Sebastian Smythe
9 O fator Sinatra
Notas iniciais

Três semanas seguinte ao término com Andrew tive que me habituar com a falta dele. Apesar de ainda nos vermos tarde sim e tarde não nos treinos de Lacrosse, nós mantínhamos um diálogo curto e objetivo.
Sinto falta da amizade e companhia dele, isso é verdade, mas nos afastarmos um do outro foi uma coisa boa. Quero dizer, agora eu posso me concentrar no que é realmente importante e sem ter que lidar com distrações. Era isso que Andrew era para mim. Distração.
Após um dia particularmente exaustivo na Academia Dalton, sigo pelo estacionamento até meu carro, abro a porta jogando a mochila no banco do passageiro e me largo no banco do motorista. Respiro fundo pela boca e solto o ar pesadamente de forma audível. O dia não tinha sido nada fácil principalmente no coral.
Afrouxo a gravata e desabotôo o primeiro botão da camisa. Reviro o bolso da calça em busca do meu celular. Olho minha lista de contatos repleta de nomes. Não tenho ninguém para que possa ligar e desabafar. Jogo meu celular em cima da mochila no banco do passageiro. Enfio minhas mãos em meu rosto o esfregando. Respiro fundo.
Dou a partida no carro.
••••
Entro no The Lima Bean sigo para o balcão vazio e peço o de sempre, café grande com uma dose de conhaque, pego meu pedido e sento em uma mesa livre no fundo do café.
Espio meu celular para ver se há alguma nova mensagem ou ligação perdida. Não há nada.
Estava na metade de meu quarto café quando olho para a outra extremidade do estabelecimento.
“Não pode ser.”
“Bom... acredite, pois é!”
Blaine e Kurt estão sentados em uma das mesas tendo o que parece uma conversa muito entediante. Não me seguro e ando até eles.
Kurt está com sua atenção voltada para um caderno, provavelmente desenhando unicórnios que peidam arco-íris, enquanto Blaine fala em tom de frustração com ele.
– Oi meninos. – digo com um largo sorriso em meus lábios me aproximando da mesa deles.
Blaine e Kurt me olham ao mesmo tempo. Blaine abre um largo sorriso como sempre fazia quando me vê Kurt, porém revirou os olhos. Puxo uma cadeira para me sentar ao lado de Blaine. Continuo:
–Nossa que doido. Eu estava sentado logo ali – digo apontando para o lado oposto do café. – de olho nesse cara aqui e derrepente eu penso “peraí eu acho que conheço aquele cabelo.” – aponto para Blaine que fica levemente ruborizado. Dou uma olhada rápida para Kurt que parece estar incomodado com a minha presença ali. Voltou minha atenção para Blaine — E aí querido, não te achei on-line.
– Ah... — Blaine encara o próprio copo de café em suas mãos.
– Oi Kurt – digo olhando rapidamente Kurt para cumprimentá-lo por obrigação.
– A gente ta bem ocupado com o clube glee. – Blaine explica.
– Ensaiando para as distritais. – Kurt se mete na conversa e segura a mão que Blaine deixara em cima da mesa. — Juntos.
Blaine sorri carinhosamente para Kurt e toma um gole de seu café.
– Uh. – Blaine disse num sobressalto engolindo seu café. – Parabéns pela vitória dos Warblers nas suas distritais. É nossa vez essa semana.
Ele disse a ultima frase olhando Kurt em tom de cumplicidade.
– É?! – digo em com falso entusiasmo. – Olha se tem alguém que pode transformar o Novas Direções em uma ameaça legítima é o Blaine Anderson, certo?
Digo ainda sorrindo para ele. Mas Blaine voltara a encarar seu copo de café.
– É isso aí. Preciso de mais café. – Blaine se levanta deixando apenas Kurt e eu na mesa.
Olho para a bunda de Blaine ao passar por mim sem me importar em disfarçar. Kurt vê.
Um breve momento de silêncio se faz entre mim e Kurt até que ele diz:
– Eu não gosto de você.
Olho em um tom de diversão em meu olhar para Kurt.
– Divertido. – coloco preguiçosamente meu copo de café em cima da mesa e rebato tranquilamente. – Eu também não gosto de você.
