Secrets On The Grave
1 Capítulo Único
Notas iniciais
http://31.media.tumblr.com/d797743704a244449e8201a50711dd82/tumblr_msw3xkhLST1qayy2qo1_500.jpg
E aí lembrei desse vídeo:
http://www.youtube.com/watch?v=Dl4Jglh4Q1s
E aí chorei horrores e escrevi isso aí.
Espero que alguém goste, se emocione e comente. Minha alegria são as suas lágrimas...rs...
Sei de uma coisa sobre Stiles que ele ainda não sabe que eu sei. Um segredo que ele guarda como se fosse um tesouro precioso, algo que nem mesmo Scott, que é seu melhor amigo desde que saíram das fraldas, provavelmente, deve saber.
Desde que nos conhecemos, desde que me senti na obrigação de protegê-lo, como sinal de gratidão pelo que fez por mim quando o Kanima nos atacou na piscina, que o observo a distância. E uma vez por mês o sigo até uma rua afastada do centro da cidade, onde ele entra num pequeno e encardido cômodo comercial e senta na cadeira estofada de couro avermelhado.
Hoje sei que ele faz isso há tantos anos que o homem de cabelos grisalhos sequer o cumprimenta. Apenas pega a máquina e faz o que precisa ser feito. A primeira vez que o vi nessa situação, não dei importância até notar que assim que o homem começava seu trabalho, lágrimas indiscretas escorriam de seus olhos. E aquilo me paralisou.
Fiquei completamente sem ação não pelo que vi, mas pelo que senti dentro de seu coração. Há quem acredita que lobisomens são como outros animais e que podem ter empatia pela dor dos humanos. Não acreditava nisso até aquele momento. Até que o rasgo que parecia se abrir na alma do menino alcançou a minha e me fez querer desabar.
Stiles saiu dali algum tempo depois e movi minhas pernas atrás dele no modo automático, sentindo que aquela dor de momentos atrás era pequena perto do que ainda teria pela frente. Ele parou diante de uma floricultura, sorriu para os lírios brancos e suspirou, dizendo:
- Você gostava, né?
Deu as costas às flores e continuou seu caminho, até alcançar o portão de ferro torcido que dava entrada para o cemitério local. Ele parecia tremer e pude distinguir o quanto seu coração estava descompassado.
Quando ele atravessou o portão, foi como se o mundo tivesse congelado. O frio que agora tomava conta de seu coração parecia me atingir de tal forma, que quem batia queixo era eu. Fiquei de longe, apenas observando o menino, que sempre se mostrou estupidamente corajoso, cair de joelhos diante de uma lápide.
- Oi mãe! – ele murmurou, enquanto se acomodava melhor e abraçava os próprios joelhos – Senti sua falta, sabia? Sinto todos os dias quando acordo e mais ainda quando vou dormir. As coisas estão tão estranhas por aqui, sabe? Não, mãe, não por causa de todas aquelas criaturas bizarras que te falei. É por mim mesmo. Não dá pra dizer o que é, mas parece que estou com o coração tão cansado. Não é só da Lydia. É meio que de tudo, da Lydia, do Scott, do imbecil do Derek e o tio psicopata-zumbi dele. De cuidar do pai.
Ele apertou os lábios, a respiração um pouco mais pesada que o normal. Esticou os dedos e contornou as letras que formavam o nome de sua mãe, Cláudia, na pedra fria. Abaixo do nome, foram gravadas as palavras “por favor, leve nosso amor para o céu” e os nomes de Stiles e seu pai como assinatura.
- Meu quarto está uma bagunça, como sempre. Acho que só vou conseguir colocar ele em ordem quando conseguir me colocar em ordem também e é possível que isso demore um pouco. Sim, ainda sinto aquele frio de sempre, pela falta dos seus braços em volta de mim e ainda me escondo por baixo das camisas de flanela. Acho que todo mundo se esconde, não é mesmo? Eu, nas minhas camisas. O pai, atrás do distintivo. A vovó, nas páginas da bíblia. O Scott, no trabalho. O Derek, atrás daquela cara de mau...
Stiles soltou os joelhos e se agachou, acariciando a lápide mais uma vez. Olhou o relógio e soltou um longo suspiro.
- Cortei os cabelos de novo. É, daquele jeito raspado. Você lembra quando eu cortei a primeira vez? Os seus tinham começado a cair e eu cortei os meus para dar pra você. E você e o pai começaram a chorar e pensei que tinha feito alguma coisa muito feia e ia ficar de castigo. Mas em vez disso, o pai me abraçou e disse que ia cortar o cabelo dele também. E ficamos nós três de cabeça raspada.
Ele olhou pra os lados, secando as lágrimas, como se não quisesse que os pássaros, os únicos ali àquela hora além dele e de mim, vissem sua fragilidade.
