Sede de Sangue

17 Um lugar seguro


De alguma forma Megan sabia que estava sonhando. Ela andava por uma imensa floresta, por um tempo achou que não caminhava sozinha, ela sentia uma presença junto de sí . Por algum motivo ela sentia medo, mesmo sabendo que não havia ninguém ali e que tudo aquilo não era real, mesmo assim algo a deixava assustada.

Por um instante ela olhou para baixo. Sua roupa a deixou perplexa, ela usava um vestido de época até os pés, ele era beje, cheio de babados. Olhar para o vestido fez com que ela encostasse em seu cabelo. Assim ela percebeu que ele estava completamente enrolado e preso em um penteado de seculos atrás.

Por um instante ela parou na floresta, chegou há um vilarejo, que no instante seguinte estava em chamas, ela sabia que aquilo não causaria nenhum efeito em sí, porém mesmo assim ela correu, correu por uns três passos até que olhou para trás e o vilarejo havia sumido.

Retornando o olhar para frente tudo o que se via era uma casa velha em um lugar completamente descampado, Megan se aproximou, a porta abriu lentamente. Não se via ninguém lá dentro. Já no interior da casa, ela vê a porta do porão, então se aproxima, e gira a maçaneta, ela entra no porão, ele era incrivelmente sujo e medonho. Tudo que havia era outra porta... Aquela sensação de não estar sozinha voltou a tomar conta de Megan, e um medo terrível percorria seu corpo. Ela correu em direção a porta e girou a maçaneta como se a sua vida dependesse disso, mas foi em vão, a porta não parecia estar trancada. Porém algo estava impedindo que ela fosse aberta, Megan ouve um barulho vindo das escadas, então se vira...

–Outro pesadelo? -Kevin diz ao ver a namorada dar um pulo do sofá.

–Sim, já é a terceira vez que tenho este... Isso é normal?

–Eu acho que... -Antes que Kevin diga qualquer coisa Frank entra na sala da casa de Megan.

–Temos que falar com o xerife, se ele não evacuar a cidade eles vão matar todos.

–Não entendo, se eles declararam guerra contra os vampiros, porque vão matar as pessoas? -Megan pergunta se sentando corretamente no sofá.

–Eles sabem que aqui é onde estamos alojados, sendo assim vão matar tudo que encontrarem pela frente. -Frank responde. -Fez as malas Meg?

–Sim... Mas o que vão dizer ao xerife?

–A verdade. -Kevin responde.

–Como assim? Ele vai achar que vocês são malucos e... -Kevin a interrompe.

–Ele sabe de tudo.

–O que?

–Não há tempo para explicar, temos que ir agora.

Megan e Kevin seguem Frank até o carro, os dois entram enquanto Frank guarda as malas. Quando Frank começa a dirigir Meg tenta voltar ao assunto do xerife, porém Kevin não da ouvidos. Pois estava ocupado demais falando com seu tio sobre a alcatéia que se aproximava.

Não demorou muito até que chegassem na delegacia, Kevin e Frank desceram do carro, assim que Megan dirigiu sua mão ate a porta para abri-la Frank disse calmamente.

–Espere no carro.

Ela não questionou, pra falar a verdade nem estava afim de descer do carro, estava preocupada pensando em sua mãe e em uma forma de encontra-la. Pensava também em Joseph, mas quando se deu conta disso sentiu ódio, afinal ele era filho de John, e tudo que vinha de John a deixava furiosa...

–Ei fujona! -Megan tomou um susto quando César bateu na janela do carro. Ele usava um suéter azul claro, e parecia ter acabado de acordar. Megan deu um breve sorriso, então abriu a porta do carro e desceu.

–Oi César, andou aprontando?

–Porque?

–Bom. Aqui é uma delegacia... Então...

–Ah, claro -O garoto riu -Não eu não aprontei, é que... Bem... Eu sou filho do xerife e minha mãe me obrigou a trazer o almoço.

Ele levantou uma sacola branca daquelas que se encontra em supermercados, Megan não teria percebido se ele não houvesse mostrado, ela realmente estava preocupada. César ficou com um olhar sério e segundos depois disse em um tom tão gentil que fez Meg começar a dar ouvidos a ele.

–Esta tudo bem? O que tem entre você e o aluno novo?

–O que?

–Joseph não é isso? O que você tem com ele? Eu achei que você estivesse com Kevin...

–E eu estou. Não tem nada entre mim e Joseph.

–Então porque estavam dançando? Quer dizer... Tenho mencionar que pelo que observei ele parecia estar te obrigando...

–A gente não tem nada... E provavelmente ele tem um temperamento forte... Somos amigos. -Megan mentia, mas não podia deixar que César soubesse sobre os vampiros... Isso é, se ele não soubesse.

–Eu adoraria falar mais com você -César diz — Só que o microondas daqui está quebrado, então tenho que ir antes que a comida esfrie...

–Tudo bem.

Megan entra no carro, pouco tempo depois, Frank e Kevin chegam. Kevin com a cara um tanto emburrada.

–E então? -Megan pergunta se debruçando para frente.

