhos em um bilhete com um numero rabiscado logo abaixo de letras floreadas compondo o nome Bethany. (Então esse era o nome dela!)
Sem pensar, cruzei o quarto rapidamente já puxando meu celular e discando o número da tal Bethany. Se todo mundo me via como criança, então criança eu serei!
* * *
Cheguei à embaixada russa pelo menos meia hora atrasado. Bethany e eu paramos em um bar para o que eu chamei de um “pré-drink”, que se tornou um pouco mais do que isso. Vamos só dizer que quando finalmente adentrei as portas do belo salão de festas da embaixada o mundo estava um pouco borrado.
Bethany e eu circulamos a festa rindo alto e fazendo gracinhas. Ela estava em um vestido azul gritante bem curto e justo que desenhava cada parte de seu corpo fenomenal, deixando a mostra boa parte de seus seios cor de caramelo e seu cabelo castanho claro posto para cima deixava a imagem de minha acompanhante mais parecida com a de uma prostituta do que a namorada de um respeitado empresário americano. O que era exatamente o que eu estava querendo é claro. Em todos os momentos, conversando com as pessoas mais importantes que eu pude avistar eu não parei de apalpá-la de formas pouco respeitosas. Ela não pareceu se importar, mas os outros convidados estavam claramente desconfortáveis.
Isso durou por mais ou menos uma hora. Até que minha mãe e irmã, que conversavam com meu pai e o Sr. Belikov, nos avistaram. Ou eu deveria dizer fuzilaram com os olhos? De qualquer forma, eu estava muito bêbado para prestar atenção nisso. Tudo que eu fiz foi esperar pela tempestade que eu sabia que viria.
Sem uma palavra Amber agarrou a mão de minha respeitável acompanhante e foi caminhando em direção à porta com ela, me lançando com seus olhos negros um olhar ameaçador que me deu um pouco de medo. Mas antes que eu tivesse tempo de registrar essa emoção minha mãe já me puxava em direção a uma pequena salinha adjacente à festa e me sentava em uma poltrona de couro marrom.
Se eu estava com medo antes agora a coisa tinha ficado feia de verdade. Claro que eu nunca ia demonstrar isso em meu rosto, eu era (ainda sou) orgulhoso demais pra isso. Mas os olhos azul cristalinos de minha mãe viam através de todas as minhas máscaras. A sua pele alva estava tão vermelha quanto seus cabelos presos no alto de sua cabeça.
“Quem você pensa que é garoto?” a voz baixa dela estava cheia de uma ira medonha que retorceu as palavras de tal forma que eu preferia que ela estivesse gritando. “Você realmente acha que ESSA é a melhor forma de conseguir respeito? Isso só me faz pensar que você não é maduro o suficiente para ser tratado como um adulto!”
Eu tentei pensar em algo inteligente e racional para retrucar suas acusações, mas quem eu estava enganando? Eu estava bêbado, confuso, triste, com medo e me sentindo como um garotinho da mamãe ouvindo aquela bronca. Eu simplesmente não tinha a energia para fingir mais. Pelo menos não pra ela.
E como sempre Sara Monroe me conhecia mais do que eu conhecia a mim mesmo. Ela simplesmente leu todas as emoções que conflitavam dentro de mim e as entendeu antes mesmo que eu as pudesse processar. Ela simplesmente sentou ao meu lado no braço da poltrona, começou a acariciar o meu cabelo e disse:
“A primeira vez que você disse a mim e William que queria trabalhar na empresa com ele quando crescesse você tinha 10 anos. Lembra disso?” ela perguntou em um tom maternal que até mesmo um orgulhoso prepotente como eu gostava de ouvir. Sem poder responder em voz alta eu simplesmente balancei a cabeça afirmativamente me lembrando do dia que cheguei da escola, fui ao escritório do meu pai no prédio principal da Monroe Enterprises e disse a ele a minha decisão. Não mudei de ideia desde então.
“Naquele dia seu pai chegou em casa com a expressão mais assustada que eu já o vi produzir!” ela gargalhou baixinho e eu a olhei curioso. “Ele sabia que para você se tornar um bom CEO ele teria que começar a treina-lo imediatamente e ele tinha medo que você perdesse a infância por causa disso. Que fosse muita pressão pra você” ela continuou.
E foi aí que eu percebi que ele provavelmente estava certo. Meu pai viu desde o principio que eu não serviria para esse tipo de trabalho, que a pressão me faria perder o controle e ainda assim ele confiou o suficiente em mim para me dar uma chance. Imediatamente senti vergonha de mim mesmo por estragar tudo.
