Secret Longing
2 Dois.
Dois.
A tarde ia chegando ao fim quando cheguei ao local do crime, atrasado, como de costume.
O corpo estava abandonado de qualquer jeito no meio-fio. As roupas caras totalmente manchadas de sangue. Nenhuma jóia havia sido roubada. O rosto estava desfigurado. Embora fosse a nona ou décima vez que eu tinha de encarar uma coisa daquelas, err... meu estômago não conseguiu segurar o almoço. Matar as vadiazinhas podia até não ser suficiente, mas o meliante ainda tinha mesmo que apagar a cara das malditas? Filho da puta!
E eu ali, obviamente virado para o outro lado enquanto o corpo era ensacado, pensando em qual cemitério a largaria. Está vendo? Eu tinha que fazer tudo! A cada vez que recebia um telefonema do chefe, já esperava que ele me pedisse para providenciar um velório, contatar os parentes da vítima e levar uma coroa de flores para o funeral.
Esquecendo-se desses probleminhas, voltemos a falar do lolita. Não preciso comentar o quão aliviado fiquei por não ser dele o corpo da semana, hn? Claro, claro, deveria ser impossível de se descobrir, afinal todas as prostitutas mortas tinham corpo parecido, roupas parecidas, e estava todas sem rosto, num jogo nada divertido de "quem é quem". Mas quem ama sempre sabe...
Eu não disse isso. Esqueça. Apague da memória, já. Ou te aponto uma arma.
E vale lembrar que Mana não tinha... err... seios.
Bom, como já lhe disse antes, eu passaria noites e mais noites preso na sala do chefe tentando descobrir como dar um fim no caso (uma vez que não fazia a mínima ideia de como havia tido início). Não foi diferente daquela vez, por isso, sinto muito em não estender a conversa. Você não precisa saber quantas garrafas de café eu esvaziei naquela noite, e sim que todo meu trabalho foi frustrante. Milhares de anotações, fotos absurdamente nojentas de prostitutas sem rosto, nenhum sentido, nenhuma pista. Eu não via a hora de poder sair dali, parar de encarar aquelas cortinas ridículas e dar olá à esplêndida (sinta a ironia) Gardenia Avenue — e ao elemento responsável por acrescentar à ela a beleza que nunca teve. E que jamais teria, se não existisse Mana.
Gardenia Avenue não era o melhor do mundo lugar para se morar. Ou poderia até ser, se você for algum bêbado sem família, um mendigo acostumado com a sujeira, ou quem sabe um rato ou barata. Além da péssima iluminação, as casas ricas de pedras escuras, de onde raramente pessoas saíam à rua, só deixavam o ar mais carregado do que já era normalmente. As lixeiras sempre destampadas eram elemento de discórdia entre cães e gatos sarnentos que nada mais faziam além de se matar por toda e qualquer coisa comestível. Entretanto, era na meia-noite daquele lugar horrível que Mana marcava presença, então algumas horas inalando cheiro de urina de cachorro para vê-lo era um sacrifício pequeno a se pagar. Meio triste ter que lhe contar isso, mas infelizmente não tenho nada melhor a fazer e, se você está lendo meus relatos, ah, meu amigo! Confesse que está na mesma!
Aquela madrugada foi única. O momento que carinhosamente chamo de "Início do Caos". Antes que formule algum comentário idiota, é, eu não achei nome melhor, sou policial, não poeta! Bom, vamos direto à parte que interessa. Depois que o beco foi invadido por uma porrada de bêbados, não haviam muitos esconderijos disponíveis. Tive de me arranjar dentro de uma das lixeiras, totalmente desconfortável e dividindo meu espaço com caixas de cigarro e cascas de banana. Parecem coisas pequenas, não? Se visse a quantidade...
O relógio apontava 11h57min. Apenas três minutos me separavam de Mana. Três... dois... um... e enfim, meia-noite. Um sorriso se abriu imediatamente em meus lábios, já podia ouvir os saltos se aproximando e ver o pequeno parado junto ao poste. Era só minha mente que me enganava. O ponteiro correu até 12h30min, ainda não havia sinal de Mana.
Mil pensamentos começaram a me rondar. Onde estaria Mana? Teria trocado de ponto? Será que havia se escondido até a poeira baixar? Eu estava ficando nervoso, o corpo dormente pela posição incômoda e o coração oscilando entre o ruim e o pior ainda a cada minuto que passava — mas permaneceria ali até que Mana aparecesse. Uma hora, duas horas, e assim sucessivamente, até os primeiros raios de sol darem sinal de vida no horizonte. Saí da lixeira e fiquei parado junto a ela por mais alguns minutos, esperançoso de que ele ainda viesse. Foi tempo suficiente para que um cão atrevido urinasse em minhas calças. Segui meu caminho derrotado, tentando ser otimista e pensando que fora apenas um contratempo: na próxima noite, ele com certeza estaria ali. Cheguei em casa às cinco da manhã, caindo no sono depressa, sem me importar com o fato de que teria de levantar em duas horas. Err, por ironia do destino fui tirado da cama às seis quando o telefone — maldito aparelho! — começou a tocar. Me arrastei até a sala, dedicando a meu pai as diversas caretas de desaprovação que fiz até pôr a mão no telefone.
- Pois não? — atendi com o ânimo mais falso do mundo.
- ...
Assustado, deixei o telefone cair. Haviam achado uma prostituta morta na Gardenia Avenue.
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