Segredo Descoberto
45 Epílogo part.1
Notas iniciais
Quatro Anos Depois
— MELISSA CASTILLO VARGAS! VIENT ICI MAINTENANT! (Vem aqui agora!). — Meu grito fora ouvido, provavelmente, pela vizinhança inteira. Ou talvez eu tenha exagerado um pouco...
— N'était pas moi! Je le jure! (Não fui eu! Eu juro!) — Melissa gritou do andar superior, seus passinhos apressados chegando cada vez mais perto — Ll était Angel! (Foi a Angel!). — gritou assim que parou na minha frente, após descer as escadas correndo.
— Elle est allongéel! Je ne faisais rien! (Ela está mentindo! Eu não fiz nada!) — a voz de Angel se fez presente no mesmo instante, em seguida a mesma apareceu vindo correndo do quintal.
—Qu'est-ce que? (O que...?) — questionei-as com os olhos estreitos. Provavelmente quebraram mais alguma coisa e eu não estou sabendo. Ainda.
— RIEN! (NADA!) — gritaram alarmadas, seus olhos verdes arregalados enquanto trocavam olhares cúmplices.
— Espero que não tenham quebrado novamente a sua cama, Melissa. Seria a terceira vez só esse mês. — Falei seriamente, observando ambas abrirem sorrisos sem graça.
— Excuse, maman! — revirei os olhos, embora estivesse me esforçando para não rir.
Era a terceira vez que quebravam a cama somente nesse mês, porque de acordo com elas a cama ficaria chateada caso pulassem somente no pula-pula que ganharam no seu último aniversário e deixassem a cama de lado. O motivo de certa forma era até fofo, e fez eu e León rirmos durante o primeiro, segundo e talvez até o terceiro mês conseguinte, mas agora a coisa já estava passando dos limites. De duas, uma: ou elas paravam logo com essa mania de pular na cama; ou o jeito era virarmos sócios de alguma empresa de eletrodomésticos. Porque meu Deus...
— Où est papa? (Onde está o papai?).
— Não muda de assunto, pirralha. — Respondi mostrando a língua para elas.
— Ouch, maman!
Sorri para ambas, antes de caminhar até a cozinha para terminar de servi-las. Angel e Melissa apareceram logo depois e sentaram-se uma do lado da outra, como de costume, e começaram a comer em silêncio.
Me sentei em frente a ambas, fazendo uma careta ao sentir outro chute forte somente naquela manhã. E León ainda acha que será uma menina... sinceramente... ainda tenho minhas dúvidas. Combinamos de saber o sexo do bebê somente no dia do nascimento, o que aconteceria daqui um mês mais ou menos. As consultas são normais, exceto que pedimos ao médico para nos dizer apenas o básico.
"— O bebê está bem?
— Sim."
As consultas se baseavam nisso e exclusivamente nisso. Se o bebê estava bem era o suficiente, e então íamos embora. A ideia absurda de não saber o sexo veio de León, de acordo com ele isso era mais emocionante (como se carregar um bebê durante nove meses na barriga; preparar o enxoval completo; transformar um dos quartos de hóspedes em um quarto de bebê; e ainda por cima lidar com outras três crianças pequenas não fosse emocionante o suficiente! E não, eu não estou estressada!), no entanto, por maior que seja/tenha sido minha curiosidade durante esses meses, eu aceitei porque achei que isso fosse o mínimo que eu poderia fazer após León não estar presente na gravidez das gêmeas e nem na gravidez de Nathan (mesmo que essa não tenha sido minha culpa, e sim de Clement).
— MAMAN! — a voz de Nathan invadiu a cozinha, em seguida o garotinho correu até mim dando um beijo estalado na minha bochecha e outro em minha barriga. Sorri com o gesto. Nathan desde pequeno sempre fora muito carinhoso com todos, mas quando resolvia aprontar alguma travessura com as irmãs...
— Salut, amour. — Respondi ao meu pequeno-não-tão-pequeno-assim garotinho, pois Nathan já estava com seus quatro aninhos de pura travessura.
— Olá. — León apareceu na cozinha logo depois, ainda vestido com o uniforme do motocross assim como Nathan, que incrivelmente se apaixonou pelo esporte assim que viu pela primeira vez León correr na pista. Desde então eu perdi meu filho para o motocross. Triste realidade, eu sei.
— Vient manger, papa! Est lasagne! — Angel disse sorrindo banguela.
Tanto ela como Melissa haviam perdido um de seus dentinhos da frente. Angel primeiro, e no mês seguinte foi a vez de Melissa, que fez um escândalo dos grandes por pensar que ficaria banguela pelo resto da vida. Graças ao filho de Ludmila e Federico que inventou aquele absurdo. Fazer Melissa parar de chorar não fora uma tarefa muito fácil, mas quando isso aconteceu e León contou às duas sobre a história da fada dos dentes, no dia seguinte encontramos Melissa em frente ao espelho tentando amolecer seus outros dentes no intuito de ganhar mais dinheiro quando a fada viesse levar seu dente. Minha filha tem cara de fofa e pode ser uma garotinha muito manhosa; mas a mente perversa e maligna, para o nosso azar (querendo ou não), não fora toda depositada em Angel, não.
— Eu prefiro que falem a minha língua, por favor. Obrigada. — León respondeu com uma careta, após lançar um sorriso para mim e deixar um selinho em meus lábios.
— Et nous préférons Français! (E nós preferimos francês!) — as gêmeas revidaram, apenas porque León não era lá a melhor pessoa no francês. Estreitei os olhos na direção delas, indicando que eu havia entendido, e ambas riram.
— Quê?