“Sabe o que eu respondi pra ele?” ela me perguntou e quando eu sacudi a cabeça negativamente ela pegou meu rosto em suas mãos e me fitou fundo nos olhos de uma forma que só ela sabia fazer. “Eu disse que ele era um idiota! Nenhum filho meu é um desistente. Meus filhos são decididos, eles são corajosos e enfrentam seus problemas de frente!” a convicção emanando dela era quase sólida.
“Você acha que me engana Alexander? Você acha que eu não sei que isso tudo é medo?” eu sabia que não enganava ela. A mulher era quase uma agente da CIA. Mas ainda foi chocante de ouvir. Especialmente o que veio em seguida. “Seu desfile de putas insignificantes, suas ressacas intermináveis e essa pose de festeiro inútil não são quem você é, são simplesmente a sua válvula de escape porque você está com medo.” (minha mãe acabou de falar um palavrão ou é impressão minha?) “E foi por isso que eu deixei rolar até agora, mas você passou dos limites Alexander! Já passou da hora de mostrar a coragem que eu te criei pra ter!” ela terminou com autoridade quase feroz.
“E como é que você sabe que eu sou corajoso” respondi meio malcriado. Ela me deu um olhar exasperado beirando a indignação.
“Porque eu não pari nenhum covarde!”
Eu ri baixinho disso e ela esboçou um sorriso quente que me disse que o sermão tinha acabado.
“Eu vou melhorar mãe.” Prometi.
“Eu sei” ela sorriu e me abraçou antes de nós dois nos levantarmos, mas o mundo girou, eu cambaleei e sentei novamente na poltrona antes de grunhir porque senti a enxaqueca se aproximando assim que o efeito do álcool passasse.
“Acho que agora é a minha vez então né?” disse Amber ao lado da porta com um copo d’água e uma cartela de comprimidos em mãos. Eu sorri fracamente.
Minha mãe deu espaço para que Amber viesse me ajudar a andar até o banheiro que ficava nessa salinha e me deixar lá para que eu tentasse afastar um pouco do mal estar do álcool. Ouvi o som de outra porta se fechando além da do banheiro então assumi que as duas tinham retornado à festa. Sorri levemente para meu reflexo no espelho e comecei a tirar o paletó e gravata para que estes não molhassem quando eu fosse lavar meu rosto (e talvez vomitar um pouquinho, eu admito).
Quando finalmente desliguei a torneira ouvi vozes na salinha. Parecia uma briga que já estava acontecendo a um tempinho.
“Pela última vez Sr. Belikov, eu simplesmente não vou fazer isso!” foi a voz do meu pai que ouvi extremamente alterada.
“Não entendo porque! Você teria 25% do lucro!” respondeu Sr. Belikov.
“Quem se importa com o dinheiro? Isso é simplesmente errado!” o ultraje na voz aveludada de minha mãe me alarmou.
“Vocês americanos e sua ética. Nós simplesmente vamos contrabandeá-las sem a sua permissão agora. Pedir foi só uma cortesia!” o sorriso maldoso era audível.
“Então eu sinto muito Sr. Belikov, mas o nosso acordo não vale mais! Eu me recuso a ter qualquer parte no trafico humano!”
“Bom, é uma pena Sr. Monroe.” Retrucou o russo e eu ouvi o som de uma porta. Assumindo que ele tinha saído, abri a porta do banheiro e espiei por ela.
O que vi foi simplesmente inexplicável.
Perto da janela, no fundo da sala, estavam meus pais. Meu pai tinha o braço envolvendo os ombros de minha mãe e os dois irradiavam medo e raiva. O que poderia ter acontecido em tão poucos segundos? A resposta veio quando mirei a porta e vi, ao lado dela, um marmanjo alto e musculoso, careca, de terno negro, segurando minha irmãzinha pelos seus cabelos cor de fogo e tampando sua boca com a mão. Ao lado dele estava Serguei com um sorriso sádico estampado no rosto, uma faca de caça gigante apontada na direção de meus pais.
“É uma decisão simples na verdade. A vida de algumas garotas aleatórias, ou a vida da sua garotinha! O que você escolhe Monroe?” o sadismo escorreu de suas palavras e eu estava pronto para abrir a porta e tirar a minha irmãzinha das mãos daquele selvagem (não me pergunte como). Mas o olhar de minha mãe encontrou o meu com tanta intensidade que me parou no ato.
Eu sei que deveria ignorar ela, simplesmente ir em frente e tentar salvar a minha família, mas o aviso na expressão de minha mãe era tão explicito que eu decidi confiar em seu julgamento ao invés do meu.
“Você não pode simplesmente nos matar assim Serguei, nós não estamos na Rússia, você vai ser pego e ir para a prisão durante muito tempo” meu pai tentou argumentar, mas foi impedido pela gargalhada sarcástica de seu oponente.
