Segredos Fatais
8 Capítulo 7
Notas iniciais
No último capítulo:
“Quando o amor é sincero ele vem com um grande amigo, e quando a amizade é concreta ela é cheia de amor e carinho”
“Shakespeare...” eu respondi enquanto me virava para encarar os olhos azuis de Alexander.
“Sabe, só porque você e dono de metade de Chicago não significa que você tem o direito de espionar na minha vida e/ou comentar com frases de escritores épicos” eu disse fuzilando-o com os olhos. Claro que o efeito pode ter sido severamente reduzido pelas lágrimas que escorriam silenciosamente pelo meu rosto.
“Perdão!” ele falou e, eu posso estar errada, mas eu tenho quase certeza que ouvi sinceridade e entendimento em seu tom. Claro que eu não tive tempo de confirmar porque no próximo segundo o seu pequeno sorriso sarcástico já estava no lugar novamente. “Mas não é como se eu tivesse entendido alguma coisa...”
Eu o calei com um olhar mais afiado dessa vez.
“Olha, eu não estou com paciência para os seus joguinhos agora. Eu já tive um dia bem longo.” Eu admiti cansada enquanto suspirava e me dirigia para a porta da varanda. Ele segurou o meu antebraço quando passei por ele e uma faísca intensa fluiu entre nós. Eu não sabia exatamente o que foi aquilo ou porque aconteceu, mas eu utilizei a nova fonte de energia como combustível para o olhar flamejante que direcionei a ele. Mas não foram preciso palavras, para que ele me soltasse, raramente eu e Alexander realmente usávamos palavras para nossa comunicação e dessa vez, mais do que o meu olhar assassino, a descarga elétrica entregou o recado.
“Não, por favor, não vá, sério, me perdoe. Eu não quis me intrometer na sua vida. Foi só... inevitável!” ele falou baixando a voz ainda mais. A sinceridade borbulhava em cada palavra sua, mas eu ainda não estava pronta para desistir.
“Eu ainda estou esperando pela proposta mágica que vai me fazer ficar nessa sacada...” eu deixei o sarcasmo correr solto. E foi aí que eu li nos olhos de Alexander algo que eu nunca tinha visto antes: Desespero! Seja lá o que fosse que o manteve acordado até depois da meia noite estava levando ele ao limite. Eu estava pronta para dizer que ficaria quando ele me fez uma oferta ainda mais atrativa do que desvendar o porquê de tal expressão:
“Sem joguinhos, eu prometo!” opa, calma aí, ele estava oferecendo uma conversa completamente transparente? Eu não sairei daqui por nada nesse mundo!
“Sem joguinhos” eu concordei e lentamente andei até o peitoril da sacada para apoiar os meus braços neste. Ele me seguiu e ficamos alguns momentos em silêncio observando a massa escura de sombras em que o bosque se transformava durante a noite.
“Sobre o que você quer conversar?” eu perguntei quando o silêncio começou a ficar desconfortável. Ele pensou um pouco antes de responder.
“Hum... Elas são muito suas amigas não é mesmo?” ele respondeu depois de um tempo. Obviamente não era disso que ele queria falar, mas eu resolvi morder a isca.
“Família.” Eu respondi simplesmente. Respirei fundo e comecei a elaborar. “Bom, tecnicamente elas são minhas amigas, mas eu as amo tanto quanto qualquer membro da minha família. Eu morreria por elas.” Eu respondi me virando para encarar seus orbes azuis.
“Sabe o que é estranho? Se qualquer outra pessoa me dissesse que morreria pelos amigos eu diria que é só uma forma de dizer ou que todo mundo fala isso até que seja realmente a hora. Mas quando você fala... Eu sei que você está dizendo a verdade.” Ele falou depois de um segundo e a curiosidade brilhou em seus olhos de forma que me fez sentir como se ele tivesse lido os meus pensamentos.
“Bom, eu morreria, mas o que te faz pensar isso?” eu perguntei confusa e escondendo o medo de que ele soubesse mais sobre a minha vida do que eu imaginava.
“Eu não sei... Algo na forma como você é corajosa e altruísta. Quer dizer, outras pessoas já teriam desistido de me ajudar a essa altura, mas você é a assistente mais dedicada que eu já tive.” Ele constatou e eu soltei uma gargalhada baixa.
“Bom, corajosa talvez, mas definitivamente não altruísta! Eu não continuo trabalhando pra você pelo prazer de te ajudar. Eu só faço as coisas direito por que... bom porque não tem nada mais divertido do que a sua cara toda vez que eu faço algo certo!” eu ri um pouco mais alto dessa vez e ele me acompanhou. Não com suas silenciosas ou sarcásticas risadas que eu já tinha ouvido, mas uma risada real. Cheia de vida e alegria de um som tão rico que me fez virar e encara-lo por alguns segundos. Eu podia jurar que, de repente, o brilho prateado da noite não tinha nada haver com a lua e sim com aquela gargalhada.
“Isso! Porque eu nunca ouvi isso de você?” eu decidi perguntar. Ele disse sem joguinhos, certo?
