Conforme o corcel galopava a toda velocidade, o homem guiando a carruagem sentia as gotas de chuva atingirem-lhe a face como se açoitassem incessantemente sua pele. Mesmo assim, insistia em ignorá-las, da mesma forma que ignorava o desconforto causado pelo sacolejo das rodas em constante atrito como o solo escarpado e o sórdido cheiro de estrume que exalava tanto do animal quanto de seu próprio corpo; da água escorrida por suas costas e misturadas a seu próprio suor.

Nada disso, realmente, importava naquele momento. Sua única preocupação era com sua carga. Apesar de essa estar segura e devidamente atada aos cintos do coche, sua fragilidade intrínseca não deixava a mente do homem.

Já conseguia avistar seu destino. As cordilheiras Norte e Sul se convergiam em uma única montanha que se sobressaia em porte e grandiosidade. As nuvens cinzentas cobriam o pico, que desaparecia em meio aos raios e à bruma. O rochedo, que ainda há pouco parecia eterno, agora podia ser deslumbrado quase por inteiro. Os trovões que dali ecoavam eram capazes da acovardar até os mais corajosos, mas ele não pararia.

Mais uma vez, atiçou o cavalo por mais velocidade, que, em completa exaustão, atendeu as ordens do mestre. Finalmente saiu do bosque que cercava a estrada, dando espaço a pequena clareira que precedia a montanha. Parou o coche e atou o animal sob algumas árvores de copa densa.

Abriu o coche e, assim que a viu, pensou no quão inescrupuloso e egoísta estava sendo. Dentro, atada aos assentos, uma menina que ainda aparentava sua primeira infância, dormia zelosamente como se aquela viagem tortuosa não passasse de um passeio. Trocou a capa encharcada por outra que trouxera dentro da carruagem e carregando a criança envolvida numa manta, correu pela chuva em direção a montanha. O que antes parecia um paredão único e contínuo mostrou-se na verdade um emparelhamento de vários segmentos de rochas lascadas que guiava para o interior da montanha. Nela, túneis haviam sido minerados de maneira estratégica para confundir qualquer visita indesejada, para que nunca mais visse a luz do sol. Mas ele sabia o caminho.

Acendeu uma tocha que jazia na parede e após alguns minutos dobrando incontáveis passagens — onde qualquer intruso desprovido de apreço pela vida morreria sem encontrar a saída — o homem deparou-se com uma porta imensa com detalhes esculpidos na pedra cinzenta. Com ambas as mãos ocupadas, usou a força do próprio corpo para abri-la com os ombros, provocando um rangido estrondoso.

Ao atravessar a porta, um corredor longo e escuro lhe invadiu a visão. O chão era suspenso, sustentado por pilastras esculpidas na própria pedra que desciam por um fosso, do qual apenas ouvia-se o som de água correndo desenfreada. Estalactites desciam pelas laterais da câmara, esculpidas como grandes répteis que, retorcendo-se, as envolviam. O homem prestou seus respeitos a quem quer que tivessem sido os loucos desbravados que realizaram todo esse trabalho. Mas seguiu em frente. Tinha um trabalho a realizar ali, não podia vacilar agora.

No final do corredor, uma porta igual a anterior mais uma vez o barrava, e da mesma forma penosa ele a abriu, sem nunca largar da criança. A visão que invadiu seus olhos era no mínimo impressionante. A porta dava passagem para uma espécie de sacada, com vista para um imenso vale que se fechava em um círculo de montanhas.

Relâmpagos iluminavam a noite profunda que se instaurava no vale, possibilitando visualizar algumas árvores e um rio que corria abaixo do terraço para além da montanha. O vento e a chuva incessantes atrapalhavam sua visão, mas aqueles poucos segundos foram suficientes para que o avistasse.

As asas gigantes se manifestaram como um sombra que devorava tudo em seu entorno, e mesmo à distância era possível sentir o calor emanando por entre as escamas avermelhadas de seu torso. Os olhos amarelos, agora iluminados pelo fogo contido entre os dentes da besta, expressavam a mais profunda amargura e rancor, porém foi possível identificar também aquilo que parecia uma centelha de curiosidade. O dragão então, com uma imponência assustadora, recolheu suas asas e assentou-se no firmamento em frente ao homem. Sua voz então rasga o ar como um trovão:

— O que quer aqui?

— Baélfyr, o magnânimo! Venho de longe em busca da vossa ajuda. — disse ele mantendo o respeito que a criatura demandava, apertando mais a pequena adormecida contra seu peito. O dragão se aproxima num movimento brusco e, em uma baforada, — apaga a tocha em meio a sua resposta.

— Sei muito bem de onde veio e o que o traz aqui. Já digo que não posso nem quero ajudá-lo. Meus pesares. — Mesmo com sua toda raiva, o dragão ainda guardava sinceridade em suas palavras.

— Como soube? — disse o homem após um longo silencio.
— Palavras são fluidas, e viajam com o vento. Era uma questão de tempo até que a história chegasse a mim. — Respondeu em meio a faíscas — Então a rainha está morta. E com ela morre a última chama de meu apreço para com essas terras. Agora vá, antes que sua petulância esgote minha paciência.

