See You Again
3 Família emprestada
— Então você tem uma caixa de areia no quintal, Emmy? Como nos parquinhos?
— Não – Emily respondeu calmamente, enquanto guiava Jordan por uma das mãos em direção a sua casa –, mas a minha mãe quer plantar roseiras, então há um canto na parte de trás do quintal sem grama. Vai ser como brincar na areia.
Hanna segurava a outra mão de Jordan e, juntas, ela e Emily erguiam a menina do chão toda vez que se aproximavam de um meio-fio. Jordan ria, feliz da vida, já que há bastante tempo não tinha as mãos de seus pais segurando as suas ao mesmo tempo.
Uma sensação de felicidade também crepitava dentro de Emily. Ela não sabia direito o que era, mas tinha algo a ver com proteger aquela garotinha junto de Hanna, guardá-la, ensiná-la coisas. Além do mais, Emily sabia qual era a primeira imagem que as pessoas tinham das três ao passarem por elas na rua: a de uma família. E, por aquela breve caminhada, Emily deixou-se acreditar que fazia parte daquela família.
Lembrou-se da única vez que fora visitar Hanna em Nova York. Jordan era ainda menor e quase sempre passava o tempo dos passeios no colo da mãe. As vezes que Emily pegava a garotinha pela mão era para evitar que ela saísse correndo pelas ruas, depois que Hanna resolvia soltá-la por um breve minuto.
Desta vez estava sendo diferente; Jordan olhava ora para Hanna, ora para Emily, e seus olhinhos brilhavam, curiosos, querendo ficar à par de qualquer história que Emily tivesse para contar a respeito da juventude das duas. Aquela menina era como um elo, na verdade, que estabelecia uma ligação ainda mais forte entre Emily e Hanna; e a cada passo dado, a morena sentia-se mais grata.
— Ei – Hanna advertiu a filha, que já ia correndo para o fundo do quintal de Emily, com seu baldinho cor-de-rosa na mão –, antes que você tenha a chance de encardir esses joelhos, vá lá dizer oi para a sra. Fields.
Jordan parou, revirou os olhos e disparou para a varanda, onde, desta vez, Pam as esperava, balançando-se tranquilamente na antiga namoradeira enquanto lia algum romance de bolso.
A mulher largou seu livro e, estando certamente surpresa, a primeira coisa que fez foi agarrar a menina que vinha ao seu encontro e erguê-la do chão.
— Não imaginei que você estivesse tão grande! – foi tudo que Emily conseguiu ouvir a mãe dizer, estando ainda longe da varanda.
Observou, então, Hanna sorrir, olhando para a cena diante delas; mais um daqueles sorrisos que destacavam suas doces covinhas. A loira aconchegou-se em Emily, sem cerimônias, o que causou o rebuliço de dezenas de borboletas no estômago da morena, porém ela enlaçou Hanna pelos ombros e beijou-a na testa.
— Sabe, desde o início eu pensei que seria perfeito se Jordan e eu passássemos o fim de semana aqui – Hanna levantou o olhar para fisgar o de Emily. – Só esperei você convidar.
Emily sentiu-se aquecida por dentro e momentaneamente sem palavras devido àquela voz macia, mas conseguiu sorrir de volta.
— Viu? – ela apontou com os olhos para sua mãe e Jordan assim que ela e Hanna subiram os degraus da varanda; a mais nova sorria abertamente para a mais velha e vice-versa. – Eu disse. Alegria tremenda.
—
— Pare de trabalhar, mulher! – Hanna grunhiu, sentada de pernas cruzadas no assento de dois lugares rente à janela do quarto de Emily, enquanto esta esvaziava duas gavetas de sua cômoda para dar lugar às roupas de Hanna e Jordan. – Você está fazendo eu me sentir inútil por não estar aí te ajudando.
— Então venha me ajudar.
— Não, obrigada – Hanna esticou uma perna e casualmente fixou o olhar em sua sapatilha.
Emily riu, sacudindo de leve a cabeça. Não importava quanto tempo se passasse, Hanna seria sempre Hanna – e Emily a amava tanto por isso! Acomodou algumas camisetas na segunda gaveta e decidiu então sentar-se junto da loira.
Havia um olhar docemente sério no rosto dela agora, que envolveu Emily por um longo tempo.
— Você sabe que eu não vim simplesmente para ir à missa com você no domingo; vim também para conversarmos olho no olho. Então me fale sobre o Gregg.
Emily suspirou; ela sabia que quando Hanna a lançava aquele olhar, era hora de desabafar, só que falar sobre aquilo tudo ainda era meio complicado.
— Você já sabe de todo o pouco que há para ser dito – Emily deu de ombros, humildemente. – Eles estão... se conhecendo. Só isso. E agora ela quer um tempo para ficar sozinha e poder “curtir” em paz o aniversário de morte do marido.
— Bem, sim, essa é a parte prática da situação. Mas você nunca chegou a me contar como você realmente se sente a respeito dele. E em nossos últimos telefonemas você nem ao menos tocou no nome do cara.
Emily baixou a cabeça. É claro que não, pensou consigo, os riscos de eu me debulhar em lágrimas falando dele para você eram grandes.
— Ei – a loira murmurou enquanto agarrava uma das mãos de Emily, como se sentisse o nervosismo da garota. – Você não precisa mais fingir que é de ferro, não para mim.
