Segredos Fatais
12 Capítulo 11
Notas iniciais
A última coisa que eu pensei que fosse sentir quando ouvisse o desabafo de Alexander: culpa.
Mas assim que ele descreveu o mafioso horrendo que tirou a vida de metade da família dele eu senti um familiar caroço surgir em meu estômago e uma lembrança agridoce invadiu minha mente...
Minhas mãos estavam ao redor de seu pescoço e eu podia sentir o pulsar acelerado de suas veias. Uma leve pressão da minha parte acabaria com a sua miserável vida. Muita gente me agradeceria, eu ganharia prêmios quando voltasse pra “casa”, eles brindariam ao som do meu nome e definitivamente muito mais gente do que os que mandaram para matá-lo comemorariam a morte desse verme.
Mas ainda assim...
Quem sou eu pra decidir quem vive e quem morre? O que me impede de me tornar igual a ele se eu acabar com o sofrimento de muita gente agora? E a pergunta mais importante de todas: Eu conseguiria viver com a culpa e ter o sangue de alguém em minhas mãos?
Todas essas perguntas giravam em minha cabeça e me impediam de agir, seja para matá-lo ou para sair dali. Eu sabia que o chefe me daria uma grande recompensa se eu voltasse com a notícia da morte desse homem desprezível, mas ele seria igualmente rápido para pedir a minha morte de um jeito horrível e torturante se eu desistisse de minha missão.
Eu sabia de tudo isso. Eu já tinha experimentado seus métodos de tortura na pele e ainda assim eu soltei Sergei e me afastei de seu corpo que caiu inconsciente aos meus pés. Virei-me e corri para a janela. Eu precisava fugir. Quem eu estava enganando? Não importava quanto treinamento eu tivesse feito, por quanta tortura eu tivesse passado, eu não sou capaz de acabar com a vida de um homem, não importando quão mal ele fosse. Mergulhei nas sombras daquela noite gelada com apenas uma certeza: Eu não sou uma assassina.
E agora, olhando a desolação estampada no rosto de Alexander eu imagino se matá-lo não teria sido melhor. Se não teria valido a pena. Porque se eu tivesse rendido minha alma naquele dia, Alexander ainda teria a dele intacta.
Encarando o mar tempestuoso de seus olhos, pela primeira vez eu me arrependo.
Dizem que a palavra mais perigosa no vocabulário humano é SE. Eu nunca acreditei tanto nisso quanto agora, porque enquanto eu ouvia Alexander discorrer sobre a experiência mais traumática da vida dele, tudo em que eu conseguia pensar era: e se eu tivesse matado Serguei? E se eu tivesse ao menos o entregado à polícia? E se eu tivesse aleijado ele ou algo assim? Amber e sara ainda estariam vivas?
Em pouco tempo essas perguntas já ameaçavam me enforcar e se não fosse pelo fato de que Alexander estava quase fisicamente em agonia na minha frente eu teria desmoronado. Por isso, ao decorrer da história dele, enquanto me contava sobre as ações de sua mãe e irmã eu me forcei a montar mais um pedaço do quebra cabeças de sua personalidade.
Eu finalmente entendi porque ele tinha tanto horror a ser acusado de enganar vadiazinhas para dormirem com ele. Essa era uma das coisas que sua mãe abominava nele, e no fundo algo que ele nunca gostou sobre si mesmo.
Minha culpa, minha culpa, minha culpa... Pare Vanessa! Não perca o controle, preste atenção no que ele está falando.
Ele era sempre tão feroz em suas aquisições administrativas porque se recusava a ser encarado como um garotinho inexperiente.
Assassina, assassina, assassina... Preste atenção Vanessa!
Quando ele me falou o que Serguei pretendia fazer com a “parceria” entre ele e seu pai, além de me recordar de como eu acabei na Rússia, entendi o porquê de ele sempre estar fazendo auditorias de seus carregamentos para o exterior e as supervisionando pessoalmente, algo que nenhum outro CEO faria. Esse pensamento ameaçou trazer à tona as lágrimas que eu lutava ferozmente para manter guardadas. Pelo menos até que eu estivesse sozinha.
Minha culpa, assassina, covarde...
