Notas iniciais
Espero que tenha ficado entendível!

Sete.

Mana caiu de joelhos no chão, ainda segurando o revólver.

Eu estava no chão quando a arma disparou. O sangue começava a escorrer, manchando inteiramente meu colete. Será que a Ordem me daria um novo depois? Fiquei me perguntando por que não sentia dor alguma, até me dar conta de que a bala não havia me atingido. Só significava uma coisa...

Empurrei Közi para o lado, tirando-o de cima de mim. Ainda tinha os olhos abertos e sangue lhe escorria do canto dos lábios, mais macabro do que o normal. Pus dois dedos em sua jugular, não havia pulsação alguma. Ele estava morto.

Atordoado, olhei para Mana.

- Agora sim é que eu não estou entendendo mais nada...!

- Me... me perdoe... — ele balbuciava.

- O... que disse?

Ele levantou o olhar para mim. Pela face, escorria uma cortina de lágrimas que brilhavam à pouca luz do local. Apesar de ter dito que eu o o odiava, bom... ele continuava uma gracinha.

- Me perdoe, monsieur Kami... me perdoe, me perdoe, pelo amor de Deus...!

- Mana... o que aconteceu aqui? Você errou o tiro, foi isso? Seu lolita burro e ruim de mira!

- Monsieur, eu...

- Que pontaria horrível! Nem pra me matar você serve! — se visse o tamanho do sorriso de deboche na minha cara... na verdade, eu não sabia se devia estar feliz ou triste, mas sorria assim mesmo. Pelo menos ainda tinha todos os dentes, ao contrário de Közi.

Engolindo o choro, Mana fechou os olhos por alguns segundos. Levantou-se, procurou se recompôr e, tornando a abrir os olhos, me encarou furiosamente. Dos lábios pintados de azul saiu uma ordem, tão enérgica que meu sorriso morreu no mesmo instante.

- Você quer por favor calar a boca?!

Arregalei os olhos. Eu estava levando bronca de uma prostituta.

- ... Credo.

- Vai me deixar falar ou não?

Fingi puxar uma cadeira e me sentei no chão, cruzando as pernas e levando as mãos aos joelhos, como um cavalheiro na hora do chá. Ele ignorou minha atitude.

- Estou ouvindo, Mana.

- Primeiro, que estupidez foi essa de vir até aqui?

Dei de ombros.

- Achei que você soubesse.

O lolita ficou meio sem jeito.

- Então falava sério quando...?

- O quê? Quando disse que estava louco por você? É, eu falava sério.

- Monsieur Kami, eu...

- Ah, sinto muito, acabou seu tempo! — Levantei-me, injuriado. — Como policial, eu vou fazer as perguntas! — Me senti tão importante dizendo aquilo... — Eu até lhe ofereceria uma cadeira mas, como pode ver, não temos cadeiras aqui!

- Monsieur...

- Primeira pergunta: por que demorou tanto a falar comigo na Ordem?

- Mas eu não-

- Segunda pergunta: por que mentiu pra mim?

- Eu não queria-

- E terceira pergunta! — ah, como eu estava adorando mandar na situação! Ser policial não era tão ruim assim, hn. — Por que traiu a galinha ali? — apontei para Közi.

- Pra salvar sua vida! — a frase saiu de uma vez só.

- Quarta perg... como é que é?

O pequeno começou a chorar de novo.

- Közi sabia que você viria, e, e... e jurou que o mataria assim que colocasse os pés aqui...! Implorei o quanto pude, mas ele não fazia nada além de rir!

- Se em vez de ser estelionatário tivesse tentado um emprego no circo, acho que teria se dado bem...

- Não faça gracinhas, monsieur Kami!

- Você me apontou uma arma!

Envergonhado, o lolita abaixou a manga do braço direito, exibindo uma pequena parcela da lividez que eu tanto desejava. Ali, sobressaíam-se algumas manchas arroxeadas.

- Ele também te obrigou a isso?

Ele balançou a cabeça em afirmativa. O sangue me ferveu nas veias, onde mais aquele animal teria tocado? Me passou um flashback pela mente.