–O xerife precisa falar com o prefeito da cidade -Dizia Frank — Que no momento está na cidade vizinha, mas ele disse que só um milagre fará dar certo.

–E se não der?

–Se não der pensaremos em outra coisa... Agora precisamos te levar há um lugar seguro...

Frank dirige exatos cinqüenta e cinco minutos, então chega na fronteira de Groovery Born, ele anda mais três ruas e então entra em uma estrada de terra prosseguindo até uma ponte de madeira, assim que a atravessa já se podia ver um grande rio, e uma casa de madeira impecável, Frank estaciona o carro.

–Quando tudo estiver seguro em Groovery born eu volto pra buscar vocês, até lá não saiam daqui.

Megan e Kevin descem do carro, eles pegam as malas e então se dirigem a casa, quando Meg olha por seus ombros percebe que Frank já havia saido. Ela observa o lado de fora da casa com grande empolgação, tudo era lindo. Assim que entram os dois sobem e colocam as malas sobre a cama, o interior da casa também era magnífico. Já na sala de estar, Megan pensou em dizer isso a Kevin, porém percebeu que ele ainda estava com um olhar estranho.

Ela se senta ao lado dele no sofá, e com toda sutileza meche em seu cabelo. Ao perceber que seus olhares se encontraram ela diz sem fazer rodeios.

–O que você tem? Desde que saímos da delegacia você parece estar zangado com alguma coisa.

–Não é nada Megan.

–Não vai conseguir esconder de mim. -Ela responde persistente.

–Porque dançou com Joseph? -Megan fica espantada com a pergunta do namorado.

–Ouviu minha conversa com César!?

–Uma das vantagens de ser vampiro... Mas não mude de assunto.

Megan sorri.

–Não precisa de tanto ciúme, eu dancei com ele porque ele me obrigou, e eu estava obedecendo ele pois tinha esperança que ele me ajudaria a encontrar minha mãe.

–Ele bateu em você? -Kevin diz com raiva.

–Não, pra falar a verdade ele até que foi gentil, diferente da Amanda. Quer saber? Bem feito ela ter morrido.

Kevin sorri.

–Ainda está bravo? -Megan pergunta o abraçando fazendo com que os dois caíssem do sofá, ela coloca seus braços sobre o peito de Kevin e o encara esperando uma resposta.

–Eu não consigo ficar bravo com você.

Kevin a beija gentilmente, pouco tempo depois puxa seu corpo colocando-o perto de sí, os dois voltam a se beijar. Megan não sabia porque, mas quando o beijava todos os seus problemas pareciam simplesmente desaparecer, ela havia esquecido do mundo naquele momento enquanto dava puxões no cabelo do seu namorado.

*

–E o que você queria que eu fizesse? Queria que eu encarasse um caçador o Max e todos os outros ao mesmo tempo? -Diz Joseph aos berros.

–Eu dei uma tarefa há você seu incompetente. Por sua culpa perdemos a meio sangue... -John diz histérico.

–Se há quer tanto assim e me acha um incompetente porque não vai busca-la você mesmo?

John o pega pelo pescoço e o coloca contra a parede, ele o encara com seu olhar frio, aquilo sempre deixou Joseph furioso... Mas acima de tudo magoado, ele não aguentava a rejeição do pai, desde pequeno John sempre havia tratado ele com total indiferença, era óbvio que ele não o tinha como filho mas sim como uma arma, pois ele sabia do poder que Joseph tinha, pra falar a verdade não havia outro motivo para John ter feito um filho.

–Tenho mais tempo de vida do que você seu garoto idiota -Diz John apertando ainda mais o pescoço do filho. -Não tente se rebelar ou eu mesmo acabo com você.

–E eu sou um híbrido -Joseph diz com o tom de voz mais alto que pode porém sua voz quase nem saia -Talvez eu não possa te matar com a minha metade vampiro, mas se eu te morder com minha metade lobisomem você já era.

–Não tenho medo de nada, não é um híbrido de quinhentos anos que vai me assustar...

–John! -Diz um outro vampiro entrando na sala. -Precisamos conversar, é urgente.

John sinaliza para ele e o vampiro sai da sala, seu olhar frio volta a encontrar os olhos de Joseph, que já estava se sentindo sem ar, ele tentava escapar segurando as mãos de John, porém era em vão. No minuto seguinte John o arremessa pela sala. Joseph desliza pelo chão, e bate na parede.

–Isso é por ter me ameaçado... Agora se levante do chão e vá fazer alguma coisa útil, vá encontrar a meio sangue...

John sai da sala, em seguida Joseph se levanta do chão irritado. Uma parte dele não queria entregar Megan para John, no fundo ele sabia que ela era uma boa garota, ele não queria admitir o quanto havia se encantado ao vê-la debater com ele na aula de geografia... Mas aquele foi apenas um pensamento passageiro, ele tinha que entrega-la mesmo sabendo que era errado.