“Isso o que?” ele fez aquela coisa legal com a sobrancelha enquanto mantinha o seu sorriso perfeito.
“Uma gargalhada!” eu disse e completei antes que ele pudesse responder “E por gargalhada eu não quero dizer os seus sorrisos falsos para chefões de multinacionais, o sorriso sedutor que você dá para as supermodelos ou a gargalhada sarcástica que você geralmente direciona para mim. Eu quero dizer esse som de alegria que você acabou de produzir. Eu acho que nem o Matt já tenha ouvido você rir assim!”
Ele abaixou a cabeça à medida que o meu pequeno discurso se estendia e eu quase me permiti sentir culpada, mas afastei esse sentimento assim que ele surgiu. Eu precisava saber. (sim, eu sei que a curiosidade matou o gato... Dane-se o gato!).
Após alguns segundos de silêncio pesado ele finalmente falou:
“Você não é a única que sente falta de alguém Vanessa.” A sua voz estava sombria e assustadora, mas eu já o conhecia bem o suficiente para ouvir a dor profunda em sua voz. Um som que quebrou o meu coração.
“Quem?” eu simplesmente perguntei em um tom tão suave quanto o vento.
“Minha mãe e minha irmã. Elas morreram alguns anos atrás.” Ele respondeu, desistindo de camuflar a dor que sentia. E da mesma forma como a sua risada iluminou o meu mundo, a sua dor o desmantelou. Eu não sei por que, afinal eu não o conhecia a tanto tempo assim, mas ouvir a confiança se esvair de sua voz daquela forma me fez querer imediatamente confortá-lo de alguma forma, mas eu não sabia o que fazer para alcançar esse objetivo e eu sabia que dizer eu sinto muito ou meus pêsames não ia adiantar muita coisa. Então eu mantive a boca fechada e esperei que ele terminasse de falar.
“Às vezes eu acho que estou superando e de repente algo me faz lembrar tanto delas que eu sinto como se meu coração fosse explodir. Não há palavras para descrever...” Seu tom estava distante, assim como seus olhos enquanto ele focava em algum lugar no bosque, mas não importava. Eu estava gostando de quão direto ele estava sendo comigo essa noite. Era sempre divertido interpretar os seus olhares e tal, mas eu sempre ficava com aquele sentimento de que algo se perdeu na tradução... Isso não aconteceu hoje.
“Saudade” eu sussurrei em português depois de um tempo. Isso chamou a sua atenção. Ele virou seu rosto para me encarar e sua expressão dizia algo como: DO QUE VOCÊ ACABOU DE ME CHAMAR?
Eu dei uma gargalhada leve antes de dizer:
“O português é uma das únicas línguas no mundo a ter uma palavra exata para o sentimento de sentir falta de algo ou alguém sabia?”
“O que, dizer que se sente falta de alguém não é bom o suficiente pra você?” ele falou e trouxe o seu sorrio sarcástico para a nossa conversa novamente.
“Não é que não seja suficiente. É só... Incompleto.” A confusão bagunçou o sarcasmo em seu olhar.
“Dizer que você sente falta de alguém é descrever o seu sentimento. Dizer que você está com saudades de alguém é nomear esse sentimento.” Eu disse e me aproximei, inconscientemente, um pouco mais de Alexander antes de continuar.
“Sabe, aquele aperto no seu coração toda vez que você sonha com essa pessoa, ou toda vez eu você vê algo que te lembra dela. Aquela vontade louca de ligar pra essa pessoa mesmo que você não tenha nada para conversar... ou ir até o túmulo dela e falar, mesmo sabendo que ela não pode te ouvir!” eu adicionei a última frase em um murmúrio e ouvi a sua respiração parar por um momento.
“Esse sentimento não pode ser descrito apenas com sentir falta. E são nessas ocasiões em que usamos a palavra saudade.” Eu continuei murmurando. “Nenhuma palavra ou expressão no mundo vai conseguir expressar corretamente tudo isso, mas das línguas que eu conheço essa é a melhor!” eu terminei meu pequeno discurso e levantei meu olhar para encarar o dele esperando ver ultraje, confusão ou talvez um pouco de medo, do tipo, quem deixou essa garota sair do hospício? Mas o que eu naquela tempestade azul foi... Entendimento.
Por um tempo imensurável para mim nós mantivemos nossos olhares trancados no do outro, nossas respirações em sincronia e a eletricidade contida no ar ao nosso redor era suficiente para produzir um raio.
“Saud..?” Ele falou incerto.
“Sau-da-de” eu repeti devagar até que ele conseguiu pronunciar a palavra de uma forma aceitável.
Depois disso, sem uma palavra nós dois saímos da sacada e fomos dormir (calma, não desse jeito. Eu sou uma dama!). Eu me lembro de deitar na minha cama aquela noite e dormir melhor do que tinha dormido em muito tempo. As memórias do meu ataque de pânico anterior não só me deixaram em paz, mas me abandonaram completamente. Quase como se aquilo nunca tivesse nem acontecido comigo. E o meu último pensamento antes de dormir foi: Saudade!
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