Emily ajeitou seus dedos entre os de Hanna e sorriu. Estar sob a mira gentil daqueles olhinhos azuis era tão confortável!
— Às vezes é difícil demais... – começou suavemente, certificando-se de que a mão da loira ainda estava presa à sua –, apesar de ter sido eu quem sugeriu a ela para que começasse a sair de novo. Sei lá, mas toda vez que ele me cumprimenta, eu fico com a imagem do meu pai na cabeça; Gregg sorri do mesmo jeito doce que ele sorria. E isso me deixa com saudade, entende? Eu... eu não sei explicar.
Ela sabia, na verdade. Só que aquela ferida, depois de um ano, já havia cicatrizado, de certa forma; isto é, se Emily não a cutucasse, não doeria, e iria recomeçar a doer se ela continuasse a falar e a pensar em Wayne. E ela não queria chorar logo no primeiro dia de Hanna em Rosewood depois de tanto tempo.
— Não precisa explicar, meu amor – Hanna sacudiu a cabeça de leve e em seguida caiu num abraço macio com a morena; um sorriso sereno curvava seus lábios. – Eu sei exatamente o que você está sentindo.
Estando ainda delicadamente enganchada em Hanna, Emily fechou os olhos e, por meio segundo, pensou que a garota dizia entende-la porque sentia falta de Caleb – tal conclusão a entristeceu minimamente e ela não soube dizer por quê; mas deixou por fim que aquelas palavras a tranquilizassem; era tão bom quando Hanna a chamava de meu amor; fazia Emily se sentir tão especial.
— Eu sei que você sabe – a morena sussurrou, novamente com a mais plena sensação de não querer soltá-la nunca mais, porém o som de Jordan correndo até elas as fez voltar à realidade.
— Eu achei minhocas lá no quintal – contou a pequena, ofegante e animada; as mãozinhas já sujas de terra. – Minhocas!
Desprendendo-se uma da outra finalmente, Emily e Hanna entreolharam-se e riram.
— Isso é para ser uma coisa boa? – Hanna arqueou uma sobrancelha.
— É claro que é! – Jordan enfatizou, batendo um pé no chão – Você tem que ver, elas são tão engraçadas!
Hanna trocou outro olhar com Emily.
— Nós brincamos assim que a mamãe terminar de ajudar a Emmy com as roupas, certo, docinho?
Emily fitou a amiga com um sorriso incrédulo porém discreto; era quase como se as duas estivessem compartilhando uma piada interna. Cara de pau, Emily pensou. Hanna sentia-se desconfortável até mesmo perto de joaninhas, então apenas em seus sonhos Jordan faria a mãe tocar deliberadamente em vermes pegajosos.
— Ah, vamos, por favor, por favor – a garota fez biquinho.
Hanna estava a ponto de inventar outra desculpa quando Emily decidiu interromper, levantando-se.
— Vamos ver você e eu essas minhocas – disse ela, guiando Jordan para fora do quarto pelos ombros – enquanto a mamãe termina de arrumar as coisas por aqui.
Ela deu uma piscadela travessa para Hanna mas não ficou ali para receber um possível olhar fuzilador da loira.
— Ela me disse que em Rosewood seria diferente – Jordan suspirou, com ar de chateada, depois que ela e Emily cataram quatro minhocas por entre a terra úmida. – Disse que teria tempo para mim aqui.
— Ela já vai descer, meu bem, eu prometo – Emily assegurou à mais nova suavemente. – Mas por que você diz isso? Acha que ela não tem tempo suficiente para você em Nova York?
— Mais ou menos – ela largou uma das pazinhas de plástico dentro do balde cor-de-rosa, como se de repente estivesse cansada de brincar. – Quer dizer, ela trabalha muito, desenhando, e quando eu pergunto se posso desenhar com ela, ela diz que é desenho de gente grande.
Emily sentiu seu coração apertar. Ela nunca havia experienciado aquilo; nunca havia visto sua mãe trabalhar fora de casa até o fim de sua adolescência, sempre a teve por perto, disponível – e às vezes Emily se esquecia de agradecê-la por isso.
— O papai também trabalha bastante – Jordan prosseguiu, ainda soando um tanto ressentida – e ele nunca me deixa mexer nos computadores que ele arruma. Às vezes acho que gosto mais da vovó porque ela nunca me proibe de nada e sempre me leva ao Central Park.
Emily riu. Ashley com certeza havia se tornado uma ótima avó, daquelas açucaradas, que contam histórias para dormir – quem diria? –, mas mesmo assim nunca abrira mão dos longos cabelos tingidos de vermelho escuro.
— Eu adorei aqui – a loirinha sorriu abruptamente, o que deixou Emily feliz. – É tão calmo e as casas são tão grandes! Sem falar que os quintais têm grama de verdade. Acredita que no nosso condomínio tem um parquinho com grama falsa? Não tem graça nenhuma. Lá a gente nem se suja.
Emily achou graça da indignação eloquente de sua afilhada.
— Sim, eu me lembro.
— Eu queria que a mamãe decidisse morar aqui comigo para sempre – Jordan concluiu, cabisbaixa novamente.
Acariciando agora as costas da menina, Emily, por sua vez, suspirou. A deprimia um pouco saber que Hanna, agora, era uma cidadã do mundo, jamais ela iria se aquietar em uma cidadezinha como Rosewood outra vez.
— Eu também, Jordie – disse ela, afinal não custava nada sonhar. – Eu também.
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