Secret
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Estou numa das praças de Doce Horizonte. Havia sol e brisa agradável naquela tarde de outono e eu estava sentada num dos bancos, observando com ternura as crianças brincando ao redor do chafariz que jorrava água com toda sua força. Subitamente, sinto duas mãozinhas frágeis taparem meus olhos. Instantaneamente, começo a sorrir.
— É você, minha pequena?
— Simpiririm!
Me levanto e vejo Dulce Maria sorrindo. Seu pai vinha um pouco mais atrás. Ele pega Dulce nos braços e vem em minha direção com um olhar afetuoso.
— Demoramos? — Ele questiona.
Minha resposta é franca.
— O suficiente pra morrer de saudade.
Vejo uma pontada de culpa nos olhos da minha carinha de anjo.
— Desculpa Ceci. É que tinha muita gente na fila e eu queria pipoca.
Fecho a expressão, fingindo estar triste.
— Só com uma condição.
A menina olha para mim e em seguida, para o pai, que parecia se divertir com minha travessura.
— Qual?
— Que você me dê um abraço de urso!
Dulce praticamente salta do colo do pai e se aninha em meus braços, gargalhando. Gustavo nos abraça e em seguida, beija minha testa. Nossos olhares se encontram, e um sorriso genuíno brota em nossos rostos, cada vez mais próximos...
— IRMÃ CECÍLIA! O QUE ESTÁ ACONTECENDO? PORQUE AINDA NÃO ESTÁ NA SALA DE AULA?
E assim, meu sonho é destruído pelos gritos da Madre Superiora. Olho assustada para o despertador no criado mudo. Estou meia-hora atrasada. As meninas do segundo ano devem estar em plena algazarra na sala de aula neste momento.
— ME PERDOE MADRE, JÁ ESTOU INDO!
[...]
Nunca pensei em outra vocação para a vida que não fosse a religiosa. Criada num orfanato de freiras, eu conhecia com maestria aquele universo e me sinto realizada em continuar fazendo parte dele, dedicando minha vida e tempo a servir ao próximo. Amo lecionar para as alunas do Colégio Doce Horizonte, e minha contraprestação é o amor das minhas meninas. Sempre fui extremamente feliz e convicta em relação ao celibato.
Até conhecer Gustavo Lários.
Ao encontrar o pai de Dulce Maria na sala da Madre Superiora, me vi em uma espécie de encantamento que até então eu desconhecia. "Você é uma noviça, Cecília", eu me certificava disso diariamente desde então.
— Irmã Cecília... Irmã Cecília!
Sou despertada de meus devaneios, desta vez, em plena aula. Isso é grave.
— Sim, Frida, alguma dúvida?
[...]
Ao tocar o sinal, nos certificando do fim da aula, me despedi das alunas e corri de volta ao meu quarto. Essa situação não pode permanecer assim. Preciso fazer alguma coisa, mas o quê? Me vem a ideia da confissão. Seria excelente, exceto pelo fato do sacerdote ser irmão de sangue do motivo de meu tormento. Sinto-me suja, indigna de usar este hábito. Começo a chorar.
— Deus, o que eu faço? O Padre Gabriel disse que não é pecado querer casar e ter uma família, mas porquê essa sonho, essa angústia...
Fico em um silêncio mortal. Meu coração começa a saltar dentro do peito.
— Espere... Será que quero me casar? O que sinto, afinal, por esse homem? Só posso estar confundindo as coisas. Meu amor pela Dulce é incondicional, mas não posso e não serei mãe dela. E a Nicole... Meu Deus, que mulher terrível. Minha princesa não merece tê-la como madrasta. E quando a vejo com o Gustavo... O coração arde e sou tomada de um sentimento nem um pouco divinal.
Vou enlouquecer.
Dou um salto da cadeira, largo meus materiais e saio em disparada do meu quarto. Sei quem vai poder me explicar o que estou sentindo, sem me atormentar ainda mais. Bato com força na porta, sem resposta. Graças a Deus, quem encontro me saúda com um sorriso acolhedor, vindo da horta do colégio.
— Ceci, você por aqui? Pode entrar.
— Preciso de ajuda, Diana.
As feições da morena se tensionam.
— O que houve? Alguma coisa com a Madre, o Inácio saiu com os meninos, eu estou sozinha preparando a aula de amanhã e...
Sinto o suor escorrer de minhas mãos. Se não a interromper, vou perder a pouca coragem que me resta. Peço a Deus que ela me entenda e principalmente, não me condene.
— Como eu sei se estou apaixonada por alguém?
The end.
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