"Essa bala não é pra você, Kami"

Era para Közi. O tempo todo, aquela bala estava destinada a Közi!

- Mas Mana... você... ele... — passei os dedos pelos lábios, contrariado. O verbo não saía. Lembrar daquela cena ainda me nauseava.

- Eu o beijei, mas o fiz para que Közi acreditasse que eu estava rendido ao acordo!

- A...cordo?

- Sim, um acordo. Jurei a Közi que faria o que ele quisesse, contanto que o deixasse partir com vida... ele me deu sua palavra... eu só precisava obedecê-lo, e você poderia ir... mas quando ele engatilhou a arma, vi que não estava mais cumprindo o que me prometera e, e... pretendia atirar nele quando pudesse! Mas o senhor tinha de avançar contra ele, e os dois tinham que começar a se espancar feito dois animais!

Ah, que ótimo. Eu tinha estragado os planos de uma prostituta. Meu histórico estava muito bonito, huh?

- Mana, você... estava se sacrificando... por mim?

Ele abaixou a cabeça, enquanto o choro só aumentava. Levei a mão direita ao queixo dele, levantando-o com delicadeza.

- Olhe para mim.

A pele branca do pequeno enrubesceu violentamente quando nossos olhares se encontraram. Sorrindo, o puxei para junto de meu peito, envolvendo-o num abraço protetor. Ele estava frio, trêmulo, e seu coração batia tão depressa...

- Quando eu disse que te odiava... bem, espero que não tenha levado a sério. Obrigado, Mana.

O lolita se agarrou ao meu corpo, depositando em meu peito suas lágrimas de culpa. Eu acariciava-lhe os cabelos, estava tão fora de mim que, se o mundo acabasse naquele mesmo instante, eu nem perceberia.

- Shh... já acabou... meu querido.

Os soluços dele pararam. Puta merda, eu não tinha dito aquilo!

- Mana, eu...

Não pude terminar. Quando me dei conta, os lábios azuis do pequeno estavam unidos aos meus. Frios, ainda trêmulos, desesperados por carinho. Dei início a um beijo singelo, mas apaixonado, explorando com calma aquela cavidade úmida e macia que tantas vezes invadira meus sonhos; procurando a língua de Mana, dominando-a como há muito eu desejava.

Não sei dizer quanto tempo passou, mas fiquei revoltado quando ele parou de me beijar.

- Hn, monsieur Kami... — ele olhou de relance para Közi. — O que faremos com ele?

- O quê, esse cara ainda está aí?

- Err... ele está morto.

- Aaah! Verdade!

Mana riu. Naquele momento, prometi a mim mesmo que ele jamais choraria outra vez.

Os outros policiais não demoraram muito a chegar. Ainda bem, as moscas já estavam começando a fazer a festa no cadáver. Não gosto muito de moscas, além de dividir a sala do chefe com elas eu ainda era obrigado a vigiar minhas garrafas de café o tempo todo para que nenhuma dessas intrometidas entrasse e contaminasse o líquido da vida. Mas esqueçamos o café. Prestado o depoimeto de Mana e esclarecida a história, estávamos todos prontos para voltar para casa quando me lembrei de algo.

- Mana?

- Hn?

- Ainda há algo que eu preciso saber.

- O que seria?

- Mana, quando esteve na minha casa, você... você disse que recusou o dinheiro de Közi, mesmo precisando muito dele. Seja sincero comigo mais uma vez. Por que se prostituía?

- Vamos até minha casa e você entenderá.

Ir até a casa de Mana? Puta merda.

Era uma casa pequena, mas muito bonita e pintada em azul, rodeada por uma pequena cerca de madeira branca. A organização do lado de dentro me deixou embasbacado, os móveis na sala eram quase todos brancos e as cortinas também, com belos detalhes em azul nas paredes. Era literalmente a cara do meu lolita. Eu estava encantado com tantas coisas azuis e brancas ao meu redor, vendo Mana em toda a parte quando a voz do mesmo me tirou de meus devaneios.