Essas palavras começaram a invadir as muralhas de proteção psicológica que eu estava tentando tanto manter em pé. De repente eu estava me afogando nelas e os meus pulmões gritavam em busca de oxigênio. E mesmo tentando manter minha cabeça acima da água uma vozinha irritantemente parecida com a minha consciência soava em meus ouvidos:
Só porque você queria ser boazinha, não sujar as mãos de sangue? Agora Alexander não tem mais metade da família, por SUA CAUSA! Vai saber quantas outras mães e irmãs não foram traficadas porque você não teve coragem o suficiente pra acabar com a vida de UM MAFIOSO NOJENTO! Garotas traficadas, vendidas e torturadas COMO VOCÊ! Que tipo de vadia dissimulada deixaria isso acontecer?
Minha respiração se acelerou, minhas palmas começaram a suar frio, meu coração correu uma meia maratona em poucos segundos e minha visão se tornou levemente borrada. Eu sabia o que estava para acontecer agora, meu cérebro gritava para que eu saísse dali o mais rápido possível porque Alexander não podia testemunhar um dos meus “episódios”. Como eu ia explicar isso? Fazia tanto tempo que eu não sofria de um que nem me lembrava das desculpas que costumava dar.
O que eu vou fazer, o que eu vou fazer, o que eu vou fazer, eu tenho que sair daqui, tenho que sair, tenho eu sair...
“Nenhum conselho?” uma voz grave, intensa e levemente rouca surgiu no meio do meu mar de culpa. Lutei com tudo que eu tinha pra conseguir responde-lo.
Vamos Vanessa! Ele precisa de você! Não foi pra isso que você o forçou a contar a história? Vai deixá-lo na mão mais uma vez?
A vozinha irritante continuava a me incomodar. Então eu reuni todas as minhas forças para expressar interesse no que Alexander tinha a me dizer:
“Hun?” foi o meu comentário inteligente.
“Você não vai me dar nenhum conselho ou fazer um comentário pra sei lá... Tirar-me da fossa?” ele perguntou enquanto um pouco do seu humor característico apareceu na pequena curvatura de seus lábios. Embora isso tenha me dado alguma esperança eu já tinha emitido sorrisos daquele o suficiente pra saber que a fagulha de humor era muito ínfima para sequer começar a soldar os pedaços do seu coração.
“Fossa parece um lugar apropriado pra você estar agora.” Eu respondi apaticamente. A névoa de arrependimento e acusações ainda me impedia de formar um pensamento completamente coerente.
“Se você não acha que pode me dar um conselho pra me ajudar porque insistiu que eu te contasse a história?” ele perguntou com um misto de irritação e divertimento em sua voz.
“Você realmente acha que um conselho, um comentário ou um sinto muito vai anular a saudade Alexander?” eu perguntei fitando o fundo de seus perturbados olhos azuis. Mas não o deixei responder, aquela parte louca de mim que estava tentando escapar desde que ele me contou sua história finalmente escapou.
“Não há nada que eu possa te dizer que vá melhorar essa dor no seu peito agora Alexander. Claro que eu posso te dizer que você vai superar, que sempre é muito mais escuro antes do amanhecer, que tudo acontece por uma razão, que a depressão não vai te levar a nada ou que você não tem que passar pela dor sozinho, mas isso não vai te ajudar. Mesmo que tudo isso seja verdade.” Minha voz saiu apática, plana, sem emoção porque se eu realmente fosse colocar sentimento no que estava dizendo, se eu deixasse a minha experiência pessoal colorir aquelas frases, a probabilidade de eu perder o controle da minha própria mente era muito alta.
Levantei-me e fui até a mesinha de bebidas e me servi de whisky. Analisei o líquido cor-de-bronze enquanto andava próximo a ele novamente.
“Achei que você não bebesse” Alexander comentou com uma sobrancelha erguida enquanto se levantava e ficava ao meu lado, de frente para a lareira.
“Eu não bebo” respondi no mesmo tom apático, antes de levantar meu braço e arremessar o copo em direção ao fogo assim como Alexander tinha feito poucos minutos atrás. Um grito de angústia escapou os meus lábios no momento em que o copo deixou minhas mãos e assim que a explosão causada pelo álcool se acalmou eu pude ver a expressão confusa (e levemente amedrontada) que aqueles olhos me lançaram. “Pareceu divertido quando você fez! Eu queria tentar!” eu disse ainda apática, mas agora com uma inocência levemente cômica em minha voz. Ele me presenteou com um pequeno sorriso.
Momentos de silêncio absoluto reinaram ao nosso redor. O tempo parecia incontável, inalterável, interminável, como se estivéssemos presos no intervalo entre o TICK e o TACK.