Kurt não se deixa abalar. Continuar falando como se eu não tivesse dito nada.
– Eu não gosto de como você fala com o meu namorado, – cruzo meus braços me divertindo enquanto ele fazia o discurso. – não gosto dessa tua carinha de suricate, nem desse teu cabelinho ridículo de galã. Eu to de olho em você.
Aquilo tudo era muito deliciosamente divertido para mim.
Me alinho na cadeira. Era minha vez de falar.
– Vamos esclarecer algumas coisas. – o encaro fixamente. – O Blaine é bom demais para você, o Novas Direções é uma piada e um de nós tem a má sorte de ter a cara de gay. E não sou eu. – Kurt me fitava com a expressão afetada. – As chances são que: no fim do ano escolar eu tenha o Blaine e o troféu das nacionais e você use calça caqui com avental e essa carinha de gay.
Nós continuamos a nos encarar.
– Fofo. – Kurt diz. – Você cheira a jornal velho.
– Estavam falando de que? – Blaine se volta para a mesa.
Kurt volta a relaxar e eu também.
– Ora, da próxima vez que vamos sair pra beber, Killer. – digo todo sorridente para ele.
– Ah... – Kurt olha de mim para Blaine.
– Bem, eu tenho que correr. – digo sem esperar qualquer resposta. –Mas você toma conta desse Warbler em Kurt.
Dou uma piscada para Kurt que sorri falsamente para mim. Me levanto e saio do café.
••••
Era crepúsculo quando cheguei em casa. A casa estava repleta de um silêncio ensurdecedor.
Subo as escadas até meu quarto.
Jogo a mochila na cadeira da escrivaninha. Tiro meus sapatos o blazer e a afrouxo mais a gravata.
Me jogo na cama.
“Ah! Era disso o que eu precisava.”
Pego o pequeno controle remoto que repousa sob o criado mudo. Ligo o home theater com ele. O ipod conectado a ele dá início a seleção de música de onde havia parado. Elvin Bishop encheu o quarto com a sua voz triste cantando sobre “Fooled around and fell in love”.
Cantarolo a música com Elvin de olhos fechados.
Sinto o celular em meu bolso vibrar.
Enfio a mão no bolso e olho a tela dele que diz: “Oi. Desculpe por hj no café.”
Passo o dedo pela tela para ver toda a mensagem. A mensagem é de Blaine Anderson.
“Oi. :D
Como assim?” – Respondo
“Não nos falamos muito.” – Blaine responde.
“Ah. Isso. :P
Tudo bem achei q fosse seu comportamento normal” – rebato.
“???” – Blaine responde.
“ Estou brincando.
Foi por causa do Kurt, certo?” – vou direto ao ponto.
“Não...não tem nada a ver.” – Blaine responde.
“Não precisa mentir para não ferir meus sentimentos, Blaine.” – envio.
“Ah... é ele não é o seu maior fã.”
Não seguro minha risada.
“Eu entendo que ele possa não gostar de mim. Talvez ele me encare como uma ameaça. Mas, sabe, se você fosse meu namorado qualquer cara que se aproximasse eu também me sentiria inseguro. Ainda mais que nós dois temos tanta coisa em comum.” – provoco.
Blaine não responde.
“Mas ainda somos amigos?” – insisto.
“Claro que somos.” – Blaine responde de imediato.
“Legal.” – digo.
“Legal.” – ele responde.
Damos uma pausa.
“Ta ocupado agora?” – pergunto.
“Não. E você?” – Blaine diz.
“Também. :)” – respondo.
“O que ta fazendo?” – ele pergunta.
“Deitado, ouvindo música. E você?” – pergunto.
“Também. O.O” – Blaine responde.
“Esquisito. O.O” – o respondo.
Na verdade isso não é nada esquisito.
“É.” – ele concorda.
“É.” – complemento.
Fazemos mais uma pausa.
“O que está ouvindo?” – agora sou eu quem puxa assunto.
“Man in the Mirror” – ele responde.
“Michael?”
“Michael!”
Silêncio.
“E você?” – Blaine pergunta.
“Can’t Stop – OneRepublic.” – respondo.
