Segredo Descoberto
42 Perguntas sem respostas...
Notas iniciais
Violetta Castillo
— León, o que é isso?!
— Um bebê. — Ele respondeu como se fosse óbvio, caminhando até a cozinha.
— Isso eu sei, né — Revirei os olhos sem paciência para suas ironias — Mas de quem é esse bebê?
León não respondeu, deixou o bebê-conforto sobre a bancada da cozinha e tirou o garotinho de lindos olhos castanhos. Me entregou a criança e começou a vasculhar o objeto à procura de algo que pudesse explicar o porquê de alguém ter deixado uma criança em nossa porta.
Depois de tirar o pequeno travesseiro e o manto azul, ele encontrou um papel em formato retangular. Observou o pequeno papel em suas mãos por alguns minutos, com a expressão do rosto inquisitiva, em seguida me olhou e levantou o papel na altura de seus olhos, fazendo então eu ter a capacidade de ler.
"Eu não o quero. Façam o que quiser com essa criança. Lara."
Arregalei os olhos no mesmo momento.
— Meu Deus! Essa mulher é maluca! Esse é o filho dela?! — Olhei para o garotinho que aparentava ter apenas alguns meses, e olhei novamente para León que ainda olhava para o papel e virava-o diversas vezes procurando por mais alguma coisa que talvez tenha passado em branco.
— Parece que sim — Ele então me encarou.
— E esse bebê é seu suposto filho, o que a Lara disse que era seu? — Ele revirou os olhos e bufou, então emendei: — Suposto.
— Provavelmente.
— Hum...
Nos encaramos por mais alguns minutos, tentando assimilar a situação que estávamos. Como uma mãe tinha a coragem de abandonar seu filho? Presentes tão maravilhosos que lhes foram dado para serem amados e algumas como a Lara simplesmente os abandonam sem pensar no trauma que essa criança terá ao saber de sua origem; ao saber que sua própria mãe não o quis e o abandonou.
— Deveríamos fazer algo, León. Procurar a Lara... saber o porquê... não sei...— Falei nervosa e ele assentiu, inquieto.
Ele pegou o bebê do meu colo novamete e o colocou com cuidado no bebê-conforto. Eu terminei de aconchega-lo com o manto.
— Vou procurá-la. Você termina de arrumar tudo aqui? — Ele me olhou receoso, e eu assenti, não me importando exatamente com a bagunça da casa, mas sim com o que aconteceria com aquela criança a partir de agora.
León Vargas
Saí de casa ainda atordoado com as atitudes irresponsáveis de Lara. Abandonar uma criança... seu próprio filho. Como ela era capaz de algo tão inescrupuloso assim? O quanto eu havia me enganado em relação à Lara? Eu já não fazia mais ideia.
Pensei em vários lugares que Lara poderia estar, mas o primeiro foi sua casa. Era muito improvável que ela estava lá, pois não seria tão burra de ficar em um lugar aonde poderíamos encontrá-la, mas mesmo assim eu não poderia deixar essa opção de lado, então segui rumo à casa dela.
Uns vinte minutos de carro e eu já estava em frente à sua casa: uma bela e fina mansão herdada pelos pais da mesma que faleceram quando ela ainda era criança, obrigando-a a morar com a tia até atingir a maioridade.
Saí do carro e peguei o bebê, que agora se remexia inquieto e com os olhos abertos e curiosos. Toquei o interfone, mas ninguém atendeu. Toquei outra vez, e outra, e outra, e outra... mas nada. Óbvio que ela não atenderia.
Peguei meu celular e procurei o número de Lara na agenda, então apertei para chamar. Chamou, chamou... mas sempre caía na caixa postal.
Dei meia volta, planejando voltar para o carro e pensar em outra solução, mas minha cabeça estava à deriva e não conseguia raciocinar nada direito. Estava prestes a entrar no carro, quando a luz da varanda foi acessa, então me virei rapidamente esperando encontrar Lara e poder falar o quanto ela é irresponsável e fútil, mas a única pessoa que encontrei foi o jardineiro da casa parado perto da varanda.
— Procurando pela senhora Lara? — Ele perguntou de longe, variando o olhar entre eu e o bebê.
— Sim, estou. Você sabe algo dela? — Qualquer ajuda era válida nesse momento.
— Esse bebê é seu? — Perguntou ignorando minha pergunta, e apontou para o garotinho.
— Não, não é — respondi impaciente — Sabe da Lara, senhor? Porque se não eu realmente preciso ir.
— Talvez eu não devesse contar — até porque ela é minha chefe — começou — mas tenho quase certeza de que vi a senhora Lara com essa criança aí, e tenho medo de pensar como ele foi parar em suas mãos — Ele me olhou receoso, e então prosseguiu: — Ouvi a senhora Lara dizendo que iria viajar. O destino correto eu não sei, e se soubesse não contaria, pois já falei de mais para um simples empregado como eu. — Ele me olhou novamente e encarou a criança, então deu as costas e sumiu pelo jardim da mansão.