- Klaha, chérie! Venha cá!

Quem ou o que era Klaha?

- Klaha?

- Estou indo, Mana-chan! — respondeu uma voz de criança. Logo, um garotinho aparentando uns 6 anos de idade surgiu no corredor e saltou nos braços do lolita. — Aqui, aqui!

O menino tinha cabelos negros e lisos, e olhos muito azuis num rostinho tão pálido quanto o de Mana.

- Err, Mana... quem é esse? — perguntei, coçando a cabeça.

Ele acariciava o rosto do pirralho. Fiquei com ciúmes.

- Klaha, mon amour, este é o monsieur Kami, um policial.

- Um policial de verdade?

- Oui, de verdade. Quero que agradeça a ele por ter salvado minha vida.

- Você salvou a vida do Nii-Sama? — repetiu o garotinho, admirado e estendendo os braços na minha direção. Sem saber o que fazer, o peguei no colo e recebi um abraço. — Merci! Merci, monsieur Kami!

- Nii... Sama? — eu estava zonzo. Olhei para Mana, que apenas sorriu e assentiu com a cabeça.

- Não se pode criar um irmão mais novo sem condições para isso, certo, monsieur? Klaha é tudo o que eu tenho.

- Pare de me chamar de monsieur. É muita formalidade para alguém que pretende levá-lo ao altar — resmunguei.

- Altar é aquele lugar na igreja, não é, monsieur Kami?

- Sim, Klaha — respondi, colocando-o no chão.

- Então quer dizer que você vai casar com o Nii?

Olhei para Mana, sorrindo do meu modo desajeitado.

- Se ele quiser...

Para meu espanto, Mana cerrou os punhos. Mordeu os lábios com certa violência e no mesmo instante algumas lágrimas escaparam dos orbes azuis.

- Você fez o Mana-chan chorar! Idiot! Não vai casar com ele não! — Klaha, revoltado, socava minhas coxas com as duas mãos.

- Não bata nele, pequeno... — pediu o lolita, se recompondo. — Mana-chan está chorando porque está muito feliz...!

- Está?

Um sorriso iluminou a face molhada do lolita. Era sem dúvida a coisa mais linda do mundo... e finalmente eu podia chamar de minha.

- Está sim, chérie.

- Aaaah, se for assim, então eu deixo! — sorridente, o garoto segurou minha mão direita e a juntou com a mão esquerda do irmão mais velho. — Podem casar agora, eu vou lá dentro vestir uma roupa bonita e já venho!

Assim que o menino sumiu no corredor, eu e Mana começamos a rir. Rimos tanto que logo eu estava caído no sofá, com Mana por cima de mim... um encontro de olhares bastou para que começássemos a nos beijar ardentemente, parando apenas quando ouvimos a voz de Klaha na porta do corredor:

- Quando acabarem de se beijar, podem dizer se eu fico bonitinho de azul?

Olhamos para o pequeno, numa roupinha aristocrática azul marinho e arrastando uma gravata que parecia ser o dobro dele.

- Très formidable, mon amour! — Mana riu mais uma vez. — Venha, junte-se a nós!

- Não vão me beijar, vão? — perguntou ele, fazendo carinha de nojo.

- Não, Klaha — eu também estava me matando de rir.

Klaha pulou no sofá. Eu não conseguia caber em mim de tanta felicidade. Não éramos a família mais comum do mundo, mas, mesmo assim, éramos uma família.

- Kami, chérie, você ainda está escrevendo? Desça e venha jantar!

- Já estou indo, Mana. Já estou indo.

"E assim, meu amigo, termina minha grande aventura. Ou nem tão grande assim. Agora, se me dá licença, preciso acompanhar meu lolita no jantar... e depois na sobremesa, se é que me entende. E, se acabarmos depressa, vou dormir cedo. Não é muito certo que o novo chefe da Ordem Policial de Londres fique chegando atrasado, sabe...?"

Notas finais
Klaha, gayzinho do futuro. *-* qq
Nah, acabou, gente. Kami, não me mate. )': <3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!