“Acho que não conheço.” – ele diz.
“Ta brincando?” – pergunto.
“Ah... sério.” – Blaine diz.
“Cara eu vou te emprestar o cd pra você ouvir eles. São brilhantes.” – respondo.
Envio um emoticon bizarro do whatsapp.
“Que isso?” – ele pergunta
“Emoticons inúteis.”
Ele envia outro para mim. Envio o nariz de porco para ele.
“kkkk”
Ficamos nisso até não ter mais emoticons ruins.
“A gente precisa conversar mais pelo skype. Meus dedos estão doendo de tanto digitar.” – escrevo para ele.
“Ah... você quer parar?” – ele pergunta.
“QUE? TÁ BRINCANDO? Nem pensar! To disse que seria melhor a gente falar do que digitar.” – respondo.
“Ah. Haha” – ele responde.
Levanto da cama para pegar o macbook. Enquanto espero ligar, ajeito meu cabelo no espelho. Tiro a gravata, camisa e calça. Fico apenas com a cueca boxer. Conecto o skype. Pego o computador e levo pra cama.
Deito com as costas apoiada na cabeceira da cama, o notebook apoiado na virilha e barriga. Faço uma chamada de vídeo para Blaine. Ele atende no terceiro toque.
– Oi! – digo todo sorridente.
– Oi – ele desvia o olhar percebendo a minha falta de camisa.
Olho para o meu tórax percebendo o desconforto dele.
–Ah... me desculpe. Eu não costumo usar roupa na cama eu me sinto sufocado se usar, eu deveria ter te avisado. – volto a olhar para ele. – Se isso te incomodar eu posso colocar uma camisa.
Blaine estava incrivelmente ruborizado e envergonhado.
– Ah... não... tu...tudo bem. – ele se concentra em olhar para o meu rosto, mas desvia o olhar para baixo do meu pescoço algumas vezes.
Dou um largo sorriso para ele.
– Eu queria te pedir um grande favor, mas sinta-se livre para dizer não. – digo.
– Cla..claro. Pode falar.
“O meu rosto fica mais pra cima, Blaine. Isso, aí mesmo.”
– Então, eu tô tentando conseguir um posto melhor dentro dos Warblers e – “Psiu. Blaine. Volta aqui pro meu rosto.” – ninguém melhor do que você para saber do que aqueles caras gostam.
– Você pode ficar sem camisa na frente deles. – Blaine sussurra.
– Oi? – levanto as sobrancelhas
– Oi? – Blaine me olha espantado. Blaine fica vermelho. – Você pode pedir uma audiência com eles e cantar músicas infalíveis.
– É eu tava pensando em alguma coisa desse tipo. – digo. – Mas qual músicas? É por isso que estou pedindo sua ajuda. Se você tiver um tempo... sabe?
Blaine mal piscava.
– Sim. O quê? – ele finalmente pisca confuso. – Claro! Sim. Sim, eu posso fazer uma lista.
Dei um sorriso sincero para ele. Ele retribuiu.
“ Ele é fofo.”
“Quando você diz fofo, você quer dizer: Ele deve foder gostoso.”
“Não.”
“Não?”
“Tá. Mas não dessa vez. O Blaine é fofo. Isso é tudo.”
– Sebastian? – Blaine me chama.
– Oi? – digo voltando pra realidade.
– Nada você ficou aí parado com uma cara de predador. – ele ri
– Ah. Desculpa. – eu ri.
“Vê se disfarça”
Conversamos mais uma hora até o cansaço fazer a gente desistir.
••••
Na manhã seguinte, por volta do horário do almoço, recebi um e-mail de Blaine com apenas duas palavras que fariam o conselho dos Warblers caírem nos meus encantos. Leio a lista com muita atenção.
“Te devo uma Anderson.”
O conteúdo do e-mail era simplesmente: Frank Sinatra.
Como eu não percebi isso? Os Warblers amam clássicos e o que é mais clássico do o Sinatra? Ele representa toda a história dessa nação. Como diabos não pensei nisso?
Abandono a escola a fim de escolher as melhores musicas de Frank Sinatra para a minha apresentação triunfante.
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