Segredos
2 Conhecendo por fora da caixa
Nunca ame, querida. Pois de todos os seus defeitos, o mais fatal seria amar.
Minha mãe sempre me dizia essa frase antes de dormir, mesmo eu sendo pequena, gravei essas palavras pra sempre comigo. Mães normais diziam: "boa noite, minha filha querida" ou cantavam uma canção de ninar, mas minha mãe não, ela gostava de me mostrar em que mundo vivíamos, o velho e rígido mundo real.
Eu nunca gostei muito de Halloween, só que pra o meu azar hoje era o dia das bruxas: por mais que não gostasse sempre sonhei em sair apertando campainhas e gritar:
—Doces ou travessuras, srta. Morgan?
Que seja, onde eu vivo isso não é permitido. Nada é permitido aqui.
Ouço "toc toc" saindo em um tom sonoro e desperto, então percebo que Christian estava ali, sorrindo feito bobo, com um olhar despreocupado.
—Tudo bem, Isabel? Ou Bel? Ou Isa? Como preferir.
—Isabel está ótimo pra mim. -disse.
—Tá bom. -conformou-se. —Posso te fazer uma pergunta?
Fiz que sim com a cabeça.
—Há quanto tempo está aqui?
Meu olhar despencou, eu não fazia a mínima ideia.
—Acho que... -pausei para contar —uns nove anos, sei lá.
—Então tem 16 anos? Tem uma vida inteira pela frente.
—Vida? -dei um sorriso de ironia. —chama isso de vida?
Ele permaneceu calado.
—me desculpe mas, é ridículo, o que diabos veio fazer aqui? Cuidar de uma louca incapacitada é que não foi; -desabafei, e me arrependi no mesmo instante.
—sinto muito se essa não é a vida que queria ter.
—Esse é o ponto, Christian! Ninguém gostaria de ter uma vida como essa, sabe a quanto tempo não saio mais? Nem sei mais como são as gramas.
—Continuam verdes... -disse tentando alegrar-me.
Eu não pude conter um sorriso.
—Então você sabe sorrir?! -falou. —Bom, eu tenho que pegar seus remédios na enfermaria, mas voltarei logo, preciso me certificar que ficará bem.
Amanhece mais uma vez, Christian entra em meu quarto como foguete.
—Levante-se, levante-se!
Abro meus olhos e os esfrego para enxergar melhor.
—Vamos, Isabel. -ele diz, e puxa meu cobertor de cima de mim.
—O que você quer? -perguntei.
—Vamos dar um passeio.
—Não posso sair daqui, ordens são ordens, mas valeu a tentativa.
—Eu consegui uma licença pra te levar ao jardim botânico que inaugurou aqui perto, é uma hora de viagem, e ainda temos duas horas.
Dei um pulinho da cama, deixando transparecer minha felicidade;
—Sério?
—Sim! Vamos, vire-se, deixe eu dá um jeito no seu cabelo.
Ele passou as suas mãos em meus fios dourados, e conseguiu doma-los.
Entramos no carro.
Pela janela do carro, observei as nuvens, oh as nuvens, nunca mais direi que são só fumaça.
A viagem levou bem menos que uma hora, em um piscar de olhos já estávamos lá, o cheiro das flores eram forte, tal que de longe já conseguia sentir.
–Venha, entre.
Logo em frente haviam margaridas, lindas rosas, e violetas, mas não pude me conter de reparar em pequenas flores muchas jogadas no canto, logo meu olhar de tristeza me consumiu.
—Essas flores vieram com defeito, irão devolve-las, ou joga-las fora. -falou Christian enquanto olhava para mim.
Comparei-me a elas, eu era como aquelas flores, vim com defeito de fábrica, irão me descartar também, assim como fez meus pais.
—Vamos embora daqui! -sair aos prantos do jardim, e entrei no carro.
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