Então foi até seu carro que estava parado em frente a mansão de seu pai, quando começou a dirigir voltou a pensar em Megan, em quando eles dançaram na festa e em como ela era corajosa para encara-lo. Em seus quinhentos anos todos o temiam, todos fugiam dele quando descobriam o que ele era, mas Megan o encarou firmemente e o questionou, para uma meio sangue ela era corajosa demais, ou então ignorante demais.

Ele continuou dirigindo, e não demorou muito para que chegasse em Groovery Born, ele sabia o que tinha que fazer, tinha que levar Megan custasse o que custasse, ou então John acabaria com ele...

*

–Vampiro, Bonitinho, e ainda sabe cozinhar -Megan diz enquanto olhava Kevin picar o alho — Pena que você tem namorada.

–Acertou em tudo, menos no bonitinho. Fala sério, eu sou um gato!

Os dois sorriem.

–E muito convencido. -Megan diz colocando a mesa. -Então... Onde foi que aprendeu a cozinhar?

–Bom... Quando eu morava com meu pai há muitos anos atrás sempre via as criadas cozinharem... Então quando cresci acabei percebendo que não era tão difícil assim.

–Já eu queimou até água -Megan da risada, fazendo Kevin rir também. -Minha mãe diz que eu vou viver de comida enlatada quando ficar mais velha.

Aos poucos o sorriso some do rosto de Megan, lembrar-se de Marcela era doloroso para ela.

–Ei... -Diz Kevin. -Vamos encontra-la.

–E se não acharmos? A essa altura pode ser que ela esteja...

–Não, não está, vamos encontra-la. Confie em mim... O jantar está pronto. -Ele muda de assunto tentando deixa-la o mais feliz que se era possível naquela situação.

Ele serve a comida para Megan com um sorriso no rosto.

–Você podia comer... -Ela diz olhando Kevin se sentar.

–Comida não nada agradável para vampiros. -Gentilmente ele sorri. Megan não insiste e come sua comida tranquila.

*

Andar por aquela floresta a noite era horrível, embora fossem apenas sete e meia tudo já estava escuro. Luna ainda achava que procurar pistas sobre a alcatéia era trabalho para Mike, mas mesmo assim não desobedeceu Frank, ela tinha grande respeito por ele.

Ela continuou andando, nada, nem pistas nem lobisomens, nem nada, apenas o silêncio da noite, por um instante ela se sentiu uma transeunte qualquer. Então parou de procurar, se distraiu com o silêncio da floresta.

Sua atenção só retornou quando ouviu um barulho, parecia ser algo correndo sobre uns galhos secos que estavam no chão. Ela congelou. Se fosse um lobisomem, talvez aquilo seria seu fim, ela não queria acabar como Amanda, jogada na estrada como uma qualquer.

Pensar nisso fez com que ela corresse o mais rápido que podia, porém ao seu lado ouviu o mesmo barulho de antes, parecia ter alguém a acompanhado. Já exausta e não conseguindo mais correr, ela parou, e se encostou em uma arvore, esperando para atacar seu inimigo.

Mas logo ele apareceu rindo sarcasticamente. Era Max, Luna sentiu raiva, então o ignorou e continuou andando, assim que chegou a uma clareira percebeu que Max a seguia, ela sentiu um ódio terrível, então parou e o questionou.

–O que você quer Max?

–Florestas são publicas, não? -Ele fingia não estar ali por ela.

–É tem razão, mas porque não anda na matade que eu não estou?

–Prefiro andar por aqui mesmo... Então...Como você está?

–Florestas são publicas, pode andar aqui -Diz Luna o mais seria possível- Mas prefiro que você não dirija palavras a mim.

–Já ouviu falar que guardar mágoa da rugas?

Luna revira os olhos tentando ignorar a ironia de Max, mas ele puxa seu braço.

–Quando vai entender que eu amo você?

–Já tivemos essa conversa Max, e não deu em nada... Agora me solte.

–O que aconteceu com a antiga Luna? Não consegue fazer eu te soltar? Ao menos que...

–Que o que? -Luna pergunta irritada.

–Ao menos que não queira.

Assim que termina a frase ele a puxa e a beija. Por um tempo Luna tenta se soltar, mas segundos depois sem perceber já havia se entregado, ela empurra Max até uma árvore, os dois permanecem se beijando enquanto uma forte chuva caía. O beijo teria durado muito mais se um uivo não tivesse atraído a atenção de Luna fazendo-a se lembrar que ainda era lua cheia.

Seus lábios se separaram dos de Max, ela olhou para os lados ainda com as mãos na jaqueta de couro preta que ele usava.

–Luna eu... -Max tentou falar, porém ela colocou o dedo em seu lábio para que ele ficasse quieto. E por fim usou sua velocidade para sair da floresta

Max ficou ali parado, apaixonado como sempre por Luna, ele a conhecia bem o suficiente para saber que aquele beijo não tinha sido apenas um beijo... Pensar nisso o deixava esperançoso.

A chuva só aumentava, deixando a floresta com um ar assustador, Max logo foi embora, e no tempo certo. Embora ele não soubesse, assim que se foi a alcatéia que todos tanto temiam chegou. Se tivesse ficado mais um instante tudo estaria acabo.