Entrei no carro já sabendo meu novo destino: aeroporto. Só podia ser lá que ela estava, não era possível. Lara teria que me dar uma ótima explicação. Colocar a criança no mundo é fácil; e abandonar mais ainda. Porém ela sabia o que estava fazendo quando engravidou de sei-lá-quem e soube que teria um filho. Que assumisse suas responsabilidades, então!
Violetta Castillo
Quando por fim terminei de arrumar a casa, chequei as horas e olhei se não tinha nenhuma chamada perdida de Léon; não tinha. Certifiquei-me de que as portas estavam trancadas, e então me sentei no sofá e liguei a televisão para espera-lo, pois por mais que eu estivesse cansada, também estava curiosa e preocupada ao mesmo tempo; curiosa para saber as desculpas esfarrapadas que Lara inventará, mas acima de tudo preocupada com León e esse garotinho que teve a má sorte de ser filho de Lara.
Foi só eu sentar que não deu dois minutos e Nathan já estava chorando. Me levantei novamente, praguejando baixinho o quanto ter criança pequena dava trabalho, mas que valia muito à pena, apesar de tudo.
Cheguei em seu quartinho e caminhei até o berço. Peguei meu pequeno no colo e fui ver se a fralda estava suja; não estava. Mamadeira não era, pois fazia pouco tempo que ele havia tomado.
— O que foi, amorzinho — Coloquei-o de pé e com a mão em suas costas para firma-lo, fazendo ele deitar com a cabecinha em meu peito — Acho que alguém tá com cólica, hein, pequeno? — Beijei seus poucos fios de cabelos.
Liguei o móbile e comecei a me balançar para acalmá-lo. Quando ele estava mais calminho deixei-o no berço e fui até a cozinha pegar o remédio para a cólica. Voltei para o quarto e peguei sua chupeta, deixando pingar uma gota de remédio na chupeta, em seguida coloquei em sua boca e o peguei novamente para balança-lo. Esse é a melhor forma de fazer um bebê de um mês tomar remédio, lembro-me de quando Angel e Mel estavam nessa fase... não era nada fácil cuidar de duas bebês que consistiam em ter bastante cólica.
Caminhei com Nathan até meu quarto, e quando percebi que ele já estava dormindo, coloquei-o na cama e também deitei, pronta para dormir e ignorando o fato de que há minutos atrás eu queria esperar León — já havia tirado essa ideia da cabeça, pois estava muito cansada. Fechei os olhos, e então ouvi barulhos de passos:
— Maman... posso dormir com você? — Ouvi a voz de Melissa do outro lado da porta, em seguida ela colocou a cabeça para dentro fazendo eu enxergar apenas seus olhinhos molhados por lágrimas na escuridão.
— Claro, pequena. Vem cá. — Respondi suspirando, percebendo que dormir seria muito difícil hoje.
Melissa correu até a cama e então se deitou ao meu lado e se cobriu.
— Por que está chorando? — Perguntei passando a mão em seus emarranhados cabelos.
— Tive um sonho ruim, maman — Choramingou me apertando contra si.
— Posso entrar? — Angel apareceu na porta e fez o mesmo que Mel: colocou apenas a cabeça para dentro do quarto. — Acho que o tio Clement tá embaixo da minha cama. Tô com medo.
— Vem cá. — Chamei-a com a mão e ela se aconchegou ao lado de Melissa. Havia colocado alguns travesseiros na ponta direita da cama, e desse lado Nathan dormia, enquanto as gêmeas estavam do lado esquerdo. — Minhas princesas — Dei um beijo na testa de ambas — Não há necessidade de ter medo de nada, a mamãe e o papai estão aqui para cuidar de vocês. — Sorri para as duas, que levantaram a cabeça para olhar para mim.
— No meu pesadelo o tio Clement levava você embora de novo, maman. — Mel fungou, com a voz embargada e prestes a chorar.
— Acho que ele está no meu quarto. — Angel estremeceu e me apertou mais.
— Nem o Clement nem ninguém irá machucar vocês. E eu não vou embora nunca mais.
— Promete?
— Eu prometo.
— Te amo, maman — Falaram mais calmas.
Não demorou muito e só o que se ouvia no quarto era a respiração tranquila dos meus pequenos.
Como a Lara têm coragem de abrir mão disso?
— Também amo vocês.
León Vargas
Cheguei no aeroporto rapidamente. Eu nem sequer sabia se Lara ainda estaria ali. Seu voo já poderia ter saído no tempo que eu perdi indo até sua casa.