- Os cabelos do pai estão quase normais "Quase" porque nos últimos meses muitos deles caíram sozinhos. – ele esboçou um sorriso, que morreu em seguida quando olhou a foto da mãe na moldura dourada pregada à lápide – Mas eu não consigo, sabe? Deixar o cabelo crescer... Para quê? Sem ter sua mão para bagunçar os fios quando eu passo na cozinha, ou para afagar quando estou deitado vendo TV.
O menino olhou para o alto e balançou a cabeça, num gesto misto de resignação e negação.
- Tá quase na hora. Você sabe que o pai fica chateado quando eu venho aqui. Diz que eu preciso desapegar, te deixar em paz. Mas mãe, — a voz dele agora era um tom mais baixo pelo nó que sentia se formar em sua garganta – como eu posso me desapegar? Não quero te perturbar, você sabe disso. Mas se eu soltar você, se eu me desapegar, vou me agarrar a quê pra ficar de pé? Pra continuar?
Ele deu as costas ao túmulo e tomou o caminho para fora do cemitério, passando por mim sem se dar conta da minha presença. Sua dor era tão grande, tão palpável, que o impedia de ver qualquer coisa além de si. Ainda murmurou, com um último olhar para trás:
- Sinto mesmo a sua falta.
Há quase um ano que observo essa cena se repetir uma vez por mês. O conteúdo das conversas mudou muito. Embora a saudade da mãe seja sempre a mesma. E apesar de ser um momento tão íntimo, dizia para mim mesmo que não estava sendo indiscreto. Apenas queria proteger o rapaz e seu segredo.
E depois de um tempo, eu queria proteger mais que isso. Empatia se tornou simpatia que se tornou algo mais e me vi na obrigação de proteger o coração dele. Não sei como fazer isso. Ainda mais sabendo que deixo Beacon Hills no mesmo dia em que ele normalmente vai ao salão cortar o cabelo.
O sigo mais uma vez, observo ele sentar, mas quando ouço a máquina sendo ligada, acabo entrando no salão e segurando o braço do barbeiro que me olha com assombro. Stiles tem razão quando diz que tenho cara de mau.
- Hoje não. – falo pra ele, observando seus olhos já cheios d’água.
- Derek, eu não... – ele começa a querer argumentar, mas eu o interrompo.
- Vem comigo.
Ele me segue. Ele sempre segue. Gosto de pensar que é porque ele sabe que pode confiar em mim, mesmo que em muitos casos isso não seja sensato. Faço ele entrar no camaro e dirijo em silêncio até o cemitério.
Stiles desce atrás de mim e continua me seguindo até que vê o rumo que estou tomando. E é quando ele me ataca. Não fisicamente, pois ele sabe o quanto isso seria ridículo. Ele me ataca com sua pior arma: palavras.
- Como... como se atreve? Você me seguiu é? Para saber dessas coisas? A troco de quê? Vai querer zoar comigo só porque eu sou um cara de quase 18 anos que ainda conversa com a mãe morta? Você é um imbecil. Um completo idiota que acha que o mundo gira em torno de você e da sua lua cheia de problemas.
- Stiles! – zango com ele, enquanto seguro seus ombros, virando seu corpo de frente para mim – Cala a boca.
Puxo a mão dele entre a minha e praticamente o arrasto o resto do caminho e paro diante do túmulo de Cláudia Stilinski. Aperto a mão dele mais uma vez e o encaro, com firmeza, com toda verdade que tenho dentro de mim.
- Sim, eu te segui. Sim, eu sei do seu segredo. Sempre venho com você aqui, mesmo que você não me veja. E nunca, nunca ia zombar de uma coisa assim. — crispo meus lábios antes de dizer as próximas palavras, que acabam saindo em tom de confissão — Algumas vezes ainda saio a noite para conversar com Laura. Sei que em algum lugar ela me ouve.
A expressão dele muda um pouco, a dureza e indignação em seu olhar desaparecem e consigo notar que ele engole em seco, processando aquela informação, se adaptando a ideia da minha fragilidade assumida.
- Tenho que sair da cidade por um tempo, Stiles, e queria me despedir de você. E pedir que não cortasse mais o cabelo. Prometo que vou bagunçá-lo quando voltar. – soltei a mão dele, mas notei satisfeito que ele não soltou a minha, e encarei a lápide – E a você, senhora Stilinski, eu prometo que assim que seu filho se sentir pronto para se desapegar, estarei aqui para que ele tenha um novo apoio. E se você, Stiles, não quiser se desapegar jamais, ainda assim estarei aqui, para proteger o seu segredo.
Ouvi seu coração falhar uma batida, enquanto ele finalmente soltava minha mão. Dei um passo em sua direção, ficando próximo o bastante para colar minha testa na dela e falei, em voz baixa:
- Eu prometo!
Me afastei dali antes que ele pudesse reagir, mas sorri, antes de alcançar a saída, ao apurar meus ouvidos e escutar ele comentando:
- É, mãe, é ele o cara que eu falei...
Não acredito que Stiles deixe de visitar o túmulo da mãe, mas tenho em mim essa sensação estranha de que ela agora vai ficar feliz. Assim como Laura. E como nós.
Fale com o autor