“Na verdade William, eu estou sim. A embaixada é solo russo. O que significa que eu serei julgado na Rússia. Ninguém vai me prender lá!”
Eu vi as lágrimas correrem pelo rosto da minha irmã e quando estava pronto para agir, novamente fui parado pelo olhar de uma das mulheres da minha vida. Logo depois de me fitar ela encarou minha mãe. Elas pareciam estar tendo outra daquelas conversas telepáticas que só as duas eram capazes de fazer e isso me manteve congelado no lugar.
“Um carregamento a cada dois meses!” barganhou meu pai em súplica.
“Um carregamento de vinte mulheres a cada duas semanas” replicou Serguei calmamente.
“Seja razoável Serguei. Vamos negociar!” meu pai implorou e foi retribuído com uma gargalhada maquiavélica.
“Negociar?” ele simplesmente riu mais. E nesse momento algumas coisas aconteceram simultaneamente.
Meu pai ficou tenso de raiva, minha mãe assentiu com a cabeça para Amber que mordeu a mão do brutamonte que a prendia com força o suficiente para tirar sangue, o brutamonte gritou em agonia e surpresa e a soltou, ela correu em direção à porta e quando estava ao alcance da maçaneta Serguei a agarrou por trás levantando-a do chão e virando-a de frente para meus pais novamente. Amber lutou e esperneou, mas isso só fez com que Serguei ficasse bravo e chutasse ela com força nas pernas o que a fez ajoelhar no chão. Lágrimas escorrendo de suas bochechas. Eu parecia paralisado em meu lugar. Como se estivesse pregado ao chão.
“Ts ts ts queridinha... Os adultos estão querendo negociar aqui...” Serguei sussurrou em uma voz nauseantemente doce.
Antes que qualquer um de nós sequer tivesse tempo de pensar Serguei empunhou sua enorme faca de caça e rapidamente cruzou ela pelo pescoço de Amber.
Minha mãe gritou e meu pai a segurou pela cintura para que ela não corresse até o corpo de minha irmã. Sangue pulsava para fora dela tingindo tudo de vermelho. Lágrimas involuntárias brotaram de meus olhos e sem pensar no que estava fazendo, rapidamente chutei a porta para fora do meu caminho e corri em direção de minha mãe abraçando-a forte, ajudando meu pai a impedi-la de ir atrás de Serguei.
“Olha só quem resolveu se juntar a festa! Quem sabe se isso aqui não der certo eu negocie com você um dia hein garoto?” Serguei riu alto enquanto passava um pano branco pela faca tingida de sangue. Sangue de Amber.
Em um sinal que eu não consegui registrar o brutamonte ajudante de Serguei cruzou a sala e tirou minha mãe dos meus braços levando-a até Serguei. E sem pensar direito no que estava para fazer meu pai soltou toda sua frustração:
“Seu filho da puta, bebedor de vodka nojento! Minha filha!” ele gritou em meio às lágrimas. Gritou tão alto que foi possível ouvir do lado de fora da sala e o silêncio reinou. Em poucos segundos a segurança estaria ali e Serguei sabia disso.
“Bom, parece que nós vamos ter que encurtar nossa reuniãozinha não é mesmo?” Serguei disse de sua forma doentia.
“Eles são muitos chefe, não conseguiremos fugir” a montanha de músculos segurando minha mãe disse.
“Não se preocupe Alec, nós não precisamos fugir, só precisamos ganhar tempo para ligar para as pessoas certas” calmamente replicou. Girou a faca enorme em suas mãos algumas vezes. “Sabe o que atrasa muito as pessoas Alec? Quando você muda a prioridade delas.” Ele sorriu e assim que percebi o que ele estava prestes a fazer ele agarrou a faca e com ela deu três golpes no abdômen de minha mãe. “Agora a prioridade é salva a Sra. Monroe aqui! Ainto muito, mas vou ter que me ausentar. Foi um prazer fazer negócios com vocês!”
Eu não ouvi seus gritos, os do meu pai e ou os meus. Eu não vi Serguei e Alec fugindo, nem mesmo as pessoas entrando na pequena sala ensanguentada. Tudo que eu vi foi Amber morta ou lado da minha mãe sangrando, seu sangue ensopando minhas roupas e ela sendo colocada em uma ambulância. Mas eu também não ouvi a ambulância, ou os paramédicos, nem os médicos ou policiais quando finalmente chegamos ao hospital. Porque a única coisa que eu ouvi naquela noite foi sua voz baixa, falando pelo respiradouro antes de fechar os olhos pela última vez:
“Seja corajoso”
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