Desci do carro e peguei o bebê-conforto. Adentrei as portas do aeroporto e observei ao redor. Eu teria um grande trabalho para procurar Lara. O aeroporto é enorme, e eu não faço ideia para onde é seu destino.
Decidi então, olhar no painel para saber quais seriam os próximos vôos: Suíça, Canadá, Nova Iorque, Espanha... Espanha!
Olhei o horário que o avião iria decolar: em 20 minutos. Espero que eu consiga achar Lara nesse tempo, porque se não, sabe-se lá o que será dessa criança...
Caminhei rapidamente até o portão de embarque que seria para a Espanha. Algumas pessoas já estavam lá por perto. Observei em volta...
Enxerguei Lara na fila de embarque. Ela era uma das últimas pessoas da fila; o que era ótimo.
Apressei os passos até ela, tentando manter a calma e não gritar com ela no meio do aeroporto, correndo o risco de ser expulso, até.
— Lara — Chamei-a, e ela se virou abruptamente ao ouvir minha voz — Acho que está esquecendo algo. — Sorri sarcástico, e olhei para o bebê, que agora dormia como um verdadeiro anjinho.
Ela ficou pálida, e apertou mais sua pequena mala que carregava em mãos, fazendo as juntas de seus dedos ficarem brancas com a força que apertava a mala.
— León — Sussurou engolindo em seco, e olhou para o bebê com cara de nojo — Eu não o quero. Você é o pai. Também têm obrigações. — Fiquei pasmo com tamanha cara de pau dela.
— Sabemos que isso não é verdade, Lara. Não negue. — Respondi tentando manter a calma. — Esse bebê não é meu filho e você sabe disso. Não sei quem é o pai; e também não quero saber. Mas você é a mãe e tem obrigações com essa criança, não pode simplesmente abandona-lo!
— Eu já disse que não o quero! Faça o que quiser com esse bebê idiota! — Esbravejou irritada — Eu fui uma tonta ao pensar que você cairia nessa, admito — Fez uma careta como se reprovando a si mesma — Odeio essa criança e o pai dele, que me abandonou quando percebeu que você não iria se prender a mim pelo "filho". Foi um plano inútil, e no fim aquele idiota me abandonou com essa criança, criança essa que eu nem queria!
— O quê? — Em meio à tantas perguntas que eu poderia ter feito, essa foi a única que saiu. A mais idiota, aliás.
Lara soltou um riso abafado e balançou a cabeça negativamente.
"Senhores passageiros com rumo à Madri, Espanha, por favor dirijam-se à ala de embarque. O voo irá decolar em alguns minutos..."
— Está tudo tão claro, León. Só você que não percebe. — Ela me olhou e olhou o bebê novamente, sua testa formou duas rugas, como se estivesse pensando em algo — Talvez eu até o criasse, caso nos casassemos — A encarei tentando entender o quê ela estava falando — Mas como não vai ser assim, eu não o quero.
A fila de embarque começa a andar e Lara dá alguns passos para acompanhar.
— Se não o queria, por que o colocou no mundo? Por que fazer essa criança sofrer, Lara? Sinto tanto por esse garotinho... por ter uma mãe como você... — Disse verdadeiramente.
Ela riu. Apenas riu.
— Não quero sua compaixão, León. Não preciso dela — respondeu dando de ombros — Às vezes você consegue ser bem burro, hein?! Ainda não entendeu que eu só resolvi engravidar para te prender a mim? Infelizmente você só têm olhos para aquelazinha sem-sal e aquelas pirralhas. E isso prejudicou totalmente nossos planos.
— Nossos? Quem mais está envolvido nisso? — Perguntei intrigado.
Lara deu uma risada escandalosa e apressou os passos para mais à frente da fila. Só tinha mais um homem a sua frente, e esse já estava terminando de ser atendido e entregar o passaporte ao guarda.
— Me responda! — Irritei-me.
— Tchau, León. — Ela entregou o passaporte para o guarda e caminhava em direção a porta que ia até a pista de decolagem.
Tentei ir atrás, mas o guarda me barrou com a cara carrancuda. Dei alguns passos para trás e gritei não muito alto, mas o suficiente para ela ouvir:
— E o bebê? — Ela parou, virou-se, e deu uma última olhada para o bebê que dormia tranquilamente. Pensei ter visto ela dar um suspiro; mas acho que não.
— Eu já disse e vou repetir pela última vez: faça o que quiser com ele; eu não o quero.
Então ela se virou novamente e foi para a pista de decolagem. Depois só consegui enxergar pelos vidros ela entrando no avião. Minutos depois o avião decolou e ela se foi, deixando comigo aquele bebezinho tão inocente e que desde pequeno já era rejeitado pela própria mãe.
A quem Lara se referia, afinal? E o que eu faria com esse bebê?
Eu não fazia ideia...
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