— Moramos na França há três anos e você ainda não sabe falar francês fluente. Aí eu te pergunto: como? Até Nathan sabe falar fluente! Que descaso, Leonard! — estalei a língua em sinal de descontentamento, embora ele soubesse exatamente que eu estava, novamente, brincando com a situação.
— VIU, PAPA?! SOU MELHOR QUE VOCÊ-Ê! — Nathan gritou animado, fazendo-nos rir.
— Pois é, pestinha. Que tal você me ajudar no francês, uh?
— Nah, papa, você é caso perdido.
Respondeu dando de ombros enquanto dava outra garfada na lasanha. Olhei para León e o mesmo estava com a boca aberta em descrença, enquanto as meninas riam alto da situação.
— Ah, mas é melhor você correr, garoto!
León falou entredentes, os olhos cerrados direcionados agora à Nath, que imediatamente arregalou os olhos e saiu correndo pela porta que dava para o quintal. León não estava brincando (olha a ironia), quando disse que era melhor Nathan correr, no segundo seguinte ele estava correndo atrás do pequeno garotinha que gargalhava alto. As gêmeas não ficaram para trás, largaram os talheres nos pratos fazendo um barulho irritante, e em seguida ambas estavam correndo atrás de León que corria atrás de Nathan, mas se voltou contra as duas ao perceber que as mesmas também queriam atenção. Acabou que sobrou somente eu e meu bebê na mesa saborando o terceiro pedaço de lasanha. O quê?! Não me julgue, estou comendo por dois!
☆☆☆☆
Alguns anos atrás, antes de vir para a França, eu disse a mim mesma que para conseguir seguir em frente e ter uma vida nova com minha família, primeiro eu teria que deixar o passado no passado. Ajustar coisas que estavam fora do lugar, e uma dessas coisas tinha uma nome bastante conhecido: Clement.
Eu não conseguiria seguir em frente sem antes conversar com ele, então alguns dias antes de viajar tomei a decisão de visitá-lo na clínica em que ele estava.
Não foi fácil ter que encara-lo novamente, mas eu estava convicta de que o esforço de certa forma valeria a pena. E valeu.
Eu lembro que disse que o perdoava por tudo o que ele havia feito; mesmo que León achasse isso um absurdo (e ele tem o direito dele de pensar isso, afinal não deve ter sido nada fácil viver na angústia de não saber se a pessoa que você ama e mãe dos seus filhos estava viva ou não). Mas a questão é que eu disse que o perdoava, e sabe o que ele fez? Ele riu. Pois é. Eu sabia que ele estava sob acompanhamento psicológico, e por isso segui em frente com o que eu estava disposta a fazer quando fui vê-lo.
Naquele dia, porém, eu também descobri que Lara tinha, de certa forma, participação do meu sequestro.
Clement era completamente maluco! Planejou tudo aquilo quando ainda estava na França, antes de ir para Buenos Aires. Eu não acreditei no começo. Achei que aquilo fosse apenas mais uma das invenções de Clement para me deixar confusa; mas não. Tudo o que ele me disse naquele dia fazia total sentido, e para o estado psicológico que Clement se encontrava não era possível que ele inventasse tudo aquilo na hora. Estava tudo planejado desde o começo.
Clement revelou que, na verdade, suas armações consistiam em dois planos: o primeiro seria conquistar a minha confiança e demonstrar que León era um canalha pois havia engravidado Lara, mas que o filho de Lara na verdade era dele, e que os dois pretendiam trazer a criança ao mundo para dizer ser filho de León. Isso sim era um absurdo! No fim aquela criança era somente mais uma arma na mão daqueles dois, e isso foi o que mais me deu raiva. Por sorte o pequeno Liam teve a sorte de encontrar duas pessoas dispostas a cria-lo e fazê-lo uma criança feliz. Papai e Angie não podiam estar mais satisfeitos tendo não somente Clarinha, mas Liam também. Aquele garotinha fazia parte da família, e recebeu desde o primeiro momento todo o amor que seus pais biológicos foram incapazes de lhe proporcionar.
Como o primeiro plano foi por água abaixo pois León descobriu que o bebê não era dele, eis que surgiu o segundo e maldito plano: o sequestro.
Lara ajudou Clement com a ilusão de que me tirando do caminho teria chances com León, mas como não conseguiu novamente, achou melhor abandonar o bebê em nossa casa e fugir.
Foram baques e tanto naquele dia. Clement continua na clínica. Não soube mais nada dele desde aquele dia (e não é como se eu quisesse saber). Enquanto à Lara, graças as câmeras instaladas nas áreas de visitas da clínica, pôde ser provado depois de mais um tempo de investigação, que ela também estava relacionado ao meu sequestro. Juntando os fatos, um ano depois chegou-nos a notícia de que Lara estava sendo presa após ser encontrada novamente metida em coisas ilegais. Nem eu, e nem León nos importamos com o que ela estava metida, pois só o fato dela estar sendo presa já era uma preocupação à menos para carregar.
— MAMAN! — ouvi Nathan gritar, tirando-me de minhas divagações. — Está dormindo, é?
Perguntou rindo, seus olhinhos castanhos assim como os meus não paravam quietos um minuto, varrendo o local provavelmente à procura do pai e das irmãs, e tomando cuidado para não ser encontrado.
— Nathan...? — chamei-o, fazendo o garotinho me olhar curioso e com um sorrisinho brincando nos lábios
— Salut? — suas sobrancelhas estavam levemente arqueadas e o sorrisinho debochado alargou-se ainda mais ao perceber meus olhos estreitos em sua direção. Esse não é meu filho; é a personificação do demônio!
— CORRE!
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