— Não! — gritou num ato de desespero, largando a tocha ali mesmo e se atando ainda mais a garota, deixando-se iluminar apenas pelo brilho ardendo dos olhos de um dragão furioso. — Você precisa me escutar. Se não o fizer pelo reino, faça em memória dela. — Olhou para seus braços onde a criança ainda dormia.

Baélfyr em cumplicidade estendeu as asas de maneira a cobrir ambos da tempestade que os rondava.

— Já tem um mês que essa febre incessante aflige a princesa. Deve existir algo que possa ser feito. — Por fim, o homem engolindo por completo seu orgulho e ajoelhando-se, diz — Por favor! Estou implorando! Ajude a criança!

— Você sabe que minha única ligação com a família real acontece por meio da Herança, certo? – Baélfyr respondeu em um suspiro quente — meus poderes se limitam a um vínculo ancestral que se laça diretamente ao espírito da menina. A perturbação que ela enfrenta não vem de seu corpo, porém de sua alma.

A criatura, então, lentamente aproximou uma de suas longas garras do peito da criança. O homem em um reflexo se afastou, impedindo-o, mas por fim permitiu a aproximação de Baélfyr. Quando o dragão tocou seu peito, seus olhos brilhantes e amarelos se fizeram distantes, como se sua consciência não estivesse mais com o homem. Segundos depois a princesa adormecida abriu os olhos em choque. Ela estava em transe, sem dúvidas.

De seus olhos espantados escorriam lágrimas incessantes e sua respiração tornou-se descompassada. Ela estava sofrendo. Sua princesa estava sofrendo e não havia nada que pudesse fazer. “Ela estava passando por aquela noite novamente”.

— Por favor, pare! — ele gritou entredentes, segurando a pequena mão da menina.

— Sinto muito. — disse Baélfyr enquanto afastava sua pata gigante. Após alguns minutos de silêncio o dragão pareceu ter chegado a um veredito. A essa altura a chuva já se acalmara e não passava de uma leve garoa. — Eu posso ajudá-la, mas isso quebrará o vínculo estabelecido milênios atrás... e ela perderá a Herança.

Um calafrio correu por sua espinha quando escutou a última declaração da criatura. “A princesa perdera a Herança? Mas se isso acontecer... Não! Não pode! Haverá atentados!”

Ele baixa os olhos para a jovem em seus braços. Não havia mais lágrimas nem dor, apenas um profundo vazio. Vazio. Serrou os dentes antes de tomar sua decisão.

— Faça! Não importa! A Herança não importa! De nada adiantará se a princesa não sobreviver. — disse frio, tentando não transparecer seu medo — então, Grande Baélfyr, faça o que for necessário. – disse, fazendo uma reverência ao dragão ancião que havia se disposto a ajudá-lo.

— Assim seja. – Declarou. Num movimento rápido se aproximou da jovem, tocando-lhe o peito novamente. Um vento forte soprou em volta da menina. Era possível sentir a energia que os cercara naquele momento. “Então esse é o poder de um Guardião”.

Nesse instante uma luz amarela invadiu os olhos da jovem princesa que aos poucos foram se enchendo de vigor outra vez. Impulsivamente, ela ergueu o peito conforme a magia lhe invadia e se dissipava por suas veias.

E na mesma velocidade com que começou, já havia acabado. A energia ficou cada vez mais fraca e Baélfyr se afastou. Quanto a criança, não tinha mais febre, apenas serenidade. Mais uma vez, dormia, segurada cuidadosamente de homem.

— Está feito. – disse o dragão – ela não deverá se lembrar do incidente nem daqueles que partiram naquele dia.

— Espere... Está dizendo que ela não se lembra nem da própria mãe? Isso é insano! – disse o homem com a criança em seu colo, ficando de pé em um pulo. Baélfyr, que antes observava as escamas de sua longa cauda, o encarou de maneira impassível.

— Alguma objeção? – disse com certo tom de escárnio em sua voz. Sabia que o humano não o contrariaria. – Não acha que a família real já perdeu membros o suficiente? – um relâmpago solitário se fez presento no céu noturno, logo seguido por um trovão seco. – Tudo no mundo possui seu preço. Minha magia não é exceção. Meu conselho é que deixe a condição da jovem em segredo do povo, principalmente nessa época de instabilidade, e instrua os criados e oficiais a mantê-la na ignorância.

Em uma pequena reverência com a cabeça, com a princesa em seus braços, ele seguiu caminho de volta para a entrada da montanha. A chuva não se fazia mais presente e seu cavalo parecia descansado após a longa corrida. Atou a menina novamente ao assento do coche, sem deixar de pensar e repensar nas palavras ditas pelo dragão. “Ela deveria ser mantida no escuro de uma mentira?”

A Alta Câmara nunca seria convencida tão facilmente. Passou a mão pelo rosto delicado da pequena, perdido em seus próprios pensamentos.

“Teria que ser feito”.

Fechou o coche e se pôs a dirigi-lo novamente. A madrugada estava quase em seu auge. Deveria correr para que os médicos não dessem falta da menina pela manhã. E em um impulso, estava a velocidade máxima, instigando o corcel a ir cada vez mais rápido, de volta para a capital.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.