Não era exatamente desconfortável, muito menos agradável, era simplesmente... Dormente. E quando eu achei que passaria a eternidade naquela fenda temporal Alexander se moveu ao meu lado violentamente reiniciando o relógio.
Ele desceu as escadas furiosamente e eu simplesmente o segui. Minha mente branca. Seus passos me guiaram até a cozinha aonde ele abriu o armário sobre a pia e recolheu de lá uma pilha de pratos de porcelana fina.
Olhou então pra mim daquela sua forma sem palavras me dizendo para pegar a outra pilha. Eu simplesmente obedeci agora curiosa sobre o que ele queria fazer. Eram 8 pratos de porcelana tão delicada que eu tive grande dificuldade em segui-lo e manter a frágil pilha em minhas mãos.
Acabamos no subsolo aonde ele mantinha uma academia equipada com tudo. E quando eu digo tudo eu quero dizer área para tiro ao alvo, quadra de squash, todos os tipos imagináveis de aparelhos para musculação, uma sauna e uma piscina olímpica aquecida e um personal trainer que estava apenas a uma mensagem de distância 24h por dia 7 dias por semana.
Andamos até a quadra de squash e ele arrastou consigo uma cadeira aonde pôs sua pilha de pratos e fez sinal para que eu pusesse a minha. Então, antes que eu pudesse fazer qualquer tipo de questionamento ele pegou um prato do topo da pilha e arremessou-o em direção a linha vermelha no fundo da sala. Milhões de pedaços de porcelana decorada voaram pela sala branca e eu dei um pulo com o estrondo.
“Você tem razão.” Foi tudo o que ele disse antes de me entregar um prato e acenar para que eu também o arremessasse. Eu obedeci.
Não eram necessárias palavras para que eu soubesse o que ele queria dizer. Ele sabia que qualquer consolo que eu podia oferecer a ele seria insuficiente, superficial, um band-aid num ferimento de bala. Mas a raiva estava comendo-o de dentro para fora e precisava sair. Urgentemente.
Uma pessoa normal, completa, teria dito a ele para não fazer isso, para ir a um terapeuta, beber um copo de vinho ou chorar um pouco mais, mas eu não sou normal e muito menos completa. Eu entendo que o luto tem fases, e que embora o choro e o terapeuta ajudam muito na recuperação e o álcool é um ótimo (e perigoso) entorpecente, existe um momento certo para eles. Assim como também existe o momento para a raiva irracional e que essa raiva tem que sair de alguma forma.
Eu sabia disso especialmente porque naquele momento eu estava no mesmo estágio. Eu choraria mais tarde, com certeza, mas agora eu estava com raiva. Raiva de mim, raiva de Serguei, raiva da estúpida viagem que me pôs no caminho dele pra começo de conversa, raiva da minha decisão, e acima de tudo, raiva de saber que no fundo, bem lá no cantinho da minha mente, estava a certeza de que se eu estivesse com a vida de Serguei em minhas mãos novamente, eu ainda a pouparia.
16 pratos, 2 litros de lágrimas de raiva e um milhão de cacos de porcelana depois nossos olhos se encontraram. Eu me virei de frente para ele e sussurrei:
“Eu posso te dar um milhão de dicas, um milhão de abraços ou destruir um milhão de pratos com você, mas no fim das contas Alexander...” pus a mão em seu peito para enfatizar o que estava prestes a dizer. “Ninguém mais pode superar a saudade. É uma decisão que só você pode tomar.”
Caminhei até o meu quarto sem olhar para trás.
* * *
Na semana seguinte eu usei toda a minha capacidade artística para manter os sinais de fadiga fora do meu rosto. Considerando que desde a revelação de Alexander eu passei todas as noites ou chorando, ou acordada revivendo cada segundo da noite que mudou a minha vida, eu me profissionalizei em esconder olheiras e fingir sorrisos. A quantidade de atuação que eu investi durante esse tempo foi digna de um Oscar.
Honestamente eu não sei como Alexander estava porque ele era um mentiroso tão bom quanto eu (se não melhor). O único indício de que a noite de sábado havia ocorrido era a tensão estranha que nos rodeava toda vez que estávamos sozinhos no escritório. A expressão “pisando em ovos” nem começa a descrever como nos tratávamos. Não podíamos mais ser chamados de colegas de trabalho, mas também não podíamos nos caracterizar como amigos. Então mantivemos o silencio.
Na sexta a feira à noite eu sentei em minha cama, já pronta para dormir, me sentindo exausta e nem mesmo a perspectiva de não ter que ir a universidade durante a semana seguinte toda me animou. O campus estava passando por reformas então não teríamos aula.
Apesar de cansada o sono parecia não querer chegar, então eu resolvi checar minha vida virtual. Abri o Skype e logo minha amiga Stephanie me chamou para uma conversa.
“E daí amiga, como vai a vida?” Ela derramava alegria. Era nítido em seu rosto.
“Nossa, alguém está vomitando arco-íris hein? Pra que tanta alegria?” eu respondi com um pequeno sorriso. Não importa o quão depressiva eu estivesse me sentindo, conversar com qualquer uma das minhas amigas já ascendia um calor dentro de mim que ofuscava todas as outras emoções.
“Eu tô te procurando faz 2 SEMANAS pra te contar as notícias, mas você sumiu do face!!” ela reclamou levemente aborrecida, mas claramente sendo incapaz de manter o sorriso fora do rosto por muito tempo.
“Desculpa, a vida aqui tá muito louca ultimamente. Mas diga, o que foi?” repliquei e como resposta ela me mostrou seu dedo anelar direito com uma aliança dourada cheia da pequenos cristais embutidos. Conhecendo o namo... noivo dela, definitivamente eram diamantes reais.
“TÁ DE BRINCADEIRA! QUANDO? COMO? ONDE? AHHH CONTA TUDO!” Eu ordenei e ela não precisou de mais convite. Começou a me contar como Matheus a pediu em casamento.
Aparentemente ele a chamou pra o encontrar na praça e quando ela chegou lá, em vez dele, encontrou Júlia com uma rosa e uma pista. Alguma coisa parecida com “Obrigado por fumar” ou algo assim. Uma piada interna boba deles sobre algum filme que eles dois amam, mas que eu ainda estou pra entender. E assim foram cinco pistas, cada uma foi entregue por uma de nossas amigas e a ultima pista a levou para um restaurante. Dos mais caros da região. Do tipo que ela sempre quis entrar, mas não tinha coragem de pagar tanto por um prato de comida sabe... Pois é, quando ela chegou, lá estava ele, no centro do restaurante aonde havia um palco para que música ao vivo fosse tocada. Com um buquê de rosas vermelhas e amarelas em mãos e um brilho distinto de lagrimas nos olhos Matheus se ajoelhou e ao som de Lucky (Jason Walker & Colbie Caillat) ele disse:
“Stephanie Amorim, você é a minha melhor amiga, minha companheira e eu sou o cara mais sortudo do mundo por ter você como minha namorada. Mas eu acho que está na hora de nos casarmos. O que me diz? Quer me fazer o homem mais feliz do mundo?”
No final da história eu já tinha lágrimas de felicidade nos olhos.
“Então... eu estava pensando se você não poderia ser uma das minhas madrinhas...” ela pediu com a voz baixa, incerta, ela já sabia a resposta que eu tinha que dar.
“Você sabe que eu não posso Sté...” eu lamentei.
“O Matheus paga a sua passagem, vem amiga, por favor?! Não vai ser o mesmo sem você!” ela fez aquela carinha de cachorro sem dono que ela sabia corta o meu coração e a saudade apertou muito no meu peito.
“Eu não posso simplesmente pedir uma folga assim tão grande Sté! É um dia de viagem daqui até aí, mais o dia do casamento... são três dias de folga!” eu tentei explicar e manter o choro longe da minha voz ao mesmo tempo.
“É... na verdade são quatro. Nós vamos casar na chácara do pai dele. Fica a pelo menos 5 horas daqui...” ela disse parecendo envergonhada e eu não pude evitar de sorrir. Ela tinha aquele biquinho que sempre fazia quando estava com medo da reação de alguém.
“Viu?! Eu não posso ir!” eu enfatizei.
“Eu sei... É só que... Eu não estaria casando se não fosse por você sabe...”
“Não diga isso...” eu sussurrei.
“Eu não teria nem mesmo descoberto o quanto eu o amo se não fosse por você... Eu não teria tido a chance se...”
“Não.” Eu a parei definitivamente. “Isso passou! Você não precisa pensar nisso agora!” eu tentei.
“Por favor?!” ela implorou pela última vez e como eu não posso nada contra aquele bico...
“Eu vou perguntar!” suspirei em derrota e ela nem mesmo teve a decência de esconder seu sorriso de vitória.
* * *
Ouvi um barulho estranho vindo da sala de Alexander quando estava caminhando pelo corredor com minha xícara de café e ao passar por sua sala pude ver um mundaréu de papéis jogados no chão e um Alexander de pé apoiado em sua mesa e de cabeça baixa.
Fazia dois dias desde que Stephanie tinha me falado do casamento. Era segunda feira e ela se casaria na quinta. Eu estava ficando sem tempo para pedir a folga. Na verdade eu estava sem tempo nenhum. Já eram 11h da manhã, eu teria que viajar no máximo amanhã para conseguir chegar a tempo do casamento e estava ensaiando para conversar com Alexander sobre isso desde que cheguei.
Se eu já estava tremendo na base antes, só imagine como me senti naquele momento, sabendo que essa já não era uma pergunta agradável de fazer depois de apenas dois meses de trabalho, e vendo o meu chefe, que já é naturalmente esquentadinho, naquela revolta toda.
Isso é que é ter sorte.
Bati na porta de vidro levemente. Ele me olhou sem expressão e simplesmente fez sinal para que eu entrasse.
“Os números da América Latina não estão batendo.” Ele já respondeu a pergunta silenciosa que fiz enquanto olhava para os papéis forrando o chão.
“Está faltando alguma coisa?” eu perguntei meio ausente me concentrando em não hiperventilar de nervosismo. E se ele não me deixar ir? E se ele me disser pra nunca voltar? Como vai ser se eu e Matt morarmos em hemisférios diferentes?
“Não, na verdade está sobrando muito” ele caiu na cadeira, derrotado, e bebeu um gole do café que eu tinha trago para ele mais cedo.
Antes mesmo que eu tivesse a chance de fazer a pergunta que qualquer um faria nessa situação: Você tá bêbado colega? Ele já começou a explicação.
“Os impostos não estão sendo descontados. Sem tarifas alfandegárias, sem taxas de residência, nem mesmo os vistos de trabalho dos empregados que eu mando daqui pra lá.” Ele falou em um tom cansado.
Eu estava pronta pra perguntar o porquê de tanto caos, quero dizer, eu sou brasileira, de onde eu venho redução de impostos é o maior tipo de benção de que se tem notícia. Mas aí que eu entendi (ironicamente, também pelo fato de ser brasileira) que: nenhum tipo de governo ou oficial do governo simplesmente anula as taxas de impostos. Eles podem diminuir por questões político econômicas, mas nunca anulam. A não ser... Que estivessem sendo subornados. E aí tudo fez sentido.
Não é lá muito incomum um suborno de vez em quando e eu não era ingênua o suficiente para achar que todo o império Monroe tinha sido construído sem nenhum tipo de ajuda extraoficial, mas quando a diferença é grande o suficiente para que o CEO perceba na papelada de relatório significa que o que a empresa, ou nesse caso os empregados, quer esconder é grande e muito além da área cinza do campo minado legal. Eu pude entender que Alexander estava com medo de que alguém estivesse fazendo coisas horríveis e usando a sua empresa como fachada. Assim como Serguei tentou fazer, não tanto tempo atrás.
Claro que eu entendia o desespero de Alexander. E o meu lado empático sentia muito por ele, mas o meu lado aproveitador pode ter prevalecido nesse momento porque antes que eu me desse conta eu já estava dizendo:
“Então porque você não vem comigo pra o Brasil? Nós podemos começar a auditoria por lá.”
“Eu... Calma aí, como assim com você?” perguntou cheio de suspeita.
“Bom... Uma grande amiga minha vai casar na quinta e já que você já tem que ir pra lá de qualquer forma... não custa dar um passeio né? Descontrair um pouco...” eu tentei, mas Alexander ainda não relaxou sua expressão.
“Além do mais, vai ajudar muito se você tiver alguém que sabe falar português e espanhol indo com você, certo?” Eu barganhei e isso finalmente quebrou um pouco a sua expressão impossivelmente composta.
“Eu suponho que essa é uma boa ideia...” ele considerou. “Aonde essa sua amiga vai se casar?”
“Ela e as outras moram em Curitiba, só eu que morava em Brasília. Mas o casamento vai ser em uma chácara, não na cidade.” Eu disse.
“Bom, então eu acho que finalmente vou conhecer o Brasil.” Ele afirmou tentando colocar animação em sua voz, mas eu acho que até Alexander sabia que eu não acreditei nem um pouco naquele fingimento. Então eu apenas dei um pequeno sorriso e sai da sala dizendo que ia ajeitar os detalhes da nossa viagem.
Fale com o autor